quarta-feira, março 14, 2012

Educação precisa ser prioridade - e não apenas nos discursos eleitoreiros


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Há algum tempo eu assisti a uma palestra voltada para administradores de empresas e empreendedores. Em dado momento, o palestrante relacionou algumas características do administrador do século XXI: dinamismo, flexibilidade, trabalhar em grupo e criatividade. Imediatamente pensei: “Este profissional existe e é o professor!”

Quanto vale – em termos salariais – um profissional com essas características desejáveis? Não sei dizer, talvez um consultor de RH possa responder; no entanto creio que um profissional assim certamente recebe um salário bem maior do que R$ 1.451,00 – este é o novo valor do piso salarial do Magistério de acordo com o reajuste anual do FUNDEB. ( Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica) A chamada “Lei do Piso” foi sancionada em 2008 e vários estados brasileiros não cumprem a lei.

As "restrições orçamentárias"

Por ser um valor elevadíssimo e que levará o “caos financeiro aos municípios e estados”, alguns governadores e prefeitos já acenaram má vontade para pagar tal valor aos professores, o que não é uma novidade: desde 2008 os governadores do Ceará, Santa Catarina, Paraná, MatoGrosso do Sul e Rio Grande do Sul vêm articulando resistência a ações naJustiça contra este piso salarial. Para o presidente da CNM ( Confederação Nacional dos Municípios), o piso não passa de “demagogia”. É curioso constatar que sempre há “restrições orçamentárias” quando o assunto é investimento em setores fundamentais como Educação – e isso em um país que está reformando e construindo novos estádios para receber o campeonato mundial de futebol em 2014.

Nos dias 14, 15 e 16 haverá grande paralisação nacional em luta não apenas em relação ao piso salarial para o magistério, mas também para o investimento de 10% do PIB em Educação – dentre outras reivindicações. E antes mesmo da paralisação começaram a pipocar comentários dos chamados “formadores de opinião” de parte da imprensa que parece entender tudo sobre Educação, clamando para que o Brasil siga os modelos da Finlândia e Coréia do Sul na área educacional. Um país que possui figuras como Paulo Freire, Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Darci Ribeiro e Cecília Meireles – criou a primeira biblioteca infantil brasileira em 1934 e a mesma durou pouco tempo: foi fechada sob a alegação de conter “livros perigosos” como Tom Sawyer, de Mark Twain! Eu imagino o que fariam se encontrassem um livro do Henry Miller por lá. - não precisa buscar modelos externos para a Educação.  

“Prejuízo aos alunos”

Não é querendo bancar o profeta, mas o tipo de comentário que mais será ouvido dos mesmos formadores de opinião pela imprensa e que mais chamará a atenção será algo nesta linha: “A greve dos professores chega ao segundo dia e prejudica mais de 1 milhão de estudantes”.

O que é esse “prejudicar”? Evidente que uma paralisação deste porte (ou mesmo uma greve) não é desejável e atrapalha a vida de todo mundo – tanto dos alunos como dos professores, que precisam “correr” para repor as aulas e conteúdos programáticos; no entanto, os estudantes são prejudicados desde o momento em que é efetuada a matrícula em escolas com infra-estrutura deficitária, professores desmotivados e mal pagos, a violência que contribui para a evasão escolar etc. Tudo isso prejudica o estudante, mas a impressão que certos “formadores de opinião” procuram passar à população é que o ato de aderir a uma paralisação – reivindicando simplesmente que Estados e municípios cumpram a lei -  é a grande causa pelo “caos na rede pública de ensino”.

Participação da sociedade

É muito curioso ouvir de tantas pessoas – de diversos setores da sociedade - a expressã “educação é fundamental e deve ser prioridade”. Reconhecer isso é um passo, mas houve algum protesto, além de alguns isolados aqui e ali, quando o governo anunciou cortes do orçamento na área da educação? Alguém ao menos manifesta de forma crítica o descontentamento sobre a insegurança nas escolas e falta de professores de disciplinas como Matemática e Física? No Chile e na Espanha, apenas como exemplos, ocorreram grandes manifestações contrárias aos cortes no orçamento na pasta da Educação.

Se algo é fundamental e prioritário, deveria haver maior mobilização pela causa, não é mesmo? Infelizmente, não é isso o que acontece. “Ao mesmo tempo em que a sociedade brasileira não dá muito valor ao profissional da educação, haja vista os salários pagos aos professores do ensino básico público, ela exige muito da escola”, afirma o filósofo e professor Renato Janine Ribeiro. Não adianta a sociedade clamar que educação é fundamental e prioritária se esta não se interessa por questões políticas – e política é algo que vai muito além ao partidarismo e noticiários envolvendo corrupções: se você vai a uma reunião de condomínio, por exemplo, está fazendo política. “Não podemos imaginar escolas extraordinárias, espantosas, onde tudo funciona bem numa sociedade onde nada funciona”, afirma o professor português António Novoa

E nem precisa sair às ruas, se for o caso: acompanhar a educação dos filhos e participar de reuniões e atividades propostas pelas escolas já seria o primeiro grande passo. Isso pode parecer óbvio, mas muitos pais negligenciam este lado e esperam que a escola assuma responsabilidades em que a instituição muitas vezes não consegue lidar.

Duas personagens que o professor não deve assumir: Sacerdote e mártir. Nada contra os sacerdotes, mas o professor é um profissional que precisa de bons salários, boa formação, condições de trabalho adequadas. E a Educação precisa sair da fase dos discursinhos de políticos em busca de votos para que se torne de fato prioridade, pois a Educação que queremos e precisamos, tomando emprestadas as palavras de Paulo Freire, é aquela “capaz de formar pessoas críticas, de raciocínio rápido, com sentido do risco, curiosas, indagadoras”. Ainda estamos muito distantes disso, mas é preciso manter a esperança, afinal "continua de pé a necessidade de insistirmos nos sonhos e na utopia". ( Freire)  



sexta-feira, março 02, 2012

Espetáculos mórbidos



O trânsito estava infernal – literalmente, pois experimente ficar preso em um grande congestionamento dentro de um veículo sem ar condicionado e com a temperatura em torno de 35 graus. O jeito era exercitar a paciência e tentar esfriar a cabeça ouvindo o sr. Iceman -  não, “Patience”, do Guns n´Roses, não estava disponível.

Por que tamanho congestionamento? Algum acidente, batida, assalto a um banco, veículo quebrado? O horário não era o considerado “de pico” para que tantos carros formassem aquela fila enorme e aparentemente sem fim. Depois de um tempo considerável em passo de tartaruga, descobri o motivo do congestionamento: aconteceu um acidente com uma moto e o motociclista, infelizmente, morreu no local. O trânsito estava lento não pelo acidente em si, mas pelos curiosos que chegavam a parar o carro e de pessoas ocupando uma faixa da avenida para ver o corpo.

Não consigo entender o interesse mórbido que muitas pessoas manifestam para este tipo de tragédia. Os curiosos fotografam, gravam vídeos em seus celulares e tais imagens são postadas e compartilhadas em redes sociais, youtube, blogs ou mostradas com prazer entre amigos e conhecidos. É como se uma espécie de “show” fosse exibido e a audiência – os curiosos – garantida.

Lembro da história do anatomista Andreas Vesalium, no século XVI: considerado o pai da anatomia humana, suas dissecações de cadáveres costumavam atrair verdadeiras platéias e tornaram-se muito populares – a ponto de juízes e estudantes providenciarem corpos de executados ou até mesmo roubarem cadáveres em cemitérios para que o “show” continuasse.

A favor de Vesalium conta o interesse pela ciência – suas descobertas sobre o corpo humano foram fundamentais para avanços na medicina – mas um breve passeio pela História mais recente mostra que o interesse e o “prazer” em ver “gente morta” ou morrendo perdurou ao longo do tempo. Como esquecer das execuções de “bruxas” e de linchamentos e enforcamentos de negros escravos? John Gray, no livro “Cachorros de palha”, nos descreve o interesse que um destes eventos despertava:

[para testemunhar a execução de Sam Hose, um negro georgiano] “Famílias inteiras apareceram para assistir. Pais enviaram bilhetes às escolas pedindo aos professores que liberassem seus filhos. Cartões postais foram mandados àqueles que não podiam assistir ao espetáculo e foram tiradas fotografias para preservá-lo na memória”.

Talvez seja o fascínio pela morte ou pelo desconhecido. Ou talvez seja somente  diversão: “A única coisa que nos consola de nossas misérias é a diversão”, afirmou Pascal. Para o matemático, físico e filósofo francês a diversão “nos põe a perder insensivelmente”. Falando desta maneira parece um tanto exagerado, mas quando se torna divertido sacar celulares para filmar pessoas que perderam a vida em acidentes ou se justifica como mera distração e entretenimento sintonizar o canal naqueles programas de TV que exibem a chamada “realidade nua e crua” com cadáveres focalizados em close com a impressão de que o sangue jorrará através da tela, é possível concordar com o francês: nos perdemos e nos tornamos insensíveis em nome de suposta e discutível “diversão”.

Finalmente o trânsito desafogou e pude seguir meu caminho. Então começou a tocar os primeiros acordes de uma música que deveria servir como mantra, chamada “All you need is love”, daquela banda em que um dos integrantes era um tal John Lennon – que ironicamente foi assassinado por um fã. Definitivamente, as coisas por aqui estão infernais – e não estou falando apenas do calor. 
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