sábado, dezembro 22, 2012

As leituras de 2012

Felizmente, ou infelizmente para alguns, o mundo não acabou – o que acabou foi a tinta dos sacerdotes maias ou mesmo a paciência deles em continuar o calendário. Superado mais um apocalipse que não veio ( aguardem 2033), é hora da famosa “retrospectiva de 2012” que será acompanhada em todos os canais de TV, sites e revistas.

A retrospectiva aqui é um pouco diferente: trata-se dos melhores livros que eu li neste ano cabalístico. Não faço a contagem de quantos livros foram lidos, mas selecionei 06 obras que eu gostei bastante e recomendo aos 3 ou 4 leitores deste bloguezinho. Vamos à listinha.

A GUERRA DAS SALAMANDRAS, de Karel Capek. Ed. Record
“É um livro ao mesmo tempo divertido e trágico, uma sátira a respeito dessa bobagem dramática que é o ser humano, uma espécie que engendra permanentemente seu próprio fim”. As palavras do tradutor da obra-prima de Capek, Luís Carlos Cabral, dão uma boa medida com o que o leitor vai se deparar: a descoberta de uma espécie de salamandras inteligentes logo é vista pelo homem como potencial econômico. As salamandras são escravizadas e passam a movimentar a economia mundial; porém as coisas escapam do controle dos homens e isso pode significar o fim da humanidade. Capek, autor dos ótimos “Histórias Apócrifas” e “Fábrica de robôs”, não perdoa nada: capitalismo, comunismo, Hollywood, superpopulação, ciência... todos são satirizados pelo autor tcheco neste genial, divertido e perturbador livro.

TRILOGIA SUJA DE HAVANA, de Pedro Juan Gutiérrez. Ed. Alfaguara
O autor cubano Pedro Juan é comparado a Bukowski e Henry Miller, inclusive na contra-capa do livro – “uma espécie de Bulowski caribenho ou de Henry Miller de Havana”. Creio que tais comparações acontecem por conta do estilo de Pedro Juan: direto e sem rodeios ao tratar de temas como sexo, fome, violência, prédios caindo aos pedaços, bebidas e trabalho. Neste ponto – da “crueza” das palavras – os autores se equivalem; porém na “Trilogia...” encontramos poesia e sensibilidade ao lado de várias situações explícitas narradas por Pedro Juan - é bom lembrar: o cenário é a Cuba de Fidel nos anos 90, com o fim da União Soviética e bloqueio econômico dos EUA. Outro aspecto bem interessante: é destacada em várias passagens a religiosidade dos cubanos, que lembra bastante o sincretismo religioso praticado sobretudo em Salvador e recôncavo baiano.

UMA CONFRARIA DE TOLOS, de John Kennedy Toole. Ed. Best Bolso
“Aquele gordão esquisito é uma bomba tônica cem por cento garantida. Porra, meu, é só jogar ele por cima de alguém e todo mundo pega a sobra, acaba tudo sendo detonado!” É assim que um dos personagens descreve o anti-herói Ignatius J. Reilly, um intelectual preguiçoso, guloso, egocêntrico, amante da Idade Média e incapaz de sustentar um emprego simples como vendedor de cachorro quente. Ignatius é tão desagradável que nem mesmo a sua mãe o suporta mais o dia todo em casa soltando gases e escrevendo seus tratados. E mesmo assim este “Dom Quixote” de Nova Orleans dos anos 60 consegue ser uma personagem cativante. Um dos melhores livros que eu já li, sem dúvida!

O CORAÇÃO DAS TREVAS, de Joseph Conrad. Clássicos Abril Coleções
“Marlow silenciou e permaneceu sentado, afastado, indistinto e calado, na pose de um Buda meditando. Ninguém se mexeu durante algum tempo”. E foi exatamente assim que eu me senti ao final da leitura deste clássico de Conrad, como se fosse um tripulante do Nellie. O romance, com pouco mais de 100 páginas, conta a missão de Charles Marlow pela selva africana em busca do Sr. Kurtz, administrador de um posto comercial. Mas o sr. Kurtz não é só isso: ao longo da trama ele vai sendo construído através de relatos e idealizações - o “notável” sr. Kurtz, afinal, existe? A medida que Marlow embrenha pela selva hostil e desconhecida o tom da narrativa se torna mais sombrio – e encontramos a face cruel do colonialismo europeu na África. Um mergulho no coração da alma humana.

O GRANDE GATSBY, de F.Scott Fitzgerald. Penguim Companhia
“Afinal, quem é esse Gatsby? - perguntou Tom de repente. – Algum figurão contrabandista?” Long Island, ilha de Nova Iorque, anos 20 do século passado: festas, glamour, jazz, álcool, jovens e ricos – o sonho americano é retratado neste romance de Fitzgerald, ele próprio egresso da aristocracia. O misterioso Jay Gatsby promove festas suntuosas em sua mansão e ninguém o conhece realmente – apenas Nick Carraway, o narrador que se torna a pessoa “mais próxima” de Gatsby e descobre sua motivação. “O grande Gatsby” é uma obra fantástica: ao lado de tanto glamour e vaidades, há traições, desencantos e amores mal resolvidos. O livro já foi adaptado para o cinema e repetirá a dose em 2013.

TARÁS BULBA, de Nikolai Gogol. Editora 34
Há muito tempo eu queria ler essa obra do ucraniano Nikolau Gogol, autor de contos como “O Nariz”, “Diário de um Louco” e “O Capote”. Tarás Bulba, “um dos velhos e radicais coronéis” dos cossacos, recebe os dois filhos que retornavam dos estudos em um colégio interno de Kiev. Para um cossaco “se emancipar”, é preciso passar pelo serviço militar. Logo, os rapazes estão em campanha, mas um deles – romântico e idealista – desagrada ao pai. As batalhas contra os poloneses são descritas vivamente por Gogol, assim como o estilo despojado e livre dos cossacos.




Tenham todos um excelente 2013, com muitas realizações e ótimas leituras!

sábado, dezembro 15, 2012

Diário do fim do mundo


(clique na imagem para vê-la em tamanho maior) 


Segunda-feira, 17 de Dezembro, 2012 – começou a contagem regressiva. Ou seria “contagem depressiva”? Faltam poucos dias para o mundo acabar e nem escolhi uma roupa ainda. Eu nunca sei o que vestir nesses eventos. Bom, depois eu penso nisso. Hoje é a última segunda-feira da história e eu vou para o trabalho. Acordei cedo, animado e registro logo pela manhã o meu roteiro para este dia com coisas que eu sempre tive vontade de fazer nos últimos 5 anos: me declarar para a secretária, arrebentar aquela impressora diabólica, chamar aquele patrão idiota e sabotar todo o sistema da empresa. Eles merecem! E depois vou ao cinema. 


Terça-feira, 18 de Dezembro, 2012Não fiz nada daquilo que planejei ontem. A secretária continuou me esnobando, a impressora continuou rebelde (impressoras são instrumentos diabólicos!), o patrão me chamou de idiota e fiz todo o trabalho rotineiro no sistema da empresa. E não fui ao cinema. Passei em frente a uma concessionária e vi o carro dos meus sonhos por um preço que eu teria que trabalhar 10 anos sem férias e sem gastos supérfluos - como alimentação - para poder pagá-lo. Mas dane-se:  já que o mundo vai acabar, que eu realize ao menos um sonho, não é? 

Quarta-feira, 19 de Dezembro, 2012Acordei todo moído esta manhã. Na volta do trabalho o ônibus quebrou e eu preferi voltar a pé para casa, não quis esperar outro transporte.  Pois é, não comprei o carro: como estou com o nome sujo no SPC, não pude fazer o financiamento.  Mas pensei melhor e decidi que vou fazer uma grande festa aqui em casa no dia 21, o último dia deste bom e velho mundo. Vou convidar o pessoal lá do trabalho... não, nem todos, pois vou me demitir hoje e arranjarei vários inimigos na véspera do fim. Lá da empresa vou chamar apenas a secretária e o office-boy que descola uns cigarrinhos para a galera. Vou chamar os caras do time, um pessoal lá do boteco e chamar umas strippers para animar o povo. E uma banda, claro. Vou pensar em um nome legal para a festa! 

Quinta-feira, 20 de Dezembro, 2012A “Última festa da sua vida” (não consegui achar um nome melhor) foi cancelada. Pudera: assim que cheguei à empresa, a secretária me esnobou e se declarou para o office-boy; o patrão chegou com um visual de surfista ( camiseta regata, bermuda, sandália e, claro, uma prancha de surf), subiu na mesa e gritou para todo o escritório: “Vocês todos estão demitidos, seus escravos imbecis! E nem passem no departamento pessoal para acertarem as contas – não terão tempo para gastar o seguro-desemprego! Chupa!!!”; corri pelo corredor para alcançar a impressora maldita mas cheguei tarde: o auxiliar de escritório, a recepcionista e o analista contábil já estavam chutando e pisoteando o que sobrou da máquina.

O jeito foi telefonar para os caras do time e falar da festa, mas alguns alegavam que iriam aguardar o fim do mundo com a família. Tive pena do Miltinho, todo perdido entre esperar o fim com a família ou com a amante - e ele aflito me pedindo conselhos, mas quem mandou procurar sarna para se coçar?; o Careca, pô, eu considerava muito o cara e pensei que a recíproca era a mesma, mas quando telefonei para ele o cara começou a falar tudo o que pensava sobre mim – e não foi com termos gentis; o Betão falou que iria aguardar o fim na igreja e o Zeca cavou um buraco no quintal de casa. Tentei as strippers, mas todas já tinham agendado apresentações em festinhas com semanas de antecedência.

Restou passar no mercadinho e saquear umas latas de cerveja – sim, saquear, pois o povo enlouqueceu e o dono simplesmente abandonou os negócios. Ainda tive a sorte de conseguir três pacotinhos de amendoim japonês. 


Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2012.

Prezado planetinha azul,

Hoje a sua trajetória no universo chega ao fim.  Eu nunca entendi as expectativas exageradas dos seres humanos apostando no fim dos tempos: perto do ano 1000 já falavam em  “Juízo final” e como você continuou aí firme e forte, surgiram profetas, videntes e a máxima “a mil chegará, mas de dois mil não passará”. 


A verdade, querido planetinha, é que não somos tão espertos assim. Qualquer cometinha passando perto daqui e somos tomados pelo pânico, como se fosse acontecer a tragédia que dizimou os antigos moradores de suas dependências, os dinossauros – dizem que foi um meteoro o responsável pela extinção dos bichos. Mas é interessante notar que temos certo gosto pela catástrofe. Filmes, literaturas e profecias sobre o “fim do mundo” fazem sucesso por aqui. Perto do ano 2000 os “best-sellers” nas livrarias eram obras relacionadas às profecias de Nostradamus; hoje é a vez do calendário maia: a civilização maia era muito boa em astronomia e criou um calendário (bem complexo, diga-se de passagem) de ciclos; 2012 é apenas o fim de um ciclo de acordo com aquele calendário, mas alguns místicos confundiram tudo e saíram por aí espalhando que era o “fim do mundo”. 

Convenhamos, mundo velho de guerra: 2012 foi mesmo um ano muito estranho! Os próprios astrônomos registraram explosões solares com atividades bastante violentas; alguns políticos, no Brasil, foram julgados e condenados à cadeia por corrupção – se eles cumprirão as penas é outra história; o Corinthians foi campeão da Taça Libertadores da América e o Palmeiras foi rebaixado de novo; Sílvio Santos parou de pintar o cabelo – por um período; e quase que o grupo “É o Tchan!” retornou com sua formação original!   

É claro que eu não acredito em nada do que essas profecias ( Nostradamus, maias, Edgar Cayce, Mãe Diná) dizem - acredito apenas em meu horóscopo alertando que hoje é não é um bom dia para tratar dos assuntos regidos por Marte, embora eu não tenha assuntos a tratar por lá. Contudo, como bem lembra um ditado espanhol, “yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay”. 


Foi muito bom conviver contigo, simpático planetinha. Vai desculpando o lixo que eu produzi durante meus 30 e poucos anos de existência e de como eu me aproveitei de seus recursos sem dar nada em troca. Esta primeira cerveja, das muitas que eu consegui saquear, é dedicada a você, in memorian

Adeus, mundo cruel.

terça-feira, novembro 27, 2012

Heróis da infância



Todo menino teve seus heróis além daqueles da TV e das Histórias em Quadrinhos. Aqueles heróis, diferentemente do Super Homem ou Spectreman, não possuíam super poderes e nem lutavam contra gigantes que queriam destruir o planeta. Eram pessoas simples, que encontrávamos nas ruas quase todos os dias: o policial, o bombeiro, o eletricista que escalava os postes e até o carteiro que enfrentava os terríveis cães de guarda no cumprimento do seu dever. Porém, eu e os meninos da rua tínhamos um herói em comum: um motorista de ônibus cujo apelido era “Ratinho”. 


O apelido era óbvio: macerrímo ao estilo “pele e osso”, ostentava uma cabeleira loira e lisa em uma grande cabeça que víamos a quilômetros de distância – exagero, claro; dentuço e com olhos pequenos - mas vivazes! -, o frágil e pequeno Ratinho se tornava um Hércules ao comandar um veículo imenso com tantas toneladas. E por se achar uma espécie de semideus do Olimpo e assim praticamente indestrutível, o nosso Ratinho pisava fundo no acelerador – para a alegria da garotada e reclamações dos adultos: 

- Ô, motorista, vai tirar a mãe da forca, é? Vai devagar! 
- Motorista, seu maluco, você não tá carregando gado, não! Alivia! 

A garotada adorava pegar o ônibus com o Ratinho porque ele fazia ultrapassagens arriscadas em alta velocidade, buzinava freneticamente para os carros pequenos saírem da frente e transformava as ruas e ladeiras em trilhos de montanha russa; desta forma não faltavam incentivos ao “Nelson Piquet do busão”: 


- Pisa fundo, Ratinho! Ainda tá devagar!
- Tá lerdo hoje, hein, Ratinho? Acelera! 


As reclamações dos adultos ao fiscal da empresa de ônibus eram constantes, mas nada acontecia ao Ratinho, pelo contrário: o fiscal reiterava que o motorista era um funcionário exemplar, cumpridor dos horários e nunca se envolveu em um acidente de trânsito. Quando soubemos que ele nunca bateu o ônibus, Ratinho passou a ser o ídolo incontestável entre a garotada. Andávamos de bicicleta querendo imitar o nosso herói – e com resultados doloridos principalmente nos joelhos e nos braços, é claro. Mas nenhuma queda de bicicleta nos desanimava do nosso grande objetivo no futuro: ser motorista de ônibus – não um motorista qualquer, mas igual ao Ratinho! 

Um dia, porém, aconteceu o que os adultos previam há muito tempo. No horário de sempre no retorno da escola, pegamos o ônibus com o nosso motorista idolatrado e nos preparávamos para mais uma curta viagem repleta de emoção em alta velocidade – e naquele tempo ainda havia algumas ruas sem pavimentação, para alegria da garotada: com o ídolo das pistas, a viagem parecia uma prova de Rally em alguns trechos. E foi exatamente em um destes trechos, com lama e sem cascalho, que Ratinho perdeu o controle do veículo e bateu com tudo na parede de uma casa – felizmente vazia naquele momento, pois o ônibus invadiu uma parte do quarto da residência. 

A garotada, que sempre ficava na parte de trás do ônibus – pois era mais emocionante -, foi arremessada para a frente e, com exceção de alguns arranhões e luxações, não houve maiores problemas; o mesmo não se podia dizer do pessoal que estava na frente do veículo e principalmente do Ratinho, que ainda teve muita sorte de sair apenas com cortes superficiais no rosto e alguns ossos quebrados. Foi só quando vimos o nosso ídolo com o rosto banhado em sangue e contorcendo de dor no chão é que percebemos o quanto tudo aquilo era perigoso e que nossos pais e demais adultos tinham razão: aquela correria desenfreada e principalmente a irresponsabilidade do Ratinho ainda causaria um acidente mais sério. 

Depois disso, nunca mais soubemos do Ratinho. Provavelmente foi transferido para outra linha ou até, quem sabe, foi tentar a sorte em um rally ou corridas automobilísticas. Quanto aos meninos, bem, ao menos o bairro ficou livre de um bando moleques pilotando suas bicicletas como malucos e no futuro provavelmente teria motoristas mais conscientes e logo todos já procuravam  novos heróis como referência. No meu caso, um goleiro uruguaio que chegou à Vila Belmiro chamado Rodolfo Rodríguez y Rodríguez, mas esta já é outra história.  

domingo, outubro 14, 2012

O ajudante da professora Clarice



A professora entrou na sala, deu bons-dias, ajeitou seu material sobre a mesa e, após alguns minutos até a turma finalmente fazer silêncio, começa a aula de História. 

- Hoje nós vamos estudar sobre um povo muito antigo, conhecido como Incas. Alguém já ouviu falar nos Incas?


No meio da sala um menino tímido, de óculos de grau, levanta a mão, empolgado – o que surpreendeu a professora, pois aquele aluno é tão calado – e diz: 

- Eu conheço, professora! Os Incas viviam na Montanha dos Andes (sic), no Peru. Eles eram muito avançados para a época! 

Os colegas olharam para o menino e a professora, orgulhosa, diz:


- Muito bem, Jaime! Já tenho um ajudante para as minhas aulas! 

A memória é uma coisa engraçada. Existem fatos dos quais fazemos um grande esforço para a lembrança, enquanto outros simplesmente desaparecem ou retornam de maneira tímida, apagada. Algumas coisas, porém, se mantém vivas na memória e sempre temos lembranças dos tempos de escola e de professores que passaram por nossas vidas.


Tenho boas lembranças de meus professores. A professora Clarice, de História, que me fez gostar mais ainda de História na 5ª série promovendo viagens através do Egito Antigo, Mesopotâmia, pela América pré-colombiana; a professora Dalva, de Português, que pouco sorria e nas aulas ninguém “dava um pio”, mas me apresentou gente muito simpática como Orígenes Lessa, Marcos Rey, Ganymédes José e Carlos Drummond de Andrade, apenas para começar; como esquecer de toda a calma e paciência do mundo do professor Sérgio, de Geografia, com aqueles mapas-múndi dos quais eu me debruçava procurando nomes exóticos de cidades no Oriente, na África, no interior do Brasil?

Tenho más lembranças de alguns poucos professores também, mas não quero recordá-las hoje; sei das dificuldades do magistério – por experiência própria, inclusive - e da falta de valorização e respeito ao docente pelos governantes e até mesmo por uma parte da sociedade – afinal, temos atualmente o fenômeno da “escola transbordante”, nas palavras do professor António Nóvoa: “hoje há um excesso de missões dos professores, pede-se demais às escolas, pede-se demais aos professores (...) e [isso] tem criado para os professores uma situação insustentável do ponto de vista profissional”. Hoje eu quero cantar “She loves you”, dos Beatles, e lembrar do professor David dando aulas de inglês com esta música; quero reler uma poesia de Florbela Espanca e assim lembrar do sotaque português da professora Celeste ao declamá-la; quero lembrar da dedicada professora Maria Helena, da 1ª série, que incentivava a leitura de Histórias em Quadrinhos – e sabemos que as HQ´s, até pouco tempo atrás, não gozavam de “bom prestígio” entre vários educadores.

O dia 15 de outubro é um dia para reflexão sobre a atividade docente, mas também para relembrarmos professores inesquecíveis. Vi uma frase na internet, de fonte anônima*, que é bastante interessante: “Se não morre aquele que escreve um livro ou planta uma árvore, com mais razão, não morre o educador, que semeia vida e escreve na alma”. Depois de tanto tempo, a professora Clarice tinha razão: eu me tornei um ajudante – não especificamente para as aulas de História, mas para juntar-me aos colegas educadores que semeiam vida e escrevem na alma dos educandos. E quando uma senhora de 58 anos de idade, após tantos anos sem estudar, me agradece e diz que está realizando um sonho em aprender, lembro de Paulo Freire falando do “sonho da reinvenção constante”, do “sonho da libertação”, “sonho de uma sociedade menos feia, menos malvada” e penso que minha querida professora de História ficaria orgulhosa de mim, por ser um bom ajudante.   

* Busquei referências da autoria desta frase na internet e encontrei autorias diversas: de Jean Piaget a Bertold Bretch – não, Clarice Lispector não é a autora.  

quinta-feira, outubro 04, 2012

Eleições e o voto "consciente".

(Charge de 2010, ainda bastante atual)


Reproduzo aqui um breve diálogo sobre as eleições municipais com alunos na sala de aula - os nomes de candidatos serão omitidos, naturalmente. 

- E aí, professor? Vai votar para FULANO prefeito, né?
- Não, este não é o meu candidato.
- Ah, devia ser, professor. Se FULANO não ganhar, vão tirar os computadores da escola.
- Como assim “vão tirar computadores da escola”, rapaz? Onde você ouviu isso?
- Ah, o pessoal falou.
- Mas que “pessoal” foi esse? Foi “pessoal do candidato”?
- Acho que foi, eu ouvi aí na rua, foi um pessoal dizendo.

Nisso, uma aluna intervém:


- Eu já escolhi o meu candidato, professor: vai ser SICRANO.
- Espero que sua escolha não tenha como base o “ouvir falar por aí”...
- Não, o pastor lá da igreja falou pra gente votar nele, então é melhor votar em quem a gente confia, né?

Estes dois exemplos, a partir de diálogos com alunos adultos da Educação de Jovens e Adultos (EJA),  são interessantes para tentarmos entender mais ou menos como funciona a dinâmica do voto na chamada “festa da democracia” - uma democracia na qual algumas responsabilidades eleitorais como voto e presença para ser mesário (caso o cidadão seja convocado) são obrigatórias.

No primeiro exemplo temos a boataria e a chantagem como “estratégia eleitoral” por parte de alguns simpatizantes do partido X ou do candidato Y: se o candidato FULANO perder, o bairro e os moradores ficarão abandonados e tão cedo não haverá melhora nos limitados serviços públicos para a comunidade. E há a tentativa de “demonizar” o candidato adversário atribuindo a ele ações que não podem ser feitas - como tirar computadores das escolas ou suspender o pagamento do programa Bolsa-Família.

Por que as pessoas acreditam nestes boatos e tentativas grosseiras de manipulação eleitoreira? Na verdade o que existe é mais falta de orientação do que informação, mas há um aspecto interessante que vale a pena prestar atenção: é a “emotivização da política”, para usar um termo de Giovanni Sartori, que fala especificamente da chamada “videopolítica”, uma política reduzida às emoções, “decapitando ou marginalizando cada vez mais as cabeças que falam, as talking heads, que investigam e discutem problemas”. Reparem a propaganda política na TV: por um lado mostra candidatos simpáticos, o perfil trabalhador, a origem humilde e destacando que sempre estiveram ao lado do povo; do outro lado as tentativas em desqualificar os adversários em campanhas de ataques em quadros que pintam “o pior” dos mundos caso sejam eleitos. “Faz parte do jogo político”, alguém pode dizer, mas neste caso vira um “Fla x Flu” onde as chamadas “propostas de governo” são colocadas em segundo plano e o “debate de ideias”, empobrecido. 




No segundo exemplo temos o que pode ser chamado de “voto evangélico”, mas não é possível reduzir tal voto ao pedido ou recomendação de um líder religioso - desta forma estaríamos superestimando pastores, padres, bispos e desprezando a autonomia e liberdade de pensamento dos fiéis de várias denominações. Ao reler o livro “Política para não ser idiota”, bastante oportuno neste período, reencontrei um trecho bastante interessante: (..)”em que medida o cidadão se reconhece num Estado que é construção dele! Queiramos ou não, este Estado é obra nossa. É obra de nossa incúria, da nossa ausência (...)  é obra também da nossa atuação, da nossa má escolha.”

E é desta forma que muitas vezes as pessoas permitem que “outros escolham” seus candidatos, e aí independe da denominação religiosa ou da condição social: seja por comodismo, desorientação ou “noção limitada de responsabilidade”, como diz Renato Janine Ribeiro, temos um quadro onde estas pessoas não estão conscientes do seu papel na construção do Estado e do que seja cidadania.

Tomando esses dois diálogos como exemplo, expliquei aos alunos o que é política - praticamos política quando fazemos um trabalho em grupo ou participamos de uma reunião no condomínio, por exemplo -, de como o voto é uma decisão pessoal e não deve ser “vendido” e nem submetido a benesses individuais ou ameaças, etc. Então o aluno do exemplo dos boatos tomou a palavra:

- Então indica um candidato que seja bom, professor, para a gente “não perder o voto”.

Obviamente não indiquei candidato ou fiz alusão a algum partido e lá se foi outra explicação sobre “perder e ganhar voto”, mas como se vê ainda temos um longo caminho na construção da democracia ( tão recente em nosso país) até chegarmos ao chamado pleno voto consciente.

Referências:
SARTORI, Giovanni. Homo videns: televisão e pós-pensamento. Bauru, SP: EDUSC, 2001.
CORTELLA, Mário Sérgio; RIBEIRO, Renato Janine. Política: Para não ser idiota. Campinas, SP: Papirus 7 Mares, 2010.

sexta-feira, setembro 21, 2012

O essencial é saber ver.



Após a leitura do excelente “Trilogia suja de Havana”, de Pedro Juan Gutiérrez, tomei um dos livros de Eduardo Galeano para reler. Em determinado momento da leitura, deparo com o seguinte trecho:

A democracia não é o que é, e sim o que parece ser. Estamos em plena cultura do enlatado. A cultura do enlatado despreza o conteúdo. Importa o que é dito, e não o que é feito”.

Mesmo sob o risco de parecer pretensioso, eu incluiria nestas palavras de Galeano o “ser visto”. Na sociedade imagética e
narcisista  - esta última estimulada em redes sociais como o Facebook - o bordão de uma antiga propaganda de refrigerante é certeiro: “Imagem é tudo”. Neste cenário podemos até substituir a famosa expressão de Descartes, “Penso, logo existo” para “sou visto, logo existo”.

Outro que apresenta um certo desencanto com essa “cultura do enlatado” é o cientista político italiano Giovanni Sartori: “Um sucessivo aspecto da nossa nova maneira de ser e de viver é uma artificialização cada vez maior invadindo totalmente a existência”. É bastante curioso reparar o quanto os termos “enlatado” e “artificial” são complementares e se ajustam perfeitamente dentro deste cenário da construção de imagens “para consumo público”( em referência a Bauman): espontaneidade e autonomia não parecem ser características apreciáveis.

Um exemplo muito interessante desta construção de imagens públicas cada vez mais artificiais é a campanha eleitoral dos candidatos aos cargos políticos. Estas pessoas estão sempre seguras, simpáticas e acessíveis. A imagem de um candidato comprometido com os anseios da população é cuidadosamente construída por competentes equipes de marketing político que investem no que Sartori chama de “
emotivização da política, isto é, uma política relacionada ou reduzida a pencas de emoções”. Com estes elementos temos a primazia da imagem construída - onde até mesmo a “espontaneidade” é rigorosamente planejada -  enquanto as “propostas dos candidatos” e as discussões que merecem maior seriedade são colocadas em segundo plano ou até minimizadas.    

Partido de uma obviedade, imagens estão aí para serem vistas. Contudo, o modo como as enxergamos é o diferencial diante de tantas exposições capturadas por nossos olhos. O escritor português José Saramago, em seu “Ensaio sobre a cegueira”, nos convida à reflexão: “penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, cegos que, vendo, não veem”. Mas ainda prefiro o conhecido conto de
Andersen, “a roupa nova do imperador”, onde o vaidoso monarca desfila nu pelas ruas e todos estão convencidos de que se trata da roupa mais deslumbrante do mundo - até que um garoto, no meio da multidão, grita “o rei está nu!” e assim todos passam a enxergar.

Sejamos como o garoto da história de Andersen que soube enxergar e, com espontaneidade, convidou os demais a desnudar o rei, derrubando assim um pacto de "não-ver" - afinal, como escreveu Alberto Caeiro/Fernando Pessoa, “o essencial é saber ver”.

Referências:
GALEANO, Eduardo.
Ser como eles. Rio de Janeiro: Editora Revan, 1994. 2a edição.
SARTORI, Giovanni.
Homo videns: televisão e pós-pensamento. Bauru, SP: EDUSC, 2001.

domingo, setembro 02, 2012

Morreu a velhinha


"The lacemaker”, de Johannes Vermeer.Daqui.

Morreu 3 dias depois de chegar aos 100 anos.
Parece que estava só esperando o centenário.
Da vida não teve muitos segredos:
Nasceu, cresceu, casou, teve filhos,
Aprendeu a ler e escrever o básico.
Ela nunca ouviu falar de Alberto Caieiro,
Mas concordaria com o heterônimo:
Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.”

Ela não saía muito de casa:
Cresceu no mato, casou no mato,
Só depois virou urbana.
Na cidade, então pequena,
Era de casa para a venda;
Da venda para casa;
E aos domingos, missa.
Não viu muita coisa do mundo.
Não viu Getúlio Vargas,
Não viu a segunda guerra,
Já ouviu falar de Hitler,
Não conheceu Stálin, Mussolini,
Mas da bomba atômica ouviu falar
E acreditou em Deus Pai para a todos salvar. 
Não viu os hippies e nem o Vietnã;
Nunca soube quem eram os beats e os Beatles,
Rolling Stones e Jovem Guarda,
Mas gostava de algumas canções do Roberto Carlos;
Ouviu falar que o homem pisou na lua,
Mas nunca soube de Kennedy e Luther King.
Passou pela ditadura que nem se deu conta;
Viu que Tancredo Neves morreu,
E depois disso não sabe o que aconteceu;
Viu que um presidente jovem saiu,
E depois disso não sabe o que aconteceu,
Embora neste período tenha ficado mais pobre.
Ouviu falar que o mundo acabaria no ano 2000
E não viu o fim do mundo;
Viu uns edifícios arderem em chamas nos EUA,
Mas nunca soube direito o que aconteceu;
E nos últimos tempos assistia TV
Sem nada entender.

Mas ela viu muitas outras coisas.
Viu os filhos crescerem,
Os netos aparecerem,
A família prosperar.
Viu as plantas do jardim,
Ouviu o canto dos pássaros,
Agradeceu pela chuva,
Plantou na terra fértil,
Colheu o fruto de seu trabalho
E como viu que era bom, continuou.
Viu nascimentos e mortes,
Viu lamentos e felicidades,
Viu os animais de estimação,
Grandes alegrias.
Viu exames de saúde perfeita,
Poucas vezes no hospital esteve;
Viu milagres e falsidades,
Viu, sorriu, chorou, cozinhou, amou.
Sim, viu amores, sentiu amores.
E quase sem sair de casa,
Viu muita coisa a velhinha centenária.

E eu vi,
Ainda tão jovem
E sem precisar sair de casa:
A praça da Paz Celestial
A igreja da Candelária
De massacres e chacinas nada divinos;
O fim da União Soviética,
A queda do muro de Berlim,
A derrocada do comunismo,
A explosão do consumismo. 
A queda do mauricinho Fernando Collor;
A ascensão do intelectual Fernando Henrique;
A ascensão do operário Luís Inácio Lula;
Os holofotes na estagiária de Bill Clinton,
A liberdade de Nelson Mandela,
A morte de um Papa,
A escolha de um novo Papa,
A decodificação do genoma humano.
A seleção brasileira vencer Copas do Mundo;
O mapa-múndi diferente;
Golfo, Kosovo, Bósnia-Herzegovina, Chechênia, 
Saddam Hussein, Milosevic,George Bush, Bin Laden,
E o ataque às Torres Gêmeas.
A revolução da internet;
Tsunamis e terremotos devastadores;
Um negro no poder nos EUA;
A primeira mulher presidente do Brasil;
Um robô em Marte.

E
sei que ainda vou ver muita coisa.
Muita coisa boa.
Muita coisa ruim.
Mas vi muito pouco.
Tomara que eu veja tanto
Quanto a simpática velhinha centenária
Viu durante sua vida.
E que possa partir igualmente de forma serena,
Com a tranquilidade de saber ter visto
O que era mais importante.  
O essencial é saber ver”.*

*“O guardador de rebanhos”, de Alberto Caieiro

sexta-feira, agosto 24, 2012

Em busca do equilíbrio


“La caída de Ícaro”, de Jacob Gowy. Museo Nacional del Prado.

A mitologia grega nos apresenta a trágica história de Dédalo e seu filho Ícaro, aprisionados em Creta pelo Rei Minos, que ordenou ao hábil artesão Dédalo a construção de um labirinto para encerrar o Minotauro. O labirinto era tão intricado que Teseu, executor do Minotauro, só conseguiu escapar do tortuoso edifício graças à princesa Ariadne que lhe deu um longo fio para marcar o caminho de volta. 


Voltemos a Dédalo, hábil inventor e construtor. Aprisionado sob severa vigilância de Minos, teve uma ideia: recolheu as penas dos pássaros, fixou-as na estrutura de madeira com cera de abelhas e construiu asas para ele e seu filho, Ícaro. Com a terra e o mar vigiados, a saída, claro, seria pelo alto. O engenho funcionou e Dédalo, prudente, aconselhou a seu filho que não voasse tão baixo próximo às ondas do mar e nem tão alto próximo ao sol. Entusiasmado por voar como os pássaros e inebriado com a sensação de liberdade, o jovem desprezou o conselho do pai e voou cada vez mais alto até que a cera de suas asas derreteu e, sem as penas das asas, a queda de Ícaro foi inevitável e o impetuoso rapaz desapareceu no mar – a região conhecida como Icária

Dédalo aconselhou a seu filho, Ícaro, mas o conselho deste mito do qual a história atravessou séculos e inspirou artistas como Bruegel e Chagall continua sendo válido para todos – mesmo hoje no chamado “pós-moderno” século XXI. Quando o construtor do Labirinto de Minos diz “nem tão baixo e nem tão alto” ele está fazendo referência a um termo que é bastante utilizado atualmente e também muito procurado: o equilíbrio. 

Em tempos de estímulo a um consumismo voraz e de ambições pouco modestas, não são poucas as pessoas que procuram voos cada vez mais elevados em busca da ascensão social, profissional e outros objetivos. De repente o céu não é mais o limite, e sim as estrelas; por outro lado encontramos pessoas que abandonaram ambições e quaisquer  tentativas de algum desenvolvimento, sobretudo quanto ao aspecto emocional, relacionado com o bem estar – há mesmo quem se torne praticamente um ascético quase ao estilo de Santo Antão


A busca pelo chamado equilíbrio não é tão fácil como parecem demonstrar os manuais de auto-ajuda e palestrantes motivacionais. Os gregos estoicos e os budistas já se referiam ao desapego às coisas e às situações como forma de aliviar o sofrimento – afinal tudo é efêmero e ninguém pode controlar o que a deusa Fortuna ( o destino) nos reserva. Esse desapego não significa que as pessoas tenham que renunciar a tudo, e sim que não se apeguem ao que é passageiro como se fosse eterno, definitivo; a resignação, porém, não é interessante, pois deste modo Dédalo não escaparia da prisão de Minos.  


Quando encontramos a ambição e o apego a uma situação – ao poder, por exemplo – estamos diante  de um modelo que certamente faria de tudo para a manutenção e ampliação do que já possui. Um conselho como o de Dédalo seria inútil para alguém que não enxerga para os lados e tampouco para baixo – há momentos em que recuar e redefinir metas ou estratégias é importante, mas existem olhos que miram apenas o alto, desprezando o bom senso e ignorando as limitações. Não se trata, obviamente, de condenar aqueles que  tenham seus objetivos, ambições pessoais e profissionais, afinal ter metas (ou perspectivas) é saudável; porém, a ambição obsessiva destrói relações, reduz possibilidades, não tolera fracassos – a vida não é constituída apenas por vitórias e sucesso - e despreza a ética.  

O voo de Ícaro também representa a ambição por querer sempre mais quando já se tem muita coisa – e a liberdade não é pouca coisa: livre do cárcere e livre para voar, como relatado pela mitologia. “Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar” - talvez este velho ditado remetendo ao equilíbrio tenha origem nas palavras de Dédalo ao seu filho. Ao procurar voos mais elevados é bom estar seguro de que realmente possa voar tão alto, sob pena de despencar das alturas das ambições desenfreadas e desaparecer no mar onde jazem aqueles que não conseguiram recuperar suas asas.   

domingo, agosto 05, 2012

Descaso educacional: até quando?


(Clique na imagem para melhor visualização.) 

No dia 13 de Junho de 2012 postei o seguinte desabafo em meu mural no Facebook: 


“Sabem o que eu acho? Que a presidente Dilma deveria revogar essa Lei do Piso Nacional do Magistério ( Lei Federal 11.978) e extingui-la de uma vez - quem é que se importa? Afinal vários governadores e prefeitos não cumprem a Lei alegando "restrições orçamentárias", então deixa lá, certamente há outras prioridades para esse povo. O importante é que esse país é a "6.a economia do planeta" e vai sediar uma p*** de Copa do Mundo com estádios novinhos e reformados.


Ah, e a Educação? Deixa pra lá, não faz falta mesmo. Que tal demolir as escolas e construir no lugar concessionárias de veículos? Ou espaços de shows? Isso gera "emprego e renda", certo? O Brasil não precisa de professores, Educação, escolas, faculdades, perda de tempo.”


Este desabafo, de minha autoria, foi motivado também por mais uma recusa do governador da Bahia, Jaques Wagner, em negociar com os professores em greve pelo cumprimento da Lei do Piso Nacional do Magistério em seu reajuste de 22,22%. A greve dos professores na Bahia, aliás, durou 115 dias com os docentes suportando todas as tiranias de um governador com passado sindicalista e de um partido (PT) que ganhou projeção através de greves e denunciando truculência de governos passados. Os professores enfrentaram o corte de salários, demissões, as ações na “justiça” decretando a ilegalidade da greve, a uma parte da imprensa baiana mais preocupada em não perder as generosas verbas da propaganda oficial do estado; a omissão de instâncias como Ministério Público Estadual e OAB, dos artistas da Bahia (que apareceram durante a greve da PM pedindo negociação entre governo e grevistas), de políticos e de boa parte da sociedade. Lutando sozinhos por um direito garantido em lei, os professores resistiram até o limite e saíram da greve sem ganhos reais – diferentemente do noticiado pelo Jornal Nacional em 03/08, os professores da Bahia recusaram a proposta salarial do governador Jaques Wagner, proposta esta que na verdade era um golpe contra o plano de carreira e a própria Lei do Piso. 


A falta de compromisso do governador da Bahia foi apenas um dos vários fatores que motivaram aquelas palavras duras e amargas sobre Educação. Acompanhar notícias sobre o tema e tomar conhecimento dos relatos de professores é em grande parte desalentador; é verdade que há boas notícias e boas práticas acontecendo em muitas escolas, mas estes se tornam exceções diante de tantos problemas. 



O Brasil investe atualmente 5,1% do PIB ( Produto Interno Bruto) na Educação. A comissão da Câmara do Plano Nacional de Educação (PNE) propôs o investimento de 10% do PIB no setor. Quase simultaneamente, o Ministro da Educação considerou tal meta “difícil de ser executada” e o Ministro da Fazenda considerou que tal investimento “quebraria o país”. Quando ministros de estado consideram que investimento em Educação é prejuízo, a coisa vai mal. 

A sabedoria popular diz que “dinheiro não traz felicidade, mas ajuda um bocado”. Evidente que precisamos mais do que recursos financeiros para a Educação: é preciso acontecer uma revolução no setor, com o resgate da função da escola, a valorização e formação (relevante) do professor, políticas públicas atreladas à Educação e cidadania e tantas outras realizações; mas sem dinheiro nada disso acontece. E os governantes insistem em repetir a ladainha da “restrição orçamentária” quando se trata de investimento em Educação, mas nunca falta dinheiro para reajuste salarial de deputados e nem para a construção e reforma de estádios para a Copa do Mundo de 2014, apenas para citar dois exemplos. 

O resultado da “restrição orçamentária” não poderia ser diferente: 38% dos estudantes do ensino superior não dominam habilidades básicas de leitura e escrita; apenas 2% dos jovens brasileiros querem estudar Pedagogia ou alguma outra licenciatura nas universidades – o “apagão” de professores, sobretudo no ensino médio, já é uma realidade; no ranking da UNESCO, o Brasil ocupa o 88º lugar dentre 127 países. E não é preciso citar outras consequências previsíveis como crescimento da violência (inclusive nas escolas) e baixa qualificação profissional.

Em anos eleitoreiros, a Educação sempre é destaque nos discursos e propostas demagógicas dos candidatos aos cargos públicos – e a proposta revolucionária da vez é a “Educação em Tempo Integral” e sempre que ouço essa historinha tenho vontade de questionar estes candidatos sobre o modelo de escola onde isso seria adotado. A Educação precisa sair do palanque eleitoreiro e ser tratada como fundamental e prioridade por governos e pela sociedade. Ou será que a “6ª economia do planeta” continuará alegando falta de dinheiro e outras desculpas não convincentes para tamanho descaso com o setor? 

quinta-feira, julho 12, 2012

A honestidade



“Ora, não se sabe como, ocorre que no país apareceu um homem honesto. À noite, em vez de sair com o saco e a lanterna, ficava em casa fumando e lendo romances”. (1)

Eis um trecho do conto “Ovelha Negra”, em que Italo Calvino conta a história de um país onde todos os seus habitantes eram ladrões -  “ à noite, cada habitante saía,com a gazua e a lanterna, e ia arrombar a casa de um vizinho” - até aparecer um homem honesto e promover algumas mudanças no comportamento dos habitantes.

Quando ligamos a TV, sintonizamos uma emissora de rádio, lemos os jornais e acessamos a internet em busca das notícias do dia, a impressão é que estamos vivendo em um país de ladrões: encontramos fartas informações sobre corrupção em todos os níveis, políticos envolvidos em falcatruas e desvios de verbas públicas, governos que não cumprem Leis como a Lei do Piso do Magistério, empresas de telefonia e de planos de saúde oferecendo as melhores vantagens em propagandas muito bem elaboradas  e na prática descumprindo o que está determinado em contrato, enfim, diversas situações que levam ao desânimo e ao perigoso conformismo de achar tudo isso “normal”. 

Talvez por isso seja surpreendente a notícia de um casal “morador de rua” – como alguém pode morar na rua? -  em São Paulo que encontrou um saco com R$ 20 mil reais e procurou a polícia para devolver o dinheiro. Este casal sobrevive catando material reciclável nas ruas e ganhando R$ 15 por dia. Tal notícia não passa indiferente nas rodas de conversa: há os admiradores deste ato de honestidade e há quem lamente “o azar” de não encontrar um saco de dinheiro com tamanha quantia; e há quem recrimine o ato da devolução utilizando o famoso ditado “achado não é roubado”.

Também há comentários que expressam, com desalento, o fato de uma prática que deveria ser regra ser tratada de forma extraordinária, como se a pessoa honesta fosse um extraterrestre cuja nave pousou neste planeta por engano. A descrença no valor da honestidade, contudo, não é de hoje: a Grécia antiga nos apresenta o pitoresco caso de Diógenes, o cínico, que saía às ruas de Atenas com uma lamparina procurando “o homem verdadeiro”  - e dentre as virtudes deste homem ideal estava a honestidade. Séculos mais tarde foi a vez de Balzac: “Mas então, vão dizer, é necessário desconfiar de todos? Já não há pessoas honestas? (...) Sim! Desconfiem de todos, mas nunca deixem transparecer sua desconfiança”. (2) 


Em meio à avalanche de informações disponíveis em diversas mídias, encontrar notícias que tragam algum alento e esperança sobre valores além dos financeiros e consumistas pode ser realmente uma tarefa difícil, mas elas existem. E deveriam ser mais divulgadas para que se evite cair em duas linhas de pensamento perigosas: a do conformismo e a desconfiança de que vivemos, como no conto de Calvino, em um “país de ladrões”.


Epílogo: diferentemente do que aconteceu à “ovelha negra” no conto de Italo Calvino, o casal de São Paulo foi reconhecido pela honestidade e o dono do estabelecimento premiou essas pessoas com a oferta de um emprego. Este é outro detalhe a ser ressaltado, pois honestidade e gratidão devem caminhar juntas.  

1. Calvino, Italo. Um General na Biblioteca. Tradução de Rosa Freire D´Aguiar -  São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


2. Balzac, Honoré. Código dos homems honestos, ou, A arte de não se deixar enganar pelos larápios. Tradução de Léa Novaes – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. 

quinta-feira, julho 05, 2012

A roça mudou


A conversa, mais uma vez, girava em torno das tradições juninas e sertanejas perdidas. Em lugar do Luís Gonzaga com uma sanfona e dois instrumentistas – na zabumba e no triângulo – agora é vez de bandas como Aviões do Forró, Calcinha Preta e tantas outras com um sem-número de instrumentistas e dançarinos que mal cabem no palco; no lugar de duplas como Tião Carreiro&Pardinho, Tonico & Tinoco, agora é a vez de  pop stars como Luan Santana, Paula Fernandes, Victor e Léo.

Saudosismo de um tempo em que tudo era mais simples e autêntico, claro. A discussão aqui não  seguirá o rumo sobre a qualidade dos artistas atuais ou se no passado a vida era melhor do que é hoje. São apenas breves considerações sobre um fato: a roça mudou.

No dia seguinte à fogueira de São Pedro – algumas tradições ainda se mantém – observei melhor a roça. Aparentemente nada mudou: as vacas continuam nos pastos; na maior parte do tempo o que se escuta é a cantoria dos pássaros e o barulho das folhas balançando com o vento, além de uma tranquilidade que à noite torna o sono de fato reconfortante – para quem não se incomoda com os grilos e com chuva caindo no telhado.

Não demorou muito e vi um motoqueiro na estradinha de terra carregando dois latões de leite. Durante o dia todo, aliás, o trânsito de motos na estradinha foi grande - são trabalhadores rurais que deixam a pequena cidade e “tomam o caminho da roça”. O sertanejo está motorizado e o velho jegue praticamente aposentado. Passo por um destes motoqueiros e ele está falando ao celular enquanto se equilibra na motocicleta. Agora todos têm um telefone celular - até os mais idosos que desconhecem a maioria das funções do aparelho ou o que seja bluetooth, MP3 e outras modernidades. Antigamente, para se dar um recado para alguém em outra fazenda, era preciso gritar ( a depender da distância) ou mandar um “moleque de recados” com um bilhete o que ele decorasse o recado – a chamada “tecnologia molecular”: corre, moleque!

Fui chegando a uma casa na roça, bem simples, mas com todos os eletrodomésticos que acostumamos a ver em uma residência na cidade grande: geladeira, fogão e as estrelas da companhia: um aparelho de som e uma televisão - tudo isso é possível graças à eletrificação rural. De longe eu já escutava o som do rádio tocando uma dessas músicas que estão na parada de sucessos da grandes cidades. A mulher na cozinha ouvia rádio e testava uma receita que viu em um programa culinário e o homem na sala relaxava assistindo na TV a final do campeonato europeu de seleções, a Eurocopa.

Mais tarde, já à noite, dei um pulo na pequena cidade típica do sertão. Nos bares o mesmo cenário que encontramos nas capitais: carros com o porta-malas aberto e som em altos decibéis enquanto algumas pessoas tomavam cerveja e tentavam conversar entre gritos e gargalhadas. Dei uma olhada no comércio da praça: além da velha igreja e dos tradicionais mercadinhos e dos bares, as lan-houses recebiam seus internautas – embora a internet já tenha chegado até para os celulares da região. Um garoto de seus 14 ou 15 anos, com um corte de cabelo à la Neymar, falava comigo sobre vídeos do youtube e jogos on-line com a mesma desenvoltura e segurança de qualquer garoto da mesma idade da cidade grande.

É uma roça diferente, com aparelhos eletrodomésticos que facilitam a vida e acesso a novos valores, padrões de consumo e informações através de mídias eletrônicas que aos poucos vão apagando a velha imagem do Jeca Tatu e do caipira ingênuo. Porém, mesmo com todas essas mudanças, minha avó ainda usa o velho fogão de lenha para cozinhar o feijão e passar um cafezinho. Perdeu, forno microondas e cafeteira elétrica!   

segunda-feira, junho 11, 2012

Memórias de Lessa ( pai e filho)


Tenho lá minhas  dúvidas se Dona Morte está fazendo um “bom” trabalho neste ano: ela já levou embora Millôr Fernandes e, em uma semana, resolveu levar Ray Bradbury e agora Ivan Lessa. Velhinhos, é verdade, mas há tantos outros velhinhos por aí que já deveriam ter recebido a visita de Dona Morte há tempos, não é mesmo? 

Calma, não vou tornar este blog uma espécie de obituário.Não quero saber de gente fuçando este blog procurando parente rico que morreu para sonhar com uma herança. Falemos de Ivan Lessa, auto-exilado em Londres desde a década de 70 e que fez parte de O Pasquim -  e escrevia suas crônicas para a BBC londrina. Satírico, melancólico, um tanto ranheta e politicamente incorreto: “eu sou do tempo em que sol e bronzeado eram bons à saúde. Parece que agora um e outro dão câncer. Também, o que não dá câncer hoje em dia?”; “Acho que a humanidade não tem nada que assobiar. Se quer tocar um instrumento, sai pela rua com um trombone de vara.” ; "Ouvi alguém algum dia dizer que o homem só é o homem forte. Se é verdade, eu estou rachando tijolo ao meio com peteleco"; “Cinema é onde, no escuro, as pessoas ficam vendo outras pessoas fingindo que são de verdade”. Só um pouco de Ivan Lessa para vocês, do livro “Ivan vê o mundo”. 

Mas eu queria falar mesmo era do pai do Ivan, o Orígenes. Orígenes Lessa,também escritor. E dos bons. Aliás, Ivan carregava no DNA a literatura, afinal a mamãe Elsie Lessa também era escritora e jornalista. Voltemos às origens, ou melhor, ao seu Orígenes – o trocadilho é inevitável, desculpem.

Um dos primeiros livros que eu li na infância – e não faz muito tempo assim, afinal sou extremamente jovem – foi “Memórias de um Fusca”. Orígenes Lessa é autor de várias obras no segmento infanto-juvenil – não apenas deste segmento, ao qual o escritor é mais lembrado, mas também produziu diversas crônicas, contos e romances; quem gostou de “A casa dos Budas ditosos”, de João Ubaldo Ribeiro, vai gostar de “O Beco da fome”, embora com menos picardia, é claro. 

Provavelmente alguém aí já tenha se deliciado com títulos como “Confissões de um vira-lata”, “Memórias de um cabo de vassoura” e o próprio “Memórias de um Fusca”, com a surreal paixão de um Fusca por uma Belina e o alucinado motorista Genésio Pimenta. Não me lembro com quantos anos ou como este livro chegou às minhas mãos – não, não é problema de idade-, mas lembro de passar um bom tempo tentando desenhar fuscas inspirado no livro. E até hoje não consigo desenhar um fusquinha, vale o registro. As tentativas, como podem ver na ilustração, são infrutíferas. O jeito é voltar a desenhar casinhas com árvores, montanhas e um sol amarelo com carinha feliz. 

Frustrações artísticas à parte, o fato é que o seu Orígenes contribuiu para o meu gosto pela leitura desde a infância. Está ali, na galeria dos meus “heróis” neste quesito, junto a mamãe (com as primeiras letras), Tio Patinhas e Pato Donald, Monteiro Lobato, Ganymédes José ( não faça essa cara: você já leu alguma obra dele pela saudosa coleção Vagalume ou em alguma adaptação de clássicos literários para a literatura infantil), Homem-Aranha, Mark Twain e alguns outros. Daí foi só história e histórias - de Ivanhoé, Ivan Illitch a Ivan Lessa. 

Era o que eu tinha a dizer por hoje. Espero não ter aborrecido ninguém ou causado inconveniência. Grato pela atenção dispensada. Vocês foram extremamente gentis. Estimo que passem bem. Saúde, felicidades, tudo de bom. Muito obrigado e até logo.” 
Ivan Lessa 

quarta-feira, junho 06, 2012

Morre Ray Bradbury, mas Montag e Spender continuam vivos em nossa memória


Faleceu neste dia 06 de Junho de 2012 o escritor norte-americano Ray Bradbury, aos 91 anos de idade. É considerado um dos mais importantes escritores de ficção científica dos EUA – e de todos os tempos, eu acrescento, modestamente.

Seu livro mais famoso, sem dúvida, é o excelente “Fahrenheit 451 - editado em 1953 -, onde a figura do inesquecível bombeiro Guy Montag passa por uma crise de identidade: em um futuro onde a sociedade é mantida sob controle através dos meios de comunicação eletrônicos – neste caso, a TV – os livros são considerados “perigosos” e alvos de censura. O trabalho de bombeiros como Montag é localizar estes livros (através de investigações ou denúncias) e queimá-los. 


- Uma última coisa – disse Beatty. - Pelo menos uma vez na carreira, todo bombeiro sente uma coceira. O que será que os livros dizem, ele se pergunta. Aquela vontade de coçar aquele ponto, não é mesmo? Bem, Montag, pode acreditar, no meu tempo eu tive de ler alguns, para saber do que se tratava, e lhe digo: os livros não dizem nada! Nada que se possa ensinar ou em que se possa acreditar. (...)

- Bem, nesse caso... e se um bombeiro, acidentalmente, realmente sem nenhuma intenção, levar consigo um livro para casa?

Montag se contraiu. A porta aberta olhava para ele com seu grande olho vazio. 

- Um erro natural. Apenas curiosidade – disse Beatty. – Não ficamos superansiosos ou furiosos. Deixamos que o bombeiro fique com o livro por vinte e quatro horas. Se ele não o queimar até lá, simplesmente chegamos para queimá-lo para ele.


Quanto aos leitores, bem, alguns destes são encaminhados para hospícios ou “desaparecem”. As consequências? “A escolaridade é abreviada (...), gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas e, por fim, quase totalmente ignoradas. (...) Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?

No entanto o meu livro preferido de Bradbury continua sendo “As crônicas marcianas”, editado em 1950. Neste livro encontramos 26 contos articulados sobre a conquista do planeta Marte pelos seres humanos. Uma das personagens mais intrigantes da obra é Jeff Spender, arqueólogo e um dos tripulantes da 4ª expedição ao planeta Marte, em 2001 – sim, Bradbury não foi um bom profeta.

Spender “surta” ao desembarcar e passa a acreditar que os seres humanos, em Marte, não será um bom negócio para o planeta –  e muito menos para os marcianos. ( mas será que eles ainda existem?)

- Acredito nas coisas que foram feitas, e há evidências de muitas coisas feitas em Marte. Há ruas e casas, há livros, imagino, grandes canais, relógios e estábulos, se não forem para cavalos, bom, então são para algum outro tipo de animal, quem sabe com doze patas? Para qualquer lugar que eu olho, vejo que as coisas foram usadas, tocadas e manuseadas durante séculos. (...) Por mais que nos aproximemos de Marte, nunca o tocaremos. E ficaremos bravos por isso, e o senhor sabe o que vamos fazer? Vamos despedaçá-lo, arrancar sua pele e transformá-lo à nossa imagem e semelhança.
- Não vamos destruir Marte – disse o capitão. – É grande e bom demais.
- O senhor acha que não? Os homens da Terra têm talento para acabar com coisas grandes e belas. A única razão por que não montamos barraquinhas de cachorro-quente no meio do templo de Karnak, no Egito, é porque estava fora de mão e não era uma grande oportunidade comercial.  

A solução de Spender para o “problema humano” é acabar com seus companheiros de expedição e impedir que outros foguetes terrestres aterrissem em Marte. Não foi bem sucedido, claro, mas o arqueólogo estava certo: em pouco tempo os terrestres adotam as mesmas práticas de dominação e controle social na Terra no planeta colonizado. 

Se Bradbury foi ou não um bom profeta em seus livros clássicos sobre Marte e as tecnologias, não importa. Suas obras despertam inquietudes sobre os rumos das sociedades e a relação das pessoas com as tecnologias. A chegada a Marte parece ainda muito distante, mas ainda temos muitos “bombeiros” e “sabujos” promovendo a censura e a destruição – em nome do consumismo e da futilidade. E isso não é ficção.

BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451. Tradução Cid Knipel. São Paulo: Editora Globo, 2009.
BRADBURY, Ray. As Crônicas Marcianas. Tradução Ana Ban. São Paulo: Editora Globo, 2006. 

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