segunda-feira, dezembro 22, 2014

Uma carta ao Papai Noel.


Querido Papai Noel,

há quanto tempo não escrevo ao bom velhinho! Sei que não tenho sido um bom menino ao longo destes anos todos, principalmente depois que cheguei àquela fase sem graça chamada “adulta”, mas mesmo assim resolvi escrever (ou melhor, digitar) algumas palavrinhas e, claro, fazer um pedido.

Certo, eu andei rebelde por muito tempo duvidando de sua existência e reduzindo sua figura a uma estratégia de marketing de uma conhecida marca de refrigerante e, mais ainda, ao consumismo desenfreado nesta época do ano. Não é culpa sua, querido Nicolau, se trocaram sua roupa verde por uma roupa vermelha. E já escrevi tanta coisa sobre o natal que o tema parece esgotado, porém há uma coisa que eu gostaria de contar e também fazer um pedido.

Bem, além da história do nascimento de Jesus – e aqui, independente da fé e crenças religiosas, devo dizer que é uma bela história e uma personalidade fascinante – nesta época do ano eu gosto de relembrar da maravilhosa obra de Charles Dickens, “Um conto de natal”. Todo mundo, até mesmo as suas renas e duendes, já conhece a história do sovina e rabugento sr. Scrooge, que recebeu a visita de três espíritos na véspera do natal e repensa toda a sua trajetória de vida até então. Essa história é tão bonita que já foi adaptada para cinema, teatro, desenho animado, história em quadrinhos e a criação do Tio Patinhas encontrou inspiração no velho Ebenezer Scrooge.

Não há época de natal em que eu não releia esse conto de Dickens ou até assista alguma reprise de filme adaptado contando a história de Scrooge. Uma passagem que eu gosto muito no livro é quando o velho Ebenezer recebeu a visita do segundo espírito, um gigante que se apresentou como o “Espírito do Natal Presente” e segurava “uma tocha bem estranha”- mas era um objeto bem especial, “porque nas vezes em que algumas pessoas discutiram, só por terem se esbarrado, ele lançou sobre elas algumas poucas gotas e o bom humor delas imediatamente voltou, a ponto de reconhecerem que era mesmo uma vergonha brigar no dia de natal”.

Fale a verdade, querido Nicolau: o gigante era você mesmo, não é? Sim, pois segundo o conto, você usava um largo roupão verde-escuro com acabamento branco e não tinha dificuldade nenhuma ao entrar nos ambientes – fosse por uma janela ou chaminé. Creio que não ficou chateado com Dickens por revelar seu segredo, mas isso não importa: eu gostaria de fazer um pedido, embora não seja merecedor por alguns comportamentos ruins.

O meu pedido é simples: será que essa tocha não poderia circular pelo mundo em um período do tipo o ano inteiro? Sei que o senhor é muito ocupado, querido Nicolau, mas sei também que muitos duendes o ajudam bastante – espero que os duendes tenham registro em carteira e recebam todos os benefícios trabalhistas, certo? Desculpe, voltando ao que interessa: eu acho que o mundo precisa diariamente das gotas desta tocha e não apenas em um breve período natalino. Eu sei que somos ocupados demais, que não largamos o celular, que colocamos muitas vezes o trabalho em primeiro lugar, que temos muitas vezes o coração endurecido e que todos nós temos um pouco de Marley, o sócio de Scrooge, reconhecendo “que não há remorso que pague as oportunidades perdidas na vida”.

Sei de tudo isso, Papai Noel, e também desconfio de sua provável resposta: os responsáveis por lembrar esse espírito e sustentar as gotas durante o ano inteiro somos nós mesmos. E tem razão. E acho que muita gente consegue entender e sustentá-las durante muitos dias do ano; creio, porém, que um reforço seria muito bem vindo, sobretudo aos corações mais duros, não acha? 

Não vou mais tomar o seu tempo, sei que está muito ocupado nesta época. Fica aí registrado o meu pedido (desconsidere o bilhetinho anexo pedindo “A revolução dos bichos”, do Orwell,mas ficaria muito feliz se o encontrasse em minha modesta árvore de natal)  e torcendo para que esta mensagem chegue rapidamente aí na Lapônia. Um grande abraço e Feliz Natal!

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Pessoas invasivas


“Entre as recordações de cada pessoa, há coisas que ela não conta para qualquer um, somente para os amigos.” Dostoiévski

Não é difícil reconhecer uma pessoa invasiva e é muito comum encontrar pessoas assim no dia a dia. O escritor Charles Bukowski, em seu estilo direto e sem papas na língua, relatou que teve “algumas experiências terríveis abrindo aquela porta [de casa]” e passa o sua receita: “a gente tem que ser um pouco duro, senão eles ficam aporrinhando”.

Exageros do velho Buk à parte, o fato é que todos nós temos uma espécie de “zona de territorialidade”, ou seja, um espaço do qual é só nosso e não permitimos que outras pessoas entrem – ou somente damos a chave àqueles em que confiamos plenamente. Pessoas reservadas e discretas zelam muito pela manutenção da privacidade e quando tal comportamento é desrespeitado por pessoas efusivas e que forçam a barra para uma intimidade inexistente, isso é uma verdadeira violência para quem cuida de sua discrição. 

É bom não confundir este espaço reservado com a misantropia (aversão às pessoas) ou mesmo a solidão. Quando alguém se sente invadido em sua zona de territorialidade e reage de alguma forma (seja retraindo ou falando de maneira sincera que não gostou da atitude do “invasor”) é imediatamente rotulado como antissocial e considerado “pra baixo” - ou até mesmo “fechada”. O que ocorre é cada pessoa tem o seu ritmo e comportamento e isso deveria ser compreendido e respeitado.

Evidentemente que exageros são perigosos, conforme alerta o psicólogo Walter Riso: “uma territorialidade exagerada leva à paranoia e, se é minúscula, à falta de assertividade.” Como sempre, o equilíbrio é o melhor caminho para não deixar que ocupem os espaços que tanto cuidamos em preservar e nem fechar totalmente as portas com posturas mais rígidas. A partir de posturas mais inflexíveis podemos até perder boas oportunidades para se conhecer pessoas interessantes; no entanto, a falta de assertividade pode levar à perda do espaço e mesmo da intimidade – e pode se tornar um grande problema quando o “invasor” se instala de maneira inconveniente e oportunista.

Não se trata de egoísmo. Estamos falando também sobre estabelecer limites para certas posturas que nos são desconfortáveis – e isso pode vir tanto de colegas de trabalho, parceiras (os), vizinhos e até mesmo parentes próximos. E a intimidade, que está incluída neste espaço limitado, “é essencial para o equilíbrio psicológico de qualquer ser humano”, nas palavras do psicólogo e educador Yves de La Taille, que complementa: “ele precisa controlar o acesso que as pessoas têm à sua intimidade, ao seu corpo, às suas ideias, aos lugares onde vive e assim por diante”. 

É bem verdade que requerer o direito à intimidade e delimitar zona de territorialidade nestes tempos de redes sociais, smartphones, câmeras de vigilância por todos os lados (um pesadelo orwelliano) e posturas exibicionistas/ narcisistas pode soar como algo até um tanto ingênuo; no entanto é preciso manter a assertividade e resguardar o(s) espaço(s) em que é possível ficar “sozinho com o universo inteiro”, nas palavras de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).
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