terça-feira, janeiro 31, 2012

Respondendo aos e-mails da semana.


Ainda me lembro de algumas revistas em que a “Seção de Cartas” era um espetáculo à parte por causa das respostas dadas por editores ou algum colunista - geralmente sarcástico e mal humorado, o que garantia toda a diversão.

Hoje em dia quase não recebemos – ou escrevemos – mais cartas. Apenas os bancos e os credores ainda enviam correspondências: quando o carteiro passa e eu verifico que não tem nada pra mim, dou graças a Deus!

As cartas foram substituídas pelos e-mails, mais rápidos, econômicos e eficazes. Lembro da primeira vez que usei um e-mail: “Mas não precisa de selo?”. Desculpem, mas eu falava sobre a boa e velha seção de cartas das revistas e suas respostas. Bem, acho justo que algumas mensagens recebidas mereçam resposta e isso foi feito - com toda a educação e cavalheirismo que são peculiares à minha modesta pessoa.

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Assunto: segredo revelado!

Leve as mulheres à loucura descobrindo o ponto G! Projetado anatomicamente adequado para estimular o ponto G! Estimula o ponto G proporcionando orgasmos mais intensos! www.pontog.com.br

Assunto: Re: segredo revelado!

Vamos direito ao ponto: (não é o G) provavelmente você acha que eu sou um frustrado sexual. Primeiro foram centenas de e-mails sobre viagra; depois foi a vez do “big penis” e agora um tal “anel peniano anatomicamente adequado” – e não quero nem imaginar o que seja isso. Posso dizer que estou bem satisfeito com o...hã...o que eu tenho aqui e nunca recebi reclamações posteriores, o que atesta a qualidade do...hã...produto. Deste modo recomendo que você arrume uma namorada ( ou namorado) para ter o que fazer – você entendeu né?  

-------------- message 2 -------------------

Assunto: O seu prazo foi prorrogado!

Assine VEJA com 50% de desconto e só comece a pagar em 50 dias! Ainda dá tempo, seu prazo foi prorrogado! Aproveite esta promoção!

Assunto: Re: O seu prazo foi prorrogado!

Uma pena que a vida útil (?) desta “revista” também continue prorrogada. Lamento, mas o prazo de vocês esgotou. Mandem uma proposta de assinatura da Turma da Mônica, pois até os planos infalíveis do Cebolinha têm mais credibilidade do que a turminha do Tio Reinaldo e da anta do Mainardi. Grato.

---------------message 3 --------------------

Assunto: nossas fotos

oi tudo bem? lembra da nossa festinha os pessoau reunido e as foto da galera pelada na pissina as loucura clica aki p lembrar pictDC342.tk 

Assunto: Re: nossas fotos

Prezada Renatinha Popozuda ou algo deste tipo: FELIZMENTE sofro com amnésia (ver dicionário) e não tenho a menor intenção (ver dicionário) de ver fotos do “pessoau pelado na pissina” – pra isso já existe o BBB. Passe o link para nosso amigo asnesio@trouxa.com que ele vai apreciar (ver dicionário) bastante. Um amplexo! (ver dicionário)

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Assunto: O empurrão que você precisava!

Está sozinho e quer encontrar aquela pessoa especial? Faça seu cadastro no www.sitedenamoro.com.br e encontre o amor da sua vida!

Assunto: Re: O empurrão que você precisava!

Prezados, confesso que fiquei curioso com o título da mensagem: “O empurrão que você precisava”. Eu jurava que fosse algo relacionado a emprego ou a algum negócio. Mas quando vi que era um site de relacionamentos, entendi: do jeito que as coisas vão, só mesmo no tranco pra ver se o povo arruma compromisso. Daqui a pouco vai surgir o “Personal Cupido” – o que não deixa de ser uma boa ideia, desde que ele não seja míope e não sofra do Mal de Parkinson. Agradeço, mas eu ainda vou insistir nas cantadas inspiradas no pedreiro: “GATA, VOCÊ NÃO É CARDIOLOGISTA, MAS DOU O MEU CORAÇÃO PRA VOCÊ CUIDAR, SUA LINDA!”. Provavelmente não encontrarei o “amor da minha vida” com tal recurso, mas ao menos é divertido!

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De: atendimento@bancosantoandre.com.br
Assunto: Atualização de dados cadastrais - URGENTE

Prezado cliente, o seu cadastro preciza ser atualizado com urgência afim de que você continue a desfrutrar de todos os benefícios que só o Banco Santo André pode oferecer. Sem essa atualização você pode ser impedido de movimentar sua conta. CLIQUE AQUI PARA ATUALIZAR SEUS DADOS.

Assunto: Re: Atualização de dados cadastrais - URGENTE

Prezado atendimento, você PRECISA urgentemente:
1)      Voltar à escola ou comprar um dicionário;
2)      Tentar este golpe com clientes do banco Santo André;
3)  Selecionar melhor as (potenciais) vítimas. Sério que você quer mesmo dados informativos sobre a conta corrente de um professor? Ora, seja ambicioso, tente este endereço: http://www2.camara.gov.br/participe/fale-conosco/fale-com-o-deputado.


Deseja excluir e bloquear os endereços de e-mail selecionados?
SIM   NÃO 

terça-feira, janeiro 24, 2012

Espírito crítico



Apesar de ainda estar em férias, não pude visitar os belíssimos canais marcianos e por isso fiquei por aqui mesmo no planeta Terra, mais especificamente no Brasil e vez em quando atento às notícias relevantes e absolutamente imprescindíveis, como BBB 12 e um tal “meme” que fez sucesso, o tal “menos Luíza, que está no Canadá”.

Tente explicar para a sua tia ou avó que assistiu aos telejornais o que significa “meme”, “twitter”, “trending topics” (TT) e por que raios uma estudante fazendo intercâmbio no Canadá virou celebridade com direito a entrevista em telejornal transmitido para todo o país. Difícil, não? Isso rendeu um comentário do jornalista Carlos Nascimento, do SBT – eu sei, a emissora que transmite o programa do Ratinho – dizendo que “nós já fomos mais inteligentes”.

Nas Redes Sociais foi possível acompanhar a saraivada de críticas (algumas exageradas) e piadas ao comentário do veterano jornalista. Mas a entrevista que vale a pena ser lida e comentada não mereceu grande destaque nas redes: é do jornalista Heródoto Barbeiro ao portal Terra.

Na boa entrevista o jornalista fala sobre o papel das redes sociais na difusão das notícias, sobre democracia, o papel do jornalista – e do jornalismo – e, claro, cidadania. E foi exatamente neste ponto que a entrevista chamou a minha atenção: “Infelizmente, nós por uma questão histórica, não temos ainda essa tradição, essa construção da cidadania. (...) Não temos, ainda, a formação desse espírito crítico.”.

Na verdade estamos começando a formar este espírito crítico (embora ainda timidamente) e as ferramentas de comunicação na internet são partes fundamentais neste processo – falam muito de twitter e facebook, mas os blogs têm papel muito ativo na construção deste espírito crítico. Não subestimo o papel que as redes sociais podem desempenhar, mas também não superestimo: de posse da informação é preciso saber o que fazer com ela. Este é o ponto central. 

Dois exemplos interessantes do uso da informação nas redes: o caso do suposto assassinato da criança indígena no Maranhão e a (vergonhosa) ação da polícia militar de São Paulo na desapropriação da área conhecida como“Pinheirinho”, em São Josédos Campos. Enquanto no primeiro caso a FUNAI finalmente se mexeu para pedir investigação da denúncia de assassinato após haver pressão nas redes e isso chegar à imprensa tradicional, no segundo caso as informações chegavam por fontes in loco e contavam o que realmente estava acontecendo – a PM limitou, em dado momento, o acesso a jornalistas ao local e liberou informações apenas para determinados veículos de imprensa. Isso não impediu, contudo, os relatos que contradizem as versões oficiais, principalmente do comando da polícia militar que considerou a ação “pacífica”. Aliás, uma coisa boa das redes sociais: a lembrança do nome de Naji Nahas, mega especulador que quebrou a Bolsa de Valores do RJ na década de 80 e envolvido em lavagem de dinheiro. Nahas é dono do terreno onde ficava a ocupação Pinheiro - terreno este com uma dívida de R$ 16 milhões em impostos atrasados. 

Eu comparo a internet a uma banca de revistas – sim, elas ainda estão por aí: existe uma seção de publicações fúteis e outra seção de publicações mais interessantes. Neste momento é que entra(ria) em cena o espírito crítico das pessoas para saber o que pode ser aproveitável em termos de informação. Por isso não adianta bradar contra Carlos Nascimento: provocadores são necessários para nos despertar de certa apatia e não cairmos nas fáceis armadilhas do “senso comum”. Também não adianta chiar muito com entretenimentos como Big Brother Brasil,( a não ser com um suposto estupro) Mulheres Ricas, Michel Teló ou memes que são criados diariamente nestas redes sociais. O que sustenta o sucesso de tais produtos é a importância que parte do público dá a elas – ou “audiência”. Aos poucos vamos formando distanciamento crítico através da educação, ascensão econômica e social. Contudo é preciso cuidado com posturas incoerentes: de certa forma é comum encontrarmos nestas redes manifestações contra a censura e ao mesmo tempo o patrulhamento de opiniões. O simples ato de dizer que “gosta” ou “não gosta” pode se tornar alvo de trolls e ofensas diversas.

Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas mesmo por algumas vias tortuosas e errando aqui e ali, talvez alcancemos o ponto que Voltaire proclamou, no século XVIII: “só somos felizes desde que cada qual goze livremente do direito de exprimir sua opinião”. É preciso haver liberdade – até para errar – para que possamos construir o tão desejado senso crítico e compreender o que é cidadania.  


( E para que continue havendo liberdade na internet, é preciso repudiar veemente o famigerado SOPA - Stop Online Piracy Act. É o SOPA no congresso dos EUA, é o PL 84/99  - mais conhecido como Lei Azeredo - circulando pelo congresso brasileiro. Todo cuidado é pouco com a Lei Azeredo: sob o disfarce de combate à pedofilia e pirataria, esconde um projeto que restringe a liberdade de expressão.)  

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Bad dream

Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.

Contar não posso como tinha entrado;
Tanto o sono os sentidos me tomara,
Quando hei o bom caminho abandonado.*


De alguma forma que eu não sei explicar encontrei uma trilha no meio da selva tenebrosa. Não era a estrada que eu conhecia, mas quando se está perdido qualquer caminho serve. E segui cautelosamente rumo a destino incerto quando encontro um leão bloqueando o caminho e, para meu espanto, ele diz:

- Alto! Essa trilha é proibida para você, não pode passar por aqui!

Após alguns segundos de terror na expectativa que a fera pudesse me devorar, reuni coragem e, com tom firme, disse:

- Não é verdade: você mesmo, animal das savanas, é uma mentira que não deveria estar nesta selva!

Imediatamente o leão desapareceu e segui o caminho que não era meu, mas para algum lugar me levaria. As palavras da fera acenderam a curiosidade: proibido, por quê? O que encontrarei no fim desta jornada? Absorto em pensamentos, eu não percebi logo adiante outra fera bloqueando o caminho: um enorme crocodilo anunciava o mesmo aviso que o leão havia me dado:

- Alto! Essa trilha é proibida para você, não pode passar por aqui!

O animal estava com suas enormes mandíbulas abertas e calculei que seria muito fácil para ele me devorar caso eu tentasse seguir caminho adiante. Olhei o ambiente ao redor e, com tom firme, disse:

- Não é verdade: você mesmo, animal das águas e pântanos, está muito distante do seu habitat, pois não existe água aqui por perto!

Imediatamente o crocodilo desapareceu e prossegui pela trilha que a cada curva representava uma expectativa: o que encontraria nesta selva tenebrosa e surpreendente? Não parecia ser o mais importante naquele momento, mas eu queria saber o nome daquele lugar; qualquer localização, por mais imprecisa que fosse, ajudaria.

Caminhei um bom pedaço da trilha sem surpresas até que cheguei a uma velha choupana onde avistei um homem apontando um rifle em minha direção. Por saber o que ele iria falar, tomei primeiro a palavra:

- Sei que essa trilha não é permitida para mim, mas gostaria de saber por quê.
- Basta que você saiba que ela é proibida, é o bastante! – disse o homem.
- Eu não entendo... diga-me por que este caminho é proibido para mim!
- Tudo o que eu posso dizer é que este não é o caminho que você procura. Não sei como passou pelas feras, mas por mim não passará. Ordeno que volte!
- Para onde? – perguntei, cada vez mais confuso.
- Este é problema seu: se você não sabe de onde veio, não pode saber para onde vai! Já falei mais do que deveria, vá embora ou atiro!

O homem ajeitou o rifle e fez a mira, então resolvi voltar, mas as feras estavam logo atrás de mim.

- De onde surgiram? – perguntei assustado.
- Agora não pode mais voltar. Se tentar será devorado e desta vez não importa o artifício que use, nós atacaremos! – disse o leão, enquanto o crocodilo salivava.

Não poderia seguir em frente, tampouco retornar e não sabia o que fazer! Ah, se eu tivesse asas para tentar o céu! Então corri para o coração da selva, no meio do mato e de repente me vejo diante de um precipício. Lá embaixo um filete de água que poderia ser um rio. Com medo de altura logo recuei, mas a poucos metros estavam parados o homem, o leão e o crocodilo. O rifle do homem continuava apontado para mim, o leão rugia e quanto ao crocodilo é impossível prever suas reações, animal traiçoeiro!

- Agora você tem apenas essa opção! – gritou o homem.
- E se eu não a quiser? Sempre há outras opções! – o meu grito transmitia pavor.
- Sim, então escolha: ou você salta ou tenta passar por nós. Qualquer que seja a sua escolha você estará sozinho, entendeu? Sozinho! Você fez tudo errado, ajeite-se sozinho daqui para frente! – gritou o homem e esta foi a última coisa que eu ouvi.

Terra dos Pesadelos, noite de 13 para 14 de Janeiro de 2012.

*introdução de “O Inferno”, da Divina Comédia de Dante Alighieri.

sábado, janeiro 14, 2012

Indicações literárias II

Levo minhas ameaças a sério: ao final das indicações literárias - parte I eu escrevi que em breve retomaria a lista de alguns bons livros que eu li durante o ano de 2011. E traria também alguns títulos que não agradaram a este humilde leitor no ano passado. E faço questão de relembrar que não sou crítico literário e não tenho essa pretensão. Não tão breve assim mas com a ameaça já no plano real, lá vamos nós!

A PESTE – Albert Camus
A leitura de alguma obra de Camus não nos deixa indiferentes. Para o escritor argelino a relação do homem com o mundo é absurda, estranha e muitas vezes (ou sempre) sem explicação. É como se o homem fosse um “estrangeiro” em seu próprio mundo – daí a sua obra mais conhecida, “O Estrangeiro”; já no romance “A Peste” (1947), conforme o título sugere, o leitor depara-se com uma cidade (Oran) sitiada pela peste bubônica. Ninguém entra ou sai da cidade e nenhum tratamento parece eficaz para salvar os doentes. Mas diante da morte quase certa, surge a solidariedade entre os homens e a luta pela vida é constante. Embora não seja tão arrebatador como “O Estrangeiro”, este livro suscita reflexões por vezes amargas, mas necessárias. Clássico!

AS CONSOLAÇÕES DA FILOSOFIA – Alain de Botton
Alain de Botton é injustamente rotulado por alguns como “superficial” e acusado de “escrever para fãs de Nick Hornby e literatura pop” (!). Bobagem: o mérito do autor é justamente relacionar a filosofia com o nosso cotidiano – ou a “vida prática”, já que a filosofia e os filósofos geralmente levam a fama de “lunáticos”. E neste livro o autor suíço traz uma turminha da pesada ( não é o narrador da Sessão da Tarde falando) para tentar explicar temas que estão presentes em nosso dia a dia: corações partidos, falta de dinheiro, frustrações, impopularidade. Botton convoca Sócrates, Sêneca, Epicuro, Montaigne, Schopenhauer e Nietzche para um bate-papo enriquecedor e que pode aliviar certas agruras modernas.

A MISTERIOSA MORTE DE MIGUELA DE ALCAZAR – Lourenço Cazarré
Este é um livro muito bem humorado que carrega em todos os clichês da ficção policial e satiriza alguns expoentes do estilo: Agatha Christie vira Águeda Christine com forte sotaque mineiro; Dashiell Hammlett e Raymond Chandler dão vida a Dax Chamber com o seu gauchês; George Simenon é um Georges Sim Et Non com toda a ginga carioca; Fedora Smerdlova Dornascostasviskáya (adivinhem quem é) representando o nordeste e sobrou até um chinês com sotaque paulistano, meu! Todos reunidos em um hotel em Brasília para solucionar o mistério da morte da espanhola Miguela de Alcazar Y Casas de Bourboun. É muito divertido.

MALDITOS PAULISTAS – Marcos Rey
Calma aê, mano, nada contra 'os paulista', tá ligado? Esse é o título do divertido romance de Marcos Rey – que quase todo adolescente dos anos 80 e 90 conhece graças à saudosa “Coleção Vagalume”, com títulos como “O Mistério do Cinco Estrelas”, “Quem manda já morreu”, “Dinheiro do céu”, dentre outros. Em mais uma trama misteriosa e carregada com o humor peculiar de Rey é contada a história de Raul, um carioca que tenta a sorte em São Paulo como motorista de “gente bacana” – só que o patrão trata de “negócios suspeitos” e entre um encontro aqui e ali com as empregadas da mansão, Raul tenta descobrir o que o patrão faz. Este livro é tão bom quanto um chopps e dois pastel, meu!

MATE-ME,POR FAVOR: A HISTÓRIA SEM CENSURA DO PUNK – Legs McNeil & Gillian McCaim
Um pequeno trecho:
“Empresariar Iggy (Pop) era um inferno.( ...) E Iggy tinha problemas com as drogas; A banda de Alice Cooper e os Stooges tocavam no mesmo show, e eles recebiam mil e quinhentos dólares por noite. Chegava a hora do show e quando os caras da banda de Alice iam procurar o espelho para pôr a maquiagem nos olhos – sabe como é, bem profissionais – tínhamos que ir atrás de Iggy. E eu o encontrava estendido lá, perto da privada, com uma agulha no braço, e eu tinha que tirá-la, com sangue esguichando para tudo quanto é lado, e tinha que dar uns tapas na cara dele, dizendo: ‘É hora do show!’ Isto era divertido? Yeah, certo.”
Que fofo, não? Este é um pequenino trecho da história do punk contada por quem sobreviveu a anos de loucura – gente como Lou Reed, Iggy Pop, ( e juntamente a Keith Richards e Ozzy Osbourne, temos o maior mistério dos tempos modernos: como esses caras estão vivos até hoje?) Patti Smith, Wayne Kramer, Dee Dee Ramone e grande elenco. 1,2,3,4, hey, ho, let´s go!

MERECEM CITAÇÃO

A mais bela história da Felicidade: A recuperação da existência humana diante da desordem do mundo – André Comte-Sponville, Jean Delumeau, Arlette Farge. Filósofos e Historiadores analisando essa tão sonhada “busca da felicidade” ao longo da história e à luz da filosofia. Um livro excelente!

Onde foi parar nosso tempo? – Alberto Villas. Livro delicioso para relembrar tempos em que cartas eram enviadas , a TV precisava "esquentar as válvulas" e a primeira comunhão era um grande acontecimento!

Essa Terra – Antônio Torres. Depois da palhaçada que foi a eleição de Merval Pereira para a Academia Brasileira de Letras, a releitura desta (breve) obra foi fundamental para lembrar que a literatura não precisa da decadente ABL.

Mr.Natural vai ao hospício – Robert Crumb. O guru mais sacana dos anos 60 esculhambando com o “peace and love” no traço sensacional do Crumb!

O QUE NÃO AGRADOU EM 2011

HOMEM COMUM – Phillip Roth
A culpa é toda minha: eu deveria ter iniciado no “universo” de Roth com “Complexo de Portnoy”, considerado seu melhor livro – e já está na lista para 2012. Fui atraído por esta obra “Homem Comum” por conta de elogiosas resenhas das quais chegavam a compará-lo ao clássico “A morte de Ivan Illitch”, de Tolstoi. Não chega nem perto do livro do conde russo: o livro de Roth em si não é ruim - a velha história de um homem em idade avançada perdido em lembranças e arrependimentos – mas não empolga. Provavelmente eu tenha criado muitas expectativas e a leitura foi decepcionante, repleta de obviedades. Mas não desisto tão facilmente e espero que “Complexo de Portnoy” figure na minha lista dos melhores de 2012.

GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA HISTÓRIA DO BRASIL – Leandro Narloch
A ideia é muito boa: quem não gostaria de saber da verdadeira história do Brasil com aqueles detalhes que os livros didáticos da escola não contam? Infelizmente o autor, o jornalista Leandro Narloch, preferiu perder tempo com provocações e piadas infames neste livro. (cabe aqui uma ressalva: é necessário que tenhamos provocadores escrevendo ou dando entrevistas por aí, pois é preciso sair do “senso comum” que vem dominando os debates (?) no Brasil - desde que tais "provocadores" apresentem argumentos mais consistentes.) Encher o livro com provocações quase infantis, relacionar piadinhas bobas – a velha bobagem sobre “o Acre não existe” - e citar fontes no mínimo polêmicas – Marco Antônio Villa como referência para falar da ditadura? - acabam comprometendo a credibilidade do livro e acrescentam pouco ou quase nada à História – ou nada que uma boa pesquisa junto a São Google não resolva.

LIVROS DA EDITORA MARTIN CLARET
Eu estava à procura do “Dicionário Filosófico”, de Voltaire e o encontrei publicado pela editora Martin Claret. Os livros desta editora costumam ter preços acessíveis ( R$ 14,90, R$ 17,90 e por aí vai) mas tem um grave problema: a editora já foi acusada por plágio nas traduções. Além do próprio editor admitir que a tradução de “A República”, de Platão, é plágio de outra edição, ainda há a denúncia de que traduções feitas por Monteiro Lobato tenham sido plagiadas pela editora. Graças ao rigoroso trabalho da professora e tradutora Denise Bottman, autora do blog Não gosto de Plágio (http://naogostodeplagio.blogspot.com/ ) já foram constatadas diversas irregularidades em livros da editora. E infelizmente descobri o blog e o plágio da editora um pouco tarde: agora tenho uma edição do “Dicionário Filosófico” toda atrapalhada e com verbetes a mais. Como diria o corvo de Poe, “never more”!

terça-feira, janeiro 10, 2012

Brevíssimo histórico dos índios nas Américas


“Quem vive de passado é museu”, dizem. Bem, desta vez darei voz ao passado antes de chegar ao nosso incrível e evoluído século XXI.

Ilha Espanhola, atual República Dominicana, 1511

Na ilha Espanhola que foi a primeira, como se disse, a que chegaram os espanhóis, começaram as grandes matanças e perdas de gente, tendo os espanhóis começado a tomar as mulheres e filhos dos índios para deles servir-se e usar mal e a comer seus víveres (...) Os espanhóis, com seus cavalos, suas espadas e lanças começaram a praticar crueldades estranhas: entravam nas vilas, burgos e aldeias, não poupando nem as crianças e os homens velhos, nem as mulheres grávidas e parturientes e lhes abriam o ventre e as faziam em pedaços como se estivessem golpeando cordeiros (...) sempre matando, incendiando, queimando, torrando índios e lançando-os aos cães (...) faziam certos gradis sobre garfos com um pequeno fogo por baixo a fim de que, lentamente, dando gritos em tormentos infinitos, rendessem o espírito ao Criador. (...) A causa pela qual os espanhóis tal infinidade de almas foi unicamente não terem outra finalidade única senão o ouro. Frei Bartolomé de Las Casas – O Paraíso Destruído: a sangrenta história da Conquista da América

Sicuani/ Cusco, Peru, 1782

Diego Cristobal, primo-irmão de Túpac Amaru e continuador de sua guerra no Peru, firmou acordo de paz. As autoridades coloniais prometeram perdão e indulto geral. Deitado no chão, Diego Cristobal jura fidelidade ao rei. Multidões de índios descem dos montes e entregam as armas. (...) Dentro de um ano e meio, em Cusco, na Praça da Alegria, o carrasco arrancará aos pedaços a carne deste primo de Túpac Amaru, com tenazes em brasa, antes de pendurá-lo na forca. Também a mãe dele será enforcada e esquartejada. O juiz, Francisco Díez de Medina, tinha sentenciado que "nem ao Rei nem ao Estado convém que sobre semente ou raça deste e todo Túpac Amaru, pelo muito barulho e impressão que este maldito nome causou aos naturais". Eduardo Galeano –Memória do Fogo vol.2: as caras e as máscaras

Brasília, Brasil, 1997

O índio pataxó Galdino Jesus dos Santos morreu nesta madrugada no Hospital da Asa Norte de Brasília. Na madrugada de sábado para domingo, cinco rapazes atearam fogo em Santos com um líquido inflamável. O índio teve 95% do corpo queimado. Os jovens colocaram fogo em Santos quando ele dormia em um ponto de ônibus depois de uma festa do Dia do Índio. Eles alegaram não saber que se tratava de um índio, mas de um mendigo. Folha/UOL

Maranhão, Brasil, 2012

A Fundação Nacional do Índio (Funai) no Maranhão abriu investigação para apurar uma denúncia do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) sobre o assassinato de uma criança indígena de 8 anos de idade da etnia Awá-Guajá na cidade de Arame, distante 469 quilômetros de São Luís. Depois de morta, a criança foi queimada e jogada em uma cova. A execução ocorreu no ano passado e os indígenas acreditam que madeireiros que cortavam árvores de forma ilegal em Arame estejam envolvidos no assassinato. Último Segundo – Portal IG

Embora a notícia da criança indígena carbonizada pareça ser boato, os assassinatos e torturas aos povos indígenas continuam a acontecer, bem como os alarmantes índices de suicídio - e boato ou não, isso não muda a situação das comunidades indígenas no Brasil, especificamente. Quem precisa do passado se alguns fatos que aconteceram há 500, 200 anos – coisa de museu – continuam praticamente iguais? No entanto em tempos futuros não teremos mais assassinatos e torturas contra os indígenas, pois o que restar deles estará em museus. Se alguém ainda se importar com museus e a História, é claro.


Complemento: algumas horas após a publicação deste texto no blog a FUNAI divulgou um longo relatório (que em alguns momentos parece mais um "desabafo") do qual informa que a notícia sobre o assassinato de uma criança indígena que foi carbonizada não passa de um boato; já o CIMI - Conselho Indigenista Missionário, ligada à CNBB - em nota pública afirma que acredita na denúncia feita por indígenas Tenetehara e pede maiores investigações. O Ministério Público do Maranhão decidiu acompanhar o caso.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Depois dos fogos e dos festejos, o que resta?

A primeira segunda-feira do ano novo é um chamado de volta à realidade: a imprensa faz questão de lembrar a sopa de letrinhas dos impostos que escondidos por trás de siglas muitas vezes misteriosas para a população. E segunda-feira pós ano-novo é também dia de “balanço das rodovias estaduais e federais”: o Brasil é um país de motoristas insanos, a julgar pelos números de acidentes, mortos e feridos nesta verdadeira guerra não declarada.

É dia também de retomar o trabalho. Enfrentar aquele trânsito caótico, congestionamentos, transporte público ineficiente; pegar fila para pagar aquela conta que vence daqui a dois dias; é dia de planejar as ações na semana no trabalho, lidar com o patrão que lembra o velho Scrooge antes de ser visitado pelos três espíritos de natal. Ainda bem que as crianças estão em férias – ainda bem?

Voltamos à rotina. Passada a euforia do natal e do reveillon, saudamos o ano novo exatamente como deixamos o anterior: com as pendências e as atribuições de sempre no cotidiano. Claro que há a esperança de um ano melhor. O ser humano é assim: adora a ideia de encerrar um ciclo – ou ciclos - para “começar de novo”. Faremos melhor, faremos diferente, nada será como antes. O que ficou no passado fica lá mesmo, afinal quem vive de passado é museu, não é isso o que dizem?

Há dois dias, na virada do ano, muita gente caprichou nos rituais e nos pedidos. O uso de roupas brancas já é tradição neste período, além das famosas resoluções. Uma das coisas que as pessoas mais pedem é “paz” no ano que se inicia. A cor branca, das roupas ou de alguma peça íntima (!) representa esse estado pacífico que todos esperam.

Talvez aí esteja o problema: “esperar”. Acreditar em energias positivas e bons fluidos faz bem, mas esperar que alguma entidade que rege o universo ou que atue em planos espirituais tenha pena da pobre humanidade e lance sementes de paz na noite da virada de ano mudando, assim, o coração de todas as pessoas é muito comodismo. Tais sementes, aliás, já foram lançadas por palavras e ideias de grandes mestres ao longo da história – o que ficou no passado fica lá mesmo, é assim?

Não dá para vestir roupas de cor branca, abraçar as pessoas e pedir “paz” se não houver um desarmamento de espírito. A vida aí fora é insana, é difícil, é estressante, cada vez mais competitiva, é verdade; porém aquelas mesmas pessoas que pediram por paz há dois dias poderiam acelerar um pouco menos seu automóvel; poderiam ter paciência com os idosos na fila do caixa ou do banco; poderiam tratar aos demais com alguma cortesia; poderiam, enfim, semear a paz que tanto almejam nas atitudes cotidianas.

Ou então depois da queima de fogos tudo o que restará é a fumaça dissipada pelo vento e as imagens registradas pelas câmeras de TV e armazenadas para retrospectivas – novamente nos deparamos com o passado. E não adianta culpar 2012: é apenas mais um ano na contagem do calendário da era Cristã.

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