terça-feira, março 07, 2017

Excesso de trabalho e pouco viver


                                "Deve-se ganhar a vida amando-a." Henry David Thoreau

Há algum tempo circulou na imprensa a informação de que o prefeito de São Paulo, João Doria, dorme apenas 3 horas por noite. O empresário assegura que tal ritmo acontece há anos e é o modo que ele encontrou para manter-se produtivo.

As reações foram diversas – de admiração ao trabalhador incansável e também condenação a um ritmo insano que afeta também aos secretários municipais. No geral vi muitos elogios não apenas ao prefeito, mas para aqueles que dormem pouco e dedicam a maior parte do seu tempo para o trabalho. 

Recentemente deparei com a notícia de um publicitário nas Filipinas que morreu devido a complicações de pneumonia e mesmo doente foi trabalhar. A morte deste publicitário trouxe à tona históricos de profissionais que tiveram problemas com o excesso de trabalho – no Japão isso tem até um nome: karoshi.

As pessoas com esse perfil “trabalhador incansável” são admiradas e tomadas como ideal de profissionalismo, ao passo que pessoas com mais tempo livre são rotuladas com termos desagradáveis e até sarcásticos. Isso não é novo: no século XVI o teólogo reformador João Calvino já considerava o trabalho uma benção divina e um propósito de vida, enquanto a ociosidade era algo condenável, uma afronta a Deus. Obviamente não foi Calvino o criador desse sistema que explora a força de trabalho à exaustão (o sentido das ideias calvinistas sobre trabalho e ociosidade possuía outra conotação), mas tal ideia foi muito bem adaptada e usada pela burguesia e chegou aos nossos tempos em que funcionários sentem-se culpados em tirar férias – além da culpa, o medo de perder o emprego ou “perceberem” que as coisas na empresa funcionam bem sem eles.

Cada pessoa tem o seu ritmo produtivo seja para o trabalho, estudos e mesmo para o lazer. O que ocorre é que a imposição de um só ritmo e uniforme para todos gera angústia e frustração. Um dos maiores defensores do conceito do ócio criativo, o italiano Domenico de Masi, afirma: “assim que dispomos de uma hora livre a enchemos de tantos compromissos ou tarefas, que o tempo acaba sempre faltando”. Um artigo da antropóloga Miriam Goldenberg publicado na Folha de São Paulo demonstra bem o que De Masi quis dizer: a colunista apresenta o relato de sua rotina com inúmeras atividades e ela confessa que não consegue “ficar sem fazer nada” – ou fazer coisas consideradas improdutivas, como bater um papo.

Não conseguimos desacelerar e somos tomados de culpa quando não exercemos atividades consideras produtivas. A tecnologia ajuda a elevar tais sensações: com o celular e seus aplicativos para comunicação não há mais distinção entre o tempo livre e trabalho. Diretores de escola que recebem mensagens de coordenadores regionais às 2 da madrugada com algum pedido urgente de relatório ou coisa parecida; executivos que enviam mensagens às 4 da manhã para diretores solicitando documentos ou informações relacionadas à empresa; funcionários que nos feriados estão conectados e atentos aos grupos de trabalho. Tais atitudes, muito apreciadas por alguns, na verdade não são saudáveis para a saúde emocional.

Durante alguns anos eu trabalhei em regime de 60 horas semanais. Quem trabalha na área de Educação sabe o que isso. Reduzi o ritmo de trabalho não apenas porque adoeci, mas também porque entendi que estava abrindo mão de mim mesmo e de pessoas que eram importantes em minha vida. Quebrar ritmos, padrões, reduzir salário e adaptar-se não é tão simples, mas é necessário e vale a pena. Hoje não consigo imaginar minha vida sem pausas maiores para fazer atividades que eu gosto: uma corrida, desenhar, pintar aquarela, leitura, escrever, ouvir música ou simplesmente tirar alguns momentos para devanear à toa. E não carrego sentimento de culpa e improdutividade ao fazer tais coisas. 

Que cada um tenha seu ritmo e sinta-se bem com ele é uma coisa – não vou condenar quem trabalha 16 e até inimagináveis 18 horas por dia, quem sou eu para ditar como as pessoas devem viver suas vidas. Apenas que não queiram impor às outras pessoas os padrões (ou seus padrões) que consideram “tempo maior de trabalho = produtividade”. O equilíbrio faz-se necessário para uma vida saudável e de fato produtiva – e sem culpas. 

Referências: 
De Masi, Domenico. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
Burckhardt, Martin. Pequena história das grandes ideias: como a filosofia inventou nosso mundo. Tinta Negra Bazar Editorial: 2011.
Thoreau, Henry David. A desobediência civil. São Paulo: Penguim Classics Companhia das Letras, 2012. 

12 comentários:

  1. Excelente argumentação, concordo com tudo que disseste.
    Quando fui efetivado nas matérias Língua Portuguesa e Língua Inglesa, tive de pegar 50 aulas semanais, senão perdia o cargo. Outro problema é que, com 50 aula, eu ganhava R$1.600,00 - se eu me efetivasse só em uma matéria, receberia só R$800,00. Fiquei sem voz, e praticamente lecionava apenas escrevendo na lousa e falando pouco.
    Cada post teu é uma verdadeira tese, muito bem pesquisado e redigido.

    =)

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    1. Muito grato, poeta Satoru. E o seu comentário é importantíssimo porque demonstra a precariedade do magistério em relação aos salários e condições de trabalho.

      Grato mais uma vez! =)

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  2. Maravilhoso texto Jaime! Vou trabalhar a revolução industrial e seu texto é muito legal para trabalhar as relações de trabalho na atualidade. Grata por compartilhar.

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    1. Lilica, que bom saber disso! Boa aula e muito grato também por sua contribuição. :)

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  3. Riquíssimas palavras,amor! Excesso de trabalho podendo causa danos psíquicos,físicos e emocionais. E seu processo longo,pode levar a Síndrome de Burnout.O equilíbrio é imprescindível para uma vida saudável.💕💕

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    1. Exatamente, amor, boa lembrança deste terrível problema que é a Síndrome de Burnout. Muito grato, sempre! :) <3 <3

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  4. Excelente texto, Jaime!
    A massificação e imposição de apenas um modo de conduzir as coisas está tornando as pessoas cada vez mais doentes e desmotivadas. O ideal seria um horário de trabalho razoável que não impedisse as pessoas de usufruir lazer, tempo com a família e outras coisas necessárias à saúde física e mental. Temos de reavaliar esta mentalidade de que só valemos algo quando estamos trabalhando, quando estamos em nossos empregos. O emprego formal (ou nem tanto) é uma das muitas parcelas, das muitas facetas de nossas vidas.E nem sempre é necessário trabalhar tanto, ganhar tanto dinheiro se não há tempo livre para aproveitar os frutos de todo este empenho.
    Até mais
    Marina

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    1. Grato, Mari. De fato há algumas reações contra esse sistema e mentalidade que mostra-se insano e desmotivador. Um desses movimentos é conhecido como "slow" (devagar), que prega atividades realizadas em ritmo natural ou mais lento do que os ritmos atuais. Equilibrar é preciso! :)

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  5. Raras são as pessoas que conseguem dormir pouco e ficar bem. As pessoas estão esquecendo de viver para obter êxito no mundo profissional, mas esquecem as consequências disso (físicas, emocionais...). Excelente texto! Até pensei enviar para uma pessoa que tu sabes quem é. Beijinhos...

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    1. Precisamos rever certos conceitos de "produtividade", não é mesmo? Bjks!

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  6. Boa Noite Jaime!

    Eu li essa matéria na revista Veja sobre o Jorge Doria. Recebi também pelo Smartphone. Ele dorme de duas às cinco da manhã. Mais toma uma substância que o faz entrar direto em sono profundo. Daí desperta, novo em folha, para começar outro dia... O Falabella é outro que dizia que não necessitava de dormir, o trabalho exigia muito tempo dele. Hoje em dia eu não sei se ele mudou a rotina. Tudo na vida tem que ter certo equilíbrio se não o corpo não aguenta. A vida é tão curta pra gente brincar com a saúde. Ficar sem dormir não é nada agradável e pode ser muito prejudicial à saúde a ponto de causar danos irreversíveis. Quando a gente dorme pouco, o nível de cortisol, o hormônio do estresse, aumenta e estamos sempre nervoso e irritado. A gente se estressa por qualquer coisa. O trabalho que não rende, por mais que a gente se esforça, parece que não está da forma desejada. Começam aparecer dores de cabeça, oscilações de humor, mudança no apetite e tantos outros males. Sendo assim, em longo prazo, dormir menos que o necessário pode encurtar até o tempo de vida. Segundo pesquisa, quem não dorme perde boa parte da capacidade de avaliar riscos devido à dificuldade de concentração, o que pode ser uma ameaça para quem lida com instrumentos, objetos perigosos, trânsito etc e tal...
    Excelente tua postagem!
    Uma boa semana!
    Um lindo e aconchegante outono, que vocês possam preencher cada minuto desta nova estação com muita alegria, fé e paz!
    Beijos!

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    1. Verdade, Smareis. A longo prazo os efeitos serão sentidos e o organismo irá cobrar de alguma forma. Obrigado, que a estação traga realmente muita alegria e paz para todos nós! Bjs!

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