sábado, dezembro 09, 2017

Está tudo absolutamente normal. Será?


O dicionário Webster em sua versão online possui uma seção chamada “word of the day” (palavra do dia). É bem interessante: não apenas apresenta o significado e a categoria gramatical que a palavra pertence, mas também podemos descobrir a sua etimologia (origem e formação), sinônimos e quando foi usada pela primeira vez em língua inglesa.

Todos os dias recebo via e-mail uma nova palavra em inglês. Não faz muito tempo que a “word of the day” foi uma bastante comum e de fácil entendimento: normal. É um cognato, ou seja, uma palavra em inglês que tem o mesmo significado e grafia em português. Ninguém tem dúvidas sobre o seu significado: algo comum, habitual, conforme a um modelo, valor social/cultural ou padrão. A própria etimologia da palavra indica tais significados, também.  

É curioso pensar um pouco mais sobre esta palavra e como ao longo dos séculos o conceito sobre “normal” foi estabelecido e passando por modificações. Pessoas vendidas em mercados negreiros e tratadas por “peças” durante muito tempo foi atividade vista como normal, da mesma forma que crianças de 4 e 5 anos de idade limpadoras de chaminés e até mesmo a perseguição de mulheres acusadas de bruxaria para serem queimadas em praça pública.  

Leio algumas notícias na imprensa em que os jornais e autoridades gostam de destacar a palavra "normal" e mesmo "normalidade". Por exemplo, uma aluna é assassinada dentro de escola atingida por "bala perdida" e poucos dias depois divulgam que as aulas estão "acontecendo normalmente", mesmo que o bairro esteja passando por uma situação de insegurança em que muitos estudantes não consigam chegar à escola. Este é apenas um exemplo dentre vários que demonstram de que forma somos moldados pelo "funcionando normalmente", enquanto vamos para o trabalho espremidos como sardinhas enlatadas nos ônibus lotados, deixamos crianças em escolas caindo aos pedaços em seu entorno de violência, aceitamos passivamente políticos envolvidos em esquemas quase inimagináveis de corrupções e nos acostumamos com uma rotina que envolve medo, inseguranças, violências.

Fico imaginando de que forma seremos vistos daqui a 100 ou 200 anos – caso a humanidade não se extermine até lá. Se atualmente ainda temos escolas que ameaçam desabar sobre as cabeças de alunos e professores, se temos professores recebendo treinamento para situações de guerra, se temos um trânsito que mata 47 mil pessoas por ano, se temos uma sociedade que se entope de medicamentos antidepressivos e de agrotóxicos nos pratos em suas refeições, nada isso deveria ser considerado normal. Uma frase atribuída ao filósofo e educador indiano Krishnamurti traduz bem este sentimento: “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente”.  

De fato, não é saudável, tanto que existe até uma patologia chamada “normose”, um conceito criado pelos psicólogos Pierre Weill, Jean Yves Leloup e Roberto Crema. A normose, segundo os autores, “é o resultado de um conjunto de crenças, opiniões, atitudes e comportamentos considerados normais, logo em torno dos quais existe um consenso de normalidade, mas que apresentam consequências patológicas e/ou letais”. Experimente fazer algo que não esteja nos padrões do que é considerado como normal e imediatamente recairão críticas sobre este comportamento. “A normose”, prosseguem os autores, “nos impede de sermos quem realmente somos”. Todos os dias temos agentes e instituições ditando modelos e valores sobre o que devemos fazer, consumir e agir no dia a dia – e ai de quem não segui-los: será chamado de “anormal” e termos semelhantes. Quem gostaria de ser chamado assim?

Ao longo dos séculos certas situações e comportamentos “normais” foram mudando e é isso que dá alento para o futuro e sobre as perspectivas para futuras gerações. Difícil manter algum otimismo diante de um panorama aparentemente desfavorável, mas procuro sustentar um fio de esperança, até porque mudanças na sociedade não acontecem do dia para a noite. Levam tempo e envolvem coragem e resistência. Felizmente os inconformados estão por aí, quebrando certos modelos de “normalidade” e tal como aconteceu em outros tempos, são rotulados como ingênuos, idealistas, malucos, perigosos, inimigos da ordem.  

A pergunta feita pelo escritor Tolstói há mais de 100 anos após observar e indignar-se com a organização da vida na sociedade russa, ainda é válida para estes nossos tempos: “mas precisa mesmo ser assim?” É o que questionam os inconformados e considerados idealistas. Creio que precisamos ouvir mais o que estes têm a nos dizer e também nos juntarmos às fileiras de inconformados e agir de alguma forma. Claro que seremos rotulados com aqueles termos nada lisonjeiros, mas é impossível não lembrar do inspirado John Lennon que cantou “você pode achar que eu sou um sonhador/ mas eu não sou o único”. 

Com certeza não é, John. 

domingo, outubro 15, 2017

Professores, não desistam!


Roberto Ferreira, Diva Guimarães e Helley Abreu Batista. Não se tratam de nomes badalados nas mídias, não são famosos. Mas são dois nomes que merecem ser lembrados e admirados. Em comum, a profissão: professores.

Roberto Ferreira é o professor que procurou acalmar seus pequenos alunos com música enquanto um tiroteio acontecia no entorno da escola, no Rio de Janeiro; Diva Guimarães é a professora aposentada que contou sua trajetória na Feira Literária de Paraty (RJ) e emocionou a todos; Helley Abreu é a professora que tentou impedir um criminoso de jogar álcool e atear fogo em seus alunos em uma creche de Minas Gerais. O professor Roberto está aí para contar para contar sua história, bem como a professora Diva fez em Paraty. Infelizmente, a professora Helley teve 90% do corpo queimado e não resistiu.

Estes exemplos demonstram que ainda podemos ter esperança na humanidade, apesar do trágico desfecho com a professora mineira. Os tempos atuais estão áridos, os noticiários apresentam fatos e notícias desanimadoras todos os dias e manifestações de ódio dão o tom principalmente nas redes sociais, onde o passatempo preferido de muitos internautas aparentemente é agredir uns aos outros e descarregar todas as ignorâncias e preconceitos possíveis. Tudo isso nos exaure emocionalmente e aos poucos acontece o pior: simplesmente deixamos de nos importar. Admitimos que "é assim mesmo", naturalizamos e incorporamos toda a aridez destes tempos.  

O que os professores e as professoras fazem, ao menos boa parte deles, é manter a esperança viva através da Educação, apesar de inúmeras dificuldades. Não é preciso repetir o quanto a profissão docente é desvalorizada no Brasil – todos sabemos. Mesmo assim, os professores não desistem. Há alguns anos estive em uma palestra voltada para administradores e gestores e o palestrante afirmou que o perfil do funcionário do século XXI é aquele que reúne características como flexibilidade, dinamismo, criatividade, espírito de liderança e trabalho em grupo. Imediatamente pensei nos professores, que reúnem todas essas características. Sim, há problemas quanto à formação docente, mas é preciso falar também das qualidades destes profissionais que estão sempre em busca do melhor para suas aulas e alunos. Quem é professor sabe como funciona: um filme ou uma música durante o momento de lazer pode se transformar em plano de aula; até a estampa de uma camiseta em um aluno vira aula e das boas – por exemplo, a camiseta com o símbolo do Capitão América para explicar a origem do herói e contextualizar com a 2ª Guerra Mundial e a entrada nos Estados Unidos no conflito. Eu já fiz isso e foi ótimo.

Tudo o que eu falei até agora tem a ver com a parte pedagógica da profissão, mas vai além de conteúdos de inglês, matemática, história, português: quantas vezes os professores não fizeram as vezes de conselheiros, incentivadores, ouvintes de alunos que carecem apenas de um pouco de atenção? Quantas vidas não foram modificadas através de um professor ou professora que dedicou alguns minutos do seu tempo para aconselhar sobre caminhos tortuosos, para incentivar algum talento, para ouvir histórias de vida que fornecem pistas sobre o desinteresse nos estudos e baixo rendimento de alunos? A visão pragmática sobre Educação que tem como argumento “professor tem que ensinar somente o conteúdo e nada mais” não se sustenta diante do que encontramos todos os dias nas escolas.  

Como já afirmei, estes tempos estão áridos para todos. Os professores também sentem isso através da violência (o Brasil é um dos países que mais agridem docentes), do desprestígio social/profissional e problemas de saúde decorrentes da profissão, sem contar uma marcha delirante, perigosa e que visa cercear a autonomia docente como o projeto “Escola Sem Partido”Poucos jovens querem seguir a carreira de professor e precisamos mudar a forma como tratamos a Educação. Diante de tantos problemas e tamanho descaso, a pergunta que sempre surge é: como os professores resistem e continuam nesta profissão?

Uma boa resposta vem do filósofo e professor Mario Sérgio Cortella: “Nós acreditamos numa coisa incrível: que gente foi feita para ser feliz e que esse é o nosso trabalho”. Longe de recorrer a clichês de autoajuda ou apelando para o senso comum que atrela o magistério ao sacerdócio, qual é o professor que não se alegra ao ver o desenvolvimento de seus alunos? Em tempos raivosos e turbulentos, termos como “esperança” e “sonho” podem parecer ingênuos e até tratados como bobagem, mas se resistimos é porque ainda acreditamos que a Educação é transformadora e libertadora. 

Certamente é o que move o professor Roberto, a professora Diva e o que movia a professora Helley. É o que me move e também a muitos colegas pelo Brasil, professores que não abandonam a esperança e o sonho e procuram compartilhá-las os seus alunos. Em tempos de negatividade, ignorâncias ostentadas e apatia, não podemos esmorecer - e não iremos.  

sexta-feira, setembro 08, 2017

"As viagens são parteiras de pensamentos".


Li em algum lugar que “a melhor parte de uma viagem é o caminho, não o destino”. Claro que isso é bastante relativo, afinal uma viagem para encontrar o seu amor, por exemplo, tem o destino como a melhor parte. Mas entendo o significado desta frase. Ousadamente tomo a liberdade de parafrasear: “a melhor parte de uma viagem é o caminho que fazemos para dentro de nós mesmos”. Por isso tomei emprestada a definição do filósofo e escritor Alain de Botton como título para estas reflexões. 

Não sou um grande entusiasta por viagens, confesso. Aprendi a lidar bem com a rotina e a gostar e fazer bom proveito dos tempos livres. Há algum tempo, porém, tenho feito viagens constantes (em que o destino é a melhor parte) e estas são feitas na maioria das vezes através de ônibus, com tempo estimado entre 6 a 8 horas de estrada. Nestes tempos imediatistas onde esperar um download de arquivo por 2 ou 3 minutos já causa ansiedade em muita gente, imagine passar 8 horas em uma poltrona de ônibus e, pior, sem conexão wi-fi: para muitos é o tédio absoluto e a “salvação” chega através da rede de dados móveis nas cidades onde o sinal é bom o suficiente.

Cada um passa o tempo de viagem como quiser, não tenho nada com isso. No entanto eu sempre achei que essas viagens longas são ótimas oportunidades para mergulharmos onde muitos de nós não conseguimos fazer no dia a dia ou até mesmo evitamos: o nosso interior, nossos pensamentos. Gosto de “viajar na janela” justamente para contemplar as paisagens, as cidadezinhas e povoados ao longo do caminho. É mais ou menos o que o historiador inglês Roman Krznaric nos recomenda, baseado nas peregrinações do poeta japonês Bashô: “Deveríamos despender tempo viajando, deixando espaço livre em nossa mente para a contemplação e seguindo num ritmo lento o bastante para apreciar as belezas e torpezas da paisagem”. Nestes espaços para a contemplação faço uma viagem dentro da viagem. 


Temos muita pressa em chegar aos nossos destinos. A ansiedade em conhecer determinado lugar ou a saudade em rever as pessoas queridas e amadas é compreensível, mas nem sempre é possível conseguir aquela passagem de avião por um preço acessível e encurtando em boas horas a viagem; quem pode viajar de carro às vezes imprime velocidades elevadas e até perigosas para “não perder tempo”. Uma parada a fim de apreciar um rio ou uma queda d´água é impensável para muitos motoristas. De modo geral, devido à pressa e à ansiedade, deixamos de lado a contemplação e a reflexão – e em nosso dia a dia rotineiro e repleto de atividades não abrimos espaço para estas práticas. Até mesmo a leitura de um livro é tarefa constantemente adiada devido a tantos estímulos sonoros e visuais de aparelhinhos eletrônicos nos alertando de compromissos (ou futilidades) o tempo todo.


Por isso aprendi a apreciar aquelas 6, 8 horas de viagem em um ônibus. É um momento para leitura sem interrupções do celular ou distrações com TV ou rádio – embora sempre exista a possibilidade do passageiro ao lado ser um tagarela inconveniente ou usar o celular sem fone de ouvido. No caso da leitura, o texto flui melhor e o mergulho na história também; mas a “estrela” da viagem é a contemplação das paisagens e os pensamentos que voam. 


Aquela casinha isolada no meio do nada, quem será que mora lá? Como se vira (ou se viram) para sobreviver? Será que eu conseguiria viver em tal condição? O sertão após um período de chuvas fica bonito com essa vegetação – que flores são aquelas? Parecem margaridas. A grama verdinha com as chuvas e as flores amarelas constituem uma linda paisagem! O passageiro que viaja ao meu lado me conta que são flores de malva e que atraem as abelhas. Lembro da tragédia ambiental em curso que poucos têm conhecimento: o desaparecimento das abelhas e como isso afeta terrivelmente o equilíbrio ecológico e até mesmo a produção de alimentos. E essa cidadezinha? Simpática, o prédio mais alto ainda é uma igrejinha: hoje construímos prédios sem graça com sei lá quantos metros de altura. Lembo das disputas sobre os maiores prédios do mundo? Tem algo a ver com topo, estar mais alto, posição de destaque, poder. Acho tudo uma grande bobagem. Mas isso deve estar ligado ao meu medo de altura, penso. Ou talvez por não apreciar disputas inócuas, sem sentido. Pensando bem, qual disputa faz sentido, afinal? 

Deixo os pensamentos fluírem juntamente com as paisagens em movimento, relembro fatos e coisas que aparentemente são banais e revelam-se complexos, intercalo com trechos do livro que estou lendo e que merecem maiores reflexões, observo vida e vidas, placas (isso pode ser divertido) e casas, árvores e pastagens, torço por rios cheios e colheitas fartas para aquele agricultor solitário trabalhando a terra. Pela janela do ônibus abro outras janelas e desta forma sigo um conselho de Thoreau: “seja o Colombo de novos continentes e mundos inteiros dentro de si mesmo, abrindo novos canais, não de comércio, mas de pensamento”. 

E ao final desta jornada, quando questionado se fiz boa viagem, a resposta é positiva tanto para a viagem propriamente dita quanto para meus devaneios. É hora de celebrar os encontros e reencontros - com os familiares, amigos, a amada e, claro, com si mesmo. 

Referências: 
A arte de viajar - Alain de Botton. Editora Intrinseca
Sobre a arte de viver - Roman Krznaric. Zahar Editora
Walden - Henry David Thoreau. Editora LePM


Fotos: do autor. 

quarta-feira, agosto 09, 2017

Charges do 1º Semestre de 2017

Uma "retrospectiva" do 1º semestre de 2017 através de alguns rabiscos feitos por este autor que vos escreve.

O ano começou no ritmo das (polêmicas) reformas que o (des)governo Temer promoveu ou tenta promover - Reforma Trabalhista e Reforma da Previdência. 




                                      

Mas antes tivemos a "Reforma" do Ensino Médio que promete "revolucionar" a Educação no país.

No meio disso tudo não poderia faltar ele:



E a galera que curte um churrasquinho ou não passa sem carne foi surpreendido pela Operação Carne Fraca - aquela da "carne podre":




Muita gente achou que alertar sobre carne podre vendida nos açougues e supermercados fosse algo ruim: 


Mas não tem jeito: se você prefere uma saladinha, vai encontrar ingredientes nada recomendáveis.


Pelo menos todo mundo ficou sabendo quem é Joesley Batista, JBS e o mais importante: o filho do Lula não é o dono da Friboi. Com as denúncias de Joesley a situação do "presidente" Michel Temer parecia insustentável, mas como é bom ter amigos em situação privilegiada, não é?





Se a casinha de Michel Temer não caiu, o mesmo não pode ser dito do senador Aécio Neves. A verdade é que não salva um.

                          

Mas para alegria de uns e tristeza de outros, tivemos em Curitiba O EVENTO DO SÉCULO!



Um grande evento que mobilizou a nação e os comentaristas especializados tentavam orientar a população com opiniões relevantes:

                                     

No fim, tudo não passou de mais uma pataquada.

                                      

Com tudo isso parece que os valentes e aguerridos manifestantes "contra a corrupção" e pela "moralidade política" que tomaram as ruas em 2016 cansaram ou não viram mais motivos para protestos e as panelas voltaram a servir apenas para cozinhar um arroz e fritar uns bifes.


Mas o (des)governo tentava aprovar as reformas encomendadas pela FIESP, CNI, Ruralistas e ainda houve quem se manifestasse - e estes receberam o "carinho" dos comentaristas de internet.


Para se manifestar ou fazer greve no Brasil é preciso seguir uma série de protocolos: 

                                      

Principalmente sem atrapalhar o "deus-trânsito"!

As reformas estavam demorando mais do que o previsto para serem aprovadas, o que deixou algumas pessoas preocupadas.

                                       

Apesar de tanta preocupação desta gente comprometida com o progresso da Nação, a Reforma Trabalhista foi aprovada. 

                                    



As discussões na internet, principalmente nas redes sociais, continuaram ponderadas e com elevado nível de boas maneiras.


E com muita inteligência:


Por falar em Terra Plana, tem uma galera que acredita em cada coisa...


Há até quem acredite que a Justiça no Brasil é igual para todos... 



... e que o país esteja no rumo certo! 


Felizmente o Brasil é um país lúdico: nada como relaxar e gozar a vida com uma boa festa junina e no Nordeste se mantém a tradição e...não, pera: 



Como "tá difícil pra todo mundo", o jeito é apelar para Santo Antônio - mas ele sabe o que você andou falando sobre as fotos de casais no Dia dos Namorados no Facebook. 


Precisamos de umas festinhas para distração do noticiário, principalmente do noticiário político: 


O bom é que no meio de tantas traições ainda encontramos exemplos de amor e fidelidade por aí. 

Mas o melhor é mesmo seguir o conselho que o médico deu no ano passado. 


Até para evitar certos problemas...

... e viver melhor! 



Em suma, o negócio é aproveitar a vida...


... que não vem com receita ou manual de instruções. 


Meus rabiscos estão aqui e no Instagram: @jaimegbr. 


quinta-feira, junho 01, 2017

Tempos de ignorância ostentada


Todos nós estamos acompanhando os desdobramentos de uma crise política que vem se arrastando há algum tempo e parece não haver solução ou final feliz. Que há uma crise de representatividade política é verdadeiro, no entanto não é só isso: vivemos um período em que o obscurantismo é crescente e isso afeta não apenas a política, mas também a sociedade e as nossas relações.

Obscurantismo, segundo os dicionários Michaelis e Caldas Aulete, significa um estado de completa ignorância. O Aulete vai mais fundo: “Tendência política a dificultar o progresso intelectual ou o acesso do povo tanto à ciência como às artes, com o fim de explorar suas crendices e superstições”.

Posso dizer que sou do tempo em que a internet era “só mato”. Por volta dos anos 2000 e 2001 a internet que acessávamos de forma bem precária (com direito a CD de instalação para discadores como AOL e UOL) era uma “novidade” que mudaria o mundo. Um fato concreto, sem dúvida: alguém consegue se imaginar hoje sem internet? A rede mundial de computadores, dizia-se à época, em pouco tempo revolucionaria a informação e o acesso ao conhecimento – o que aconteceu. No futuro, acreditava-se, seríamos mais inteligentes. As previsões otimistas pareciam se confirmarem quando a internet finalmente popularizou-se e mais ainda com os smartphones. Nunca antes na História tivemos acesso tão fácil e rápido às informações e ao conhecimento.

Contudo, o futuro chegou e em 2017 o que se lê e vê em redes sociais, fóruns virtuais e até mesmo em portais de notícias é assustador: movimento antivacina avançando com pais recusando a vacinar os filhos, a antiquíssima (e cientificamente refutada) teoria da Terra plana e seus defensores apaixonados, discursos nacionalistas e xenófobos ganhando ressonância com adeptos entusiasmados, apoiadores de intervenção militar, professores sendo acusados de “doutrinadores marxistas-comunistas” e milhares de idiotas da aldeia (usando a definição de Eco) ostentando ignorância com orgulho. Não importam dados científicos, a História, os estudiosos, cientistas, especialistas e os fatos:  é o “1984” de Orwell acontecendo diante de nossos olhos. E ao vivo e em tempo real disseminado por um clique via redes sociais e aplicativos de mensagens pelo celular.

“A SOLUÇÃO É EDUCAÇÃO”. MAS QUAL EDUCAÇÃO?

A culpa é da internet? Parece cômodo culpar o meio, mas não é nada disso. Em passagem pelo Brasil em 2015, o sociólogo Manuel Castells afirmou que “um país educado com internet progride. Um país sem educação utiliza a internet para fazer ‘estupidez’". E prosseguiu: “O problema é a capacidade de atuar através da internet, que depende, principalmente, do nível educativo e cultural das pessoas.” Está bem claro qual é o problema e qual é a chave para que possamos frear este obscurantismo e ignorância crescente nas redes.  

Mas de qual Educação estamos falando? Vejamos o caso emblemático de um político como Jair Bolsonaro: é impressionante a quantidade de pessoas que concorda com o discurso e as ideias retrógradas e preconceituosas do sujeito. A história fica mais assustadora quando verificamos o perfil do eleitor de Bolsonaro: jovem (entre 16 e 34 anos) e com ensino superior completo. Ou seja, são pessoas com elevado grau de escolarização. Neste momento vale chamar a atenção para uma definição importante e tomo como base a afirmação de Cortella: “escolarização é um pedaço dentro da Educação”. O que temos na escola é parte de um processo contínuo e coletivo que envolve diversos atores como a família (é bom lembrar que atualmente encontramos modelos familiares diversos) e sociedade. No artigo 205 da Constituição podemos ler que “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade”. Em suma, Educação não é um projeto isolado que deverá ficar à cargo apenas da escola.

O Brasil deu um salto nos índices de escolarização nas últimas décadas, porém isso não refletiu em uma Educação escolar melhor e de qualidade para a população: não à toa encontramos universitários com sérias dificuldades em interpretação de textos básicos, apenas para citar uma face cruel do problema. Juntando este quadro desfavorável a um discurso superficial porém sedutor para resolução de problemas históricos e complexos através de medidas polêmicas e imediatistas (redução da maioridade penal, escola sem partido, militarização das escolas, porte de armas, etc.) com um estilo agressivo contra qualquer proposta ou tema que se considera “de esquerda” (como Direitos Humanos, por exemplo) e ao desencanto neste período de crise (política e econômica), temos um terreno fértil que pode ajudar a explicar o crescimento de políticos como Bolsonaro e de tantos outros com o perfil parecido – incluindo aqui fanáticos religiosos. Não é restrito ao Brasil e nem é algo novo: o cientista e astrônomo Carl Sagan, na década de 1990, já dizia que alguns sinais de decadência dos Estados Unidos não se devem apenas à “qualidade dos líderes, como também a tendência decrescente de pensamento crítico e ação política nos seus cidadãos”.

A ESCOLA NÃO PODE SILENCIAR

Como já ressaltado, a escola não pode agir de forma isolada no processo educacional, mas também não pode se omitir e tampouco deixar se intimidar pelo obscurantismo de movimentos como o Escola Sem Partido e outros ao estilo “caça às bruxas”. É absolutamente imprescindível que a escola atue também na formação da cidadania e sem descuidar da base científica. A escola e os professores continuarão a ensinar Português, Matemática, Geografia, etc., porém sem deixar de lado as questões que envolvem o cotidiano e sejam significativas.  A recente Reforma do Ensino Médio como foi apresentada e aprovada limita a escolarização ao caráter pragmático e tecnicista visando apenas o mercado de trabalho – e ninguém discute o quanto é importante tal formação, porém não é só disso que precisamos.

E do que precisamos? Precisamos de uma escola, nas palavras de Vivane Mosé, “que não se acovarde diante das perguntas mais difíceis, como a morte, o tempo, a dor, a violência, a discriminação social, étnica, religiosa, mas que construa espaços nos quais essas questões sejam discutidas, pensadas”. É fato que nós, professores, lidamos diariamente com uma grande carga de responsabilidades (até maior do que podemos ou estamos habilitados a suportar), mas principalmente neste momento em que a ignorância grassa assustadoramente temos uma árdua tarefa – e isso inclui novos olhares, novas formações (além do pedagógico) e uma “aprendizagem de desaprender” não apenas para a sala de aula escolar, mas para esta grande sala de aula que é o mundo.

Referências:

Cortella, Mário Sérgio. Educação, escola e docência: novos tempos, novas atitudes. São Paulo: Cortez, 2014. 

Mosé, Viviane. A escola e os desafios contemporâneos / organização e apresentação Viviane Mosé. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. 

Sagan, Carl. Bilhões e bilhões: reflexões sobre vida e morte na virada do milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 

sábado, abril 22, 2017

Biblioterapia: livros para a alma



Recentemente vi na imprensa algumas matérias informando a respeito de uma técnica chamada “biblioterapia”, que é uma espécie de terapia complementar baseada na leitura de livros indicados por especialistas para aliviar o estresse e a lidar com sentimentos relacionados à solidão, frustrações, etc.

Fui pesquisar um pouco mais sobre o termo até então desconhecido para mim – e talvez o seja para muita gente. “Biblioterapia” é a junção de duas palavras gregas: biblion (livros ou suportes para leitura) e therapein (alusivo à terapia). E não se trata propriamente de uma novidade, pois o primeiro registro sobre o tema data de 1916, embora muito antes disso (estamos falando dos antigos gregos, romanos e egípcios) as qualidades terapêuticas que a leitura proporcionava eram reconhecidos. Além dos alívios para os sentimentos já citados, a biblioterapia também promove efeitos benéficos para a alma e consequentemente para o bem-estar.

Na verdade qualquer pessoa apaixonada pela leitura conhece esses efeitos já comprovados pela ciência. Quando “entramos” no livro e nos envolvemos com a história, os cenários e seus personagens obtemos sensações prazerosas e lúdicas – sim, pois a ludicidade, de acordo com o professor Cipriano Luckesi, é um estado de atenção plena ao que fazemos com prazer: “Enquanto estamos participando verdadeiramente de uma atividade lúdica, não há lugar, na nossa experiência, para qualquer outra coisa além dessa própria atividade. (...) Estamos inteiros, plenos, flexíveis, alegres, saudáveis”.

Tal estado de plenitude com a prática de biblioterapia apresenta bons resultados. No estudo biblioterapêutico realizado com pacientes de clínicas médicas, a bibliotecária Eva Seitz concluiu que tal prática foi muito útil para, dentre outras coisas, tornar a hospitalização “menos agressiva e dolorosa”, pois a leitura como lazer “proporciona tranquilidade, prazer, reduzindo a ansiedade, o medo, a monotonia, a angústia inerente à hospitalização e ao processo de doença”.

Livros que são bálsamos para a alma

Durante um período conturbado de minha vida eu recorri aos livros em busca de respostas para o que eu estava passando e até mesmo algum alívio para as angústias. Para muitas pessoas isso é um caminho fácil para a leitura dos chamados livros de autoajuda, porém não foi o meu caso. Posso dizer que fiz uma biblioterapia por conta própria e deu certo sob muitos aspectos. Claro que gostar de ler desde a infância ajudou bastante e algumas obras, mesmo aquelas que passaram por releitura, serviram como bálsamo para alma.

A poesia de Alberto Caeiro, o meu predileto dentre tantos heterônimos de Fernando Pessoa, evocando o que à primeira vista parece ser a bucólica simplicidade de homem em comunhão com a natureza, apresenta verdadeiras pérolas para repensarmos os olhares e dogmas que nos prendem a correntes das quais tentamos arrastar durante a vida. Como escreve o poeta em seu “O Guardador de Rebanhos” (XXIV), é preciso desnudar a alma e passar por um processo de “aprender a desaprender”. Mais do que um simples exercício, um desafio que vale a pena tentar.

A filosofia de Sêneca também serviu como terapia complementar para muitas angústias. Na verdade buscava entender alguns reveses da vida e o filósofo latino oferece em seus escritos boas reflexões sobre frustrações, imprevistos e expectativas exageradas. O tratado “Da tranquilidade da alma” é belíssimo.

Nem sempre a literatura oferece alívio à primeira vista – ou melhor, à primeira leitura. De fato alguns livros não trazem nenhum tipo de alívio em suas páginas, e sim incômodos, o que é muito bom para sair do lugar comum e considerar outros pontos de vista. Um livro que fez a “ficha cair” definitivamente após cuidadosa releitura foi “A morte de Ivan Ilitch”, do escritor russo Lev Tolstoi. Ao contrário de “Guerra e Paz” com suas mais de mil páginas, esta novela é breve em número de páginas (não chega a cem) e densa em conteúdo. Os questionamentos por parte de um burocrata (Ivan) no leito de morte repassando a sua vida de aparências e busca por prestígio perante a sociedade geram desconforto ao leitor, principalmente quando Ivan Ilitch, em suas observações, se dá conta da fragilidade da vida e da insignificância de alguns atos. É um livro que não deixa ninguém indiferente e nos convida ao mergulho interior: o que estamos fazendo, afinal, de nossas vidas?

Posso citar alguns outros livros que me ajudaram bastante no processo de autoconhecimento e aprendizados: o belíssimo ensaio “A vida humana” e o delicioso “Pequeno tratado das grandes virtudes”, do filósofo André Comte-Sponville; a simplicidade nas páginas de “Walden”, de Henry David Thoreau – que também é autor de “Desobediência civil”, obra fundamental para posicionar-se contra leis injustas; a iluminação de um dos livros mais bonitos que já li, “Sidarta”, de Herman Hesse; a leitura comovente e sensível de “A trégua”, de Mario Benedetti; a tragédia shakespeariana de “Otelo” trazendo à tona temas universais como ciúme, inveja, ambição, racismo; alguns contos do brilhante Machado de Assis como “O Espelho” e “Um homem célebre” que tratam o eterno dilema humano entre “ser e parecer”. 

Sempre gosto de citar também obras como “A vida líquida” e “Amores líquidos”, de Bauman, “Ócio Criativo”, de Domenico De Masi e “Uma história íntima da humanidade”, de Theodore Zeldin, pois apresentam boas contribuições para tentarmos compreender o mundo e como chegamos até aqui. E embora o título soe como uma arrogante e pretensiosa autoajuda, o livro “Como mudar o mundo” de John-Paul Flintoff é um daqueles que eu classificaria como inspiradores para que possamos agir e efetuar pequenas porém significativas mudanças no dia a dia.

“A literatura faz acontecer”

Claro que o gosto literário é estritamente particular. Estes livros que citei podem não ser do agrado de muita gente ou pouco significativos durante ou após a leitura. É natural. Há quem se identifique com obras de não-ficção, com autoajuda, com clássicos, com biografias, fábulas, poesias, ficção científica, não importa: aqui lembro da lista dos direitos do leitor, de Daniel Pennac (autor de “Como um romance”, uma ode à literatura), e um desses direitos está o de ler qualquer coisa – é uma boa sugestão para quem não tem o hábito de leitura: comece por temas que despertem o seu interesse e não dê importância ao que dizem sobre o estilo literário que você gosta. 

Hoje já existe a figura do biblioterapeuta como o profissional mais indicado para recomendar os livros adequados para um tratamento. Há quem possa torcer o nariz para este uso da literatura como uma espécie de terapia complementar, mas lembrei do escritor, professor e poeta Affonso Romano de Sant´anna com sua crônica “Leitura faz acontecer”: com intensa atividade literária publicada em jornais, revistas e livros, o autor relata as diversas ocasiões em que foi abordado por leitores que citam alguns de seus textos como inspiradores para eventos importantes em suas vidas. “A literatura faz acontecer”, encerra assim a crônica. 

Para a literatura acontecer (e uma biblioterapia ser eficaz) é preciso dar a ela uma chance. Abra o livro, mas também abra a mente para as ideias e histórias que os autores apresentam - concorde, discorde, reflita, releia. E tenha uma boa viagem pelo mundo das palavras e do autoconhecimento. Faz bem para a saúde, faz bem para a alma. 

Referências: 

LUCKESI, Cipriano Carlos. Educação, Ludicidade e Prevenção das Neuroses Futuras: uma proposta pedagógica a partir da Biossíntese. 2005. Disponível em  http://www.luckesi.com.br/artigoseducacaoludicidade.htm 

SEITZ, Eva Maria. Biblioterapia: uma experiência com pacientes internados em clínicas médicas
Bibliotherapy: an experience with patients interned in medical clinica. p.155-170
Revista ACB, [S.l.], v. 11, n. 1, p. 155-170, nov. 2006. ISSN 1414-0594. Disponível em: https://revista.acbsc.org.br/racb/article/view/452/567

SANT´ANNA, Affonso Romano de. Ler o mundo. São Paulo, SP: Global, 2011. 

segunda-feira, março 27, 2017

Greve de professores e o discurso "prejudicando os alunos".


O roteiro é o mesmo de sempre: basta que os professores façam uma paralisação ou greve e repentinamente parte da imprensa SE INTERESSA pelas escolas e pelos estudantes – e o discurso também não muda: “os alunos estão sendo prejudicados”, “os alunos que se preparam para o ENEM estão sendo prejudicados”.
Acho lindo que essa narrativa “os alunos estão sendo prejudicados” só apareça nestes momentos. Experimente colocar no Google “telhado de escola desaba” e você encontrará sabe-se lá quantos resultados colocando a culpa dos desabamentos na chuva, nos fortes ventos, em Odin, no El Niño, nos ETs. Quase não se encontra uma palavra sobre a infraestrutura decadente da escola em que os alunos estudam – é que isso “não prejudica os alunos”, claro.
Também “não prejudica os alunos” a falta de merenda, falta de materiais básicos para que professores possam trabalhar, falta de segurança no entorno e na própria escola, políticas desastradas como fechamento de escolas e enturmações com salas de aula lotadas, etc e mais dezenas de etceteras. Nada, nada disso “prejudica os alunos”.
E então, no final do ano, quando são divulgados os resultados das avaliações externas como o PISA e tantos outros, surge o discurso: “É preciso investir em Educação e valorizar os professores”. Parece até um lance bipolar, não?
Antes fosse, mas a gente sabe muito bem que não é. Há 40 anos Darcy Ribeiro já dizia que “a crise na Educação não é crise, é projeto”. O mantra “os alunos estão sendo prejudicados” repetido ad nauseam pelos chamados formadores de opinião de parte da imprensa durante períodos de greve e paralisações também insere-se neste projeto: desqualificar e esvaziar as reivindicações dos professores perante a opinião pública é apenas mais um dos capítulos deste roteiro já conhecido.
                                                                          ***
O texto acima é uma postagem feita por mim no Facebook no dia 17 de Março de 2016. No dia 22 de Março de 2016, apenas 5 dias depois, surge a notícia: "Muro e telhado de colégio desabam no Corredor da Vitória", em Salvador. O texto no site do jornal A TARDE inicia assim: "A chuva que atinge a capital baiana na manhã desta quarta-feira, 22, provocou o desabamento do muro e destelhamento do Colégio Estadual Odorico Tavares".
Fui chamado de "profeta" por causa desta notícia e do texto que escrevi em tão pouco espaço de tempo. Não se trata de "profetizar": basta prestar atenção a certos discursos e práticas, além de vivenciar o cotidiano da área educacional. É muito cômodo responsabilizar a chuva ou demais fenômenos da natureza pela falta de manutenção, investimentos e cuidado com as escolas, alunos, professores e funcionários. (Em tempo: felizmente não houve feridos no desabamento do telhado e muro do colégio citado na notícia) 


terça-feira, março 07, 2017

Excesso de trabalho e pouco viver


                                "Deve-se ganhar a vida amando-a." Henry David Thoreau

Há algum tempo circulou na imprensa a informação de que o prefeito de São Paulo, João Doria, dorme apenas 3 horas por noite. O empresário assegura que tal ritmo acontece há anos e é o modo que ele encontrou para manter-se produtivo.

As reações foram diversas – de admiração ao trabalhador incansável e também condenação a um ritmo insano que afeta também aos secretários municipais. No geral vi muitos elogios não apenas ao prefeito, mas para aqueles que dormem pouco e dedicam a maior parte do seu tempo para o trabalho. 

Recentemente deparei com a notícia de um publicitário nas Filipinas que morreu devido a complicações de pneumonia e mesmo doente foi trabalhar. A morte deste publicitário trouxe à tona históricos de profissionais que tiveram problemas com o excesso de trabalho – no Japão isso tem até um nome: karoshi.

As pessoas com esse perfil “trabalhador incansável” são admiradas e tomadas como ideal de profissionalismo, ao passo que pessoas com mais tempo livre são rotuladas com termos desagradáveis e até sarcásticos. Isso não é novo: no século XVI o teólogo reformador João Calvino já considerava o trabalho uma benção divina e um propósito de vida, enquanto a ociosidade era algo condenável, uma afronta a Deus. Obviamente não foi Calvino o criador desse sistema que explora a força de trabalho à exaustão (o sentido das ideias calvinistas sobre trabalho e ociosidade possuía outra conotação), mas tal ideia foi muito bem adaptada e usada pela burguesia e chegou aos nossos tempos em que funcionários sentem-se culpados em tirar férias – além da culpa, o medo de perder o emprego ou “perceberem” que as coisas na empresa funcionam bem sem eles.

Cada pessoa tem o seu ritmo produtivo seja para o trabalho, estudos e mesmo para o lazer. O que ocorre é que a imposição de um só ritmo e uniforme para todos gera angústia e frustração. Um dos maiores defensores do conceito do ócio criativo, o italiano Domenico de Masi, afirma: “assim que dispomos de uma hora livre a enchemos de tantos compromissos ou tarefas, que o tempo acaba sempre faltando”. Um artigo da antropóloga Miriam Goldenberg publicado na Folha de São Paulo demonstra bem o que De Masi quis dizer: a colunista apresenta o relato de sua rotina com inúmeras atividades e ela confessa que não consegue “ficar sem fazer nada” – ou fazer coisas consideradas improdutivas, como bater um papo.

Não conseguimos desacelerar e somos tomados de culpa quando não exercemos atividades consideras produtivas. A tecnologia ajuda a elevar tais sensações: com o celular e seus aplicativos para comunicação não há mais distinção entre o tempo livre e trabalho. Diretores de escola que recebem mensagens de coordenadores regionais às 2 da madrugada com algum pedido urgente de relatório ou coisa parecida; executivos que enviam mensagens às 4 da manhã para diretores solicitando documentos ou informações relacionadas à empresa; funcionários que nos feriados estão conectados e atentos aos grupos de trabalho. Tais atitudes, muito apreciadas por alguns, na verdade não são saudáveis para a saúde emocional.

Durante alguns anos eu trabalhei em regime de 60 horas semanais. Quem trabalha na área de Educação sabe o que isso. Reduzi o ritmo de trabalho não apenas porque adoeci, mas também porque entendi que estava abrindo mão de mim mesmo e de pessoas que eram importantes em minha vida. Quebrar ritmos, padrões, reduzir salário e adaptar-se não é tão simples, mas é necessário e vale a pena. Hoje não consigo imaginar minha vida sem pausas maiores para fazer atividades que eu gosto: uma corrida, desenhar, pintar aquarela, leitura, escrever, ouvir música ou simplesmente tirar alguns momentos para devanear à toa. E não carrego sentimento de culpa e improdutividade ao fazer tais coisas. 

Que cada um tenha seu ritmo e sinta-se bem com ele é uma coisa – não vou condenar quem trabalha 16 e até inimagináveis 18 horas por dia, quem sou eu para ditar como as pessoas devem viver suas vidas. Apenas que não queiram impor às outras pessoas os padrões (ou seus padrões) que consideram “tempo maior de trabalho = produtividade”. O equilíbrio faz-se necessário para uma vida saudável e de fato produtiva – e sem culpas. 

Referências: 
De Masi, Domenico. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
Burckhardt, Martin. Pequena história das grandes ideias: como a filosofia inventou nosso mundo. Tinta Negra Bazar Editorial: 2011.
Thoreau, Henry David. A desobediência civil. São Paulo: Penguim Classics Companhia das Letras, 2012. 
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