sexta-feira, outubro 28, 2011

Pombo correio

- Mas isso é chato, é música do tempo da minha vó!

Desta vez Miro não se conteve e reclamou com o professor de violão. Há 3 meses tomando aulas, já conhecia algumas notas e ritmos através de músicas das quais ele sequer sabia a existência até então. Da óbvia “Parabéns a você”, passando por “O cravo e a rosa”, o repertório incluía músicas do Roberto Carlos e até Geraldo Vandré, com o hino “Caminhando e cantando”.

O professor - sujeito boa praça de meia idade - explicava com paciência que o aprendizado era lento e era preciso conhecer outros ritmos musicais além do rock que o rapaz tanto apreciava. Na verdade a intenção do jovem era justamente aprender a tocar umas notas e uns acordes para montar uma banda. Não podia ser difícil: os Ramones faziam música com três notas em canções que duravam 2 minutos.

- Ao tocar tais ritmos você entra em contato não apenas com novos arranjos musicais, mas também forma um repertório legal para tocar numa rodinha de violão com os amigos. - explicou mais uma vez o professor.

- Rodinha com a galera? Tocando essas músicas? Ah, qualé, nem pensar. Por exemplo, essa música de hoje... é isso mesmo? Pombo Correio...

- .. voa depressa / e essa carta leva pro meu amor... é uma canção legal, tem um ritmo bacana e as garotas gostam, sabia?

- Só se forem as garotas do seu tempo. Desculpa, mas isso não é música pra tocar com a galera. Até hoje nunca contestei as músicas estudadas, apesar de não gostar delas. Mas hoje me vê uma música mais moderna, sei lá...já que você não quer ensinar um rock de verdade, passa aí uma coisa mais leve, tipo Legião, Engenheiros do Hawaii...

O professor achou melhor ceder, embora a contragosto. Sabia que a banda Engenheiros do Hawaii regravou um sucesso dos anos 60, a música “Era um Garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones”, em uma versão que o professor apreciava. Como eram poucas notas e o ritmo bem simples, resolveu ensiná-la para o aluno. E durante 1 hora de aula naquela tarde o que mais se ouvia na sala era o tata-ratata tata-ratata, tara-ratata tata-ratata...

O rapaz, claro, ficou empolgadíssimo por dois motivos: primeiro porque variou o repertório para uma música mais moderna, com uma pegada pop, e não aquelas velharias das quais o professor sempre passava; além disso, no fim de semana a turma estaria na pracinha e inclusive Ritinha, a moça pela qual ele estava apaixonadíssimo, mas ela nem dava bola. Quem sabe com uma música ao violão a garota finalmente não o notaria?

Miro treinou bastante não apenas o tata-ratata, mas também algumas músicas que traziam as cifras em revistinhas: Legião Urbana “porque todo mundo gosta de cantar ‘Pais e Filhos’”, pensou o rapaz; e, claro, Raul Seixas, “porque sempre tem alguém pra berrar ‘toca Rauuuul!’”. Até pensou em tocar uma música do Djavan “porque a mulherada gosta”, mas além de ter cifras complicadinhas, não entendia nada do o sujeito cantava.

Decorou tão bem as músicas que no final de semana, na pracinha, fez algum sucesso entre os amigos com o violão – principalmente na hora do tata-ratata tata-ratata; fez bem em decorar “Cowboy fora da lei”, afinal alguém pediu para tocar Raul, é claro. No entanto toda a empolgação e as músicas decoradas não chamaram a atenção de Ritinha, que só animou um pouco com “Pais e filhos”. Quando ficaram um tempinho a sós, ele tomou uma dose de coragem e perguntou:

- Não gostou das músicas?

- Não são bem os estilos que eu gosto – respondeu a garota, um tanto indiferente.

- E de que estilo você gosta? – insistiu o rapaz.

- Gosto de músicas mais calmas, antigas...

Miro lembrou-se das aulas de violão e do pequeno repertório de velharias que o professor passava. Quem sabe alguma das músicas que ele havia aprendido não fazia parte do gosto da bela garota?

- Me diz uma música que você gosta, então. Talvez eu saiba tocar...

Apenas neste momento a garota olhou para o rapaz com mais atenção e perguntou:

- Jura? Conhece uma música chamada “Pombo Correio”? Adoro essa música! Meus pais vivem cantando lá em casa, eles se conheceram no carnaval enquanto tocava essa música, acho tão fofo!

No dia seguinte, de manhã bem cedinho, Miro já estava na porta da casa do professor implorando por aula extra e um horário especial. E que ele prometia jamais contestar novamente o repertório que o professor passava – mas exigia aprender “Pombo Correio” imediatamente!


Salvador, 03 de Setembro de 2011 - um exercício literário despretensioso

sexta-feira, outubro 21, 2011

No Boteco da Piedade

O “Boteco da Piedade” foi assim batizado não por algum motivo religioso ou por referência a um bairro. O nome é homenagem à dona Piedade, que fazia uns salgados deliciosos para vender no boteco de “seu” Amaro, o marido e dono do bar.

Infelizmente dona Piedade é falecida e os salgados que faziam tanto sucesso como tira-gosto não existem mais; no entanto “seu” Amaro continua com o bar e sempre às voltas com os fiéis clientes – e um destes é o “seu” Belarmino, mais conhecido como "Sabiá" por causa dos passarinhos que possui em casa.

- Hoje minha pressão subiu, Amaro!

- Lógico, Sabiá: hoje saiu o pagamento dos aposentados...

- Mas não foi por isso, não. Me envolvi numa confusão, rapaz, que até passei mal!

- Como foi?

- Bom, como é dia de pagamento, fui ao banco. Que você sabe, tá em greve, né?

- É, tô acompanhando. O pessoal tendo que pagar as contas nas lotéricas, é cada fila!

- E aproveitam e fazem a fezinha. Então eu fui ao banco pra usar o caixa eletrônico, pois ao menos essas máquinas não fazem greve. Eu acho que deveriam substituir tudo por máquinas em todos os lugares, até no comércio! Assim não teria mais greve que só serve pra atrapalhar a vida dos outros.

- Substituir até eu, Sabiá? Que consideração, hein? Trocar o amigo aqui por uma máquina que vai servir bebida? Ô, Sabiá!

- Eu faço uma exceção aos donos de boteco, pois vocês não fazem greve, ainda bem! Mas em outros lugares eu sou favorável! Vou mandar a ideia para a presidente!

- Larga de bobagem, Sabiá! Essas máquinas falham o tempo todo, a gente sempre se depara com uma moça dizendo “tá fora de sistema”.

- Bobagem pra você, que fica aí atrás do balcão o dia todo e não olha pro futuro! Imagina a economia para as empresas livrarem-se de custos como FGTS, seguro-desemprego, vale-transporte... o único custo seria mesmo com baterias e um óleo aqui e ali vez em quando!

- Ô, Sabiá, deixa de lero-lero e canta o que aconteceu.

- Pois você imagine: cheguei ao banco e dei de cara com os grevistas que não deixavam ninguém entrar na agência, nem mesmo pra utilizar o caixa eletrônico!

- Mas eles podem fazer isso?

- É claro que não, pô! Tá na Constituição que todo mundo é livre pra ir onde bem entende! E eu sou aposentado que precisa comprar remédio, como é que faço isso sem dinheiro?

- E aí?

- E aí que eu expliquei tudo isso pra eles, primeiro com educação, mas depois tive que partir pra ignorância e dei uns gritos lá que inflamaram o povo. E aí começaram a pressionar, forçaram a entrada e aí chamaram a polícia e aí...

- Peraí, peraí...teve polícia?

- Teve, pô! Quase saiu o maior quebra-pau! Aí ficou aquela discussão entre policial, grevista e uma negona entrou no meio da confusão...rapaz, complicou tudo: o policial perguntou “quem começou?” e aí a negona e mais uns dois apontaram pra mim. Queriam me levar pra delegacia, teve lá uns grevistas que disseram que eu era da chapa da oposição e que eu só queria tumultuar...

- Ô lôco, Sabiá, você foi pra delegacia?

- Claro que não, sou cidadão brasileiro! Apenas estava reivindicando meus direitos! É isso o que o povo precisa fazer, tem que gritar mesmo, lutar pelos direitos do cidadão! Depois desse bafafá todo, liberaram a entrada na agência pro povo usar os caixas eletrônicos!

- Vote Sabiá, o revolucionário!

- Pô, meu velho, a gente precisa é de ação! Não é por nada, mas se eu fosse político eu ia mudar umas coisas aí! Ia acabar com esse monte de imposto, tá tudo muito caro e depois dizem que a inflação tá controlada e sei lá o quê! E esses bancos ganham dinheiro pra valer às nossas custas, pô! Tá errado isso aí!

Um tanto distante do balcão porém ouvidos atentos à conversa, lá estava o Alfredinho – outro frequentador assíduo do boteco – com suas características marcantes: a velha camisa da A.A Guapira - o Leão da Zona Norte! - e sua inseparável jurubeba.

- Aê, Sabiá! Dá um jeito pra baixá o preço dessa jurubeba que eu voto em você! Dois conto por uma dose de jurubeba é pra lascar a vida do peão!


Nuuk, Groelândia, 16 de Outubro de 2011. Temperatura: - 1º C (tempo bom)

sábado, outubro 15, 2011

Demagogias na educação


É bastante curioso constatar que a Educação figura sempre no topo das prioridades em discussões quando relacionadas ao “desenvolvimento do país”. Pena que fique apenas nos discursos – sobretudo no já famoso “Educação é fundamental” -, na politicagem partidária e em algumas propostas demagógicas.

Recentemente a presidente Dilma Rousseff afirmou ser favorável à educação em período integral nas escolas públicas. No novo Plano Nacional de Educação uma das metas é chegar até 2020 com 50% das escolas públicas de ensino básico oferecendo Educação em tempo integral; já o Ministro da Educação, Fernando Haddad, sugere o aumento de dias letivos nas escolas – de 200 para 220 dias, além de aumentar também a carga horária dos estudantes.

Educação nunca é demais. E educação em período integral é algo defendido, estimulado e experimentado há muito tempo – basta lembrarmos de Anísio Teixeira. Mas observem bem esta foto* ao lado. Você não está enxergando mal: isso é uma escola, localizada no bairro de Pau da Lima, em Salvador.

Tentem imaginar crianças e adolescentes passando o período integral em uma escola como esta, que eu gostaria de acreditar que está desativada e os alunos transferidos para uma outra unidade escolar em melhores condições no bairro. O educador Paulo Freire já alertava em sua fundamental obra Pedagogia da Autonomia sobre a “pedagogicidade indiscutível na materialidade do espaço”. Ou seja, o espaço e a estrutura física de uma escola são componentes pedagógicos que também propiciam melhor aproveitamento na relação ensino-aprendizagem e no respeito ao bem público: “Como cobrar das crianças um mínimo de respeito às carteiras escolares, à mesa, às paredes se o Poder Público revela absoluta desconsideração à coisa publica?

Não é difícil encontrarmos escolas como esta pelo Brasil - na verdade é até corriqueiro. Os programas jornalísticos na TV exibem com relativa frequência reportagens sobre prédios escolares em péssimas condições e alunos de séries diferentes dividindo o mesmo espaço. É muito difícil ensinar e bem mais difícil aprender em ambientes assim. Educação em período integral em escolas que são desrespeitadas em seu espaço – para utilizar outra afirmação de Freire – não irá acrescentar avanços na educação brasileira.

Outro fator que apenas acrescenta quantidade e não qualidade é o aumento de dias letivos na escola. Para o ministro Haddad o número de dias letivos no Brasil é inferior ao de demais países. Será que é mesmo? O Brasil tem menos dias letivos do que a Indonésia ( 253 dias para o ensino fundamental I), a Coréia do Sul ( 220 dias) e o Japão ( 201 dias). Empata com México e Dinamarca ( 200 dias) e supera países como Espanha ( 176 dias), Finlândia ( 188 dias), Alemanha ( 193 dias) e a vizinha Argentina ( 170 dias). O que fica claro é que não se trata de esticar o tempo que os estudantes passam na escola, mas sim conferir qualidade a este tempo.

As perspectivas para a melhoria da educação em um cenário onde muitas escolas funcionam de modo precário e do qual professores precisam entrar em confronto com policiais e promover greves de 100 dias para fazer valer o direito de receber um mísero piso salarial com pouco mais de mil reais não são promissoras. Qualquer proposta para o setor que não contemple com seriedade a questão salarial, carga horária e formação continuada de professores, além da estrutura física e o resgate da escola como espaço lúdico e de difusão do conhecimento soa como demagogia ou reles discurso político partidário.

*Créditos da foto: Jornal da Metrópole, ed.170, 30/09/2011

* Dados dos dias letivos pelo mundo: SINPRO

sexta-feira, outubro 07, 2011

Rock in Rio 2011 - eu não fui


Assisti ao Rock in Rio no melhor lugar do mundo: no meu sofá, confortavelmente instalado em minha casa. Parabéns aos corajosos fãs que enfrentaram longas filas, falta de segurança e as dificuldades de transporte até a cidade do rock.

Rock? Certo, primeiro, vamos esclarecer: “Rock in Rio” é a marca de um festival de música que é diversificado desde a primeira edição, em 1985, quando levou nomes como Pepeu Gomes, James Taylor, George Benson, Alceu Valença e Ivan Lins ao lado de Queen, Ozzy Osbourne e AC/DC. As edições seguintes não foram diferentes com bandas pop como A-HA, New Kids on The Block, Britney Spears, e tantas outras. Logo, é compreensível que artistas como Rhianna, Claudia Leitte, Shakira, Katie Perry e Jamiroquai estivessem presentes neste festival em 2011.

QUEM SABE, FAZ AO VIVO


O que podemos analisar é a qualidade de alguns destes artistas, apesar do som muito ruim em vários momentos durante o festival. Dividiram o palco principal na mesma noite Ke$ha, Jamiroquai e Stevie Wonder. Com este line-up é muito fácil perceber o talento de um músico, da mesma forma que percebemos durante a apresentação de Elton John, espremido entre as apresentações de Claudia Leitte, Katy Perry e Rihanna. Há espaço para todos, é claro, mas dá pena destes artistas de plástico moldados pelo marketing e sem carisma – como é o caso de Claudia Leitte ( a Claudinha Milk) que investiu no que tem de melhor: uma apresentação focada no apelo visual. Nada além de um produto descartável, de curtíssima temporada, tal como a axé music: serve bem apenas para uma determinada época do ano. (a não ser que você se chame Ivete Sangalo e tenha carisma e um vozeirão daqueles! )

CADÊ OS CARAS-PINTADAS?

E a música? Em determinadas apresentações ficou em segundo plano. Mesmo que o “eterno adolescente” Dinho Outro Preto tenha feito um show competente com sua banda Capital Inicial, o que chamou a atenção foi o discurso “politizado” do cantor, cara, tão consistente quanto o de um adolescente de 15 anos que começa a se interessar um pouco sobre a política brasileira, cara. Talvez tenha lá alguma importância para a molecada, cara, tipo, é duca..., cara, é difodê, cara! O fato é que o corinho “Ei, Sarney, vai tomar no...” encontrou eco também durante a apresentação da banda Detonautas, com o vocalista Tico Santa Cruz: o veterano político maranhense se tornou uma espécie de “figura emblemática da corrupção no país”. Quando Sarney bater as botas, quem será o alvo dos eternos adolescentes trintões e quarentões? (apesar que Sarney merece este tipo de "homenagem") Enquanto isso, em outro palco, se apresentava Mike Patton, de volta ao Rock in Rio com o Mondo Cane e a Orquestra Sinfônica de Heliopólis. Esta, sim, uma grande e boa surpresa.

HOJE É DIA DE ROCK, BEBÊ!

E o rock? Deu as caras quando o sexagenário (!) Lemmy, da banda Motorhead, se apresentou no palco principal do Rock in Rio: “We are the Motorhead and we play rock n´roll”. E foi só “porrada” musical a partir de então: Motorhead em um show objetivo e sem frescura, os monstrengos mascarados do Slipknot surpreendendo e ganhando o público em um shows que foi considerado por muitos como o melhor de todo o festival e o Metallica em grande forma - se fosse qualquer outra banda a entrar no palco depois do Slipknot, teria problemas. O rock também deu as caras com System of a Down, em um show energético – um pouco longo, talvez – e até com a Pitty, que soa um pouco melhor ao vivo, mesmo desafinando aos montes.

“AHHHH, LINDOOOO!”

Teve histeria? Teve sim senhor. Ou melhor, senhora e senhorita: Maroon 5 e Coldplay foram as bandas mais aclamadas pelo público feminino e entende-se: o vocalista do Maroon 5, Adam Levine, foi eleito o mais “sexy” do festival e Chris Martin com seu doce (!) Coldplay arrebatou corações. E os shows, em termos de música, foram ótimos – Coldplay fez um show fantástico, um dos melhores do festival e até o Maroon 5 fez um show bacana. Morno? Um show com aquele monte de mulher gritando pelo vocalista pode ser qualquer coisa, menos morno. Se bem que eu não sei o que essa mulherada viu naquele magricela...

NANA, NENÉM...

O Rock in Rio também teve seus momentos constrangedores. O show da tal Ke$ha é algo para ser esquecido, sem maiores comentários. Funcionando também como soníferos, as apresentações de Snow Patrol – que me fez perder Red Hot Chili Peppers – e Lenny Kravitz foram ideais para se tirar uma bela soneca. O caso de Kravitz é pior: tem um bom repertório, a banda é excelente – a baixista Gail Ann Dorsey era da banda de David Bowie – e o cantor conseguiu fazer uma apresentação em que o tédio predominou. Talvez tenha sido prejudicado por estar entre as apresentações de Ivete Sangalo e Shakira, mas nem isso justifica tamanha apatia. Sorte que a Shakira acordou a galera - e quem não despertaria com aqueles rebolados todos, hein?

A DECADÊNCIA DE UM ÍCONE DO ROCK?

Como classificar a apresentação do Guns n´ Roses - ou Guns n´ Cover – neste Rock in Rio 2011? Problemática? Surpreendente? Melancólica? De tudo um pouco. Problemas do inicio ao fim: Axl Rose perdeu o vôo e chegou horas antes da apresentação, não ensaiou com a banda e um verdadeiro toró revezou músicos com puxadores de água no palco. Surpreendente porque o show aconteceu com aquela chuva toda - afinal estamos falando de Axl Rose, famoso por seus chiliques. Melancólico porque o vocalista deveria preservar melhor o que criou – com seus antigos companheiros de banda que fazem uma falta danada! – e arrebatou fãs ao longo do mundo. Claro que ninguém esperava Axl Rose, um dos grandes ícones do rock, saltitante como em 1991: o tempo passa e ele já tem 49 anos, quilos a mais e voz de menos, embora o carisma e a presença de palco continuem marcantes. No entanto James Hetfield, do Metallica, tem 48 anos e Lemmy, do Motorhead, tem 65 anos – e bebe feito um gambá! Estão mais inteiros e joviais do que Mr. Rose e fizeram ótimos shows. Time you gotta move, Mr. Axl Enrolose! E chega de botox, pois mais uma aplicação e o sr. fica a cara da Elke Maravilha!

E este foi o Rock in Rio 2011, a 4a edição brasileira, que retorna em 2013, no Rio de Janeiro. Se não houve nesta edição shows memoráveis como em anos anteriores, ao menos alguns bons números musicais salvaram o festival. Quem deu conta do recado, mais uma vez, foram os “veteranos” do rock e pop e até mesmo um Axl Rose claudicante foi mais competente e autêntico do que alguns artistas e bandas mais “modernas”. O que virá pela frente eu não sei, mas fico com o bom e velho rock n´ roll, bebê!

domingo, outubro 02, 2011

A leveza no humor

O filósofo francês André Comte-Sponville, em seu fabuloso Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, escreve que “podemos gracejar sobre tudo: sobre o fracasso, sobre a guerra, sobre a morte, sobre o amor (...); mas é preciso que esse riso acrescente um pouco de alegria, um pouco de doçura ou de leveza à miséria do mundo, e não mais ódio, sofrimento ou desprezo”.

Não vou entrar na discussão um tanto maçante e com características de patrulhamento que tenho acompanhado pela internet em relação ao humor, sobretudo nas redes sociais. Que há pretensos humoristas muito ruins por aí e fazendo esquetes de humor pra lá de duvidosos (principalmente no chamado "stand up comedy") é verdade, mas também existe uma turminha “politicamente correta” que se leva a sério demais – e costumo desconfiar de quem não sabe rir de si mesmo.

Prefiro dar um exemplo de leveza no humor. Já relatei algumas vezes que gosto muito do grande Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do jornalista carioca Sérgio Porto. Observador arguto e dotado de um admirável senso de humor, Stanislaw escrevia crônicas deliciosas e criava tipos inesquecíveis, como a Tia Zulmira e Rosamundo, entre outros. Criador do FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola a Nação - em plena ditadura, se estivesse vivo ainda hoje o jornalista e escritor teria fértil material para várias edições do Festival.

A crônica a seguir é do livro “O melhor de Stanislaw Ponte Preta”, da Editora José Olympio. Divirtam-se com a leveza que o bom e criativo humor proporciona.

***

O terceiro sexo

O nosso caro amigo Rosamundo, quando foi tirar carteirinha de jornalista no Ministério do Trabalho, provou que a pessoa pode ser distraída que isso não diminui o seu senso de observação.

O Rosa, depois de muito insistirmos, resolveu ir tirar a mencionada carteirinha, um pouco encabulado, diante desse mundo de calhordas que se esconde atrás de uma carteira de jornalista para conseguir favores e exorbitar da profissão.

O distraído lá esteve, no Ministério do Trabalho. Depois de subir várias escadas, porque não percebeu que no prédio havia elevador, Rosamundo foi atendido por uma funcionária para que fizesse a indispensável ficha pessoal. E foi aí que ficou ratificada a nossa teoria de que a pessoa pode ser distraída, que isto não importa em que seja menos observadora. A funcionária perguntou:

- Nome?

- Rosamundo das Mercês – respondeu.

- Idade?

- 39.

- Local do nascimento?

- Buracap.

- Sexo?

- Terceiro.

- Como? – estranhou a funcionária. – O senhor é do terceiro sexo?

- Sou sim senhora.

- Quer dizer que o senhor não é nem do sexo feminino, nem do sexo masculino?

- Sou do sexo masculino. – respondeu Rosamundo, com dignidade.

- Então o senhor não é do terceiro sexo – atalhou a dama, meio sobre a indignada.

E Rosamundo:

- Sou sim senhora. É que ultimamente certas coisas progrediram tanto que o masculino passou pra terceiro, dona.

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