terça-feira, dezembro 31, 2013

Para um ano novo de paz!

Imagem: "How the change the world", de Nathanael Lark. 

Às vésperas do natal eu fiz uma pequena viagem para o interior a fim de passar os festejos com a família. Como sempre acontece neste período, a rodovia apresentava tráfego intenso e em um trecho de pouco mais de 100 km de estrada, deparei com dois acidentes envolvendo automóveis – e em um daqueles acidentes houve vítimas fatais.
 
Enquanto seguia viagem pensei nos familiares daquelas pessoas que perderam a vida – e não apenas naquele acidente, mas em tantos outros que acontecem nas estradas principalmente nos feriados prolongados. Pessoas que viajam para celebrar e rever os parentes e os amigos, passar momentos especiais próximos aos mais queridos. Obviamente há vários fatores que podem ocasionar um acidente: uma falha mecânica no veículo, um buraco ou mesmo um animal atravessando a pista; mas de acordo com os dados da Polícia Rodoviária Federal e concessionárias que administram rodovias, a maioria dos acidentes fatais nas estradas acontece por imprudência dos motoristas – desde excesso de velocidade a ultrapassagens perigosas. 

Até chegar em segurança ao meu destino pude ver uma série de imprudências de alguns motoristas, sobretudo nas ultrapassagens. Carros fazendo ultrapassagens em curvas fechadas, colando no veículo da frente, realizando passagens pelo acostamento, enfim, um festival de abusos em altíssima velocidade. E daqui a poucas horas na ceia natalina e na virada do ano aquelas pessoas, em seus cumprimentos aos parentes e amigos, provavelmente desejarão “muita paz” para todos. 
    
E este é o pedido comum neste período, a “paz”; mas como é possível alcançar a paz se as pessoas não conseguem se desarmar? Não estou falando do desarmamento das armas de fogo (o que também seria muito bom), mas sim do espírito violento: o modo agressivo e “competitivo” de dirigir, por exemplo, não ajuda neste processo de busca pela paz. E tantos outros comportamentos agressivos até mesmo diante de situações banais em nosso cotidiano também não contribuem para que a paz se faça presente. É difícil não ficar surpreso ao ler sobre notícias de crimes que poderiam ser evitados apenas com um pouco de bom senso. 
    
Mais do que palavras pedindo por paz, é preciso agir de forma pacífica e repensar alguns atos. Quem vive nas grandes e médias cidades brasileiras sabe o quão estressante é o dia a dia e por isso mesmo em alguns momentos ficamos irritados, o horário “aperta” e não raramente surgem frustrações; mas é justamente nestes momentos que é bom seguir o velho conselho/clichê: pare, respire fundo e reflita se vale a pena tal comportamento. Não se trata de resignação e tampouco que as pessoas se tornem monges budistas: apenas façamos uma pausa para refletir sobre comportamentos praticados em 2013 que magoaram, desrespeitaram e até colocaram em risco a vida de outras pessoas  - e não esqueçamos que por vezes praticamos atos que remetem à "violência psicológica" e “violência simbólica”, tão cruéis e que machucam a alma. 
    
A frase “seja a mudança que você quer ver no mundo” (atribuída erroneamente a Mahatma Gandhi) é bastante emblemática para mais um ano que se inicia. Que 2014 seja o ano em que finalmente conseguiremos controlar e desarmar o espírito violento e as palavras pedindo “paz e harmonia” tão repetidas na virada de ano possam ser  colocadas em práticas através de atos ao longo deste ano que está começando.    

terça-feira, dezembro 03, 2013

O vazio do consumismo

Algum tipo de sofrimento é um efeito colateral da vida humana numa sociedade de consumo. Numa sociedade assim, os caminhos são muitos e dispersos, mas todos eles levam às lojas. Qualquer busca existencial, e principalmente a busca da dignidade, da autoestima e da felicidade, exige a mediação do mercado. Zygmunt Bauman

As cenas eram impressionantes: pessoas formando longas filas e parecendo não se importarem com a baixa temperatura na cidade enquanto aguardavam as portas da loja abrirem; em outra imagem, pessoas se acotovelam e carregam como se fosse um tesouro as caixas de produtos em meio a um mar de gente ávida por descontos e promoções estampadas nos cartazes da loja e incentivadas pelo serviço de som; e, por fim, a cena mais incrível: pessoas brigando por um moderno aparelho de televisão que supostamente estaria com um preço bem mais baixo do que o normal.

Estas imagens, dos Estados Unidos e do Brasil, foram exibidas em vários telejornais em suas matérias sobre a tal “Black Friday”, um evento que teve origem na terra do Tio Sam para incentivar ainda mais o consumismo com descontos nos preços de vários itens, inclusive eletroeletrônicos – e que dá início às chamadas “compras de natal”.

Parece inacreditável, mas durante essa celebração do consumismo e do mercado acontecem até mortes e acidentes envolvendo consumidores: o site blackfridaydeathcount.com  registra desde 2006 diversos incidentes ocorridos durante a Black Friday – de pessoas pisoteadas enquanto tentavam chegar às prateleiras com “ofertas tentadoras” e até mesmo mortes, como um motorista que dormiu ao volante ao voltar para casa após passar horas na fila para fazer compras.

Evidente que todos somos consumidores, em maior ou menor escala. Precisamos de alimentos, roupas, transporte, abrigo, energia e alguns outros bens essenciais e fundamentais (dinheiro, por exemplo) para sobrevivermos. No entanto, o insaciável “deus mercado” eleva à categoria “essencial” diversos produtos atribuindo a eles sentimentos abstratos como felicidade, paixão e até amor. Há pessoas que viajam durante 30 horas para outro país apenas para comprarem um novo smartphone cuja diferença do aparelho anterior é mínima e, provavelmente, possui as mesmas funcionalidades. Quão essencial para a vida daquelas pessoas é este aparelho? A euforia, a satisfação e até a “felicidade” da posse do novo produto dura pouquíssimo tempo – até o lançamento do próximo modelo “revolucionário”.  

Em todas essas manifestações consumistas existe na verdade o desejo de status. Ter o carro mais possante pode não adiantar muita coisa em uma cidade cheia de buracos nas ruas e com péssima mobilidade urbana em vias congestionadas, mas isso não importa muito; o smartphone mais moderno, as roupas de grife mais caras, sapatos, relógios, a TV gigantesca no centro da sala... tudo isso “agrega valor” (como dizem alguns descolados) e são símbolos de distinção. É certo que as pessoas utilizam o seu dinheiro da maneira como acharem melhor e há alguns recursos mais modernos que são realmente úteis, como um GPS no automóvel ou no celular; a história fica complicada quando se acredita que conceitos como sucesso e fracasso, autoestima e até felicidade estejam ligados exclusivamente ao consumismo de produtos muitas vezes (e até mesmo na maioria dos casos) supérfluos. E o que é feito com o supérfluo algum tempo depois? É descartado, pois logo torna-se "velho e ultrapassado". Este modelo de “descarte” também vem sendo estendido para as relações afetivas e até mesmo familiares. Não é um modelo nada interessante a ser seguido e nem estimulado, principalmente quando se chega ao estágio de "coisificar" pessoas e "humanizar" as coisas

E assim retornamos ao século XVII, mais precisamente na França, onde encontramos uma máxima do Duque de La Rochefoucauld que é bastante representativa para nossos tempos de consumismo onde pessoas até morrem em busca de produtos que conferirão algum status e distinção: “O mundo recompensa com mais frequência os sinais de mérito do que o próprio mérito.”. Na sociedade de consumo e construção de personalidades, faz muito sentido.  

terça-feira, novembro 12, 2013

Qual superpoder você gostaria de ter?



Quem nunca brincou de super-herói na infância? Personagens como Super-Homem, Homem-Aranha, Mulher Maravilha, Thor e tantos outros heróis com superpoderes lutando contra as forças do mal e a injustiça sempre fizeram parte de nosso imaginário. 

Este imaginário não é algo relacionado apenas à cultura pop que transformou bandas de rock, artistas de cinema e personagens histórias em quadrinhos em ícones, sobretudo a partir da década de 60 do século XX – embora o surgimento dos super-heróis dos quadrinhos e sua popularidade tenha origem nas décadas de 20 e 30 do século passado. Ao longo da História podemos acompanhar diversos modelos heroicos em várias culturas. Dentre os mais famosos, os gregos também tinham os seus deuses e heróis com poderes surpreendentes: Zeus, por exemplo, além do poder sobre os raios e trovões, ainda poderia tomar a forma que quisesse – e amante insaciável que era, tirou proveito deste poder para manter relações com deusas e mortais. 

E durante uma conversa sobre os super-heróis das histórias em quadrinhos e seus poderes, a pergunta que surgiu na roda de amigos foi a já clássica “qual poder você gostaria de possuir?”. Um gostaria de ter a supervelocidade do “The Flash” para chegar rapidamente aos compromissos – mas será que o super-herói conseguiria escapar dos congestionamentos das grandes cidades? Outro gostaria de voar como o Super-Homem, um tipo de poder que é quase unanimidade entre aqueles que não têm medo de altura – e traria problemas para os controladores de tráfego aéreo. E, claro, outro superpoder que é quase unanimidade: visão de “raios X”, o que seria muito apreciada por adolescentes apaixonados pela vizinha (e não apenas os adolescentes, sejamos justos) e também pela Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos e Barack Obama.

Quando chegou a minha vez, não soube o que responder. Pensei como seria legal ter o poder da Tempestade, dos X-Men, a personagem que atua sobre o tempo: levaria chuva para o sertão e os finais de semana seriam ensolarados. Mas isso poderia criar um desequilíbrio ecológico se eu não utilizasse tal poder com sabedoria – ou, como diria Ben Parker, tio de Peter Parker/Homem-Aranha, “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. Eis um bom conselho sobre o qual muitos políticos poderiam prestar atenção.   

Fiquei na dúvida quanto ao superpoder, mas eu sempre mantive simpatia pelas “identidades secretas”, como no caso do próprio Peter Parker: o jovem estudante tímido que precisava de fato equilibrar-se no dia a dia com as contas a pagar, com as notas e trabalhos da faculdade, com a preocupação da tia May e, claro, problemas amorosos – e isso sem falar em um patrão esquentadinho. Não é à toa que o “amigão da vizinhança” é uma das personagens mais queridas das histórias em quadrinhos, porque ele é igual a mim, a você e a todos nós com os problemas cotidianos. É claro que um “sentido de aranha” para alertar o perigo ajuda bastante, mas não tenho notícias se isso ajudava Peter Parker a lidar com a TPM de Mary Jane. 

As identidades secretas nos fazem lembrar a humanidade dos heróis por trás das fantasias, das máscaras e dos superpoderes.  Eles também erram, têm suas limitações e nem sempre é possível utilizar seus poderes para resolver alguns problemas.  E justamente por não ser dotado de tais superpoderes dos deuses e super- heróis, o homem teve que recorrer às suas habilidades e competências para superar as adversidades, garantindo sua sobrevivência e evolução tecnológica. E, clichê dos clichês, temos muitos heróis anônimos no dia a dia sem capa, sem máscaras ou uniformes estilosos – e estes heróis não têm superforça ou um anel de poder, mas também não se conformam com injustiças e cultivam virtudes que estão presentes nos super-heróis dos quadrinhos, como ética e coletividade (lembre-se de grupos como X-Men e Quarteto Fantástico trabalhando em grupo e na divisão de tarefas).   

A discussão sobre os poderes continuou e alguém sugeriu que “ler a mente” de outras pessoas poderia ser legal. Não sei, talvez seja melhor não saber o que se passa na cabeça de muita gente, apesar da enorme curiosidade em relação a alguns. O melhor é ficar com as minhas “limitações” de ser humano sem superpoderes magníficos, mas utilizando algumas habilidades e contando com o poder das (aparentes) pequenas intervenções para, quem sabe, ser o herói na vida de alguém – e o melhor de tudo: sem precisar usar um cuecão vermelho sobre um vistoso uniforme collant azul. 

segunda-feira, outubro 14, 2013

O trânsito e a nossa desumanização


“É no prolongamento da potência da máquina que se encontra, em nossa sociedade, a potência humana perdida. É nele que se livra daquele ser coisificado, castrado, diminuído, constrangido a todo instante. Em última análise, trata-se da busca do orgasmo perdido
”. 
                                                     Ned Ludd, "Apocalipse motorizado". 

O que parecia ser mais uma das centenas de discussões que acontecem diariamente no trânsito, se transformou em assassinato: a médica oftalmologista, ofendida por algo que o motoqueiro e sua carona fizeram, acelerou o seu vistoso veículo em perseguição ao casal na moto até atingi-los. O impacto levou o casal à morte e a médica perdeu o controle do veículo, colidindo em um muro. 

Na fria realidade dos números, o jovem casal da moto engrossará as estatísticas da tragédia que é o trânsito brasileiro: anualmente, mais de 40 mil pessoas perdem a vida nos chamados “acidentes de trânsito” - uma morte a cada 11minutos. A guerra civil na Síria já matou mais de 100 mil pessoas desde o início dos conflitos, em 2011. 

A quantidade de vítimas fatais no trânsito brasileiro assemelha-se aos números de guerra porque é de fato uma guerra: a disputa por espaço nas vias tomadas por carros, o desrespeito às leis mais básicas do Código Brasileiro de Trânsito, a falta de bom senso e de educação, a fiscalização frouxa e comportamentos agressivos ao volante transformam nossas ruas e avenidas em verdadeiros campos de batalha.

O brasileiro, “apaixonado por carro”, não admite “ficar para trás” ou levar desaforo para casa. “No Brasil, quem cede igualitariamente a vez está errado e é sempre admoestado por buzinadas e xingamentos de todos os motoristas”, afirma o antropólogo Roberto DaMatta. O motorista que experimenta conduzir o seu veículo de forma tranquila e seguindo rigorosamente os sinais e as leis de trânsito será considerado o “trouxa” ou o “lerdo”. O Código de Trânsito dá lugar a uma espécie de “código das ruas”, onde prevalece o salve-se quem puder e cada um por si.   

Além da questão social do carro ser considerado um símbolo de autonomia, poder e até mesmo sedução – vide as propagandas exibidas na televisão e internet -, existe um aspecto que é muito bem retratado em um famoso desenho de Walt Disney, o sr. Walker (Pateta): um pacato cidadão que distribui gentilezas e sorrisos para a vizinhança se transforma em um “monstrorista” ao assumir o volante de um automóvel. É esta a desumanização que observamos todos os dias em nossas ruas e avenidas ao melhor estilo Dr. Jekyll e Mr.Hyde, onde aquelas pessoas simpáticas e tranquilas são capazes das piores loucuras a bordo de uma máquina que pode matar. 

E é neste cenário de desconstrução de humanidade caracterizada pela impessoalidade e pelo desejo de status e conquista – um caríssimo veículo importado não pode “comer poeira” de um modesto carro popular, por exemplo – em que nos encontramos. Não importa se o motorista seja médico, juiz ou um operário: a partir do momento em que o outro motorista ou pedestre é visto como um mero obstáculo a ser superado, um inimigo a ser eliminado e não como um ser humano, é sinal inequívoco de que definitivamente chegamos à barbárie. 

REFERÊNCIAS:
Apocalipse Motorizado: A tirania do automóvel em um planeta poluído / Ned Ludd (org.). São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2004. (Coleção Baderna) 

Fé em Deus e pé na tábua, ou, Como e por que o trânsito enlouquece no Brasil / Roberto DaMatta; com João Gualberto Moreira Vasconcellos e Ricardo Pandolfi. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.     

sexta-feira, outubro 11, 2013

A vida é uma loteria!



Não se impressione com minhas roupas puídas, meu rapaz. Ô, qual a surpresa? Eu sei o que significa “puída”, eu aprendi muita palavra difícil quando eu era grã-fino e frequentador das altas rodas da sociedade. Eu tinha que impressionar, né? E você sabe: se vestir bem e falar difícil impressiona qualquer um. 


Se eu já fui rico? Meu jovem, eu fui milionário! Eu sei que o que você está pensando: um velho acabado com essas roupas e morando em um barraco neste lugar onde até a polícia tem medo de entrar realmente não tem nada a ver com a imagem de alguém que aparecia nas colunas sociais, sempre na companhia de grandes empresários e mulheres deslumbrantes com suas roupas chiques e joias valiosas.  

Bom, há muito tempo eu ganhei na loteria. É, é sério: ganhei 22 milhões de cruzeiros! Naquela época não era o "real", a moeda era o "cruzeiro". Não sei dizer quanto isso vale em reais atualmente, mas era muito dinheiro, rapaz! Lembro, lembro bem quando ouvi no radinho os números da Quina e acertei sozinho todos os números, assim, ó, redondinho! Nem acreditei: anotei tudo num papelzinho, li e reli várias vezes para acreditar. Na época eu trabalhava como zelador em um prédio, não tinha estudo e ganhava 3 mil cruzeiros por mês – mais ou menos um salário mínimo. 

A primeira coisa que eu fiz? Foi largar aquele emprego, é claro! Eu tava cheio da grana e pedi demissão em grande estilo: faltei uma semana inteira no trabalho e voltei lá com um terno todo alinhado, bonito, parecido com aqueles que o Flávio Cavalcanti usava na TV, coisa de dotô mesmo. Apareci com um Opala azul, bonitão, gran luxo, todo mundo me olhando quando entreguei uma vassoura e um balde para a síndica do prédio e disse: “Peço demissão! Limpe você o prédio e use a vassoura pra subir até o seu apartamento!”. 

Se eu tirei onda? Ah, meu jovem, isso foi só o começo. Eu era jovem, mais ou menos da sua idade, tinha uma barba igual à do Francisco Cuoco e diziam que eu tinha um rosto que lembrava o Claudio Marzo, sabe? Pergunte para a sua mãe ou para a sua avó, ela vai suspirar quando ouvir os nomes destes galãs! Hahaha, o que o dinheiro não faz, né? Virei galã de novela, isso mesmo.  Então, com roupa bonita, dinheiro à vontade e carrão, eu pegava todas as mulheres! Eu saía direto com várias mulatas do Sargentelli e também com as chacretes. E com umas atrizes também, é claro! Cansava de dar festas onde aparecia artista, jogador de futebol, empresário, modelo... eu me tornei figurinha carimbada nas colunas do Ibrahim Sued! Meu negócio era a ponte aérea Rio-SP quase todos os finais de semana e sempre rolava uma festança com muita bebida e muita comida! 

Eu cheguei, sim, a ter patrimônio. Comprei casa, apartamento e investi também em uns negócios por aí, mas fui enganado por muita gente, sabe? Também eu era muito ingênuo, comprava imóveis e além de não pensar nos impostos que teria que pagar, deixava tudo pros outros resolverem, né? Eu só queria curtir, farrear, confiei em muita gente que se dizia amigo, mas quando fiquei na lona os “amigos” sumiram todos. Dei uma casa para uma dançarina do Clube do Bolinha e hoje nem sei se a criatura é viva ou morta. Gastei todo o dinheiro que restou para me livrar de um monte de processos por falta de pagamento, inventaram até que soneguei impostos e  perdi todo o patrimônio. Não sobrou nada, nadinha!

Pois é, voltei a ser zelador, mas não naquele prédio que eu havia trabalhado porque eu ainda tenho um orgulho, né? Eu tinha, sim, muitas fotos, recortes de jornais e revistas, eu com um monte de artista da Globo, tinha uma foto em que eu estava com o Pelé e a namoradinha dele na época, a Xuxa, tão novinha e tão bonitinha!  Saiu até na revista Manchete, o negão me cumprimentando e a loirinha ao lado, toda sorridente. Ah, meu jovem, uma tragédia: eu morei num barraco que a enchente destruiu e eu acabei perdendo todas aquelas lembranças! 

E hoje tô por aqui, vivendo de aposentadoria e fazendo uns bicos aqui e ali quando dá certo. Casei, mas separei. Tenho, tenho uma filha que não vejo há anos. Se eu me arrependo? Olha, meu jovem, vou te dizer com toda a sinceridade: eu faria tudo de novo, se pudesse. Bom, hoje eu ficaria mais esperto, mas iria curtir a vida se eu ganhasse de novo na loteria. Jogo, jogo sempre na Quina, é mais barato e às vezes acerto uns três ou quatro números. Por falar nisso, será que você não pode me ver uns dois reais aí? Quero tentar a sorte na mega sena desta semana.

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Inspirado na postagem "Por que não busquei meus R$ 23 milhões da Mega Sena", do ótimo blog da Cristina Moreno de Castro. 

segunda-feira, setembro 16, 2013

A fome é uma obscenidade


Parar em um semáforo e distrair-se com alguma coisa não é recomendável em tempos de assaltos e violências desmedidas nas grandes cidades, mas a cena realmente chamava a atenção: três mulheres revirando a carroceria de um caminhão de lixo que estava parado próximo a um pequeno supermercado.

As mulheres pegavam os restos de frutas, verduras e legumes descartados pelo estabelecimento e colocavam tudo dentro de um grande saco; no minuto em que vi esta cena, um dos coletores de lixo apareceu e fez gestos que demonstravam impaciência ou talvez a disposição em expulsá-las dali – não pude ver mais porque os carros atrás de mim começaram a buzinar alertando para o sinal verde. 

Também não é nada recomendável dirigir distraído, mas ao observar aquela cena imediatamente lembrei-me do poema de
Manuel Bandeira, chamado “O bicho”:


Vi ontem um bicho
 
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.


Coincidentemente isso aconteceu na semana em que a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) divulgou um relatório que traz um fato estarrecedor: aproximadamente 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçados anualmente em todo o mundo. Com tantos alimentos e com tecnologias que facilitam a produção, o transporte e a distribuição, é inadmissível que no século XXI ainda tenhamos 1 bilhão de pessoas passando fome no mundo. Josué de Castro, intelectual brasileiro que estudou a fundo tal problema, dizia que a fome (ao lado da guerra) é " uma criação humana" - ou seja, definitivamente não se trata de falta de alimentos

Além da questão política, desde os tempos de escola que eu ouço sobre o Brasil ser “o celeiro do mundo” por conta de seu imenso potencial para a produção agropecuária - e pelo visto um grande potencial também para o desperdício, pois nada menos do que 26 milhões de toneladas de alimentos vão parar no lixo. Nas feiras livres, nos supermercados ou mesmo em casa são diversos os motivos que levam ao desperdício e é angustiante saber que a quantidade de comida jogada no lixo poderia alimentar milhares de pessoas. Iniciativas como os Bancos de Alimentos são excelentes, mas também podemos ajudar com pequenas atitudes de consumo consciente.

A escritora
Hilda Hilst afirmou que a fome (e a miséria) é uma obscenidade. É realmente obsceno ver pessoas fuçando a carroceria de um caminhão de lixo ou mesmo lixeiras e depósitos em busca do alimento para elas e até para os filhos. E ao relembrar as tantas vezes em que já desperdicei alimentos ao longo dos anos, fiquei envergonhado com minha própria indecência. 

quarta-feira, agosto 21, 2013

Mudar é difícil, mas é possível.


O escritor Liev Tolstói, autor de obras clássicas como “Guerra e Paz”, “Anna Karenina” e vasta produção literária, relatou em um texto intitulado “Mas precisa mesmo ser assim?” as condições precárias em que muitas pessoas viviam na Rússia, descrevendo o cenário de desigualdade social no último quartel do século XIX:

 Algumas pessoas andam em cavalos robustos, bem alimentados, perambulando, passeando; outras trabalham,  torturadas, em cavalos mal alimentados e vão trabalhar a pé. (...) Algumas [pessoas] leem em quatro línguas, deleitando-se todos os dias com uma variedade de distrações; outras não sabem o alfabeto e não conhecem outra alegria a não ser de se embriagar”. 


No Brasil temos a figura de Paulo Freire, o patrono da Educação brasileira, que também denunciava a desigualdade e opressão das quais as pessoas sofriam – e ainda sofrem - em nosso país, como registrado em uma de suas cartas pedagógicas: 

 “Não posso, por isso, cruzar os braços fatalistamente diante da miséria, esvaziando, desta maneira, minha responsabilidade no discurso cínico e ‘morno’ que fala da impossibilidade de mudar porque a realidade é mesmo assim.”  

O que Tolstói e Freire têm em comum? Ambos não se conformavam com situações que julgavam injustas e opressoras.  E passaram do discurso à ação: o russo utilizou seu talento literário para criar cartilhas com as primeiras letras e contos para crianças - e ainda fundou uma escola para os filhos dos camponeses pobres na propriedade da família, em Iasnaia Poliana; já o brasileiro, com base em sua extraordinária percepção da realidade e considerando os alunos como sujeitos históricos e munidos de saberes, criou um modelo de alfabetização simples e revolucionário para adultos, principalmente das camadas populares e comunidades rurais. 

São figuras inspiradoras como estas que nos ajudam a superar algumas frustrações no cotidiano. Repare quantas vezes reclamamos sobre situações relacionadas à nossa vida pessoal ou profissional durante o dia. Reclamar é um desabafo, isso todos nós fazemos quando não estamos satisfeitos com alguma coisa; o problema é quando paralisamos a vida no eterno queixume e não fazemos nada a respeito para mudar – e não são poucas as pessoas que só enxergam duas opções: continuar a reclamação ou se acomodar porque “a coisa é assim mesmo”.  

Novamente recorrendo a Tolstói,  o escritor russo nos lembra que a História é feita de pequenas coisas que as pessoas comuns fazem todos os dias.  Nestes tempos de culto ao desempenho, vivemos na expectativa de sucessos profissionais e pessoais que serão alvos de holofotes e honrarias – assim é criada uma visão padronizada do que é ser “bem sucedido” ou "vencedor", principalmente em relação ao status social. No entanto, como não considerar bem sucedido o trabalho de uma enfermeira que ajudou a salvar uma vida ou de uma professora que ensinou uma criança a ler e escrever? Nem sempre estas e outras tantas ocupações (e seus profissionais) são valorizadas como deveriam – e o verbo “valorizar” não se resume apenas ao aspecto financeiro.   

A melhor opção, ao invés de reclamar incessantemente, é agir. Todas as pessoas são dotadas de alguma habilidade que pode ser bastante significativa na vida de outra pessoa ou de uma comunidade inteira. Não precisamos nos preocupar se nossas ações serão merecedoras de grandes prêmios e honrarias  – evidente que o reconhecimento faz bem para a autoestima, mas o primeiro passo é valorizarmos o que fazemos e em seguida deixar de lado a “Síndrome de Hardy”, tal como a hiena do desenho animado que reclama de tudo e acha que nada dará certo. Sim, o sistema, o governo, a burocracia... tudo isso e tantas outras situações são desanimadoras, sem dúvida, mas pense se é melhor continuar como a hiena Hardy ou se é preferível adotar uma outra atitude mesmo em um cenário aparentemente não muito favorável.  

“Nós nascemos para agir”, escreveu o francês Montaigne em seus “Ensaios”. E não importa se a ação parecer pequena ou insignificante: lembre-se de Rosa Parks, a costureira negra norte-americana que não cedeu seu lugar no assento das primeiras filas no ônibus a um homem branco, conforme determinava uma lei absurda no estado de Alabama. O ato da costureira, que foi presa, inspirou não apenas a luta antissegregacionista nos Estados Unidos no final da década de 50, mas também a um jovem pastor chamado Martin Luther King.

Para Paulo Freire, “mudar é difícil, mas é possível”. Reconhecer as dificuldades e não se conformar com uma realidade faz parte do processo de mudança. Que sejam atitudes aparentemente pequenas, mas o que não precisamos é erguer mais muros, pois às vezes nos preocupamos tanto se os tijolos estão firmes que esquecemos uma ação muito simples: abrir a janela e enxergar novas paisagens e possibilidades. 

REFERÊNCIAS:

FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Editora UNESP, 2000. 

TOLSTÓI, Liev. Os últimos dias. São Paulo: Penguim Classics Companhia das Letras, 2011.
 

terça-feira, julho 09, 2013

As estrelas e os meus devaneios

Imagem: NASA.

Alguém já afirmou que viver é um deslumbramento com o que nos cerca, sobretudo pela natureza e com os chamados pequenos gestos. É difícil, por exemplo, não se “encantar com o encantamento” de uma criança diante de uma descoberta. Na fase adulta, porém, perdemos muito daquele encantamento – e comigo não foi diferente, mas mantenho o deslumbramento que é observar as estrelas em uma noite límpida e recheada destes corpos celestes. 

Em meus devaneios ao observar aquela grande quantidade de estrelas, ainda me lembro das aulas de Ciências e de como eu fiquei deslumbrado ao descobrir que várias estrelas das quais vemos no céu deixaram de existir – o que enxergamos é a luz daquele corpo celeste que ainda viaja pelo espaço. É bem curioso imaginar que aquela estrelinha para a qual detenho o olhar não exista mais e o que eu esteja enxergando seja apenas o seu passado

E o que vejo nas noites límpidas (principalmente no interior, longe das grandes cidades) é apenas uma parte muito pequena das estrelas que existem em nossa galáxia – apenas na Via Láctea há mais de 100 bilhões de estrelas*. Inútil imaginar (e mensurar) a quantidade de planetas existentes apenas nesta parte do universo e mais ainda das estrelas pelo cosmos. 

Novamente perdido em meus devaneios, imagino a possibilidade de vida inteligente nesta imensidão sem fim que é o universo. E embora nosso simpático planetinha azul seja um mero pontinho perdido dentre infindáveis planetas e estrelas, penso se alguma forma de vida inteligente extraterrestre sabe de nossa existência. Será que estes seres extraterrestres não ficariam deslumbrados caso descobrissem que “não estão sozinhos” no universo? Creio que um ser extraterrestre ficaria encantado com a diversidade de vida que existe em nosso planeta – e, talvez, demonstrasse algum desapontamento com o modo que os seres humanos tratam a Terra.  Ou, quem sabe, demonstrasse admiração pelo desenvolvimento técnico e científico alcançado pela humanidade.  

A partir deste ponto a minha imaginação viaja para lugares tão distantes quanto onde estão as estrelas. O que seria uma “inteligência extraterrestre”? Nossa humanidade - que encontra tantas dificuldades para aceitar até mesmo aos seus iguais independentemente de raça, cor e sexualidade - estaria preparada para descobrir novos padrões de inteligência e formas de vida? É um exercício curioso fazer essas conjecturas e eu adoraria viver o bastante para conferir os primeiros seres humanos em Marte – um planeta que sempre despertou bastante curiosidade e boas histórias de ficção científica. Ou expedições mais reveladoras sobre Titã, uma das luas de Saturno.

As futuras gerações assistirão a isso. E talvez consigam chegar até as estrelas e demais planetas, descobrindo coisas novas e mesmo formas de vida - primitivas ou inteligentes. Isso acontecerá desde que a humanidade não perca a curiosidade e o deslumbramento. Este foi um dos dois desejos que eu fiz para uma estrela cadente – o outro, não conto. 

(sim, eu sei que uma “estrela cadente” é na verdade uma rocha proveniente do espaço; mas deixemos algo para a poesia e a fantasia – tal como nos versos de Olavo Bilac.) 

*Sagan, Carl. Variedades da experiência científica: uma visão pessoal da busca por Deus. Tradução Fernanda Ravagnani – São Paulo: Companhia das Letras, 2008.   

sexta-feira, junho 14, 2013

Alguma coisa está acontecendo.



São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Brasília, Santiago, Istambul, Atenas, Nova Iorque.  Milhares de pessoas têm tomado as ruas das grandes cidades em protestos por diversas causas importantes – educação, política econômica, mobilidade urbana, direitos sociais, justiça. 

E muito mais. Logo, as manifestações do movimento “Passe Livre”, contra o aumento das passagens de ônibus nas grandes cidades brasileiras, assumem um caráter bem mais amplo do que o acréscimo de centavos no valor das tarifas. As pessoas protestam porque estão insatisfeitas com alguma situação (ou várias situações) e você até pode perguntar: “Ah, mas só agora? Por que não houve protestos contra os péssimos modelos de saúde, educação e segurança pública, corrupção?”.  Talvez a Copa do Mundo ajude a entender isso. 


Em 2007, quando foi anunciado que o Brasil seria o país sede para a Copa do Mundo de 2014 houve um clima de euforia muito grande sobretudo dos governantes, que logo se apressaram em falar das vantagens e do famoso “legado” da Copa em um país que prometia o “espetáculo do crescimento”.  Em quase 07 anos que separam o anúncio da FIFA à realização da Copa, os brasileiros continuaram consumindo – aparelhos eletrônicos, automóveis, imóveis - mas o “espetáculo do crescimento” não se confirmou: políticas eficazes para setores fundamentais como Educação, Saúde, Segurança Pública e Transportes estagnaram e, em alguns casos, até pioraram. Enquanto aquelas políticas públicas prosseguiam praticamente paralisadas, as obras para os estádios ( e só para as "modernas arenas") da Copa seguiam aceleradas e dinheiro nunca foi problema para os governos, empreiteiras e construtoras - os valores financeiros envolvidos com o mundial da FIFA são espantosos

Claro que o país experimentou avanços sociais na última década; no entanto, o sentimento de insatisfação parece ter chegado ao ápice quando estádios caríssimos foram inaugurados sem as decantadas obras de infra estrutura nas cidades e com promessas de melhorias nas cidades ( e no país) bem distantes da realidade - vejam o que aconteceu com a seleção do Uruguai em Recife para a Copa das Confederações. Não se trata, aqui, de superestimar um torneio de futebol e acusá-lo como responsável por todos os males: o exemplo da Copa demonstra que as pessoas sentiram-se desamparadas (mais do que normalmente acontece) pelos poderes públicos. O “tudo pela Copa” foi levado às últimas consequências pelos governos e com isso a rejeição do brasileiro ao evento é crescente: a Copa do Mundo no Brasil é uma espécie de “catalisador de emoções” em que as mais simples manifestações virtuais como “tem dinheiro para a Copa, mas não tem para a Educação” (ou Saúde, mobilidade urbana, segurança, etc) acabaram ganhando as ruas em um sentimento coletivo de indignação e frustração. 


Na África do Sul, durante a Copa de 2010, o país praticamente parou – não para assistir os jogos de futebol, mas por causa das greves e manifestações. No Brasil não seria diferente e os protestos já começaram às vésperas da Copa das Confederações, um evento-teste da FIFA para o campeonato mundial. Os protestos em São Paulo e Rio de Janeiro, as duas maiores cidades do país, foram destacados nos noticiários internacionais (inclusive com a truculência da polícia em São Paulo) e têm gerado discussões e questionamentos sobre o que acontece de fato no Brasil além da pujança consumista - e as diversas manifestações que têm acontecido, como a marcha das vadias  e passeatas contra a homofobia e violência no campo demonstram isso.  Para um país que passou anos de sua história recente em regime autoritário - e com um histórico onde movimentos populares de protesto sempre foram duramente repreendidos - estes movimentos são muito significativos. 


E “essa coisa que está acontecendo” no mundo, onde vai dar? Muito do que tem acontecido encontra origem no que é chamado de “cultura da convergência”, termo criado pelo professor Henry Jenkins. Segundo o acadêmico norte-americano, tal cultura “refere-se ao fluxo de imagens, ideias, histórias, sons, marcas e relacionamentos através do maior número de canais midiáticos possíveis”.  Estes canais midiáticos – celulares, redes sociais, vídeos – estão cada vez mais disponíveis e as pessoas têm compartilhado informações e arquivos diversos de forma colaborativa. A internet é o meio ( lembre-se de McLuhan com “o meio é a mensagem”) e a interação entre os espaços virtuais com os espaços públicos é essa “coisa que está acontecendo”.  


E vai dar certo, vai resolver alguma coisa? Como acontece em todas as revoluções – e este é um período revolucionário, pois estamos modificando formas de comunicação e até mesmo de comportamento -, talvez os resultados não sejam imediatos, mas na Islândia deu certo: com a crise econômica e com a falta de confiança da população nos partidos políticos (o que já começa a acontecer no Brasil, vide os elevados índices de abstenções de votos nas últimas eleições), os islandeses saíram às ruas e as mudanças aconteceram – desde a queda do primeiro ministro à elaboração de uma nova Constituição com participação popular via internet.  Evidente que a Islândia é um país pequeno, com história milenar e elevados índices de desenvolvimento humano (IDH), mas o exemplo pode servir de inspiração. 


Como escreveu Henry David Thoreau, “o direito à revolução é reconhecido por todos, isto é, o direito de negar lealdade e de oferecer resistência ao governo sempre que se tornem grandes e insuportáveis sua tirania e ineficiência”. O escritor norte-americano publicou “A desobediência civil” em 1849, mas certamente compreenderia o que é “essa coisa” acontecendo. 

sexta-feira, maio 17, 2013

O elixir da juventude.



Forever young,
I want to be
Forever young.


Demorou, mas finalmente encontraram a fórmula do “elixir da juventude eterna”: estava escondida em Praga, na República Tcheca, uma receita com 77 tipos de ervas que deveriam ser imersas em álcool e ópio, bastando ao “paciente” uma colherada todos os dias pela manhã para que se realizasse a promessa ser jovem para sempre. 

Ficaram famosas as histórias de alquimistas durante a idade média que procuravam pela pedra filosofal e o “toque de Midas”, mas muito antes a humanidade já buscava pelo elixir da longa vida. Os gregos, mesmo reconhecendo que Cronos (o tempo) destrói tudo o que ele próprio cria, acreditavam que o “manjar dos deuses” concederia a imortalidade aos felizardos que o consumissem; o poeta romano Ovídio, por volta do ano 8 d.C., já recomendava às mulheres que retirassem a palha e as cascas da cevada, acrescentando órobo ( uma espécie de planta) e dez ovos, triturando chifre de cervo, bulbo de narciso e acrescentando farinha de trigo ( da Toscana) e mel: “toda mulher que untar seu rosto com esse cosmético ficará com a pele mais brilhante, mais lisa do que seu espelho”. 

Tudo isso pode parecer estranho, mas ainda hoje, em pleno século XXI, encontramos muitas “receitas” exóticas usadas pelas pessoas na tentativa de amenizar os efeitos do tempo na aparência física - desde dietas malucas passando por tratamentos de pele envolvendo sanguessugas, fezes de rouxinol e até mesmo baratas. E as clínicas de estética oferecem um arsenal de serviços para quem quiser rejuvenescer: lipoaspiração, prótese de silicone nos seios e nas nádegas, rejuvenescimento facial, remoção de bolsas nas pálpebras e até mesmo rejuvenescimento vaginal. (ou estreitamento da vagina) 

O “medo de envelhecer” encontra razões que vão além da simples vaidade. Quando se fala em “velhice”, a lembrança que vem à mente é de declínio físico, impotência, insignificância – ser velho em uma sociedade hedonista e ávida por novidades é praticamente o mesmo que ser descartado, rejeitado. Lembre-se, por exemplo, dos idosos que são abandonados por seus familiares em casas de acolhimento ou mesmo submetidos a maus tratos. Aquela imagem da vovó como uma velhinha solitária bordando crochê aos poucos vai ficando para trás: hoje a chamada terceira idade viaja, estuda, namora, acessa a internet, enfim, procura ser ativa. 

Outra razão é a tese do corpo como capital, discutida pela antropóloga Miriam Goldenberg. O “culto ao corpo”, na verdade, trata-se de investimento em uma sociedade que valoriza, em maioria, corpos jovens, malhados, definidos e esculpidos em horas de academia e sessões de procedimentos estéticos – “modele o seu corpo e arrase no verão”, os anúncios são comuns no período que antecede a estação mais quente do ano.  E dentro deste modelo do corpo jovem e perfeito tão cultuado (e imposto) pela sociedade e pelo marketing midiático, homens e mulheres buscam retardar a passagem do tempo – embora as mulheres sejam mais cobradas para a manutenção de um “ideal de beleza”. Elas se preocupam com as rugas, com as celulites, com os quilos a mais na balança, com os fios grisalhos dos cabelos; eles se preocupam principalmente com a virilidade, com o desempenho sexual e a jovialidade. O mercado sabe e se aproveita disso: o Brasil já é o terceiro maior consumidor de cosméticos no mundo e está atrás apenas dos Estados Unidos nos números de cirurgias plásticas e estéticas realizadas.


É inegável que os avanços da medicina e da ciência em muitos centros já possibilitam maior expectativa de vida e saúde para as pessoas, elevando a autoestima e prometendo até mesmo a tão sonhada felicidade – a felicidade de ser jovem durante toda a vida. É exatamente essa a sedutora promessa dos modernos elixires da juventude e consequentemente muitas pessoas encontram dificuldades em aceitar o avanço dos anos, mas é preciso lembrar que “ninguém te devolverá aquele tempo”, nas palavras de Sêneca. 

O próprio Ovídio, que tanto escreveu sobre o amor e também se preocupava com a beleza física, aconselha: “Que sua primeira preocupação, jovens, seja a de zelar pelo seu caráter: as qualidades da alma se somam aos atrativos do rosto. O amor baseado no caráter é durável; a beleza será devastada pela idade e rugas sulcarão seu rosto sedutor”. 

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