quinta-feira, janeiro 26, 2017

Os idiotas da aldeia


O escritor italiano Umberto Eco, falecido em 2016, em crítica à internet e principalmente às redes sociais utilizou o termo “idiotas da aldeia” para referir-se ao que ele chamou de “portadores da verdade”, pois estes “têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”.

Há quem pense que o autor de obras como “O nome da Rosa”, "Cemitério em Praga" e “Baudolino” exagerou, pois além de soar como uma crítica elitista, a internet e as redes sociais também deram vozes a muitos excluídos das grandes mídias que têm coisas interessantes para contar - além de quebrar monopólios de grupos que detinham o poder da informação; esse tipo de a crítica de Eco sobre a imbecilidade (que grassa pela internet) pode ser conferida também no bate-papo com Jean-Claude Carrière, publicado sob o título “Não contem com o fim do livro” (2009):

Ser culto não significa necessariamente ser inteligente. Não. Mas hoje todas essas pessoas querem se fazer ouvir e, fatalmente, em certos casos fazem ouvir apenas sua simples burrice. Então digamos que uma burrice de antigamente não se expunha, não se dava a conhecer, ao passo que, em nossos dias, vitupera.”

Ao navegarmos pela internet e redes sociais encontramos perfeitos exemplos do que Eco quis dizer. As caixas de comentários nos portais de notícias estão repletas de pérolas de tamanha imbecilidade que chegam a assustar aos desavisados (ou corajosos) que resolvem ler as “opiniões” sobre determinadas notícias – independentemente dos temas. O criador da Wikipedia, Jimmy Wales, também afirma que estes espaços para comentários são formados “basicamente em idiotas gritando uns com os outros”.

O mais preocupante é que tal imbecilidade é ostentada com orgulho por muita gente que compartilha e ajuda a disseminar tais ideias. Sob a justificativa da “liberdade de expressão” e da “opinião livre”, não é difícil encontrar expressões agressivas que descambam para preconceitos e ofensas publicados todos os dias em diversos ambientes virtuais, promovendo intolerância e incitando a violência. Em 2014 foram recolhidas mais de 86 mil denúncias de racismo e 4,2 mil de homofobia pela internet, segundo a ONG SaferNetBrasil. O chamado "discurso de ódio" é simplista, raso e superficial em análise, o que é bastante atrativo para muita gente. Isso é bastante perigoso, pois estes discursos podem sair da esfera virtual para se transformarem em agressões de fato no "mundo real".  

Isso relaciona-se também com a imensa quantidade de notícias falsas de “autoria desconhecida” circulando pelas redes sociais e aplicativos de mensagens via celular. Não seria tão difícil reconhecer parte considerável dessas informações como falsas: em geral são textos mal escritos que apresentam erros gramaticais gritantes e não possuem fontes consistentes. Sem aprofundamento na leitura, as figuras de linguagem (como a ironia) sequer são percebidas pelo leitor, independente do seu grau de escolaridade. Não à toa que há sites como o e-farsas e o boatos.org que se dedicam a desmascarar as notícias falsas que são rapidamente compartilhadas pelas redes.

Para o jornalista norte-americano Nicholas Carr, autor do livro “A geração superficial – o que a internet está fazendo com os nossos cérebros”, esse tipo de leitura apressada e superficial é preocupante: “A passagem da leitura para a conferida rápida está ocorrendo muito aceleradamente. (...) Não há nada errado com o navegar e o escanear, ou mesmo com a conferida rápida. (...) O que é diferente, e perturbador, é que ler por alto está se tornando o nosso meio dominante de leitura”. Com base apenas na chamada de uma notícia (sites e blogs sabem disso e assim promovem chamadas polêmicas para atrair mais visitantes) os “idiotas da aldeia” travam verdadeiras guerras verbais onde ofensas, acusações e julgamentos são apenas alguns “aperitivos” para aqueles dispostos a acompanhar certos grupos e comentários – isso quando a coisa não termina em tragédia, como o caso da dona de casa que foi espancada até a morte graças aos boatos espalhados nas redes sociais.

Em 2007 o criador do termo “web 2.0” e defensor do software livre, Tim O´Reilly, teve a ideia de publicar uma espécie de “código de conduta” para os blogueiros – o que causou grande polêmica à época porque tal medida foi vista por muitos como um ataque à liberdade de expressão. O tal “código de conduta” foi proposto por conta da agressividade vista nos blogs e buscava promover alguma civilidade no ambiente virtual. Dois itens daquele código talvez chamassem a atenção hoje: “nunca diga na internet aquilo que você não diria pessoalmente” e “não alimente os trolls”. Isso foi há 10 anos e ainda lidamos com a agressividade no meio virtual em plataformas diferentes porque ao que parece o clichê "pensar diferente não faz de alguém o seu inimigo" ainda não foi assimilado.   

Provavelmente os trolls e idiotas da aldeia virtual não passem de indivíduos que descarregam suas mágoas, frustrações (até sexuais), agressividade e tolices na grande rede. De qualquer forma é preciso cuidado até para filtrar as "amizades" em redes sociais e aplicativos. Como hoje somos todos narradores e comentaristas de assuntos que envolvem desde reality show culinário até a crise dos refugiados na Europa, é inevitável que encontremos também uma série de opiniões de todos os tipos – sensatas, inteligentes, idiotas. Não precisamos falar sobre tudo e todos, principalmente daquilo que não conhecemos bem ou tratamos apenas de forma superficial.    

Na era da pós-verdade seria bom se pudéssemos resumir tudo a uma expressão: bom senso, o grande desafio quanto à postura na internet -  e na vida, de modo geral.  

Referências:
Carr, Nicholas. A geração superficial: o que a internet está fazendo com nossos cérebros. Rio de Janeiro: Agir, 2011.
Carrière, Jean-Claude. Não contem com o fim do livro / Jean Carriére, Umberto Eco, Rio de Janeiro: Record, 2009.
 

segunda-feira, janeiro 23, 2017

Charges II semestre 2016

Publicada a primeira parte das charges que marcaram o ano de 2016, agora dou prosseguimento à segunda parte - o segundo semestre de 2016, mais especificamente. As charges são de minha autoria e publicadas no Instagram e Facebook. 


Tivemos olimpíadas no Rio de Janeiro! 


Uma das estrelas, o jamaicano Usain Bolt, fez o que se esperava dele e lamentamos que outras coisas não sejam tão rápidas quanto o atleta. 


Em relação ao desempenho dos atletas brasileiros, sempre há aqueles críticos com alto grau de conhecimento no esporte. 


A imprensa esportiva também demonstrou todo o seu preparo para comentar sobre os esportes olímpicos. 


Quando os atletas brasileiros começaram a ganhar medalhas de ouro (como Rafaela Silva, no judô), foi emocionante ver quantos apoiadores e amigos surgiram. 


E os políticos, é claro, que sempre investiram no esporte. 

2016 foi um ano para se preocupar com a alimentação e a saúde!




Novos ingredientes (como pelos de roedores) foram adicionados a produtos industrializados, melhorando o exigente paladar dos brasileiros. 


E a política? Ah, foi um ano de muitas transformações neste cenário. Começou com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a efetivação do vice, Michel Temer, na presidência. Os deputados, todos conscientes e visando o melhor para o país, contribuíram. 



Com um discurso motivador, Michel Temer logo chamou o povo para o trabalho. 

Para isso cercou-se de gente nova e com ideias arejadas. 


Não tinha como dar errado: era só tirar a ex-presidenta para tudo melhorar!


E os bons ventos sopravam para a nação: Eduardo Cunha cassado - e logo depois, preso. O cheirinho da mudança, ah! 


Foi então que surgiu o Ministro da Educação com sua "reforma do Ensino Médio" abrindo espaço para gente com "notório saber" assumindo salas de aula. 

 

Porque claramente a escola brasileira atualmente é tomada por ideologias e doutrinadores terríveis. 


E o comunismo é um perigo real e imediato em nosso país. 


Mas uma nova esperança surgiu: as eleições municipais!


Teve menos sujeira (nas ruas) este ano, porém certas coisas não mudam. 


Com os ventos da mudança e fé no futuro, o negócio é trabalhar para a retomada do crescimento e do progresso!


E a aposentadoria, com sua proposta de reforma, vai se transformar em uma coisa lendária. O negócio é trabalhar, trabalhar e trabalhar. 


E melhor ainda: vestindo a camisa da empresa, que é importantíssimo. 


Vai ver por isso muita gente goste tanto da segunda-feira. 


Enfim, o Brasil segue em frente!


Com alguns espertalhões de sempre...


... com todo mundo se entendendo... 


O negócio foi sair às ruas... para caçar pokémons! 


O que é muito melhor do que assistir TV e conferir as notícias da política. 




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