sábado, dezembro 22, 2012

As leituras de 2012

Felizmente, ou infelizmente para alguns, o mundo não acabou – o que acabou foi a tinta dos sacerdotes maias ou mesmo a paciência deles em continuar o calendário. Superado mais um apocalipse que não veio ( aguardem 2033), é hora da famosa “retrospectiva de 2012” que será acompanhada em todos os canais de TV, sites e revistas.

A retrospectiva aqui é um pouco diferente: trata-se dos melhores livros que eu li neste ano cabalístico. Não faço a contagem de quantos livros foram lidos, mas selecionei 06 obras que eu gostei bastante e recomendo aos 3 ou 4 leitores deste bloguezinho. Vamos à listinha.

A GUERRA DAS SALAMANDRAS, de Karel Capek. Ed. Record
“É um livro ao mesmo tempo divertido e trágico, uma sátira a respeito dessa bobagem dramática que é o ser humano, uma espécie que engendra permanentemente seu próprio fim”. As palavras do tradutor da obra-prima de Capek, Luís Carlos Cabral, dão uma boa medida com o que o leitor vai se deparar: a descoberta de uma espécie de salamandras inteligentes logo é vista pelo homem como potencial econômico. As salamandras são escravizadas e passam a movimentar a economia mundial; porém as coisas escapam do controle dos homens e isso pode significar o fim da humanidade. Capek, autor dos ótimos “Histórias Apócrifas” e “Fábrica de robôs”, não perdoa nada: capitalismo, comunismo, Hollywood, superpopulação, ciência... todos são satirizados pelo autor tcheco neste genial, divertido e perturbador livro.

TRILOGIA SUJA DE HAVANA, de Pedro Juan Gutiérrez. Ed. Alfaguara
O autor cubano Pedro Juan é comparado a Bukowski e Henry Miller, inclusive na contra-capa do livro – “uma espécie de Bulowski caribenho ou de Henry Miller de Havana”. Creio que tais comparações acontecem por conta do estilo de Pedro Juan: direto e sem rodeios ao tratar de temas como sexo, fome, violência, prédios caindo aos pedaços, bebidas e trabalho. Neste ponto – da “crueza” das palavras – os autores se equivalem; porém na “Trilogia...” encontramos poesia e sensibilidade ao lado de várias situações explícitas narradas por Pedro Juan - é bom lembrar: o cenário é a Cuba de Fidel nos anos 90, com o fim da União Soviética e bloqueio econômico dos EUA. Outro aspecto bem interessante: é destacada em várias passagens a religiosidade dos cubanos, que lembra bastante o sincretismo religioso praticado sobretudo em Salvador e recôncavo baiano.

UMA CONFRARIA DE TOLOS, de John Kennedy Toole. Ed. Best Bolso
“Aquele gordão esquisito é uma bomba tônica cem por cento garantida. Porra, meu, é só jogar ele por cima de alguém e todo mundo pega a sobra, acaba tudo sendo detonado!” É assim que um dos personagens descreve o anti-herói Ignatius J. Reilly, um intelectual preguiçoso, guloso, egocêntrico, amante da Idade Média e incapaz de sustentar um emprego simples como vendedor de cachorro quente. Ignatius é tão desagradável que nem mesmo a sua mãe o suporta mais o dia todo em casa soltando gases e escrevendo seus tratados. E mesmo assim este “Dom Quixote” de Nova Orleans dos anos 60 consegue ser uma personagem cativante. Um dos melhores livros que eu já li, sem dúvida!

O CORAÇÃO DAS TREVAS, de Joseph Conrad. Clássicos Abril Coleções
“Marlow silenciou e permaneceu sentado, afastado, indistinto e calado, na pose de um Buda meditando. Ninguém se mexeu durante algum tempo”. E foi exatamente assim que eu me senti ao final da leitura deste clássico de Conrad, como se fosse um tripulante do Nellie. O romance, com pouco mais de 100 páginas, conta a missão de Charles Marlow pela selva africana em busca do Sr. Kurtz, administrador de um posto comercial. Mas o sr. Kurtz não é só isso: ao longo da trama ele vai sendo construído através de relatos e idealizações - o “notável” sr. Kurtz, afinal, existe? A medida que Marlow embrenha pela selva hostil e desconhecida o tom da narrativa se torna mais sombrio – e encontramos a face cruel do colonialismo europeu na África. Um mergulho no coração da alma humana.

O GRANDE GATSBY, de F.Scott Fitzgerald. Penguim Companhia
“Afinal, quem é esse Gatsby? - perguntou Tom de repente. – Algum figurão contrabandista?” Long Island, ilha de Nova Iorque, anos 20 do século passado: festas, glamour, jazz, álcool, jovens e ricos – o sonho americano é retratado neste romance de Fitzgerald, ele próprio egresso da aristocracia. O misterioso Jay Gatsby promove festas suntuosas em sua mansão e ninguém o conhece realmente – apenas Nick Carraway, o narrador que se torna a pessoa “mais próxima” de Gatsby e descobre sua motivação. “O grande Gatsby” é uma obra fantástica: ao lado de tanto glamour e vaidades, há traições, desencantos e amores mal resolvidos. O livro já foi adaptado para o cinema e repetirá a dose em 2013.

TARÁS BULBA, de Nikolai Gogol. Editora 34
Há muito tempo eu queria ler essa obra do ucraniano Nikolau Gogol, autor de contos como “O Nariz”, “Diário de um Louco” e “O Capote”. Tarás Bulba, “um dos velhos e radicais coronéis” dos cossacos, recebe os dois filhos que retornavam dos estudos em um colégio interno de Kiev. Para um cossaco “se emancipar”, é preciso passar pelo serviço militar. Logo, os rapazes estão em campanha, mas um deles – romântico e idealista – desagrada ao pai. As batalhas contra os poloneses são descritas vivamente por Gogol, assim como o estilo despojado e livre dos cossacos.




Tenham todos um excelente 2013, com muitas realizações e ótimas leituras!

sábado, dezembro 15, 2012

Diário do fim do mundo


(clique na imagem para vê-la em tamanho maior) 


Segunda-feira, 17 de Dezembro, 2012 – começou a contagem regressiva. Ou seria “contagem depressiva”? Faltam poucos dias para o mundo acabar e nem escolhi uma roupa ainda. Eu nunca sei o que vestir nesses eventos. Bom, depois eu penso nisso. Hoje é a última segunda-feira da história e eu vou para o trabalho. Acordei cedo, animado e registro logo pela manhã o meu roteiro para este dia com coisas que eu sempre tive vontade de fazer nos últimos 5 anos: me declarar para a secretária, arrebentar aquela impressora diabólica, chamar aquele patrão idiota e sabotar todo o sistema da empresa. Eles merecem! E depois vou ao cinema. 


Terça-feira, 18 de Dezembro, 2012Não fiz nada daquilo que planejei ontem. A secretária continuou me esnobando, a impressora continuou rebelde (impressoras são instrumentos diabólicos!), o patrão me chamou de idiota e fiz todo o trabalho rotineiro no sistema da empresa. E não fui ao cinema. Passei em frente a uma concessionária e vi o carro dos meus sonhos por um preço que eu teria que trabalhar 10 anos sem férias e sem gastos supérfluos - como alimentação - para poder pagá-lo. Mas dane-se:  já que o mundo vai acabar, que eu realize ao menos um sonho, não é? 

Quarta-feira, 19 de Dezembro, 2012Acordei todo moído esta manhã. Na volta do trabalho o ônibus quebrou e eu preferi voltar a pé para casa, não quis esperar outro transporte.  Pois é, não comprei o carro: como estou com o nome sujo no SPC, não pude fazer o financiamento.  Mas pensei melhor e decidi que vou fazer uma grande festa aqui em casa no dia 21, o último dia deste bom e velho mundo. Vou convidar o pessoal lá do trabalho... não, nem todos, pois vou me demitir hoje e arranjarei vários inimigos na véspera do fim. Lá da empresa vou chamar apenas a secretária e o office-boy que descola uns cigarrinhos para a galera. Vou chamar os caras do time, um pessoal lá do boteco e chamar umas strippers para animar o povo. E uma banda, claro. Vou pensar em um nome legal para a festa! 

Quinta-feira, 20 de Dezembro, 2012A “Última festa da sua vida” (não consegui achar um nome melhor) foi cancelada. Pudera: assim que cheguei à empresa, a secretária me esnobou e se declarou para o office-boy; o patrão chegou com um visual de surfista ( camiseta regata, bermuda, sandália e, claro, uma prancha de surf), subiu na mesa e gritou para todo o escritório: “Vocês todos estão demitidos, seus escravos imbecis! E nem passem no departamento pessoal para acertarem as contas – não terão tempo para gastar o seguro-desemprego! Chupa!!!”; corri pelo corredor para alcançar a impressora maldita mas cheguei tarde: o auxiliar de escritório, a recepcionista e o analista contábil já estavam chutando e pisoteando o que sobrou da máquina.

O jeito foi telefonar para os caras do time e falar da festa, mas alguns alegavam que iriam aguardar o fim do mundo com a família. Tive pena do Miltinho, todo perdido entre esperar o fim com a família ou com a amante - e ele aflito me pedindo conselhos, mas quem mandou procurar sarna para se coçar?; o Careca, pô, eu considerava muito o cara e pensei que a recíproca era a mesma, mas quando telefonei para ele o cara começou a falar tudo o que pensava sobre mim – e não foi com termos gentis; o Betão falou que iria aguardar o fim na igreja e o Zeca cavou um buraco no quintal de casa. Tentei as strippers, mas todas já tinham agendado apresentações em festinhas com semanas de antecedência.

Restou passar no mercadinho e saquear umas latas de cerveja – sim, saquear, pois o povo enlouqueceu e o dono simplesmente abandonou os negócios. Ainda tive a sorte de conseguir três pacotinhos de amendoim japonês. 


Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2012.

Prezado planetinha azul,

Hoje a sua trajetória no universo chega ao fim.  Eu nunca entendi as expectativas exageradas dos seres humanos apostando no fim dos tempos: perto do ano 1000 já falavam em  “Juízo final” e como você continuou aí firme e forte, surgiram profetas, videntes e a máxima “a mil chegará, mas de dois mil não passará”. 


A verdade, querido planetinha, é que não somos tão espertos assim. Qualquer cometinha passando perto daqui e somos tomados pelo pânico, como se fosse acontecer a tragédia que dizimou os antigos moradores de suas dependências, os dinossauros – dizem que foi um meteoro o responsável pela extinção dos bichos. Mas é interessante notar que temos certo gosto pela catástrofe. Filmes, literaturas e profecias sobre o “fim do mundo” fazem sucesso por aqui. Perto do ano 2000 os “best-sellers” nas livrarias eram obras relacionadas às profecias de Nostradamus; hoje é a vez do calendário maia: a civilização maia era muito boa em astronomia e criou um calendário (bem complexo, diga-se de passagem) de ciclos; 2012 é apenas o fim de um ciclo de acordo com aquele calendário, mas alguns místicos confundiram tudo e saíram por aí espalhando que era o “fim do mundo”. 

Convenhamos, mundo velho de guerra: 2012 foi mesmo um ano muito estranho! Os próprios astrônomos registraram explosões solares com atividades bastante violentas; alguns políticos, no Brasil, foram julgados e condenados à cadeia por corrupção – se eles cumprirão as penas é outra história; o Corinthians foi campeão da Taça Libertadores da América e o Palmeiras foi rebaixado de novo; Sílvio Santos parou de pintar o cabelo – por um período; e quase que o grupo “É o Tchan!” retornou com sua formação original!   

É claro que eu não acredito em nada do que essas profecias ( Nostradamus, maias, Edgar Cayce, Mãe Diná) dizem - acredito apenas em meu horóscopo alertando que hoje é não é um bom dia para tratar dos assuntos regidos por Marte, embora eu não tenha assuntos a tratar por lá. Contudo, como bem lembra um ditado espanhol, “yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay”. 


Foi muito bom conviver contigo, simpático planetinha. Vai desculpando o lixo que eu produzi durante meus 30 e poucos anos de existência e de como eu me aproveitei de seus recursos sem dar nada em troca. Esta primeira cerveja, das muitas que eu consegui saquear, é dedicada a você, in memorian

Adeus, mundo cruel.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...