domingo, novembro 13, 2016

Axl Rose: gente como a gente.


Hello, mundo, inicio dos anos 90: o Guns n´ Roses percorria o planeta com a grandiosa e extravagante turnê “Use your Illusion”. Mesmo com o surgimento do grunge, do Nirvana e de mais de 1 trilhão de bandas que tentavam copiar o estilo e a sonoridade da banda de Kurt Cobain, o Guns continuava firme na MTV, nas rádios e nos shows lotados – Axl Rose, o temperamental vocalista, era ídolo não apenas por ser um ótimo frontman pelos palcos com sua postura encrenqueira (no rock isso conta pontos) e um carisma gigantesco, mas também uma espécie de sex symbol do rock, com suas bermudas coladas, danças sensuais entre uma música e outra, além de um rostinho um tanto angelical, com longa cabeleira loira envolta em bandana descolada - havia até quem o chamasse de "barbie do rock" disputando o posto com Jon Bon Jovi e Sebastian Bach

Por aí pelo mundo, ano de 2006: após um hiato e retorno meia boca no início do século (sem o guitarrista Slash e o baixista Duff), Axl Rose surge renovado por festivais pela Europa e Estados Unidos. Com uma trupe de músicos contratados e tentando concluir a bomba chamada “Chinese Democracy”, Rose está robusto (mas não gordo), ágil no palco e parece ter voltado aos bons tempos quanto à voz. No entanto, continua o mesmo esquisitão de sempre, como relata John Jeremiah Sullivan: “Axl Rose, que não lança um disco oficial faz treze anos e que durante esse período se transformou num personagem que lembra Howard Hughes – pedindo comida por telefone (...) fazendo aparições ocasionais e assustadoras em eventos esportivos e desfiles de moda, coisas assim – parecendo um pouco selvagem, um pouco perdido”. Tão selvagem que naquele mesmo ano mordeu a perna (!) de um segurança de hotel na Suécia e foi preso.

Rock in Rio, 2011: ninguém consegue acreditar que aquele sujeito no palco é Axl Rose. Gordo, roupas largas e chapéus enormes tentando esconder um rosto inchado, movimentos lentos e até desajeitados, a sua voz lembrava o desenho do Mickey Mouse e estava acompanhado por uma banda que se ao menos tecnicamente era ok, tinha carisma zero – três guitarristas tentando soar tal como Slash nas canções clássicas do grupo. Axl Rose, quem poderia imaginar, havia chegado ao fundo do poço.

Olá, mundo, 2016! Tinha tudo para dar errado: é anunciado o retorno da “formação clássica” do Guns n´Roses, ou parte dela – o guitarrista Slash (que ao contrário de Axl gravou ótimos álbuns nos últimos anos – com exceção do Velvet Revolver) estava de volta juntamente com o baixista Duff McKagan; como se não bastasse, o vocalista do AC/DC, Brian Johnson, não poderia prosseguir com a turnê de sua banda devido a problemas de saúde e quem iria substituí-lo? Quando o nome de Axl Rose foi anunciado, ninguém acreditou – e os fãs mais radicais do AC/DC torceram o nariz.

Em diversas mitologias existe a história de um pássaro chamado Fênix que é capaz de renascer das próprias cinzas. O que estamos assistindo em 2016 é um Axl Rose renascendo dos desastrosos últimos anos - e para melhor. O appetite for rock voltou e o vocalista, agora com 54 anos, não apenas retomava sua voz e o gosto pelos palcos, superando todas as expectativas negativas tanto no Guns n´ Roses quanto no surpreendente AC/DC, como também deixa transparecer algo que não víamos até então: o sujeito parecia feliz.

Não era mais um sex symbol inacessível cheio de não-me-toques e chiliques de artistas temperamentais. Axl Rose ostenta uma bela barriga de tiozão do churrasco, os cabelos não são mais aqueles de propaganda comercial de shampoo, se veste como um roqueiro de meia idade que não troca aquela camiseta preta bacana (todo mundo tem uma que se pudesse seria a segunda pele) e usa um monte de balangandãs que poderiam ser encontrados em quaisquer lojinhas da galeria do rock em São Paulo. Antes avesso a máquinas fotográficas, agora tira fotos com fãs e até toma um cafezinho com eles, se deixa filmar e em algumas entrevistas ele demonstra um bom humor invejável. E os atrasos são dentro dos limites toleráveis – coisa de 20 minutos, em média. Ou seja, é um Axl Rose gente como a gente (guardadas as devidas proporções) que agora sente a passagem do tempo e ao contrário do que aparentemente tentava fazer há alguns anos, simplesmente aceita. Quando nos aceitamos com nossas limitações, imperfeições e abandonamos certas ilusões ( a da juventude eterna, por exemplo), a vida flui com mais facilidade - adaptação é uma boa palavra. Para um artista da área do cinema, da TV e da música isso sempre é mais complicado, pois a imagem é um componente fundamental não apenas para seu público como também para conseguir trabalhos em um universo que impõe padrões em relação ao corpo que beiram a paranoia – daí a familiaridade com nomes estranhos de métodos e substâncias como toxina botulínica (o popular botox, usado pelo próprio Mr. Rose), ácido hialurônico, laser CO2 fracionado, carboxiterapia, etc.

O escritor e professor Affonso Romano de Sant´Anna escreveu que “o que atrapalha alguns maus envelhecedores é a desmesurada projeção que fizeram de si mesmos”. Talvez Axl Rose tenha caído na real e largado um belo “fuck off” para toda essa projeção que não apenas ele mas muitos ainda sustentavam sobre sua imagem – esqueçam o rostinho do final dos anos 80, as bermudas e shorts colados, o sex symbol: estes ficam nos clipes, nas fotos, na galeria de mitos. Agora temos o nosso tiozão do rock que berra ao seu público “you know where you are?” para iniciar a festa com os bons e atemporais clássicos, solos de guitarra, baladas para se cantar junto e muita energia no palco, como visto nos shows no Brasil.   

Até quando isso vai durar ninguém sabe. O negócio é aproveitar a boa fase do nosso tiozão do rock ao lado do cada vez melhor Slash, do centrado Duff McKagan e grande elenco, abrir uma cerveja e partir para a nostálgica Paradise City, onde a grama é verde e ali, sim, o tempo parece passar devagar.  

Referências:

Sant´Anna, Affonso Romano. Fizemos bem em resistir: crônicas selecionadas. Rio de Janeiro, Rocco, 1994.

Sullivan, John Jeremiah. Pulp Head: o outro lado da América. São Paulo, Companhia das Letras, 2013. 
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