terça-feira, dezembro 31, 2013

Para um ano novo de paz!

Imagem: "How the change the world", de Nathanael Lark. 

Às vésperas do natal eu fiz uma pequena viagem para o interior a fim de passar os festejos com a família. Como sempre acontece neste período, a rodovia apresentava tráfego intenso e em um trecho de pouco mais de 100 km de estrada, deparei com dois acidentes envolvendo automóveis – e em um daqueles acidentes houve vítimas fatais.
 
Enquanto seguia viagem pensei nos familiares daquelas pessoas que perderam a vida – e não apenas naquele acidente, mas em tantos outros que acontecem nas estradas principalmente nos feriados prolongados. Pessoas que viajam para celebrar e rever os parentes e os amigos, passar momentos especiais próximos aos mais queridos. Obviamente há vários fatores que podem ocasionar um acidente: uma falha mecânica no veículo, um buraco ou mesmo um animal atravessando a pista; mas de acordo com os dados da Polícia Rodoviária Federal e concessionárias que administram rodovias, a maioria dos acidentes fatais nas estradas acontece por imprudência dos motoristas – desde excesso de velocidade a ultrapassagens perigosas. 

Até chegar em segurança ao meu destino pude ver uma série de imprudências de alguns motoristas, sobretudo nas ultrapassagens. Carros fazendo ultrapassagens em curvas fechadas, colando no veículo da frente, realizando passagens pelo acostamento, enfim, um festival de abusos em altíssima velocidade. E daqui a poucas horas na ceia natalina e na virada do ano aquelas pessoas, em seus cumprimentos aos parentes e amigos, provavelmente desejarão “muita paz” para todos. 
    
E este é o pedido comum neste período, a “paz”; mas como é possível alcançar a paz se as pessoas não conseguem se desarmar? Não estou falando do desarmamento das armas de fogo (o que também seria muito bom), mas sim do espírito violento: o modo agressivo e “competitivo” de dirigir, por exemplo, não ajuda neste processo de busca pela paz. E tantos outros comportamentos agressivos até mesmo diante de situações banais em nosso cotidiano também não contribuem para que a paz se faça presente. É difícil não ficar surpreso ao ler sobre notícias de crimes que poderiam ser evitados apenas com um pouco de bom senso. 
    
Mais do que palavras pedindo por paz, é preciso agir de forma pacífica e repensar alguns atos. Quem vive nas grandes e médias cidades brasileiras sabe o quão estressante é o dia a dia e por isso mesmo em alguns momentos ficamos irritados, o horário “aperta” e não raramente surgem frustrações; mas é justamente nestes momentos que é bom seguir o velho conselho/clichê: pare, respire fundo e reflita se vale a pena tal comportamento. Não se trata de resignação e tampouco que as pessoas se tornem monges budistas: apenas façamos uma pausa para refletir sobre comportamentos praticados em 2013 que magoaram, desrespeitaram e até colocaram em risco a vida de outras pessoas  - e não esqueçamos que por vezes praticamos atos que remetem à "violência psicológica" e “violência simbólica”, tão cruéis e que machucam a alma. 
    
A frase “seja a mudança que você quer ver no mundo” (atribuída erroneamente a Mahatma Gandhi) é bastante emblemática para mais um ano que se inicia. Que 2014 seja o ano em que finalmente conseguiremos controlar e desarmar o espírito violento e as palavras pedindo “paz e harmonia” tão repetidas na virada de ano possam ser  colocadas em práticas através de atos ao longo deste ano que está começando.    

terça-feira, dezembro 03, 2013

O vazio do consumismo

Algum tipo de sofrimento é um efeito colateral da vida humana numa sociedade de consumo. Numa sociedade assim, os caminhos são muitos e dispersos, mas todos eles levam às lojas. Qualquer busca existencial, e principalmente a busca da dignidade, da autoestima e da felicidade, exige a mediação do mercado. Zygmunt Bauman

As cenas eram impressionantes: pessoas formando longas filas e parecendo não se importarem com a baixa temperatura na cidade enquanto aguardavam as portas da loja abrirem; em outra imagem, pessoas se acotovelam e carregam como se fosse um tesouro as caixas de produtos em meio a um mar de gente ávida por descontos e promoções estampadas nos cartazes da loja e incentivadas pelo serviço de som; e, por fim, a cena mais incrível: pessoas brigando por um moderno aparelho de televisão que supostamente estaria com um preço bem mais baixo do que o normal.

Estas imagens, dos Estados Unidos e do Brasil, foram exibidas em vários telejornais em suas matérias sobre a tal “Black Friday”, um evento que teve origem na terra do Tio Sam para incentivar ainda mais o consumismo com descontos nos preços de vários itens, inclusive eletroeletrônicos – e que dá início às chamadas “compras de natal”.

Parece inacreditável, mas durante essa celebração do consumismo e do mercado acontecem até mortes e acidentes envolvendo consumidores: o site blackfridaydeathcount.com  registra desde 2006 diversos incidentes ocorridos durante a Black Friday – de pessoas pisoteadas enquanto tentavam chegar às prateleiras com “ofertas tentadoras” e até mesmo mortes, como um motorista que dormiu ao volante ao voltar para casa após passar horas na fila para fazer compras.

Evidente que todos somos consumidores, em maior ou menor escala. Precisamos de alimentos, roupas, transporte, abrigo, energia e alguns outros bens essenciais e fundamentais (dinheiro, por exemplo) para sobrevivermos. No entanto, o insaciável “deus mercado” eleva à categoria “essencial” diversos produtos atribuindo a eles sentimentos abstratos como felicidade, paixão e até amor. Há pessoas que viajam durante 30 horas para outro país apenas para comprarem um novo smartphone cuja diferença do aparelho anterior é mínima e, provavelmente, possui as mesmas funcionalidades. Quão essencial para a vida daquelas pessoas é este aparelho? A euforia, a satisfação e até a “felicidade” da posse do novo produto dura pouquíssimo tempo – até o lançamento do próximo modelo “revolucionário”.  

Em todas essas manifestações consumistas existe na verdade o desejo de status. Ter o carro mais possante pode não adiantar muita coisa em uma cidade cheia de buracos nas ruas e com péssima mobilidade urbana em vias congestionadas, mas isso não importa muito; o smartphone mais moderno, as roupas de grife mais caras, sapatos, relógios, a TV gigantesca no centro da sala... tudo isso “agrega valor” (como dizem alguns descolados) e são símbolos de distinção. É certo que as pessoas utilizam o seu dinheiro da maneira como acharem melhor e há alguns recursos mais modernos que são realmente úteis, como um GPS no automóvel ou no celular; a história fica complicada quando se acredita que conceitos como sucesso e fracasso, autoestima e até felicidade estejam ligados exclusivamente ao consumismo de produtos muitas vezes (e até mesmo na maioria dos casos) supérfluos. E o que é feito com o supérfluo algum tempo depois? É descartado, pois logo torna-se "velho e ultrapassado". Este modelo de “descarte” também vem sendo estendido para as relações afetivas e até mesmo familiares. Não é um modelo nada interessante a ser seguido e nem estimulado, principalmente quando se chega ao estágio de "coisificar" pessoas e "humanizar" as coisas

E assim retornamos ao século XVII, mais precisamente na França, onde encontramos uma máxima do Duque de La Rochefoucauld que é bastante representativa para nossos tempos de consumismo onde pessoas até morrem em busca de produtos que conferirão algum status e distinção: “O mundo recompensa com mais frequência os sinais de mérito do que o próprio mérito.”. Na sociedade de consumo e construção de personalidades, faz muito sentido.  
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...