quinta-feira, maio 08, 2014

O espírito da manada.

Uma amiga gentilmente me enviou um texto muito interessante (“o tempo é um rio que corre”) da escritora Lya Luft, publicado na revista VEJA no mês de Abril. A escritora fala do seu novo livro e tece considerações interessantes sobre o tempo e a escrita, mas um trecho em especial chamou a atenção e o destaco:

Se conseguirmos escapar ao espírito da manada que nos queria todos conservados eternamente no formol da utilidade, as águas – que não param quando dormimos, usamos o computador, comemos o hambúrguer, choramos no escuro ou cantamos baixinho porque nos sentimos bem – poderão nos levar a uma viagem instigante.”

O termo “espírito da manada” é muito interessante. Outros escritores, em épocas diferentes, já se referiram a tal espírito. Sêneca, na Roma antiga, escreveu que “nada é pior do que nos acomodarmos ao clamor da maioria, convencidos de que o melhor é aquilo a que todos se submetem”. Séculos depois foi a vez de Hermann Hesse: “O que hoje existe não é comunidade: é simplesmente o rebanho”; alguns anos depois Charles Bukowski afirmou que as pessoas “esquecem logo como pensar, deixam que os outros pensem por elas”.

Quantas vezes deixamos de fazer coisas ou suprimimos alguns desejos e vontades com receio de que possa “parecer estranho”? O pensamento que logo surge na mente é “o que os outros vão pensar?”. Esta busca por aprovação externa é natural, afinal todos apreciam o reconhecimento a um bom trabalho realizado ou outro feito – tem a ver com “desejo de apoio social”, nas palavras de Bauman. O problema surge quando a necessidade de tal aprovação torna-se um imperativo e nos anulamos como indivíduos – experimentem pensar ou agir diferente dos padrões de comportamento aos quais fomos condicionados desde a infância: seremos rotulados com diversos termos, alguns nada lisonjeiros.  E desta forma, buscando aprovação, cedemos e acabamos seguindo a “manada", permanecendo na zona de conforto de pertencer à maioria. “Às vezes, te consideras por demais esquisito e te reprovas por seguires caminhos diversos dos da maioria. Deixa-te disso.”, eis o que nos aconselha Hermann Hesse em seu ótimo “Demian”.

É claro que algumas opiniões têm peso diferente. Há pessoas em nossas vidas que são confiáveis e suas aprovações/reprovações a alguns de nossos atos e pensamentos são representativos e importantes em determinados momentos.  Cabe avaliarmos o peso que daremos a certas opiniões e mesmo para regras impostas até de modo “inconsciente” pela massa, pela galera. Por isso é fundamental  desenvolver autonomia e segurança necessárias para que não nos acomodemos ao “clamor da maioria” de forma que fiquemos paralisados, com medo da reprovação ao que sentimos, desejamos e queremos viver de forma saudável. 

Difícil não lembrar a conhecida fábula “O velho, o menino e a mulinha”, contada por Monteiro Lobato e da citação de William Shakespeare feita por Dona Benta: “E isto acima de tudo: sê fiel a ti mesmo”.  Remar contra a maré, ir contra o senso comum da manada pode ser um processo realmente trabalhoso, porém trata-se de afirmar a identidade e reconhecer o próprio valor. Fernando Pessoa, com seu heterônimo Alberto Caeiro, nos brinda com suas sábias e encorajadoras palavras:

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, 
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, 
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras”.
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