quinta-feira, março 12, 2015

A sociedade do "cagando e andando"?


Tão aguardada quanto a lista dos aprovados no vestibular e a lista de Papai Noel, a relação dos políticos envolvidos na operação “Lava Jato” foi divulgada. A reação mais comum entre os acusados foi jurar inocência e surpresa perante a opinião pública, porém ninguém chamou mais a atenção do que o atual vice-governador da Bahia, o senhor João Leão, do Partido Progressista:

Botar meu nome numa zorra dessas? Não entendo. O que pode ser feito é esperar ser citado e me defender. Estou cagando e andando, no bom português, na cabeça desses cornos todos.”

Percebe-se que o vice-governador baiano, dono de refinado vocabulário, sabe escolher bem as palavras gentis para sua defesa. Na verdade ele expressa o que a maioria da classe política brasileira faz cotidianamente: está “cagando e andando” para mim, para você e para qualquer coisa que não seja de interesse pessoal ou dos comparsas partidários. O escritor Lima Barreto, autor do ótimo “Os Bruzundangas”, apresenta uma sátira política e social publicado em 1923 e que continua muito atual:

O cargo dá-lhe certos incômodos, mas muitas vantagens: não paga selo nas cartas, não paga bonde, trem, nem teatros, onde continua a quase não ir. O que o aborrece, sobretudo, são as audiências públicas – uma importunação para esse parente de São Luiz. Mais o amolam do que lhe dão fadiga. Ao sair de uma delas, diz à mulher: 
- Que povo aborrecido!
- Mas que tem você com o povo?” 

Voltando ao gentleman João Leão: em 2010 foi eleito deputado federal com mais de 200 mil votos. E os políticos citados na operação Lava-Jato, deputados e senadores, não chegaram ao Congresso sem passar pelas eleições – e alguns deles são velhos conhecidos e frequentadores assíduos das páginas de escândalos políticos, como o senhor Renan Calheiros. E com isso a pergunta é inevitável: será que não estamos “cagando e andando” também não apenas em relação à política, mas em algumas ações cotidianas que deveriam ser mais cidadãs? 

Lembro uma situação emblemática: com o carro parado no semáforo vermelho, vi o sujeito no veículo ao lado do meu jogar uma latinha de cerveja na rua. Com um tom mais agradável que eu pude encontrar, chamei a atenção do rapaz sobre descartar o lixo daquela maneira; com uma cara de poucos amigos, o sujeito olhou para mim e soltou a pérola: “Fique na sua!”. Duplamente equivocado, pensei: sabe-se lá quantas cervejas aquele rapaz consumiu e ainda assim estava dirigindo colocando em risco não apenas a própria vida como também a de outros motoristas e pedestres; e aquela latinha vai juntar-se a tantas outras jogadas na rua e entupirá bueiros – na primeira chuva mais forte veremos as consequências do “fique na sua”, um equivalente, neste caso, ao “estou cagando e andando” para a cidade, para a cidadania, para o meio ambiente, para outras pessoas.

Os exemplos são inúmeros, basta observarmos com atenção diversas situações onde o “cagando e andando” parece prevalecer na sociedade – desde jovens rapagões e moças malhados em academia estacionando seus veículos nas vagas destinadas para deficientes e idosos até juízes que deveriam zelar pelo cumprimento das leis e que fazem uso da “carteirada” e utilizam bens apreendidos pela Justiça de forma pessoal. 

O grande problema, nas palavras do professor Mário Sérgio Cortella, é que “estamos nos acostumando – com rapidez e sem resistência ativa – com alguns desvios que parecem fatais e inexoravelmente presentes, como se fizessem ‘parte da vida’: violência, desemprego, fome, corrupção e outros.”. Ficamos indignados – e com razão - pelas grandes corrupções em que políticos e empresários estão envolvidos, porém muitos de nós estamos “cagando e andando” para as chamadas “pequenas corrupções” cotidianas e considerando as mesmas como “normais”. 

São as contradições que infelizmente não tornam muitos de nós tão diferentes dos políticos que foram eleitos e que estão literalmente “cagando e andando” para a sociedade. 

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