sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Considerações sobre a sexta-feira

Charge sobre o “aumento do piso salarial para o magistério”. Agora, professores do nível médio devem ganhar R$ 1.187,94. Mas quem acha que está bom atente para um detalhe: este valor é para a jornada de 40h. A jornada de 20h vale R$ 593,98 – e o salário mínimo é de R$ 545. Enquanto isso o MEC continua com propaganda bonitinha...

Finalmente, é sexta-feira! Mais uma semana vencida e a perspectiva de dois dias de descanso – apesar de quererem nos convencer que trabalhar no fim de semana enobrece e desenvolve o país -, um fim de tarde com a turma do escritório na happy hour, uma aula mais descontraída na faculdade, enfim, a sexta-feira, na maioria das vezes, traz uma sensação bem positiva às pessoas.

Particularmente, adoro este dia e não apenas pelo fato de ser véspera de fim de semana. A sexta-feira remete a lembranças agradáveis da infância. Ao tocar o sinal da última aula, os meninos já tinham hora certa para transformar o terreno baldio lá da rua em um Maracanã onde desfilaríamos nosso repertório de jogadas geniais – isso se nossas mães não nos prendessem em casa para terminamos a lição. Também neste dia havia a feira no bairro e, em tempo de férias, o pastel e o caldo de cana eram obrigatórios – quem é de São Paulo sabe o que é degustar um pastel de feira. E os carretos que a molecada fazia adaptando os carrinhos de rolimã para carregarem frutas, verduras e legumes das donas de casa que não aguentavam levar tudo o que compravam em uma sacola apenas – era assim antes dos "hipermegaultrasupermercados" e das incontáveis sacolinhas plásticas.

Por que a sexta-feira costuma ser um dia com essa alta carga positiva? Os místicos diriam que se deve ao fato deste dia ser dedicado a Vênus, deusa do amor e da beleza; no entanto, além da óbvia véspera do final de semana explicar em parte essa positividade, acredito em um fator que muitas vezes acaba passando despercebido e pode infuenciar nas boas vibrações: o senso de dever cumprido, a superação de uma semana inteira de trabalho e os desafios que aparecem no dia a dia.

Mesmo que os problemas continuem ainda sem solução, a sexta-feira surge como um alívio, pois é o último dia de trabalho – para muita gente – e desta forma há uma pequena e oportuna pausa para algumas preocupações, sobretudo ligadas à esfera profissional. Planejar um final de semana, conferir a seção cultural dos jornais e os lançamentos do cinema – para quem gosta - ou simplesmente não precisar ajustar o alarme para acordar cedo no dia seguinte trazem um bom efeito nas mentes cansadas e que lidaram com altas cargas de estresse e ansiedade durante a semana.

A sexta-feira, a rigor, é apenas mais um dia na semana, evidente. E posso adaptar o que está escrito sobre a segunda-feira no maior clichê que eu já criei: a sexta pode ser o melhor dia da semana desde que você o torne melhor. No fundo, é a verdade: tanto faz se terça, quarta, sábado ou domingo, o dia torna-se bom de acordo com as nossas ações e como lidamos com os imprevistos, as responsabilidades e as exigências de uma sociedade cada vez mais insana. O ideal, pra valer, é que conseguíssemos fazer com que cada dia da semana fosse uma sexta-feira, com leveza de espírito e positividade.

Enquanto não alcanço esse estágio, continuo comemorando as chegadas da sexta-feira. Hoje, infelizmente, não tenho mais acesso ao pastel de feira e caldo de cana e tampouco feira - apesar da famosa feira de São Joaquim; mas lá não tem pastel igual ao dos japas, tem acarajé – mas conservo uma lembrança desta vez dos tempos da adolescência: sexta-feira tem uma trilha sonora e este é dia de ouvir “Rock n´Roll All Night... and party everyday”, do Kiss.

Afinal, não é isso o que queremos? Rock n´Roll a noite toda e festejar todos os dias, até, quem dera, na segunda? Mas fiquemos aqui, na sexta com sua trilha sonora preferida. O que importa é o espírito do dia dedicado a Vênus, deusa do amor e da beleza! E invoquemos Baco, o deus do vinho e das festas, para uma celebração do balaco-baco!

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Considerações sobre a segunda-feira

A charge desta postagem, desta vez, saiu mais tosca do que o normal, sem colorização e com tudo torto, pois trata-se de um rascunho qualquer. E tem algo a ver com o maravilhoso salário mínimo aprovado nesta semana. Clique na imagem se tiver a coragem de vê-la em tamanho maior.

O domingo é um dia estranho, definitivamente. As manhãs são agradáveis e realmente não há nada mais bonito do que a manhã dominical ensolarada. Até o almoço estamos todos muito bem neste dia. À tarde geralmente temos certos lazeres que eu julgaria imprevisíveis: visitas de parentes, os jogos da rodada, algum filme no cinema ou mesmo na TV. Mas por que tais atividades são imprevisíveis? Ora, você pode receber a visita daquele parente chato que não vai embora tão cedo e fica ali pela sala, cheio de conversinha mole; seu time pode perder um jogo contra a pior equipe do campeonato; e o filme na TV ou cinema pode não ser aquilo que a sinopse prometia. O que não muda jamais é o Domingão do Faustão e o Programa Sílvio Santos.

Mas não há nada pior do que a noite de domingo. A noite dominical é deprimente porque já prepara o espírito para o mais terrível dos dias: a segunda-feira. E quando a trilha sonora do Fantástico encerra o programa,você sabe que está na hora de ir para a cama e preparar-se para o começo de mais uma semana de trabalho. Com efeito, a noite de domingo já é segunda.

Peço desculpas aos fãs da segunda-feira, mas segundo minhas próprias pesquisas no local de trabalho, 97% das pessoas estão mal humoradas e taciturnas logo no começo deste dia. Talvez 98%, vá lá. E quanto aos 2% que estão sorridentes e parecem encarar este dia com a tranquilidade e serenidade de um monge budista?

Driblando minha timidez e usando de uma cara de pau sem tamanho, ousei perguntar a um desses privilegiados monges que fazem parte dos 2% de minhas estatísticas de araque qual era, afinal, o segredo para que lidasse tão bem com este intragável dia. A resposta que eu tive, resumindo, parece remeter à auto-ajuda capenga: É apenas mais um dia no calendário, um recomeço e é você quem deve tomar as rédeas disso.

Admirei duplamente. Primeiro, pelo fato do sujeito considerar a segunda-feira como mais um dia no calendário como outro qualquer. Sem dúvida, um monge: eu sinto as “bad vibrations” deste dia, mas o sujeito, não. Deve ser algum controle da mente, mantra, um bloqueio às “más energias” deste dia. Ou simplesmente um modo diferente de encarar a vida e uma de suas verdades universais: sempre haverá uma segunda-feira, meu chapa, então ou você coloca isso na cabeça e para de pensar bobagens como “más vibrações” ou toda a segunda continuará torturante e deprimente.

Segundo, admirei por conta do “tomar as rédeas”, que deduzi como metáfora para conduzir as atividades do dia da melhor forma. Isso parece loucura em um período em que praticamente nos tornamos escravos do trabalho – e ainda há empresas que tentam me fazer acreditar que todos os seus funcionários se divertem enquanto trabalham, uma espécie de mistura de lazer e labor que, com exceções, só encontro nos manuais de conduta das empresas e textos publicitários – mas acho que tem muito sentido essa ideia. Já repararam o quanto gostamos de complicar e juntar tarefas e “responsabilidades” ao invés de simplificar e descartar? Se a segunda-feira é mesmo o recomeço, então é hora de descartar o que é inútil para a semana e simplificar as ações programadas para o dia. Isso, ao menos, teoricamente. Mas se tem gente que consegue fazer isso, por que eu não conseguiria?

Até aqui estava tudo muito bem, eu já estava até mesmo concordando com o baita clichê que criei - o problema não é a segunda-feira, mas sim o que você faz na segunda-feira – para relaxar e tentar mudar essas ideias bobas que eu tenho sobre um simples dia da semana, mas no momento em que finalizo essas mal digitadas, toca a música de encerramento do Fantástico.

Começa a segunda-feira. Hora de ir para a cama e pensar diferente: que bom que o dia terrestre tem apenas 24 horas. Já imaginaram como deve ser uma segunda-feira em Mercúrio? Lá um único dia equivale a 58 dias aqui na Terra. Pois bem, viva a nossa segunda, que há de passar rapidinho!

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Ronaldo e a hora do adeus


02 de Outubro de 1974. Na Vila Belmiro, no jogo entre Santos x Ponte Preta, Pelé recebe a bola no meio de campo, se ajoelha e abre os braços. A torcida aplaude, os jogadores cumprimentam o Rei do Futebol, os jornalistas invadem o gramado. Era a despedida de Pelé do Santos e, até aquele momento, do futebol – visto que ele retornaria para o “soccer” nos EUA por um breve período. Antes disso, em 1971, em um Maracanã lotado, o Rei do futebol se despedia da seleção brasileira diante de um coro com mais de 100 mil vozes gritando “Fica, fica”.

14 de Fevereiro de 2011. Ronaldo Fenômeno anuncia sua aposentadoria dos gramados. Tudo aconteceu em uma entrevista coletiva e assim o jogador despede-se dos gramados, de forma melancólica, bem acima do peso e abalado com as recentes ofensas de parte da torcida corintiana, inconformada com a eliminação do time da pré-Libertadores da América pelo fraco Tolima da Colômbia. Mesmo assim o jogador agradeceu à torcida e, em meio às lágrimas, pediu desculpas pelo fracasso na competição Sul-Americana. E ainda revelou que os problemas com a manutenção de peso devem-se ao hipotireoidismo.

Despedidas de dois grandes craques brasileiros em contextos diferentes. Pelé soube como e quando parar, mesmo que depois tenha retornado nos EUA em uma espécie de “projeto piloto” para popularizar o futebol naquele país; Ronaldo, pelo contrário, não soube como e quando parar. Mesmo com inúmeros problemas insistiu em continuar jogando futebol profissional, embora ciente de estar longe, muito longe da forma física ideal para um esporte de alta competitividade – e tão competitivo é hoje o “futebol moderno” que o condicionamento físico e os esquemas táticos mirabolantes na maioria das vezes acabam prevalecendo sobre a técnica e improviso do jogador brasileiro, salvo quando surge um ou outro gênio como Neymar.

Ronaldo não é nenhum Einstein, mas também não é bobo. Sabia que não estava nas condições físicas ideais para competições mais intensas. Mesmo assim ele insistiu. O interessante nessa história toda é o fato dos jogadores contarem com um verdadeiro staff fora de campo para gerenciar suas carreiras. Qualquer moleque promissor (ou perna de pau) tem empresário, procurador, advogado, assessor de imprensa, enfim, um batalhão de gente para lidar com contratos, imprensa, propaganda, processos de paternidade, o que aparecer. Ronaldo tem nome de peso (sem trocadilho) e uma equipe muito competente assessorando o jogador em termos contratuais. Assim o contrato de Ronaldo com o Corinthians não era nada modesto no aspecto financeiro. Daí, talvez, a insistência por parte do “Fenômeno”. Digo "talvez" porque em alguns casos anda há o gosto pela profissão. E não é fácil a hora de dizer "chega".

No entanto, será que valeu a pena para ele, Ronaldo, todo esse desgaste, a despedida melancólica, os xingamentos, os bate-bocas “virtuais” via twitter com comentaristas e jornalistas questionando sua forma, as inúmeras piadas e as chacotas relacionadas ao seu peso? Alguém pode dizer que sim, afinal ele, “Ronaldo marketing”, rendeu muito dinheiro para o clube, para a TV, para empresários e para seu próprio bolso, evidente. Mas será que um jogador na dimensão do Ronaldo (sem trocadilhos again!) , apelidado de “Fenômeno” por suas jogadas e gols, eleito melhor jogador do mundo por três vezes não deveria pensar como e quando parar?

Como diz John Lennon, 'you may say I´m a dreamer" but eu ainda estou pensando no que se pode chamar de gratidão ou até mesmo dignidade. Claro que estes últimos anos do Ronaldo gordo e do escândalo com travestis - e o que tem de marmanjo casado que dá uma escapulida com as bonecas... - podem contradizer essa ideia, porém não apagarão o brilho de uma carreira repleta de glórias e superações – apesar das lamentáveis propagandas de cerveja –, mas penso que o Fenômeno ( e tantos outros ex-jogadores) deveria ter planejado, talvez com seu staff, o momento certo de parar.

Como Pelé.

sábado, fevereiro 12, 2011

A renúncia de Hosni Mubarak no Egito


Em algum lugar secreto nos Alpes Suíços uma reunião secreta acontece. Os donos do mundo, assumindo suas identidades secretas, marcaram este encontro para discutir a renúncia do ditador Hosni Mubarak, no Egito. Os nomes destes líderes são tão secretos que resolvi batizá-los sob a alcunha ( palavra secreta, procure no dicionário) de “Coiso”, em homenagem ao grande escritor e jornalista Fausto Wolff ( escreveu livros que permanecem secretos do grande público, apanhem suas lupas, Sherlocks!). Graças a uma câmera escondida, consegui gravar os principais trechos da conversa outrora secreta.

COISO 1: Senhores, lamento por chamá-los à pressas e sei que abandonaram seus afazeres, mas esta reunião foi convocada em caráter de emergência tendo em vista os graves acontecimentos no Egito.

COISO 2: Sim, e que hora mais imprópria, a festa do Berlusconi estava ótima! Digam o que quiserem dele, mas aquele italiano sabe como dar uma festa daquelas! Mas, de fato, estamos todos preocupados com o que aconteceu pelos lados do Egito. Não podemos deixar que uma revolução popular se torne um modelo para outros países.

COISO 3: Claro, temos que avaliar onde erramos, se é que erramos...

COISO 4: Isso não vai dar certo...

COISO 1: Bem, vamos lá, vamos primeiro averiguar os pontos positivos: enganamos todo o mundo direitinho por 30 anos, hein? Todos falando de Cuba, Coréia do Norte, aquele maluco da Venezuela e nisso tudo o nosso homem tranquilo lá no Egito, sem ninguém sequer mencioná-lo.

COISO2: Ele foi perfeito, deveríamos prestar-lhe uma homenagem, um prêmio, algo assim.

COISO 3: Não acho que mereça, afinal ele apenas executou nossas ordens e o nosso plano, que funcionou muito bem, aliás. Além disso, ele juntou um dinheirinho também. E, colegas, temos que admitir que fomos brilhantes: demos todo o suporte a uma ditadura sem que o mundo percebesse que aquilo era realmente uma ditadura. Falem a verdade, isso foi brilhante!

COISO 1: E nosso homem na Casa Branca também mostrou que sabe seguir nossas ordens: ele ficou caladinho esse tempo todo e reparem que ele só foi falar em “ditadura” quando não dava para segurar mais o Ramsés no poder.

COISO 4: Ramsés?

COISO 2: O código secreto de nosso homem no Egito... mas, sim, colegas, tivemos muitas vantagens, 30 anos de bons negócios na região apesar de um ou outro probleminha, mas voltemos à realidade...e vamos resolver isso rápido que ainda dá tempo de pegar a saideira lá do italiano!

COISO 1: Sim, temos sérios problemas a resolver. O principal: e agora? Como vai ficar a região? Temos que agir imediatamente para sufocar novos levantes populares entre os árabes contra nossos parceiros.

COISO 3: Eu tenho uma sugestão: que tal controlar o uso da internet? Digo, restringir mesmo.

COISO 4: Isso não vai dar certo...

COISO 2: Que nada, deixa a internet aí, é um brinquedo bacana para a galera se distrair. Pega um desses meninos gênios que tem por aí em qualquer país periférico, cria outra rede social e deixa lá pro pessoal postar fotos, vídeos e um monte de bobagem...

COISO 3: Bobagem? Graças ao twitter e ao Facebook o Egito derrubou nosso homem!

COISO 2: Hahaha! Até você acredita nisso, Coiso3? Sinal que nosso plano está indo muito bem, obrigado. Imagine se a internet vai derrubar um governo...

COISO 3: Mas ajuda, pô! Esse tipo de mídia de massa causa uma aceleração nos fatos, mais gente fica sabendo, se mobiliza, a informação tem poder. Eu acho que a internet é um problemão!

COISO 1: O que derruba governos e ditaduras é povo na rua e mobilizado. Bom, dizem que os egipcios passam fome, seja lá o que isso for, e isso contribuiu para a queda de nosso homem. Enfim, essas redes tiveram lá sua serventia para difundir a informação, mas quanto a isso podemos ficar tranquilos. Informação é poder, mas o que adianta se pouca gente sabe lidar com esse monte de informações que inunda a rede e os meios?

COISO 3: Vocês estão subestimando a internet e as redes sociais...

COISO 2: Quer um exemplo para entender? Olha o Brasil. O povo lá é viciado em rede social e o acesso à informação é crescente. E tá cheio de políticos corruptos. Tentaram tirar um velho amigo nosso do senado de lá dia desses e foi uma baita mobilização pelo twitter, milhares de pessoas on line apoiando o “movimento” e o que deu?

COISO 1: No Egito, o povo foi às ruas; no Brasil, aqueles que tem acesso à rede preferiram ficar no twitter digitando #forasarney. E proibir é até perigoso, pode ser um tiro no pé. Mas voltemos ao que interessa: impedir que isso que aconteceu no Egito espalhe pelos demais países, sobretudo por aqueles lados. Alguma sugestão?

COISO 3: Eu já dei minha ideia, controlar a internet...

COISO 2: Não devemos mudar nossa linha de ação. Vamos continuar apoiando esses governos e dando todo o apoio para o exército da região. Se precisar financiamos um grupo terrorista e eles tomam o poder e seguem nossas diretrizes. Isso funcionou muito bem antes, apesar de pequenos efeitos colaterais no Iraque e Afeganistão. E, claro, continuar com os nossos planos de ajustes econômicos nestes países todos, que são ótimos e mantemos tudo sob controle! Inclusive, nem precisamos controlar a internet, porque graças aos nossos planos de ajuste a educação serve apenas para o mínimo necessário com vistas a formar mão de obra barata e que saiba ler para operar máquinas. E aí damos ao país a falsa sensação de liberdade e autonomia, como sempre fizemos.

COISO 1: É, eu acho que devemos fazer assim mesmo. O que você acha, colega Coiso4?

COISO 4: Isso não vai dar certo...

sábado, fevereiro 05, 2011

Ney Show, o cara!

Não consigo entender isso: se o Brasil é, como dizem, auto-suficiente em petróleo, como é que essa gasolina é tão cara? E o álcool, já aumentou novamente o preço! Não vale a pena abastecer com o biocombustível. Quer dizer, se eu olhar para a questão ambiental, vale...na verdade eu deveria reduzir as horas que gasto em um automóvel, mas estou em Salvador, cidade onde o transporte público é horroroso. Além disso, esse preço é por causa dos impostos e...

- Completa, dotô?
- Não, coloca aí uns 30 conto de...álcool! Mal vai render, mas...

Onde eu estava mesmo? Ah, na questão tributária. Eu sei lá quanto o governo leva nessa história de combustível, mas não é pouco, não. Eu já li sobre isso, mas esqueci o percentual. É tanta informação que...

- Com licença, meu jovem?
- Diga, companheiro?
- Desculpe incomodar, mas queria divulgar a minha arte, meu CD, olha só! Já é difícil gravar 1 música, o que dizer de 17 músicas! Tô aqui divulgando, olha só, 1 é 3 real, dois é 5, se quiser me dar uma força no trabalho, meu jovem, fico satisfeito!

E agora deixo as reflexões do combustível para contar essa história para vocês, a história de Ney Show, o grande futuro astro do arrocha, da seresta, do brega e da música de corno que tanto faz sucesso por este Brasil. Acomodem-se em seus lugares.

- Companheiro, qual é o seu estilo musical?
- É popular, meu jovem, um arrocha, uma seresta, tudo com muito amor pra dançar juntinho com as nega!
- Pois é, amigo, mas esse aí não o estilo de música que eu gosto não, sabe...
- E qual é o estilo que tu curte?
- Companheiro,meu negócio é rock, aqui, ó, escuta isso.

E aumento o volume do meu pobre rádio “tocador de CD”, como dizem, sem "som na mala" e sem caixas potentes, mas onde foi possivel escutar com clareza a guitarra cortante de Jimi Page em “Heartbreaker”. Ney Show ouviu e falou:

- Ah, teu estilo é rock pesado. Mas eu toco umas músicas que tem uma guitarra também!
- Mentira! Sério? Cadê, deixa eu ouvir isso!

E sai Led Zeppelin do som, entra Ney Show com a música de abertura do seu CD chamada “Meu sofrimento”. Normal, se até Elvis Presley cantava “It´s now or never, kiss me my darling”, por que o nosso Ney não poderia expressar sua dor e sofrimento?

Hoje eu parei pra ver
O meu sofrimento
Não dá para amar
Chorando por dentro
Hoje eu parei pra ver
Que não é assim
O que o povo fala, o povo ri de mim
Eu não vou ligar, vou fazer assim
Eu só vou amar,
Só vou gostar
De quem gosta de mim
Ôô paixão, arrocha, vai!

E não é que tinha uma guitarrinha ali no meio, perdida entre os ritmos cadenciados do teclados e uma bateria eletrônica um tanto acelerada?

- Você gravou 17 músicas? Faz shows pela noite, é?
- É, gravei essas 17 músicas e faço show em barzinho, aniversário, formatura, casamento, o que for, é só chamar Ney Show, tá aí na capa os contato tudo, telefone, imeio, orkut, msn...
- Meu, você é todo conectado, hein? Tem vídeo no youtube também?
- Tenho não. Mas vou colocar, vou colocar! Gostou da música? Tá aprovado?
- Que música é essa, do locutor? Quero ouvir, peraí:

Hoje acordei com saudade do meu amor
Eu preciso entrar em contato com o locutor
Amigo eu preciso que toque essa canção pra ela
Locutor, diga que eu to com saudade ela
Diiiiiiiiiz, diz pra ela, locutor,
Diz pra ela, por favor,
Que eu imploro,
Que eu choro, choro,
Choro de amor.
Arrooooocha! Ney Show ao vivo pra vocês, ôôô, paixão!

Depois dessa música, chamada “Diz locutor”, eu me convenci: iria dar uma força à arte e adquirir um CD do Ney Show! Ora, temos que estimular nossos músicos, não é verdade? Além do mais, Ney Show segue os passos dos grandes Odair José, Wando e do sensacional filósofo Falcão!

- Companheiro, apesar de não ser meu estilo de música preferido, vou dar uma força e adquirir um CD com o seu trabalho. Tenho uns vizinhos que se amarram nesse tipo de som, quem vai me dizer se o seu trampo é bom ou não é a vizinhança, experiente no assunto!
- Beleza, beleza, meu jovem, é isso aí, o negócio é fazer divulgação! Se a galera curtir, taí meus contato todo!
- Jóia! Agora, companheiro...descola uma capa melhor para o seu CD. Essa sua cara aí com esses óculos escuros e camisa verde ficou legal, não. Bota uma piriguete aí, que a galera vai curtir!
- Ah, mas eu tenho que me tornar conhecido, né? É meu cartão de visita, o certo mesmo seria uma gatinha, toda gostosinha, mas tenho que me tornar conhecido, né? Valeu, irmão, um abraço, valeu!

E foi assim que eu conheci o futuro astro da música brega baiana, Ney Show. Combustível no carro ( que absurdo o preço da gasolina, esse aumento no álcool, e o governo não faz nada, que coisa!), faço o percurso de volta para casa sem Led Zeppelin como trilha sonora, e sim Ney Show, no CD cujo repertório conta com títulos como “Ela vai voutar” (sic) , “bem mim quer” (sic) e a maravilhosa sequência “Apanhou/Chifre não mata”:

Eu já sei o que aconteceu
Ontem à noite, aquele cara te bateu
Apanhou, apanhou
Deixou o cara certo
A madeira deitou

Apanhou, apanhou

Deixou o cara certo
A madeira deitou

Eu vou te falar
Como eu estou
Estou no violão
Fazendo show
Pra você eu faço essa canção
Você apanhou
E esse é o refrão

Essa é uma homenagem àqueles que tomam todas na porta do bar

Chifre não mata não
Chifre não mata não
O que mata é o desespero, falta de dinheiro
E a solidão
Chifre não mata não
Chifre não mata não
O que mata é bala de revolver, espingarda, de açoite,
Tiro de canhão


Ôôô, paixão!

terça-feira, fevereiro 01, 2011

A idade apodera-se de nós de surpresa

Clique na imagem para melhor visualização

Clássico adj.Relativo à antiguidade greco-latina; modelo em belas-letras; correto, habitual; famoso.

Este termo – clássico – sempre me remeteu a fatos e obras relacionadas à antiguidade e que, de alguma forma, atravessaram gerações sobrevivendo intactos aos modismos e tentativas de “adaptações para os tempos modernos”.Justificar
Talvez por isso sempre me recordo justamente dos clássicos da literatura, de títulos como “Othelo”, “Dom Quixote”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e tantos outros; até no futebol temos a denominação “clássico” para jogos como Flamengo x Fluminense - o famoso “Fla-Flu” -, Santos x Palmeiras, Bahia x Vitória – Ba-Vi” e etc.

E na música, quando se fala em “clássico” logo me lembro de Mozart, Wagner, Vivaldi...e no caso do rock, é Rolling Stones, Doors, Pink Floyd, Led Zepellin e cia bela.

Dia desses eu estava em um curso de cretinice avançado frequentando o sofá com um controle remoto de TV em mãos. Estou com o firme propósito de me tornar um estúpido – conforme relatado no texto "escrita automática", mas as férias ainda não chegaram* - então a TV aberta é uma das formas mais práticas de se chegar a esse status tão em voga (palavra simpática, não?) hoje em dia. Acredito que uma carga horária de 4 horas diárias de TV me dará uma boa base cretina.

Mas voltando à nossa programação normal, zapeando pela educativa gama de canais abertos e seus programas, cheguei finalmente à emissora que outrora era chamada de “Music Television”, mas hoje o M da MTV significa outra coisa que não ouso falar porque tenho lá um pouco de educação e também não comprei um livro fundamental para as minhas pretensões chamado “Sobre falar merda” – embora eu faça isso neste blog. Mas parei no canal da MTV e estava passando um programa de vídeo clipes com um selinho “Clássicos”.

E que clássico: Ozzy Osbourne ainda inteiro berrando “Paranoid” num vídeo bem tosco, mas safa-se, afinal Black Sabbath é da década de 70 - coisas piores fariam as “bandas coloridas” no final da primeira década do século XXI, mas essa é outra história. E o programa emenda outra pauleira: “London Calling”, do Clash. Uma beleza! Quem diria, algo interessante na TV aberta.

Logo depois do Clash apareceu um clipe que me deixou assustado: “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana. Quando o álbum Nevermind foi lançado? Em 1991, 1992, por aí. Praticamente 20 anos!

Senti o peso da idade: eu era um adolescente quando ouvi os primeiros acordes do grunge. E tentei até usar camisa flanelada, cabelo comprido, vesti camiseta do Pearl Jam, Soundgarden e, claro, o álbum (ainda estamos falando do vinil) do Nirvana tocava direto em toda festa roqueira. E que alegria quando conseguíamos tirar o F# Bb A# D (era assim?) direitinho na guitarra, aquela barulheira tosca! E tudo isso se tornou clássico.

Quase 20 anos se passaram desde “Nevermind”, torno a repetir perplexo. E falando de clássicos, evoco Shakespeare e a expressão “dentes do tempo”. Como tudo foi devorado pelo tempo implacável, a expressão “não faz muito tempo” - no meu caso e de uma geração - se torna... clássica. De repente eu não consigo mais entender certas linguagens e comportamentos de uma geração. Estou fora da cena: Lady Gaga, Restart, emos, tudo passa muito rápido, não consigo acompanhar – mesmo se eu quisesse, até porque eu confesso não ter interesse no que vem acontecendo no mundo (pop) atual.

Dentes do tempo: se 20 minutos hoje é considerado “uma eternidade”, o que dirá 20 anos. Ou será que tentei – tentamos – me enganar ao procurar minimizar ou mesmo ignorar a passagem do tempo? Li em algum lugar que a adolescência vem sendo “prolongada”. As cirurgias plásticas e tratamentos para rejuvenescimento são comuns, se tornaram procedimentos banais. Congelar o tempo é o desejo de muitos. E minha concepção de “clássico” talvez estivesse –está – equivocada. Ou vem se modificando e sendo “adaptada para os tempos modernos”. Eu creio que isso seria um tema interessante para se debater um pouco mais. Quem sabe Fiuk, daqui a 20 anos, não seja considerado um clássico? Para as adolescentes de hoje e digníssimas senhoritas de amanhã...vejam o caso dos Menudos.

Para finalizar, evoco outro clássico, desta vez do escritor alemão Goethe, autor de “Fausto” e “Os sofrimentos do jovem Werther”: “A idade apodera-se de nós de surpresa”. Eis aí o resumo da ópera e de todas as conjecturas feitas sobre a passagem do tempo.

*texto escrito em Dezembro/2010
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