terça-feira, março 11, 2014

Criança tem que brincar!


Com o seu peculiar bom humor, o escritor Luís Fernando Veríssimo é o autor do conto
“a bola”, que narra sobre um garoto que ganha uma bola de presente do pai e não sabe como  brincar com ela – o menino procura por botões, comandos e até por um manual de instruções para saber como utilizar o brinquedo. 

Este divertido conto (ou crônica) de Veríssimo é encontrado no volume “Comédias para se ler na escola”, de 2001. Apesar do garoto da história ainda brincar com um videogame, o fato é que as nossas crianças estão brincando cada vez menos. Em 2007 uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos revelou que parte considerável do tempo das crianças é ocupada por diversas atividades que merecem até agenda de horários – e os pais acham que quanto mais cedo as crianças estarem “preparadas para o futuro competitivo”, melhor. Não é à toa que algumas escolas acrescentam em suas grades curriculares disciplinas como empreendedorismo e educação financeira para crianças a partir dos três anos de idade

Evidente que os pais querem o melhor para os seus filhos e há a preocupação com o futuro em um mundo cada vez mais competitivo no mercado de trabalho. No entanto,
acelerar etapas do desenvolvimento infantil não é algo interessante para o futuro destas crianças.  Uma agenda lotada de atividades leva ao estresse e o excesso de expectativas dos pais pode gerar frustração e ansiedade nos pequenos. Infelizmente há pais que consideram o ato de brincar como “perda de tempo”, o que não é verdade: quando brinca, a criança desenvolve diversas habilidades - dentre elas, habilidades cognitivas, motoras, afetivas e sociais.  A imaginação e a criatividade entram em cena, contribuindo para o desenvolvimento em várias áreas – linguagem, interação, ética, etc. Notemos: o ato de brincar deve ser espontâneo, e não espremido em um espaço curto na agenda com data e horários determinados. 

É bem verdade que o crescimento desordenado nas grandes cidades – e com todos os problemas oriundos pela falta de planejamento urbano e de políticas públicas para lazer e esporte - tirou espaços que eram utilizados para as brincadeiras das crianças, como praças, campos e parques; a vida moderna na qual um dia de 24 horas parece ser insuficiente para o volume de atividades, também compromete o tempo que os pais deveriam passar com os filhos. No entanto, que tal organizar o tempo e rever algumas ações? Segundo pesquisa do Datafolha em 2012, as crianças ficam muito felizes quando estão com os pais e quando podem brincar. E não é preciso brinquedos avançados tecnologicamente – quem nunca soube de uma criança que preferiu brincar com a caixa do presente que ganhou? Brincadeiras simples e criativas fazem sucesso entre elas. 

Philippe Ariès, em seus estudos sobre a infância e família, nos diz que as crianças na Idade Média eram vistas como “adultos em miniatura” e não havia uma distinção clara entre o mundo infantil e o mundo adulto. Parece algo distante de nossa realidade, mas em pleno século XXI ainda há quem tente “acelerar a infância”: sutiãs com bojo (enchimento) para meninas a partir dos 6 anos e até mesmo crianças em propagandas de lingerie infantil posam como adultos. É preciso tomar muito cuidado com certas representações.  

Brincar é um direito das crianças e o universo infantil deve ser respeitado e valorizado em suas etapas quanto ao desenvolvimento. Lembremos das palavras do poeta Carlos Drummond de Andrade: “brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo”.      

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