quarta-feira, dezembro 28, 2011

Previsões para 2012

Após o Natal as pessoas começam as preparações para a virada de ano. E como o ser humano é curioso desde o berço, começam a aparecer os gurus, astrólogos e videntes com as famosas “previsões para o ano que vem”.

Já que 2012 é um ano especial por todo o misticismo que o envolve – calendário Maia, fim do mundo, etc – o blog Grooeland foi procurar saber o que os astros e os místicos revelam para este ano cabalístico. Alertamos que as opiniões dos profissionais contatados não correspondem necessariamente às opiniões do autor do blog.

LÓRA EMBRONARA, astróloga
LÓRA EMBRONARA - astróloga
Lóra Embronara não revela a idade por nada deste mundo, mas adora estar em contato com coisas do outro mundo e já atravessou décadas e décadas elaborando mapas astrológicos e fazendo previsões que foram publicadas em revistas, jornais e livros. Atualmente dedica-se ao site http://www.previsoes.cz/

Grooeland: Lóra Embronara, fale sobre o ano de 2012 sob a visão da astrologia.
Lóra Embronara: Sim, vamos lá: este ano é regido pela Lua, do elemento água, regente do signo de Câncer. Uma característica dos cancerianos é a imaginação, portanto é bom ter pés no chão e não andar com a cabeça no mundo da lua!

Grooeland: E para o Brasil, o que esperar de 2012?
Lóra Embronara: Como Netuno está em conjunção a Aquário e Peixes, isso significa que teremos problemas com as chuvas e inundações no país; Mercúrio estará transitando pela casa II em Áries e Touro, o que indica um ano de muitas dores de cabeça na política. Na saúde, educação e segurança pública vejo muitos planetas retrógrados, o que significa que essas áreas, infelizmente, não irão pra frente em 2012.

Grooeland: A senhora poderia fazer as previsões sobre 2012 para cada um dos signos?
Lóra Embronara: Pode, mas vai custar mais caro.
Grooeland: Não faz mal, temos convênio com uma ONG que paga por isso.
Lóra Embronara: Vamos lá, então:

Áries: bom ano para investir na criação de caprinos.
Touro: cuidado com os relacionamentos, livre-se de coisas na sua cabeça!
Gêmeos: um ano de indecisão e dualidades. Cuidado com pessoas de duas caras!
Câncer: um ano muito bom para investir em frutos do mar, como crustáceos.
Leão: atenção para a saúde: faça mais exercícios e não exagere no chá mate!
Virgem: um ano de descobertas e rompimentos no campo do amor.
Libra: o ano ideal para buscar o equilíbrio!
Escorpião: tome muito cuidado com animais peçonhentos este ano.
Sagitário: Ah, Sagitário, não viaja!
Capricórnio: o ano vai ser organizadinho, certinho, direitinho...capricornianos, qualé!?
Aquário: Invista em um hobby este ano: que tal peixes ornamentais?
Peixes: será um péssimo ano para a pesca.

Grooeland: E o mundo vai acabar em 2012?
Lóra Embronara: Além de um eclipse, Marte, Plutão e Saturno estarão em conjunção no segundo semestre, o que denota algo estranho, terrível e aterrorizante ocorrendo principalmente no Brasil no mês de Outubro.
Grooeland: Não é em Outubro que teremos eleições?
Lóra Embronara: Ah, o senhor também é vidente? Acertou na mosca!

MAHAVI DENTE, vidente
MAHAVI DENTE, vidente
Mahavi Dente diz ter 80 anos mas “num corpinho de 79”, o que não impede a lucidez e a vivacidade deste indiano nascido em Bangalore e radicado no Brasil há 50 anos. Suas vidências são famosas no mundo inteiro pela precisão e espantoso grau de acerto.

Grooeland: Vamos começar, senhor Mahavi Dente: o mundo vai acabar em 2012?
Mahavi Dente: Vejo algo muito curioso acontecendo dia 12/12/12 às 12:12. Ainda não sei dizer direito o que é, mas é algo terrível...
Grooeland: O que pode ser? Tsunami? Terremoto? Pragas? Invasão de ET´s?
Mahavi Dente: Não, não... vejo pessoas...
Grooeland: Mortas? Em desespero? Em fuga?
Mahavi Dente: Não...vejo pessoas...postando isso o dia inteiro no Facebook e twitter... e atribundo significado místico para isso.

Grooeland: Ok, senhor Mahavi...diga-nos o que o senhor vê para o Brasil em 2012.
Mahavi Dente: Oh, sim, Hum...Auuuun....
Grooeland: Senhor Mahavi Dente?
Mahavi Dente: Silêncio! Estou tentando sintonizar as energias cósmicas, mas está difícil.
Grooeland: Puxa, o que será? Muita energia negativa pairando no cosmos?
Mahavi Dente: Não, esse monte de celulares e antenas de TV está atrapalhando a sintonia! E o sinal de internet está bem ruim hoje! Maldita operadora!

Grooeland: Até agora o senhor não fez nenhuma previsão e o tempo cobrado é por hora.
Mahavi Dente: Ok, o que o senhor que saber mesmo?
Grooeland: Hã...o que o senhor vê para o Brasil em 2012?
Mahavi Dente: Ah, sim, claro,vamos lá: eu estou vendo muita corrupção, muito descaso para com a saúde e a educação, mais ministros cairão ao longo deste ano, haverá escândalos políticos, um artista famoso vai morrer, um novo artista vai fazer sucesso com uma música infame e a seleção brasileira vai continuar jogando aquela bolinha!

Grooeland: Já que o senhor falou em futebol, que tal nos dizer os campeões deste ano?
Mahavi Dente: Tudo bem, vamos lá:

Campeonato paulista – um time de São Paulo.
Campeonato carioca – está entre Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo!
Campeonato Mineiro – na atual fase do futebol mineiro, quem chegar leva.
Campeonato Gaúcho – um time gaúcho, tchê!
Campeonato Baiano – aí só perguntando pros orixás da Bahia, lá a coisa é complicada.
Copa Libertadores da América – um time da América Latina.
Campeonato Brasileiro – um time brasileiro.

Grooeland: Vidente, o mundo vai acabar em 2012?
Mahavi Dente: Eu vejo... muita gente...fogo...fumaça...muito barulho...pessoas procurando o topo das residências...
Grooeland: Meu Deus, teremos o que profecias antigas revelam? A Terra será consumida pelo fogo?
Mahavi Dente: Que? Eu tô falando do churrasco de fim de ano com a galera, na laje do Ditão! Tá a fim? Bora!

Grooeland: Uma última pergunta, Mahavi: como será o ano de 2012 para o blog Grooeland?
Mahavi Dente: Ora, isso é fácil: continuará o mesmo blog tosco e com péssimo gosto de sempre. Agora vamos logo porque estou prevendo que se chegarmos tarde nós não encontraremos mais nada!

***
E assim o Grooeland encerra o ano de 2011 com as previsões dos mais respeitados e sérios místicos que a nossa verba conseguiu pagar. Desejamos a todos os leitores, visitantes e comentaristas um feliz 2012 com muitas realizações positivas – independente das previsões, faça de 2012 o melhor ano de sua vida! ( não se preocupe, o mundo só acaba quando o juiz apita o fim de jogo – fora os acréscimos!)

sábado, dezembro 24, 2011

Feliz natal para mim e para você!


(um pouco de humor não faz mal)

Nestes dias que antecederam o natal eu fui buscar minha avó e minha mãe na igreja. Na saída do estacionamento, pequeno e acanhado, uma fila de carros se formou e começou o buzinaço. Um senhor agitava os braços freneticamente e pela leitura labial era possível entender um e outro palavrão pronunciado.

Mais tarde fui ao supermercado com minha mãe. Completamente lotado, com filas nos caixas e muita confusão - e assisti a uma discussão ríspida entre dois homens que aguardavam na fila com seus carrinhos abarrotados de compras. Não sei qual foi o problema, mas os gritos chamaram a atenção da segurança local. Só aí pararam com as ofensas.

Ao acessar a internet vi em uma dessas redes sociais uma mensagem muito bonita sobre o natal postada por uma pessoa em seu perfil, desejando feliz natal aos amigos. Algumas horas mais tarde qual não foi a minha surpresa ao ver uma mensagem rancorosa postada por essa mesma pessoa em seu perfil.

Hoje, na noite natalina, essas pessoas estarão com seus amigos e familiares confraternizando e desejando os votos de um feliz natal. Ao menos é o que espero.

Dizer "Feliz natal" é muito simples. São apenas palavras que qualquer um pode repetir por aí o tempo todo e para quem quiser - mera formalidade, algo bastante comum. É por isso que muita gente fala em "resgatar o verdadeiro sentido do natal" e até condenam a figura de Papai Noel - e não é algo novo: em 1951, na cidade francesa de Dijon, tentaram acabar com o Papai Noel. Um grupo de padres da cidade incendiou um boneco representando o bom velhinho por associá-lo ao consumismo e ao paganismo. Obviamente as autoridades eclesiásticas não foram bem sucedidas em sua missão e o Papai Noel reapareceu dias depois na prefeitura para a alegria das crianças e população local.


É verdade que o apelo do consumismo, o estresse, as provocações, os melindres, as convenções sociais, tudo isso desgasta qualquer pessoa. E com isso cometemos deslizes, nos irritamos. De repente compreendo a depressão natalina - a obrigação de estar feliz neste período, a inadequação ao momento e ao senso comum, a tristeza e a sensação de vazio ocasionada pela ausência de alguém querido ou mesmo a impossibilidade em "presentear".

Se para os cristãos o natal representa amor, paz, nascimento, reflexão, perdão e humildade, antes de desejar "feliz natal" aos parentes, amigos e colegas, é preciso primeiro desejar para si próprio um "feliz natal".

Como cristão que sou - embora não frequente igreja ou templo - desejo "feliz natal" para mim mesmo. Isso requer um exercício de autocrítica que talvez nem todos estejam dispostos a fazer, pois "mexe" com emoções e acontecimentos que não gostaríamos de lembrar.

Após ter feito isso estou mais à vontade para desejar a todos vocês, leitores e visitantes do Grooeland, um feliz Natal!

segunda-feira, dezembro 19, 2011

O cãozinho, a enfermeira e o mundo "perfeito" das redes sociais




O vídeo que flagra uma jovem agredindo de forma estúpida um cão da raça yorkshire causou comoção e revolta nas redes sociais. De fato trata-se de uma sessão de torturas ao pobre e indefeso animal que não resistiu à violência dos golpes desferidos pela mulher e morreu bastante debilitado.

As imagens espalharam rapidamente pelas redes com seus usuários clamando por justiça e para que denunciem outros atos de crueldade aos animais – todo este clamor, aliás, justo e necessário: recentemente 15 gatos foram mortos (suspeita-se de envenenamento) em um condomínio em Salvador e no interior de SP um cachorro teve a mandíbula quebrada após ser espancado pelo dono. È preciso punição da justiça para estes agressores.

Voltemos ao caso da enfermeira de 22 anos que agrediu até a morte o cão yorkshire. O que realmente chama a atenção é a descrição do perfil da jovem em seu twitter:



“Sou tranquila, casada, amo meu maridão, meu filho, meus cachorrinhos. Enfermeira por amor. Muuuuito feliz”. Diante de um perfil com tais características, quem poderia imaginar que esta jovem fosse capaz de praticar tal ato?

Zygmunt Bauman, citando Karl Marx, afirma que “a realidade deve ser vista como atividade sensória humana, prática, já que a vida social é essencialmente prática”. Nas redes sociais há construções de identidades das quais muitas vezes não correspondem à realidade ou às práticas de parte dos usuários. Logo, em perfis e fotos do twitter, Facebook e Orkut é muito comum encontrarmos pessoas que se definem como felizes, engajadas, livres de preconceitos, defensoras da ética e da moral e, claro, politicamente corretas.

Quando algum “amigo” dentro desta esfera virtual posta ou pratica algo que vá contra àquela identidade construída, é comum aparecer alguns contatos expressando sua “decepção”, afinal ocorreu uma quebra do encanto – e nem precisa ser algo gravíssimo como este espancamento do cãozinho: "para os jovens o principal atrativo do mundo virtual é a ausência de contradições e objetivos conflitantes que rondam a vida off-line”, novamente recorro a Bauman. Na vida "on-line" praticamente não existem imperfeições -  pelo contrário: a capacidade de reinventar a identidade on-line de acordo com as conveniências ou circunstâncias (por exemplo, aderir a uma causa porque está "na moda") é (também) um dos grandes atrativos que a internet oferece por meio destas redes. Claro que o ato de "construir uma imagem" não é novo e tampouco algo exclusivo das redes sociais, mas estas podem potencializar comportamentos narcisistas por parte de alguns usuários.

Não podemos esquecer que por trás daquele perfil “dos sonhos” exposto nas redes sociais existe um ser humano. Com suas qualidades, seus problemas e suas dualidades. Sim, as pessoas xingam, as pessoas se acotovelam em corredores lotados de shopping centres, às vezes aceleram seus carros acima da velocidade permitida fora do limite dos radares, as pessoas discutem, enfim, é a vida real. E há quem cometa crueldades contra os animais, mesmo que estampe no perfil “amo meus cachorrinhos”.

Em tempo: vários internautas – e não são poucos - estão desabafando sua revolta com xingamentos e ameaças à enfermeira agressora do cãozinho. Que o ato é revoltante e deixa a qualquer um indignado é verdade, mas é preciso tomar cuidado para não ultrapassar certos limites. O caso de um motorista de ônibus de 59 anos que teve um mal súbito ao volante, perdeu o controle do veículo e foi espancado até a morte por dezenas de pessoas revoltadas demonstra bem o que a ira descontrolada pode provocar. Evidente que não comparamos os atos, mas se enveredarmos pelo caminho da barbárie para combater outra barbárie, definitivamente é hora de “jogar a toalha”.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Indicações literárias I

Vocês já sabem como é: final de ano é tempo de listas e retrospectivas. Lista de presentes, lista pro Papai Noel, lista de amigo secreto, lista de confraternização, programas chatos de TV, a “retrospectiva 2011” e assim por diante.

Para desgosto e apreensão dos meus 5 ou 6 leitores – aumentou este ano, oba! - eu também farei uma lista e retrospectiva por aqui, mas de alguns livros que eu li ao longo deste ano. Não esperem resenhas elaboradas como os críticos literários fazem – eu tenho a maior inveja de quem consegue escrever poeticamente ou trechos como “o autor destila em sua obra gotas agridoces que reverberam em nosso interior fluindo a cada página magistralmente escrita” - e sim apenas algumas rápidas considerações de quem é apaixonado por literatura.

Histórias Apócrifas – Karel Capek
Pensem assim: o que teria acontecido se Romeu e Julieta realmente casassem e vivessem “felizes para sempre”? E que tal o desabafo de um padeiro de Jerusalém sobre um “certo nazareno” que multiplica pães e os distribui gratuitamente para as pessoas? E Don Juan no leito de morte fazendo uma confissão? E tudo isso e muito mais com um senso de humor agudo e inteligente? Senhoras e senhores, este é o fantástico escritor tcheco Karel Capek. É um livro sensacional que indico entusiasticamente.

A Fábrica de Robôs – Karel Capek
Capek é muito pouco conhecido no Brasil. Quando se fala em literatura tcheca lembramos imediatamente de seu representante mais famoso: Franz Kafka. E de Milan Kundera, principalmente por “A Insustentável Leveza do Ser”. Mas lembre-se de Capek ( ou Tchápek) ao deparar com a palavra “robô”: foi o responsável por universalizar este termo – que tem raízes etimológicas no eslavo e no tcheco, no sentido de “escravo” e “trabalho forçado”. O que Capek traz nesta obra, escrita em 1920, é um alerta sobre os avanços indiscriminados da ciência e da tecnologia, quando robôs assumem as atividades humanas. Capek também escreveu “A Guerra das Salamandras” e este já está aqui na minha prateleira para a leitura em 2012 – se o mundo não acabar, é claro.

Cartas na Rua – Charles Bukowski
A editora L&PM detém os direitos para a publicação da obra do velho safado aqui no Brasil. E fez um belo trabalho este ano: “Pedaços de um caderno manchado de vinho” ( que traz o primeiro conto de Bukowski publicado), “Mulheres” e este “Cartas na Rua”. E recomendo este livro para quem deseja iniciar no universo do escritor porque está tudo ali: as mulheres, as bebedeiras, os pretensiosos, os empregos imbecis – Bukowski trabalhou 11 anos nos Correios de Los Angeles e em mais uma série de empregos e subempregos antes de viver apenas da literatura, coisa que só foi acontecer muito mais tarde – e, claro, a literatura. Os marinheiros de primeira viagem podem assustar com o estilo desbocado, obsceno e confessional do autor, mas identifiquem o senso de humor e as críticas ao “american way of life” de um jeito que só Bukowski sabe fazer.

A arte de viajar – Alain de Botton
Eis um livro que engana em sua introdução, um tanto enfadonha. O primeiro impulso é conferir o número de páginas: 272 nesta lenga-lenga descrevendo um plano de viagem, impressões sobre um hotel no Caribe e aeroporto? Não é muito estimulante. No entanto, superadas as primeiras páginas, chegamos à página 272 com aquele gostinho de “quero mais”. Alain de Botton é filósofo suíço e traz nesta obra considerações sobre o ato de viajar – não as viagens dos pacotes, guias e turistas apressados em “curtir” brevemente 6 países da Europa e tirar fotos e mais fotos, mas como as viagens podem e devem ser apreciadas fora de roteiros pré-estabelecidos, além de serem inspiradoras. E o autor tece suas considerações em companhia de gente ilustre: Baudelaire, Van Gogh, Flaubert, Ruskin, dentre outros grandes artistas. Uma agradável e deliciosa surpresa a leitura deste livro. Boa viagem!

A vida humana – André Comte-Sponville
Do filósofo francês eu poderia indicar o extraordinário “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” e o incrível “Bom dia, Angústia”, mas indico este pequeno “A Vida Humana” porque é um livro que trata com muita sensibilidade e inteligência fases da vida humana ( infância, adolescência, trabalho, morte, etc). Tal como “A arte de viajar”, também este livro inicia de forma enfadonha – e o próprio Sponville pede desculpas ao leitor por iniciar com as “abstrações”. Um belíssimo livro que mesmo em momentos mais duros – nunca tire conclusões de uma frase deste filósofo materialista: aguarde até ele concluir todo o raciocínio – traz uma mensagem inteligente e mesmo confortadora.

As crônicas marcianas – Ray Bradbury
O livro mais conhecido do autor norte-americano é “Fahrenheit 451”, que é realmente muito bom e recomendo também este livro que narra o drama do "bombeiro" Montag. Já “As Crônicas Marcianas” constitui-se em pequenos contos ou crônicas sobre a tentativa do homem em colonizar o planeta Marte. Escrito em 1951, alguns criticam Bradbury por ter sido “mau profeta” – no livro a 1ª expedição tripulada para o planeta vermelho acontece em 1999 – mas o que importa aqui não é o exercício de futurologia, e sim a literatura, a ficção: como o ser humano lidaria com um planeta novinho em folha, prontinho para explorar? Prestem atenção ao personagem chamado Spencer, mas não torçam (muito) por ele...

O Melhor de Stanislaw Ponte Preta
É sempre muito bom ler e reler o velho Stanislaw, pseudônimo do jornalista e escritor carioca Sérgio Porto. O criador de personagens tão hilários quanto sagazes do naipe de Tia Zulmira e Primo Altamirando brinda os seus leitores nesta coletânea com um humor leve, criativo e inteligente. Foi também o inventor do termo “FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola o País”. Em plena ditadura o velho Stanislaw usava o humor para demonstrar as peripécias políticas no Brasil – se estivesse vivo hoje o escritor teria farto material para continuar o FEBEAPÁ.

Eles eram muitos cavalos – Luiz Ruffato
Meu, esse livro é São Paulo em seu estado mais bruto e bagunçado, tá ligado, mano? É tudo misturado em uma única trama: nordestino, mineiros, paulistanos, judeus, chamadas publicitárias, prosa, poesia, conto, classificados de jornais, passagens bíblicas, cartas, enfim, uma zona, tá ligado? Lembra até o clássico “Zero”, de Ignácio Loyola Brandão em determinados momentos. Trata-se de um livro que é igualzinho São Paulo: caótica, plural e surpreendente.


Estes foram alguns livros no ano de 2011 que indico a leitura. Em breve espero trazer a segunda parte desta lista e com um bônus não muito agradável: os livros que não agradaram. Como diria um famoso literato, “faz parte”.

sábado, dezembro 10, 2011

O gaúcho e o baiano


(clique na imagem para visualizar melhor - se tiver coragem, claro)

Sebastião é gaúcho do distrito de Coxilha do Bugre; Jó do Ghetto é baiano do Pau Miúdo – calma, minha senhora, isso é o nome de um bairro em Salvador. Apesar da distância de pouco mais de 3 mil quilômetros separar os primos (sim, eles são parentes!) a internet os mantém em contato. Mas a boa e velha conversa ao telefone entre parentes e amigos ainda tem espaço - sobretudo quando se trata de um convite.

- E aí tchê bagual? Quanto tempo criatura! Como tu estás? Aqui nestes pagos do sul tá um frio de renguear cusco!

- Digaí, negão, colé de mêrmo? Aqui é niuma, miserê, tudo tranquilo, pois a Bahia é linda, Salvadô é linda! E aê, meu véi, tu sumiu!

- Vivente! Tu não podes esperar mensagem minha no tal de emeéssene, é esse o nome do bicho? E o fassebuc, não sei mexer nessa coisa, sou muito guasca, lembra? Só no tal de emeilll, porque a patroa me explicou.

- Tô ligado! Rapaz, tô aqui retado, virado na zorra com o trabalho, é falta de tempo mesmo, mas cê tá ligado que cê é minha corrente, né, véi?

- Tu és meu primo, sangue do meu sangue, filho do meu tio mais amado, o Floriano, que Deus o tenha! Por isso, te faço convite primo macanudo.

- Diga lá, vá!

- Aqui cerquita da Coxilha do Bugre tem a filha do fazendeiro Borges, dono de umas terras que vão até o Chuí! Prenda flor de linda, flor de formosura. Morocha! Os cabelos são mais negros que a asa da graúna.Tá solterita no más, e quer compromisso sério, pensei em ti piazito.

- Massa, véi! Até tô querendo, mas...

- Bah, tchê! Já estás com uma prenda nesse rincão aí?

- Oxe, eu até andei quexando umas nêga uns tempos, mas eu me saí logo. Olhe, faça assim que não tem errada: manda o msn e o face da piriguéti que a gente troca uma ideia.

- Já te falei que não sei mexer nesses troço aí, emeéssene, fassebuc, ou fassebóc? E não posso charlar com a prenda solterita que a Maria, minha patroa, me esgana!

- Oxe! E aí, faz o que?

- Mas tchê, não te deste conta bagual? É para tu vires aqui no sul passar uns dias no sítio. Garanto churrasco gordo, chimarrão e te levo lá na fazenda do Borges, meu companheiro de charla, aí conheces a filha do homem, a prenda flor de formosura.

- Oxe, lá ele! Colé, meu bróder, acha que vou aí comer um frio da miséria como esse? Aoooonde?!

- Estás me estranhando homem? Aqui prendemos a lareira o dia todo. E a morocha não pode esperar. Bom partido, logo arranja um gaúcho e tu perdes a oportunidade primo, agora que já fiz teu cartaz.

- Foi mal, primo, foi mal... cê é corrente, cê é meu bróder. Olhe, eu agradeço, cê sabe que não sou de fuleragem, mas não posso sair agora, não, véi, senão me jogava mermo: primeiro que tô lenhado, não dá pra viajar; e também minha agenda tá é cheia,maluco!

- Estás fino primo. Tens até agenda? Os emeneéssecoisa também... Estás dando uma de magrinho da capital? Aqui nessas coxilhas o tempo passa devagarzito, ainda tiramos leite da vaca. Te aremanga e vem!

- Oxe, primo, nem pensar: agora em Dezembro tem a festa de Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição e depois vem Natal e Reveillon, vai ser massa! Em Janeiro tem a festa da Boa Viagem, aí depois tem festa na Lapinha, festa da Ribeira, festa de São Lázaro, festa de Iemanjá, Lavagem do Bonfim, lavagem de Itapuã...

- Bah, quanta lavagem, tchê! Salvador tem que ser um rincão muito limpo.

- Cole bróder, sossegue, terminei não: e ainda tem ensaios dos blocos e bandas, Festival de Verão e Carnaval! Bróder, é muita coisa, aqui o verão é animado, é tempo pra cumê água e sair atrás do trio de Ivete, Bel, Jau, Léo, Tom, Gil, Caê, Gal, Line, Val! A Bahia é linda, Salvadô é linda! Eu é que tenho que te chamá pro reggae, negão! Bora? Se pique logo, misera, aí cê traz a menina!

- Tchê, não posso, eu tenho que cuidar do gado e da patroa. Os gaúchos têm o Natal e a festa do fim de ano, mas a Maria tem uma tal de festa do amigo secreto. Mas tchê, tu sabes quem é esse tal de amigo secreto? Será que a patroa tá querendo que eu vista chapéu de vaca?

- Olhe, bróder, festa de amigo secreto é uma brincadeira onde se presenteia um amigo sorteado na hora, tá ligado? Agora veja aí que o problema não é a brincadeira, é o amigo secreto de Maria - se for Ricardão, oxe, fique esperto que o bicho é miseravão!

***

Este texto foi o resultado da parceria com a Ana Cecília Romeu, do blog HumorEmConto – http://anaceciliaromeu.blogspot.com. Recomendo bastante a visita ao blog desta gaúcha tri legal que conta as engraçadas e misteriosas histórias de um condomínio com uma turminha que apronta mil e umas – ok, parece chamada da Sessão da Tarde, mas o blog é bom e o melhor: as histórias são inéditas. Muito grato a Cissa pela parceria!


sexta-feira, novembro 25, 2011

Preconceito social e apartação

Certas notícias chamam a atenção por aparentemente serem absurdas, mas estas apenas refletem uma realidade muito presente na sociedade brasileira e que muitos preferem não admitir: o preconceito social.

Nos últimos anos algumas medidas econômicas e sociais possibilitaram a milhares de brasileiros oportunidades de consumo e estudo. No entanto muitos representantes da “velha classe média” sentem-se incomodados com isso: 48% acham que os serviços e as filas pioraram por conta do acesso à “nova classe média” - no caso a chamada “classe C”. E mais: 16,5% acham que “pessoas mal vestidas” deveriam ser barradas em “certos lugares”.

Estes dados foram divulgados através de uma pesquisa que coletou opiniões de mais de 18 mil pessoas pela internet. Que sejam contestados tais números e a metodologia de pesquisa é natural, ainda mais quando feita pela internet, mas o preconceito social existe, não é pouco e pode ser constatado facilmente no dia a dia.

Ser professor da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em um bairro periférico em Salvador é sempre um desafio. São homens e mulheres trabalhadores que deixaram de estudar há tempos por vários motivos – geralmente para ajudarem a família no sustento do lar - e que tentam retomar os estudos. São pessoas que estão em busca do tempo perdido, de maior qualificação e ainda fazem grandes esforços para continuarem na escola. Não é fácil trabalhar o dia todo em condições precárias na construção civil, por exemplo, e arrumar disposição para estudar à noite. E ouço alguns relatos revoltantes como este a seguir.

Uma aluna de 51 anos de idade – irei chamá-la de “Maria” – falta bastante às minhas aulas, no turno da noite. Perdeu algumas avaliações e veio conversar comigo. “Professor, não vou pedir para fazer as provas e atividades que perdi, vim apenas justificar o porquê de tantas faltas”. O motivo, como acontece na maioria dos casos da evasão escolar no período noturno, é o horário de trabalho, além do deslocamento em uma cidade com o trânsito cada vez mais caótico. É uma “pedra no sapato” da EJA e que as escolas muitas vezes não conseguem resolver.

“Eu trabalho em casa de família, lá na Graça”. Este bairro, da Graça, em Salvador, é a chamada “área nobre” da cidade, reduto de classe média-alta e classe alta. “Sou cuidadora de idoso, olho uma velhinha de 90 anos, mãe da minha patroa. Só que a patroa não tem hora pra chegar, então tenho que ficar por lá até a hora em que ela resolve aparecer. Pode ser 5 horas, mas pode ser 8, 9 horas da noite”.

Questionei se a Maria trabalhava com carteira assinada e se ela fazia também o trabalho doméstico. Além de não ter carteira assinada, não ficou acordado nem mesmo verbalmente que ela faria outra função além de cuidar da idosa. “A patroa é rica, professor. Mora na Graça, né? Tem outra empregada lá pra fazer o serviço de casa”.

Enxerido, perguntei para a Maria se a patroa sabia que ela estudava à noite e se não era possível encontrar alguma solução para observar a questão do horário. A resposta foi de estremecer:

“Ela nem faz caso, professor. Sabe o que ela diz? ‘Maria, na sua idade, você quer estudar pra quê?’; teve uma vez que a velhinha estava dormindo e como eu já tinha arrumado toda a roupa peguei o caderno pra tentar fazer o dever de Português. A patroa viu e disse: ‘Larga isso, Maria, que bobagem, uma mulher na sua idade ainda quer perder tempo com essas coisas, tá vendo que você não aprende mais nada? Por que você não ajuda Fulana* a passar a roupa?’. É assim que ela faz, professor”.

O pior de tudo é que a Maria revelou que a tal patroa é psicóloga. Para tentar aliviar o desconforto, recorri a uma gracinha: “Puxa, depois você me diz onde é o consultório desta mulher, pois quero passar bem longe: aposto como ela deprime os pacientes”. Ela deu um sorriso acompanhando de um “pois é” e continuou: “Eu não tenho ideia de fazer faculdade e virar doutora não, professor, mas eu quero continuar estudando porque quero desenvolver, às vezes leio umas coisas lá nas revistas, vejo umas notícias e não entendo. Quero entender, desenvolver!”, concluiu.

Este é um dos medos desta elite: que a Maria, o João, o Severino, o Pedro e tantos outros “desenvolvam”, consigam entender as coisas com maior clareza – e os métodos para impedir são os mesmos de sempre: humilhação, o velho tratamento “com quem você pensa que tá falando?”, descaso com a educação, manutenção de privilégios; um apartheid social, como faz referência o economista e hoje senador Cristovam Buarque no livro O que é apartação: “É a força dos ricos para impedir a distribuição de seus privilégios, ao mesmo tempo em que tentam manter a farsa de que são solidários e defendem a igualdade entre os homens”. Não poderia haver melhor definição para o que ocorre nesta jovem, tortuosa e desigual democracia.

terça-feira, novembro 15, 2011

Sejamos delicados

Apesar de ter sido há pouquíssimo tempo porque sou extremamente jovem, relembro com detalhes aquela briga que eu tive com o moleque lá da rua de cima: ele foi desleal na jogada em que disputávamos a bola e resultou em gol para o time deles. Perder para aqueles maricas não estava em nossos planos, então pedimos a falta. Que foi negada pelo “juiz”. E aí começa a discussão, porque isso não é apenas uma pelada de futebol: é final de campeonato no terreno baldio o qual transformávamos em Maracanã!

Ofensas aqui e ali e pronto: começou a briga. Os moleques fizeram a rodinha e lá estávamos, eu e o maricas da rua de cima, dando socos na barriga, nas costas, pegando pelos cabelos, chutando o que aparecia pela frente, rolando pelo chão e a molecada vibrando, com “sangue nozóio”! Prefiro não comentar quem ganhou a briga ( e o jogo), mas que o moleque era um maricas e eles roubaram, ah, isso eu digo!

Por que estou lembrando coisas de uma infância em que ainda havia terrenos baldios para as crianças jogarem bola e as brigas duravam somente até a próxima pelada no dia seguinte? Porque parece que a briga de rua foi profissionalizada, glamourizada e ganhou, além de regras, até sigla, vejam só: MMA – Mixed Martial Arts, ou “Artes Marciais Mistas”. E se o Neymar não incorporar o espírito do Garrincha-1962 e do Romário-1994 para ganhar sozinho a Copa do Mundo em 2014 para a seleção brasileira, o MMA vai ser o esporte mais popular do Brasil. Brasil, a pátria do MMA! Brasil, a pátria da porrada! Ou UFC, a entidade que organiza e promove as lutas.

Eu sei que estou sujeito a ser chamado de “maricas” ou outros termos nada lisonjeiros (macho que é macho não fala “lisonjeiro”, pô!) ao publicar um texto que traga algum questionamento sobre esse “esporte de macho, porra!”, mas paciência – quem está nas letras é para ser lido ou queimado, Montag! E sim, eu sei que o MMA evidentemente possui regras como proibido cabeçada, dedo nos olhos, mordida, puxar o cabelo, dar chute no saco e que os lutadores passam por baterias de exames e intensa preparação e por isso mesmo não é briga de rua, guardem os xingamentos ( macho que é macho xinga, cospe no chão e coça o saco) para os ringues.

No entanto, nestes tempos tão ásperos em que há programas de TV exibindo cadáveres ensanguentados na hora do almoço e da janta com apresentadores eufóricos anunciando mortes; tempos em que as pessoas parecem querer resolver tudo “na porrada”, pisões no pé sem querer e fins de namoro que podem levar a agressões e homicídios, eu lembro de uma crônica do professor e poeta Affonso Romano de Sant´Anna, da qual vou citar alguns trechinhos:

Sei que as pessoas estão pulando na jugular umas das outras.

Sei que viver está cada vez mais dificultoso. (...)

Por isto, é necessário reverter poeticamente a situação e com Vinicius de Moraes ou Rubem Braga dizer em tom de elegia ipanemense:

Meus amigos, meus irmãos, sejamos delicados, urgentemente delicados.

Com a delicadeza de São Francisco, se pudermos.

Com a delicadeza rija de Gandhi, se quisermos. (...)

A delicadeza não é só uma categoria ética. Alguém deveria lançar um manifesto apregoando que a delicadeza é uma categoria estética. (...)

Vivemos numa época em que nos filmes americanos os amantes se amam violentamente, e em vez de sussurrarem “I love you” arremetem um virótico “Fuck you”. (...)

Sei que vão dizer: a burocracia, o trânsito, os salários, a polícia, as injustiças, a corrupção e o governo não nos deixam ser delicados.

- E eu não sei?

Mas de novo vos digo: sejamos delicados. E, se necessário for, cruelmente delicados.

Ao invés de apresentadores de TV ensandecidos por crimes, Minotauros, Minotouros, Ciganos e outros “Gladiadores do século XXI”, (macho que é macho tem alguma coisa de “Pitbull” na camiseta, bermuda ou tatuagem e grita “Espaaaaaarta!”, pô!) estou com o poeta: sejamos delicados. E pode nos chamar de maricas, se você for macho o suficiente pra isso!

quarta-feira, novembro 09, 2011

Talento e humildade (notas da Bienal do Livro da Bahia)

A 10ª Bienal do Livro da Bahia encerrou no último domingo ( 06/11) registrando público de 270 mil pessoas nos 10 dias de programação, considerado por muitos como o “maior evento literário do estado”, ao menos em tamanho e público.

Apesar de ser um evento “estritamente e puramente comercial”, nas palavras de um escritor que participava da Bienal - e é preciso renovar e repensar este modelo já repetitivo dos anos anteriores, abrindo espaço para novos autores e descartando estandes absolutamente desnecessários - considero que eventos literários sempre são muito bem-vindos em um país que não possui tradição em formar leitores, apesar de grandes autores que tivemos e temos ao longo de nossa história. E toda a forma de incentivo é válida: o programa de visitação escolar levou à Bienal 56 mil alunos de escolas públicas da rede estadual e estes receberam “vales-livros” no valor de R$ 30 – para os professores o vale-livro foi de R$ 100. (e encontrei verdadeiras pérolas: Campos de Carvalho a R$ 5,00 e Kurt Vonnegut a R$ 9,90. Nada como "fuçar" pelas prateleiras mais baixas nos estandes!)

O mais interessante em uma bienal ou feira literária é aproximar leitores e escritores, sejam estes renomados ou não. Em um bate-papo informal é bacana conhecer o método de trabalho, o material utilizado, os desafios e dificuldades para publicar um livro – isso se o autor não é “celebridade”, digamos. Aliás, dos chamados “escritores-celebridades” é difícil até chegar perto, tamanho o assédio. Mesmo assim acredito que vários escritores gostam de conhecer e conversar pessoalmente com alguns de seus leitores.

Se por um lado encontrei escritores simpáticos e receptivos, como os cordelistas – e aqui vai uma longa digressão, perdoem: a Bienal está de parabéns por abrir espaço para a Literatura de Cordel, tradicionalíssima aqui no Nordeste e não raramente considerada “literatura de baixa qualidade e simplista”, o que é uma tremenda injustiça e falta de (re)conhecimento. “Faroeste Caboclo”, da banda Legião Urbana, bebeu na fonte da Literatura de Cordel. Lembro-me das palavras provocativas de um professor de literatura nos tempos da faculdade: “Faroeste Caboclo? Tem cordel muito melhor por aí! Procurem!”. Ok, fim, voltemos à ideia central do texto. – encontrei também muita gente pretensiosa, como sempre acontece em qualquer setor ligado às artes. Aqui concordo plenamente com o velho safado, Charles Bukowski, que disse: “me canso fácil dos preciosos intelectuais que precisam cuspir diamantes toda vez que abrem as suas bocas”.

E ainda mais nestes tempos em que informação é compartilhada. Lembro, certa vez, de ter perguntado a um cartunista como ele fez um determinado traço em seu desenho. A resposta foi um seco “procura tutorial na internet”. Bem, não deixa de ser um conceito de rede. Para outro perguntei que tipo de material era utilizado para suas charges. Tive como resposta um irônico “material para desenho”. Não cabe dizer aqui o nome destas pessoas que tomarão em breve o lugar de Robert Crumb e Sérgio Aragonès, mas dá vontade de falar “calma, Will Weisner, não vou roubar suas ideias, quero apenas saber qual caneta você usa”.

E é justamente por coisas assim que é um prazer encontrar um talentoso desenhista e com um excelente trabalho estabelecido como o Antonio Cedraz, criador da “Turma do Xaxado”. Muito simpático, receptivo,conversa com os seus leitores e fãs naturalmente, não tem ataques de estrelismo ou frescurites. Antes de autografar o livro “Tiras do Xaxado volume 4” que adquiri, peguei emprestada a caneta – um marcador de CD – e fiz um pequeno rabisco na contra-capa: era eu pedindo um autógrafo para a personagem João Pequeno.Ele perguntou se eu desenhava e assim conversamos um pouco. As palavras dele: “Sonho não é pra ficar guardado não, rapaz...vai desenhando, escrevendo, divulgando por aí. O caminho é esse”. É um grande artista e sobretudo uma grande pessoa!

Acredito que o talento caminha muito próxima à humildade. Não a humildade “coitadinha”, como muitos relacionam, mas a humildade de quem procura sempre melhorar, saber ouvir críticas e elogios, trocar informações e na busca pela simplicidade que pode, claro, tornar-se algo grandioso. “Ah, fulano de tal é pra lá de arrogante, mas é um gênio!”. Que seja, mas ele também começou de algum lugar – e é sempre bom lembrarmos de onde começamos para não corrermos o risco de afogar nas profundezas do ego.

quarta-feira, novembro 02, 2011

Um agradecimento aos meus leitores

A partir do momento em que foi anunciado o câncer na laringe do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, tenho acompanhado algumas opiniões em portais, redes sociais e blogs. É assustador: o UOL foi obrigado a desabilitar os comentários e muitas mensagens que eu li pela rede traziam uma absurda carga de ódio e negativismo quanto à saúde e até mesmo à vida do ex-presidente.

Em parte não dá para entender tamanho ódio em tantas mensagens que acompanhei pela internet. Prefiro não discorrer sobre algumas teses que eu tenho sobre isso, pois provocaria uma polêmica da qual não pretendo alimentar. E principalmente porque o debate político no Brasil chega às raias da infantilidade com um maniqueísmo do tipo “nós somos bonzinhos e eles malvadinhos” – o que atrapalha qualquer tentativa de debate mais sério. As divergências políticas e ideológicas sempre existirão, contudo temos ainda muito a amadurecer nesta jovem e já problemática democracia.

Enquanto acompanhava essas leituras pensava em meu humilde blog. Comparando com alguns daqueles blogs famosos ou não tão famosos assim mas que contam com boa divulgação, impossível deixar de relacionar a quantidade de comentários e os possíveis page views daqueles com este pobre Grooeland.

Segundo o Google Statistics, este blog teve 13 mil page views no mês passado, o que é um número interessante para um blog que não é famoso e nem é tão divulgado assim. Há blogs que chegam a 15 mil page views por dia e nem pertencem às chamadas “celebridades” ou “sub-celebridades”. Por aqui são mais de 300 visitantes por dia que chegam até o Grooeland seja via Google, redes sociais, via blogs de amigos.

Não tenho pretensões maiores com este blog. É um hobby, uma coisa que eu gosto de fazer e faço questão de manter atualizado, após passar por um longo período sem postagens. Fico muito orgulhoso em saber que alguns textos e charges publicados aqui foram usados por professores em suas aulas e até mesmo em revistas. É um hobby, claro, mas também é uma grande responsabilidade, afinal são 232 followers – ou “seguidores”, em uma tradução mais literal – que acompanham as postagens deste blog.

E é para estes leitores que eu escrevo e que fazem toda a diferença por aqui. Em um destes blogs que possuem seus 15 mil, 30 mil acessos diários, o formulário de comentários está sempre “bombando”, com 200, 300 opiniões, até mais do que isso; porém ao analisar o teor daqueles comentários – não apenas neste caso específico do ex-presidente, mas também outros assuntos – poucos são aproveitáveis. Os meus comentaristas, ao contrário, são poucos, mas inteligentes. Eu prefiro estes 10, 12 comentários a 500 comentários vazios ou pretensiosos.

O que eu gostaria mesmo é ter mais tempo e organizá-lo de forma que eu pudesse visitar com mais frequência todos os blogs que eu gosto. Sempre dou um jeitinho, alguns intervalinhos aqui e ali, mas sei que fico em falta algumas vezes. Portanto essa postagem é uma forma de dizer “muito obrigado” a todos vocês, queridos leitores e comentaristas aqui do Grooeland, por contribuírem significativamente com opiniões inteligentes e sensatas para a manutenção agradável e prazerosa deste espaço. Gracias, thank you, obrigado! J

sexta-feira, outubro 28, 2011

Pombo correio

- Mas isso é chato, é música do tempo da minha vó!

Desta vez Miro não se conteve e reclamou com o professor de violão. Há 3 meses tomando aulas, já conhecia algumas notas e ritmos através de músicas das quais ele sequer sabia a existência até então. Da óbvia “Parabéns a você”, passando por “O cravo e a rosa”, o repertório incluía músicas do Roberto Carlos e até Geraldo Vandré, com o hino “Caminhando e cantando”.

O professor - sujeito boa praça de meia idade - explicava com paciência que o aprendizado era lento e era preciso conhecer outros ritmos musicais além do rock que o rapaz tanto apreciava. Na verdade a intenção do jovem era justamente aprender a tocar umas notas e uns acordes para montar uma banda. Não podia ser difícil: os Ramones faziam música com três notas em canções que duravam 2 minutos.

- Ao tocar tais ritmos você entra em contato não apenas com novos arranjos musicais, mas também forma um repertório legal para tocar numa rodinha de violão com os amigos. - explicou mais uma vez o professor.

- Rodinha com a galera? Tocando essas músicas? Ah, qualé, nem pensar. Por exemplo, essa música de hoje... é isso mesmo? Pombo Correio...

- .. voa depressa / e essa carta leva pro meu amor... é uma canção legal, tem um ritmo bacana e as garotas gostam, sabia?

- Só se forem as garotas do seu tempo. Desculpa, mas isso não é música pra tocar com a galera. Até hoje nunca contestei as músicas estudadas, apesar de não gostar delas. Mas hoje me vê uma música mais moderna, sei lá...já que você não quer ensinar um rock de verdade, passa aí uma coisa mais leve, tipo Legião, Engenheiros do Hawaii...

O professor achou melhor ceder, embora a contragosto. Sabia que a banda Engenheiros do Hawaii regravou um sucesso dos anos 60, a música “Era um Garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones”, em uma versão que o professor apreciava. Como eram poucas notas e o ritmo bem simples, resolveu ensiná-la para o aluno. E durante 1 hora de aula naquela tarde o que mais se ouvia na sala era o tata-ratata tata-ratata, tara-ratata tata-ratata...

O rapaz, claro, ficou empolgadíssimo por dois motivos: primeiro porque variou o repertório para uma música mais moderna, com uma pegada pop, e não aquelas velharias das quais o professor sempre passava; além disso, no fim de semana a turma estaria na pracinha e inclusive Ritinha, a moça pela qual ele estava apaixonadíssimo, mas ela nem dava bola. Quem sabe com uma música ao violão a garota finalmente não o notaria?

Miro treinou bastante não apenas o tata-ratata, mas também algumas músicas que traziam as cifras em revistinhas: Legião Urbana “porque todo mundo gosta de cantar ‘Pais e Filhos’”, pensou o rapaz; e, claro, Raul Seixas, “porque sempre tem alguém pra berrar ‘toca Rauuuul!’”. Até pensou em tocar uma música do Djavan “porque a mulherada gosta”, mas além de ter cifras complicadinhas, não entendia nada do o sujeito cantava.

Decorou tão bem as músicas que no final de semana, na pracinha, fez algum sucesso entre os amigos com o violão – principalmente na hora do tata-ratata tata-ratata; fez bem em decorar “Cowboy fora da lei”, afinal alguém pediu para tocar Raul, é claro. No entanto toda a empolgação e as músicas decoradas não chamaram a atenção de Ritinha, que só animou um pouco com “Pais e filhos”. Quando ficaram um tempinho a sós, ele tomou uma dose de coragem e perguntou:

- Não gostou das músicas?

- Não são bem os estilos que eu gosto – respondeu a garota, um tanto indiferente.

- E de que estilo você gosta? – insistiu o rapaz.

- Gosto de músicas mais calmas, antigas...

Miro lembrou-se das aulas de violão e do pequeno repertório de velharias que o professor passava. Quem sabe alguma das músicas que ele havia aprendido não fazia parte do gosto da bela garota?

- Me diz uma música que você gosta, então. Talvez eu saiba tocar...

Apenas neste momento a garota olhou para o rapaz com mais atenção e perguntou:

- Jura? Conhece uma música chamada “Pombo Correio”? Adoro essa música! Meus pais vivem cantando lá em casa, eles se conheceram no carnaval enquanto tocava essa música, acho tão fofo!

No dia seguinte, de manhã bem cedinho, Miro já estava na porta da casa do professor implorando por aula extra e um horário especial. E que ele prometia jamais contestar novamente o repertório que o professor passava – mas exigia aprender “Pombo Correio” imediatamente!


Salvador, 03 de Setembro de 2011 - um exercício literário despretensioso

sexta-feira, outubro 21, 2011

No Boteco da Piedade

O “Boteco da Piedade” foi assim batizado não por algum motivo religioso ou por referência a um bairro. O nome é homenagem à dona Piedade, que fazia uns salgados deliciosos para vender no boteco de “seu” Amaro, o marido e dono do bar.

Infelizmente dona Piedade é falecida e os salgados que faziam tanto sucesso como tira-gosto não existem mais; no entanto “seu” Amaro continua com o bar e sempre às voltas com os fiéis clientes – e um destes é o “seu” Belarmino, mais conhecido como "Sabiá" por causa dos passarinhos que possui em casa.

- Hoje minha pressão subiu, Amaro!

- Lógico, Sabiá: hoje saiu o pagamento dos aposentados...

- Mas não foi por isso, não. Me envolvi numa confusão, rapaz, que até passei mal!

- Como foi?

- Bom, como é dia de pagamento, fui ao banco. Que você sabe, tá em greve, né?

- É, tô acompanhando. O pessoal tendo que pagar as contas nas lotéricas, é cada fila!

- E aproveitam e fazem a fezinha. Então eu fui ao banco pra usar o caixa eletrônico, pois ao menos essas máquinas não fazem greve. Eu acho que deveriam substituir tudo por máquinas em todos os lugares, até no comércio! Assim não teria mais greve que só serve pra atrapalhar a vida dos outros.

- Substituir até eu, Sabiá? Que consideração, hein? Trocar o amigo aqui por uma máquina que vai servir bebida? Ô, Sabiá!

- Eu faço uma exceção aos donos de boteco, pois vocês não fazem greve, ainda bem! Mas em outros lugares eu sou favorável! Vou mandar a ideia para a presidente!

- Larga de bobagem, Sabiá! Essas máquinas falham o tempo todo, a gente sempre se depara com uma moça dizendo “tá fora de sistema”.

- Bobagem pra você, que fica aí atrás do balcão o dia todo e não olha pro futuro! Imagina a economia para as empresas livrarem-se de custos como FGTS, seguro-desemprego, vale-transporte... o único custo seria mesmo com baterias e um óleo aqui e ali vez em quando!

- Ô, Sabiá, deixa de lero-lero e canta o que aconteceu.

- Pois você imagine: cheguei ao banco e dei de cara com os grevistas que não deixavam ninguém entrar na agência, nem mesmo pra utilizar o caixa eletrônico!

- Mas eles podem fazer isso?

- É claro que não, pô! Tá na Constituição que todo mundo é livre pra ir onde bem entende! E eu sou aposentado que precisa comprar remédio, como é que faço isso sem dinheiro?

- E aí?

- E aí que eu expliquei tudo isso pra eles, primeiro com educação, mas depois tive que partir pra ignorância e dei uns gritos lá que inflamaram o povo. E aí começaram a pressionar, forçaram a entrada e aí chamaram a polícia e aí...

- Peraí, peraí...teve polícia?

- Teve, pô! Quase saiu o maior quebra-pau! Aí ficou aquela discussão entre policial, grevista e uma negona entrou no meio da confusão...rapaz, complicou tudo: o policial perguntou “quem começou?” e aí a negona e mais uns dois apontaram pra mim. Queriam me levar pra delegacia, teve lá uns grevistas que disseram que eu era da chapa da oposição e que eu só queria tumultuar...

- Ô lôco, Sabiá, você foi pra delegacia?

- Claro que não, sou cidadão brasileiro! Apenas estava reivindicando meus direitos! É isso o que o povo precisa fazer, tem que gritar mesmo, lutar pelos direitos do cidadão! Depois desse bafafá todo, liberaram a entrada na agência pro povo usar os caixas eletrônicos!

- Vote Sabiá, o revolucionário!

- Pô, meu velho, a gente precisa é de ação! Não é por nada, mas se eu fosse político eu ia mudar umas coisas aí! Ia acabar com esse monte de imposto, tá tudo muito caro e depois dizem que a inflação tá controlada e sei lá o quê! E esses bancos ganham dinheiro pra valer às nossas custas, pô! Tá errado isso aí!

Um tanto distante do balcão porém ouvidos atentos à conversa, lá estava o Alfredinho – outro frequentador assíduo do boteco – com suas características marcantes: a velha camisa da A.A Guapira - o Leão da Zona Norte! - e sua inseparável jurubeba.

- Aê, Sabiá! Dá um jeito pra baixá o preço dessa jurubeba que eu voto em você! Dois conto por uma dose de jurubeba é pra lascar a vida do peão!


Nuuk, Groelândia, 16 de Outubro de 2011. Temperatura: - 1º C (tempo bom)

sábado, outubro 15, 2011

Demagogias na educação


É bastante curioso constatar que a Educação figura sempre no topo das prioridades em discussões quando relacionadas ao “desenvolvimento do país”. Pena que fique apenas nos discursos – sobretudo no já famoso “Educação é fundamental” -, na politicagem partidária e em algumas propostas demagógicas.

Recentemente a presidente Dilma Rousseff afirmou ser favorável à educação em período integral nas escolas públicas. No novo Plano Nacional de Educação uma das metas é chegar até 2020 com 50% das escolas públicas de ensino básico oferecendo Educação em tempo integral; já o Ministro da Educação, Fernando Haddad, sugere o aumento de dias letivos nas escolas – de 200 para 220 dias, além de aumentar também a carga horária dos estudantes.

Educação nunca é demais. E educação em período integral é algo defendido, estimulado e experimentado há muito tempo – basta lembrarmos de Anísio Teixeira. Mas observem bem esta foto* ao lado. Você não está enxergando mal: isso é uma escola, localizada no bairro de Pau da Lima, em Salvador.

Tentem imaginar crianças e adolescentes passando o período integral em uma escola como esta, que eu gostaria de acreditar que está desativada e os alunos transferidos para uma outra unidade escolar em melhores condições no bairro. O educador Paulo Freire já alertava em sua fundamental obra Pedagogia da Autonomia sobre a “pedagogicidade indiscutível na materialidade do espaço”. Ou seja, o espaço e a estrutura física de uma escola são componentes pedagógicos que também propiciam melhor aproveitamento na relação ensino-aprendizagem e no respeito ao bem público: “Como cobrar das crianças um mínimo de respeito às carteiras escolares, à mesa, às paredes se o Poder Público revela absoluta desconsideração à coisa publica?

Não é difícil encontrarmos escolas como esta pelo Brasil - na verdade é até corriqueiro. Os programas jornalísticos na TV exibem com relativa frequência reportagens sobre prédios escolares em péssimas condições e alunos de séries diferentes dividindo o mesmo espaço. É muito difícil ensinar e bem mais difícil aprender em ambientes assim. Educação em período integral em escolas que são desrespeitadas em seu espaço – para utilizar outra afirmação de Freire – não irá acrescentar avanços na educação brasileira.

Outro fator que apenas acrescenta quantidade e não qualidade é o aumento de dias letivos na escola. Para o ministro Haddad o número de dias letivos no Brasil é inferior ao de demais países. Será que é mesmo? O Brasil tem menos dias letivos do que a Indonésia ( 253 dias para o ensino fundamental I), a Coréia do Sul ( 220 dias) e o Japão ( 201 dias). Empata com México e Dinamarca ( 200 dias) e supera países como Espanha ( 176 dias), Finlândia ( 188 dias), Alemanha ( 193 dias) e a vizinha Argentina ( 170 dias). O que fica claro é que não se trata de esticar o tempo que os estudantes passam na escola, mas sim conferir qualidade a este tempo.

As perspectivas para a melhoria da educação em um cenário onde muitas escolas funcionam de modo precário e do qual professores precisam entrar em confronto com policiais e promover greves de 100 dias para fazer valer o direito de receber um mísero piso salarial com pouco mais de mil reais não são promissoras. Qualquer proposta para o setor que não contemple com seriedade a questão salarial, carga horária e formação continuada de professores, além da estrutura física e o resgate da escola como espaço lúdico e de difusão do conhecimento soa como demagogia ou reles discurso político partidário.

*Créditos da foto: Jornal da Metrópole, ed.170, 30/09/2011

* Dados dos dias letivos pelo mundo: SINPRO

sexta-feira, outubro 07, 2011

Rock in Rio 2011 - eu não fui


Assisti ao Rock in Rio no melhor lugar do mundo: no meu sofá, confortavelmente instalado em minha casa. Parabéns aos corajosos fãs que enfrentaram longas filas, falta de segurança e as dificuldades de transporte até a cidade do rock.

Rock? Certo, primeiro, vamos esclarecer: “Rock in Rio” é a marca de um festival de música que é diversificado desde a primeira edição, em 1985, quando levou nomes como Pepeu Gomes, James Taylor, George Benson, Alceu Valença e Ivan Lins ao lado de Queen, Ozzy Osbourne e AC/DC. As edições seguintes não foram diferentes com bandas pop como A-HA, New Kids on The Block, Britney Spears, e tantas outras. Logo, é compreensível que artistas como Rhianna, Claudia Leitte, Shakira, Katie Perry e Jamiroquai estivessem presentes neste festival em 2011.

QUEM SABE, FAZ AO VIVO


O que podemos analisar é a qualidade de alguns destes artistas, apesar do som muito ruim em vários momentos durante o festival. Dividiram o palco principal na mesma noite Ke$ha, Jamiroquai e Stevie Wonder. Com este line-up é muito fácil perceber o talento de um músico, da mesma forma que percebemos durante a apresentação de Elton John, espremido entre as apresentações de Claudia Leitte, Katy Perry e Rihanna. Há espaço para todos, é claro, mas dá pena destes artistas de plástico moldados pelo marketing e sem carisma – como é o caso de Claudia Leitte ( a Claudinha Milk) que investiu no que tem de melhor: uma apresentação focada no apelo visual. Nada além de um produto descartável, de curtíssima temporada, tal como a axé music: serve bem apenas para uma determinada época do ano. (a não ser que você se chame Ivete Sangalo e tenha carisma e um vozeirão daqueles! )

CADÊ OS CARAS-PINTADAS?

E a música? Em determinadas apresentações ficou em segundo plano. Mesmo que o “eterno adolescente” Dinho Outro Preto tenha feito um show competente com sua banda Capital Inicial, o que chamou a atenção foi o discurso “politizado” do cantor, cara, tão consistente quanto o de um adolescente de 15 anos que começa a se interessar um pouco sobre a política brasileira, cara. Talvez tenha lá alguma importância para a molecada, cara, tipo, é duca..., cara, é difodê, cara! O fato é que o corinho “Ei, Sarney, vai tomar no...” encontrou eco também durante a apresentação da banda Detonautas, com o vocalista Tico Santa Cruz: o veterano político maranhense se tornou uma espécie de “figura emblemática da corrupção no país”. Quando Sarney bater as botas, quem será o alvo dos eternos adolescentes trintões e quarentões? (apesar que Sarney merece este tipo de "homenagem") Enquanto isso, em outro palco, se apresentava Mike Patton, de volta ao Rock in Rio com o Mondo Cane e a Orquestra Sinfônica de Heliopólis. Esta, sim, uma grande e boa surpresa.

HOJE É DIA DE ROCK, BEBÊ!

E o rock? Deu as caras quando o sexagenário (!) Lemmy, da banda Motorhead, se apresentou no palco principal do Rock in Rio: “We are the Motorhead and we play rock n´roll”. E foi só “porrada” musical a partir de então: Motorhead em um show objetivo e sem frescura, os monstrengos mascarados do Slipknot surpreendendo e ganhando o público em um shows que foi considerado por muitos como o melhor de todo o festival e o Metallica em grande forma - se fosse qualquer outra banda a entrar no palco depois do Slipknot, teria problemas. O rock também deu as caras com System of a Down, em um show energético – um pouco longo, talvez – e até com a Pitty, que soa um pouco melhor ao vivo, mesmo desafinando aos montes.

“AHHHH, LINDOOOO!”

Teve histeria? Teve sim senhor. Ou melhor, senhora e senhorita: Maroon 5 e Coldplay foram as bandas mais aclamadas pelo público feminino e entende-se: o vocalista do Maroon 5, Adam Levine, foi eleito o mais “sexy” do festival e Chris Martin com seu doce (!) Coldplay arrebatou corações. E os shows, em termos de música, foram ótimos – Coldplay fez um show fantástico, um dos melhores do festival e até o Maroon 5 fez um show bacana. Morno? Um show com aquele monte de mulher gritando pelo vocalista pode ser qualquer coisa, menos morno. Se bem que eu não sei o que essa mulherada viu naquele magricela...

NANA, NENÉM...

O Rock in Rio também teve seus momentos constrangedores. O show da tal Ke$ha é algo para ser esquecido, sem maiores comentários. Funcionando também como soníferos, as apresentações de Snow Patrol – que me fez perder Red Hot Chili Peppers – e Lenny Kravitz foram ideais para se tirar uma bela soneca. O caso de Kravitz é pior: tem um bom repertório, a banda é excelente – a baixista Gail Ann Dorsey era da banda de David Bowie – e o cantor conseguiu fazer uma apresentação em que o tédio predominou. Talvez tenha sido prejudicado por estar entre as apresentações de Ivete Sangalo e Shakira, mas nem isso justifica tamanha apatia. Sorte que a Shakira acordou a galera - e quem não despertaria com aqueles rebolados todos, hein?

A DECADÊNCIA DE UM ÍCONE DO ROCK?

Como classificar a apresentação do Guns n´ Roses - ou Guns n´ Cover – neste Rock in Rio 2011? Problemática? Surpreendente? Melancólica? De tudo um pouco. Problemas do inicio ao fim: Axl Rose perdeu o vôo e chegou horas antes da apresentação, não ensaiou com a banda e um verdadeiro toró revezou músicos com puxadores de água no palco. Surpreendente porque o show aconteceu com aquela chuva toda - afinal estamos falando de Axl Rose, famoso por seus chiliques. Melancólico porque o vocalista deveria preservar melhor o que criou – com seus antigos companheiros de banda que fazem uma falta danada! – e arrebatou fãs ao longo do mundo. Claro que ninguém esperava Axl Rose, um dos grandes ícones do rock, saltitante como em 1991: o tempo passa e ele já tem 49 anos, quilos a mais e voz de menos, embora o carisma e a presença de palco continuem marcantes. No entanto James Hetfield, do Metallica, tem 48 anos e Lemmy, do Motorhead, tem 65 anos – e bebe feito um gambá! Estão mais inteiros e joviais do que Mr. Rose e fizeram ótimos shows. Time you gotta move, Mr. Axl Enrolose! E chega de botox, pois mais uma aplicação e o sr. fica a cara da Elke Maravilha!

E este foi o Rock in Rio 2011, a 4a edição brasileira, que retorna em 2013, no Rio de Janeiro. Se não houve nesta edição shows memoráveis como em anos anteriores, ao menos alguns bons números musicais salvaram o festival. Quem deu conta do recado, mais uma vez, foram os “veteranos” do rock e pop e até mesmo um Axl Rose claudicante foi mais competente e autêntico do que alguns artistas e bandas mais “modernas”. O que virá pela frente eu não sei, mas fico com o bom e velho rock n´ roll, bebê!

domingo, outubro 02, 2011

A leveza no humor

O filósofo francês André Comte-Sponville, em seu fabuloso Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, escreve que “podemos gracejar sobre tudo: sobre o fracasso, sobre a guerra, sobre a morte, sobre o amor (...); mas é preciso que esse riso acrescente um pouco de alegria, um pouco de doçura ou de leveza à miséria do mundo, e não mais ódio, sofrimento ou desprezo”.

Não vou entrar na discussão um tanto maçante e com características de patrulhamento que tenho acompanhado pela internet em relação ao humor, sobretudo nas redes sociais. Que há pretensos humoristas muito ruins por aí e fazendo esquetes de humor pra lá de duvidosos (principalmente no chamado "stand up comedy") é verdade, mas também existe uma turminha “politicamente correta” que se leva a sério demais – e costumo desconfiar de quem não sabe rir de si mesmo.

Prefiro dar um exemplo de leveza no humor. Já relatei algumas vezes que gosto muito do grande Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do jornalista carioca Sérgio Porto. Observador arguto e dotado de um admirável senso de humor, Stanislaw escrevia crônicas deliciosas e criava tipos inesquecíveis, como a Tia Zulmira e Rosamundo, entre outros. Criador do FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola a Nação - em plena ditadura, se estivesse vivo ainda hoje o jornalista e escritor teria fértil material para várias edições do Festival.

A crônica a seguir é do livro “O melhor de Stanislaw Ponte Preta”, da Editora José Olympio. Divirtam-se com a leveza que o bom e criativo humor proporciona.

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O terceiro sexo

O nosso caro amigo Rosamundo, quando foi tirar carteirinha de jornalista no Ministério do Trabalho, provou que a pessoa pode ser distraída que isso não diminui o seu senso de observação.

O Rosa, depois de muito insistirmos, resolveu ir tirar a mencionada carteirinha, um pouco encabulado, diante desse mundo de calhordas que se esconde atrás de uma carteira de jornalista para conseguir favores e exorbitar da profissão.

O distraído lá esteve, no Ministério do Trabalho. Depois de subir várias escadas, porque não percebeu que no prédio havia elevador, Rosamundo foi atendido por uma funcionária para que fizesse a indispensável ficha pessoal. E foi aí que ficou ratificada a nossa teoria de que a pessoa pode ser distraída, que isto não importa em que seja menos observadora. A funcionária perguntou:

- Nome?

- Rosamundo das Mercês – respondeu.

- Idade?

- 39.

- Local do nascimento?

- Buracap.

- Sexo?

- Terceiro.

- Como? – estranhou a funcionária. – O senhor é do terceiro sexo?

- Sou sim senhora.

- Quer dizer que o senhor não é nem do sexo feminino, nem do sexo masculino?

- Sou do sexo masculino. – respondeu Rosamundo, com dignidade.

- Então o senhor não é do terceiro sexo – atalhou a dama, meio sobre a indignada.

E Rosamundo:

- Sou sim senhora. É que ultimamente certas coisas progrediram tanto que o masculino passou pra terceiro, dona.

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