terça-feira, julho 26, 2011

Enquanto isso, na África...

(charge bem antiga, mas ainda aproveitável)

Eu já relatei por aqui que sou um sujeito “das antigas”. O meu celular, por exemplo, tem apenas três funções: telefone, relógio e despertador. Não me pergunte o que é bluetooth, IPAD e outros gadgets, pois não saberei responder.

E como parte deste tradicionalismo eu ainda uso um calendário daqueles de folhinhas, em que cada página arrancada traz no verso alguma informação relevante – ou nem tão relevante assim. È uma tradição passada de avô para neto ter em casa a “Folhinha do Sagrado Coração de Jesus” e faço questão de mantê-la, até porque sou péssimo para lembrar as datas e logo pela manhã começo o dia com alguma mensagem ou informação que pode ser interessante - e já existe a versão online, imaginem se não haveria...

No dia de 10 de Julho, Lua Crescente e 15º domingo do tempo comum - não sei o que isso significa, está na pequena página do calendário, também chamado como “pagela”- , foi o Dia Internacional da Pizza. Bem, era uma deliciosa sugestão para mais tarde, mas não era uma informação que chamaríamos de importante (sei das controvérsias que essa afirmação causará). Mas no verso da pagela havia essa informação baseada na ONU e publicada na Revista Veja em 2009:

2050: países mais populosos

A população total estimada para 2050 chegará a 91,5 bilhões de pessoas no mundo. Segundo previsão, os países que terão o maior crescimento populacional são:

1º Índia: 1,6 bilhão

2º China: 1,4 bilhão

3º EUA: 404 milhões

4º Paquistão: 335 milhões

5º Nigéria: 289 milhões

6º Indonésia: 288 milhões

7º Bangladesh: 222 milhões

8º Brasil: 219 milhões

9º Etiópia: 174 milhões

10º República Democrática do Congo: 148 milhões.

Com exceção dos Estados Unidos e talvez da China, o que os demais países têm em comum? Adivinhão: são pobres ou muito pobres. E destes países mais populosos, 3 ficam no continente africano, no caso a Nigéria, a Etiópia e a República Democrática do Congo.

Durante a semana, em meio a assuntos que dominaram o noticiário como o terrível massacre na Noruega, a (bilionária) ajuda financeira para a Grécia e a morte de Amy Winehouse, uma notícia passou despercebida para a maioria das pessoas: a ONU estima que 9 milhões de pessoas enfrentem escassez de alimentos na África Oriental, em países como Djibuti, Somália, Etiópia e Quênia. O site da Revista National Geographic traz um artigo informando que mais de 1 bilhão de pessoas vivem em países à beira do caos – e no ranking desses 10 países, 7 estão na África.

Não que o cenário seja dos melhores em países como Bangladesh e Paquistão, mas a situação da África é desesperadora, e não se trata de exagero. Mike Davis, autor de “Planeta Favela”, é quem traz um dado assustador: “Em 2015, a África negra terá 332 milhões de favelados, número que continuará a dobrar a cada quinze anos”. No entanto, quem faz pior previsão é o ex primeiro-ministro inglês Gordon Brown, citado no livro de Davis: “A África subsaariana só obterá educação primária universal em 2130, uma redução de 50% da pobreza em 2150 e a eliminação da mortalidade infantil evitável em 2165”.

Apontar os motivos que expliquem a miséria deste continente é bem complexo. Essa bagunça toda também pode ser creditada aos processos de colonização por parte de grandes potências europeias entre os séculos XV e XVI e mais tarde com a demarcação de fronteiras que não respeitou as diversidades tribais e acirrou as disputas territoriais e conflitos étnicos. Sem falar, é claro, da espoliação de recursos naturais - como os diamantes do Congo -, o intenso tráfico negreiro nos tempos da escravidão, as guerras e a corrupção desenfreada em diversos sistemas de governo. E neste cenário surge um novo país e já considerado um dos mais pobres do mundo: o Sudão do Sul.

O que fazer com a África? Algumas iniciativas como a ajuda humanitária aos famintos, atuação de organizações como “Médicos sem fronteiras” e campanhas para arrecadação de alimentos costumam esbarrar em sistemas corruptos e guerras locais. Os países mais ricos do mundo não estão nem aí para o continente africano – a não ser que apareça uma ótima oportunidade de negócio - e o receituário de instituições como o FMI e Banco Mundial consegue piorar as coisas onde é aplicado.

Leio essas notícias, vejo as fotos e a pergunta não vai embora: “o que fazer com a África?”. Pego a folhinha e vejo os santos do dia: São Maurício e Santa Verônica Giuliani. Não creio que apenas rezar, neste caso, adiante muita coisa.

(Tem como ajudar através de algumas instituições em diversas frentes – educação, saúde, segurança alimentar, etc. Exemplos aqui e aqui. )

segunda-feira, julho 18, 2011

Sobre seleção, patriotadas e humildade

Dei muita risada com a eliminação da Argentina na Copa América 2011, disputada lá mesmo no país de Borges, Cortazar e Gabriela Sabatini. E dei mais risada ainda com a eliminação da seleção brasileira da forma como aconteceu: os jogadores não conseguiram acertar uma mísera penalidade no gol. Mas dizem que Elano e André Santos acertaram um satélite que transmitia a partida para Assunción e o Fred acertou a cabeça de um repórter paraguaio. Estamos vingados!

Não fique nervoso(a), rir é o melhor remédio e estressar por causa da seleção brasileira não é bom negócio. Por falar em negócio, é isso o que a seleção representa para o sr. Ricardo Teixeira, presidente da CBF: uma mina de ouro. Mas nem é sobre isso que vou falar e se você não entende de futebol fique tranquilo(a) pois não vou analisar atuações individuais, esquema tático e outras peculiaridades dentro das quatro linhas.

Prefiro refletir um pouco sobre as manifestações de muitos torcedores após a disputa de pênaltis que eliminou a seleção brasileira. Manifestações recorrentes que li em comentários e redes sociais pela internet reclamando dos “jogadores arrogantes e sem humildade” e “falta de amor à camisa da seleção brasileira”.

Bastante curioso o torcedor brasileiro falar em “humildade” dos jogadores se o próprio torcedor mantém uma postura pra lá de arrogante no futebol. Sempre que a seleção brasileira perde um torneio acompanhamos teorias conspiratórias e caça às bruxas tentando encontrar um “culpado”. Em 1998 o Brasil perdeu para a França a final da Copa do Mundo e assim surgiu a história de que a Copa já estaria “vendida” para o país de Zidane, Platini e Brigitte Bardot. Ou então a culpa é do jogador "Sicrano" ou "Fulano". Nunca se admite que do outro lado existe um time adversário que deseja vencer a partida e que foi mais competente em alguns fundamentos decisivos dentro de campo.

O atual técnico da seleção brasileira, em entrevista após o jogo contra o Paraguai, colocou a culpa no gramado pelo insucesso na cobrança dos pênaltis. Palavras do próprio Mano Menezes: “no local do pé de apoio, a grama estava alta”. Quer atitude mais arrogante do que esta? Isso é desdenhar do time adversário, mais competente nas penalidades. O brasileiro é o melhor do mundo, claro... jamais erraria. É mais ou menos essa a mentalidade.

Por fim, a “falta de amor à camisa da seleção brasileira”. Sabemos que hoje o futebol é um negócio que movimenta valores financeiros astronômicos. Os patrocínios, as ações de marketing, transferências de jogadores, direitos de transmissão, salários de jogadores e técnicos “de primeira linha” envolvem cifras elevadas. Em 2014 teremos a Copa do Mundo no Brasil e apenas um estádio, em São Paulo, custará R$ 820 milhões – e isso em uma cidade que já possui dois grandes estádios de futebol. Este é apenas um exemplo das cifras no futebol, sem citar os salários de jogadores como Neymar, Ronaldinho Gaúcho e tantos outros.

Dinheiro, claro, mas a chamada “falta de amor à camisa” também está relacionada ao patriotismo. O que temos, na verdade, é uma patriotice, ou seja, um falso patriotismo que se revela em Copa do Mundo e quando a seleção brasileira é derrotada. Ontem no twitter uma tag chegou ao topo do chamado trending topics: #vergonhabrasil. Eram torcedores indignados com a eliminação da seleção. Porém aceitam de forma quase passiva o caos na educação pública, na saúde pública, os escândalos políticos que são esquecidos porque sempre “aparece um novo todos os dias”. Ser patriota e “ter amor à camisa” é também estar informado sobre esses assuntos e ao menos discutir, debater, formar massa crítica ou manifestar o desagrado em várias formas. Se não há essa formação patriota e da consciência de que o problema da educação – vou citar apenas este setor - não é apenas dos professores e sim de toda a população, não esperemos que os jogadores da seleção venham dar lições de “amor à pátria”: eles são o resultado de uma sociedade cujo lema cada vez mais parece ser “cada um por si e Deus por todos” - e principalmente jogadores de futebol no Brasil, em que a ascensão social significa estarem cercados de carros, mulheres, mansões, iates, mulheres...

O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, afirmou estar “cagando” para as acusações sobre corrupção na entidade. Galvão Bueno repete o tempo todo sobre “o amor que o brasileiro tem pela seleção brasileira” ao lado de matérias imbecis à la Tino Marcos e bobagens como João Sorrisão na Rede Globo, que detém os direitos de transmissão dos jogos da seleção. Do lado de lá, os espertos se dando bem; do lado de cá, os patos, com a pontaria tão ruim quanto o Pato atacante.

( sugestão para os jogadores da seleção brasileira: chamem as jogadoras de futebol feminino do Japão. São batedoras de pênaltis eficientes e podem aprender muito com elas)

segunda-feira, julho 11, 2011

Dinheiro? Já era!


- É um absurdo! Quase 4 reais num quilo de tomate! Não tem dinheiro que dê, qualquer “dez real” hoje não vale nada!

Essa aí é a dona Maria, dona de casa e assídua freqüentadora do mercadinho e do sacolão da esquina. Mas poderia ser a dona Josefa, dona Cleusa, dona Bete, a sua vizinha ou até sua mãe ou esposa. Em minha opinião, as verdadeiras economistas e especialistas em finanças do Brasil são as donas de casa. Elas não falam em “taxa SELIC”, “IPCA abaixo do índice”, “fluxo de capitais para países emergentes” e nem sobre “o índice Dow-Jones”, mas sabem explicar porque os seus trocados mal compram os produtos da cesta básica.

Eu sempre me lembro da dona Maria e das donas de casa quando vejo na TV aquela propaganda do cartão de débito Visa Electron. Já viram? Uns mariachis cafonas tocando e cantando “no tienes troco/ que cosa triste” – isso é portunhol, creio - enquanto um cliente constrangido tenta pagar uma conta em dinheiro ( espécie). Então surge a voz do narrador, jovial: “Dinheiro? Já era!” ou “Dinheiro é coisa do passado”. Obviamente quando o sujeito saca seu cartão de débito tudo muda - afinal ele agora faz parte dos consumidores modernos e descolados. Quem disse que o constrangimento não vale a pena?

Sentia algum desconforto com essa propaganda. Não porque eu seja um sujeito arcaico que ainda paga a maioria das contas com dinheiro em espécie - ou que sobra dos caraminguás -, e sim com o narrador proclamando que “dinheiro já era”. Será que a propaganda tem razão? Lembro do professor Ciro Marcondes Filho: “a economia funciona sem que se precise desembolsar dinheiro, pagando-se com cheque ou cartão de crédito e, mais recentemente, pela compra eletrônica”. Quem sou eu para negar as vantagens do dinheiro de plástico? É prático, fácil e não precisa facilitar o troco, seja em balinhas ou deixando aqueles dois centavinhos* pra lá. O problema é dona Maricota tentar pagar R$ 2 em pães na padaria com o cartão de débito e o sistema demorar para conectar. Adeus, praticidade e facilidade!

Outro dia fui pagar uma conta de um serviço automotivo e lá estava eu bancando o chorão ao pechinchar um desconto no pagamento à vista:

- Mas pagamento em débito é o mesmo que pagar à vista, pô!

- É, mas eu só recebo daqui a uns 4 ou 5 dias e ainda pago uma taxa!

- Na minha conta o valor é descontado imediatamente, na hora...

- Pois é, vê se um negócio desses dá prejuízo pra banco? Não tem negócio melhor hoje em dia do que banco e igreja!

- É mesmo. Então, no tienes desconto? Que cosa triste!

Ah, esses nossos bancos amigos, como diria Ziriguidum Bauman! Sei que vivemos um período em que o virtual vem modificando conceitos e comportamentos; mesmo assim não deixa de ser estranho ouvir que “dinheiro já era”. Soa como o Francis Fukuyama anunciando o fim da História – e ironicamente, com isso, ele entrou na História; soa como esse povo proclamando “o fim do livro” a cada gadget tecnológico lançado no mercado; sem falar na “morte da TV” com a popularização da internet.

Se quiserem saber, certa mesma está a dona Maria. Ela também acha que dinheiro já era, principalmente depois de uma passada no supermercado. Quanto a mim, vou resistindo e pagando algumas contas recorrendo às tartarugas, garças e araras que correm sério risco de extinção em minha carteira – onça pintada e garoupa, então, nem pensar. Mas um dia eu juro que pago uma conta com balinhas de hortelã!

*de centavinho em centavinho, o comerciante enche o cofrinho!

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