segunda-feira, março 30, 2009

O nosso trânsito agressivo de cada dia

Observe bem esta foto acima. O que pode parecer um fato engraçado ou pitoresco é, na verdade, mais uma amostra de nosso trânsito violento, irresponsável e assassino.

Resumindo a história: um motorista de ônibus em alta velocidade perdeu o controle do veículo, bateu em dois carros, atravessou a pista e bateu em outros dois e foi parar na Praia de Armação, em Salvador. O resultado disso foi a morte de uma médica que trafegava com seu veículo em outra pista, no sentido contrário, além de vários feridos. Felizmente a praia onde o ônibus foi parar havia pouco movimento.

O trânsito brasileiro é dos mais violentos do mundo. Mata em torno de 38 mil pessoas por ano, segundo dados de 2007 e não deve ter mudado muito em 2 anos, apesar da Lei Seca ( aliás, esta lei “secou”? ). Este é o prêmio que boa parte dos motoristas brasileiros, que se acha um Ayrton Senna no comando de um automóvel, “conquistou” para o país.

O trânsito de Salvador é igualzinho ao de qualquer grande capital brasileira: caótico, violento e sem planejamento. Não pode se comparar ao de São Paulo (poucas cidades no mundo podem) com sua frota de 6 milhões de automóveis. Para piorar, o transporte público na capital baiana é dos piores e o pequeno metrô da cidade arrasta-se em uma obra sem fim por 10 anos. E com boa parte dos motoristas soteropolitanos sendo agressiva e mal educada no trânsito, a conhecida simpatia baiana perde-se no buzinaço de suas estreitas e mal planejadas vias.

Passo constantemente pelo local onde ocorreu o acidente. Ali, sinto-me em um Grande Prêmio: à direita ou à esquerda, os carros desenvolvem alta velocidade, desprezando que a região possui muitos banhistas, já que a pista é marginal à orla. Uma característica comum em Salvador é o “carro colado”: não importa a velocidade ou a faixa em que você esteja sempre tem um motorista com o carro “colado” atrás do seu dando sinais incessantes de farol e descendo a mão na buzina. Isso é prática comum para vários motoristas de ônibus por aqui.

O que falta para tornar nosso trânsito mais civilizado? Educação? Leis rígidas? Punição? Fiscalização? Mais exigências para se tirar a carteira de habilitação? O código de trânsito brasileiro é rigoroso; muitas escolas já têm em seu currículo “educação para o trânsito” (isso quando as professoras não estão ensinando crianças de 10 anos a lavar as mãos, escovar os dentes ou lidando com brigas de gangues na escola); a fiscalização, embora capenga, existe, mas não dá para "grudar" um guarda em cada cidadão para verificar o que ele apronta ao volante.

Na verdade falta mesmo é uma boa dose de coletividade no trânsito. Em uma sociedade que preza o individualismo e a competitividade, são justamente estas características que encontramos em nosso trânsito, não coincidentemente. Juntemos estas posturas citadas à embriaguez de irresponsáveis, à pressão exercida aos motoristas por empresários do setor de transporte coletivo e à função social do automóvel ( status, poder, velocidade, “meu carro é melhor que o seu”) e temos este quadro deplorável.

Tão deplorável quanto algumas pessoas que, neste acidente em Salvador, ao invés de ajudarem as vítimas, foram procurar o que saquear nos automóveis envolvidos no drama. Pelo o que se percebe, o menor problema do trânsito é o automóvel.
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Obrigado a todos que tem votado no Grooeland na categoria "cotidiano" do V concurso de blogs da comunidade "Eu tenho um blog". Obrigado mesmo!

sábado, março 28, 2009

Pois temos justiça e Xuxa não tem calcinha!

E chegamos ao final de mais uma semana inteiros e felizes com as notícias animadoras que recebemos. Sim, pois o presidente afirmou que vai construir 1 milhão de casas populares e o Ronaldo Fenômeno de Marketing fez dois gols e jogou os 90 minutos. Não são notícias animadoras?

Não responda ainda, porque há duas grandes notícias para você que só enxerga pessimismo e não acredita em mais nada que esteja relacionado ao Brasil. Na verdade foram duas grandes descobertas que mudarão a cara deste país, continue lendo e confira se estou errado.

Descobrimos, finalmente, que a Xuxa não usa calcinha para dormir e, veja só, ela tem orgasmos múltiplos! Achou isso fascinante? Espere que tem mais: a nossa Rainha dos Baixinhos já viu um duende embaixo de sua cama, puxando o edredon. Não é fantástico?

Ora, não há nada de mais na Xuxa admitir que tem orgasmos múltiplos. Aliás, é até um estímulo para outras celebridades, como a Sandy, que poderia admitir que solta pum, vai ao banheiro e tira meleca do nariz, como um ser humano normal. Já um duende embaixo da cama e puxando o edredon...bem, aí explica-se a origem dos orgasmos da noxa Rainha dosh Baixinhosh.

A outra grande notícia e a melhor descoberta de todas é que o Brasil "é um país em que se faz Justiça".

Esta frase não é de minha autoria, é da brasileiríssima advogada Joyce Roysen, que conseguiu o Habeas Corpus para a empresária Eliana Tranchesi, dona da Daslu, presa por crimes como formação de quadrilha, falsidade ideológica e sonegação de impostos.

Curioso este Habeas Corpus. Tá lá na Constituição: “conceder-se-á habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder”.

Ou seja, segundo os estudiosos do direito ( e eu não sou um deles), a decisão de soltar a dona da Daslu está juridicamente correta. Além do mais a mulher está com câncer no pulmão e "não representa risco à sociedade". Trocando em miúdos, é a lei, tá tudo certinho e fim de papo.

Não vou entrar nos clichês fáceis do tipo “se fosse preto, pobre e periférico tava mofando até agora numa cela abarrotada de gente e seu processo ficaria esquecido por anos e anos no judiciário” porque todo mundo sabe que é assim mesmo e o pobre não tem dinheiro para pagar um bom advogado que arranje o Green Card, digo, Habeas Corpus. E paciência que é isso aí, a verdade nua e crua, o que se vai fazer, não é?

Mas aí eu leio em nossa Constituição que os trabalhadores brasileiros tem direito a “salário mínimo , fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim”.

Depois desta leitura, sou obrigado a concordar com a advogada Joyce Roysen (não tem nenhum “Silva” aí não?): o Brasil é um país em que se faz justiça!

quinta-feira, março 26, 2009

Novamente: professores, alunos e tempos modernos

Após a postagem do texto “professores, escola e tempos modernos”, eu não gostaria de tratar sobre educação tão cedo aqui no Grooeland, mas é impossível evitar aquela “coceira nos dedos” para digitar algumas linhas sobre o assunto – e, na verdade, veremos que não se trata especificamente de educação.

No texto citado logo acima, dentre outros assuntos ligados à educação, falei sobre a função da escola, que deve ser repensada e resgatada. Nesta semana alguns fatos ocorridos em escolas públicas no país assustaram a população de modo geral e demonstram qual é a finalidade da escola atualmente.

Nesta segunda-feira, dia 23, um estudante de 18 anos foi assassinado dentro da sala de aula em uma escola em Salvador, no turno da noite. Detalhe: no momento do crime, havia aproximadamente 20 alunos na sala de aula, que assistiram toda a ação.

Ainda na segunda-feira 23, uma professora foi agredida por uma aluna de 15 anos em uma escola no Rio Grande do Sul. A professora sofreu traumatismo craniano e fratura cervical. A adolescente afirmou que faria tudo novamente.

E nesta quarta-feira, 25, alunos de uma escola pública na periferia de Salvador tentaram linchar um professor de educação física que teria agredido uma aluna. Como não conseguiram "fazer justiça", alunos promoveram verdadeiro quebra-quebra, destruindo vidraças e banheiros da unidade escolar. O professor leciona no local há 18 anos e teve que ser escoltado pela polícia até a delegacia. Apenas para registrar: a mãe da aluna (adolescente com 15 anos de idade) supostamente agredida não compareceu à delegacia porque já conhece o comportamento da filha e não tinha motivação para acusar o professor de agressão nenhuma.

O professor português António Novoa ( este, sim, um especialista de fato em educação e que vale a pena ser lido e ouvido) já afirmou que “as escolas valem o que vale a sociedade. Não podemos imaginar escolas extraordinárias, espantosas, onde tudo funciona bem numa sociedade onde nada funciona”.

O professor Novoa foi muito feliz. Nos três fatos relatados, o que se percebe é uma violência desmedida, gratuita e crescente por parte de adolescentes. Professores, acuados e sobrecarregados, encontram-se fragilizados emocionalmente e trabalham “no limite”. O ambiente escolar, hoje, é inseguro e assemelha-se, em muitos casos, a uma praça de guerra. Quem diz que esta violência gratuita é um problema apenas da escola erra de diagnóstico: é um mero reflexo do que temos em sociedade.

UMA IDEIA "BRILHANTE"!
Mas em São Paulo tudo está bem. O governador do estado, Nosferatu Serra, colocou em prática a sensacional idéia de premiar com bônus salarial os professores das escolas que alcançarem as metas estabelecidas pelo IDESP (índice de Desenvolvimento das Escolas de São Paulo). Ou seja, é uma idéia tão brilhante quanto criar dois Paraguais e excluir o Equador na América do Sul. Despreza-se a situação socioeconômica de escolas e alunos “medindo” a educação em índices estatísticos. É como se todas as escolas fossem iguais e com as mesmas necessidades, tanto as escolas localizadas no Morumbi como as escolas localizadas em Parelheiros. E se o professor adoece, não tem bônus; se o aluno adoece, interfere na bonificação. Welcome to the Machine!

Para horror dos “especialistas” da VEJA, FOLHA e da equipe de educação do governo Nosferatu Serra, cito ele, o terrível comunista Paulo Freire: “Na verdade, o treinamento estreito, tecnicista, habilita o educando a repetir determinados comportamentos. O que precisamos, contudo, é algo mais do que isto”.

Este “algo mais” se constrói resgatando a função da escola, como espaço de socialização, de difusão do conhecimento e complemento da educação familiar. A educação pode mudar o mundo, mas isolada não há como promover a mudança que todos desejam – a não ser mudanças de países, com o Paraguai finalmente tendo uma praia e o Equador sumindo do mapa. (confira o post "Viva Los Paraguay")
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quarta-feira, março 25, 2009

Viva los Paraguay!


Ano de 2008. O mundo passava por uma crise que não havia precedentes em sua historia. As grandes empresas, bancos e especuladores faliram e milhares de pessoas perderam seus empregos. Os especialistas em economia, finanças e administração estavam atônitos, sem saber o que fazer. O mundo precisava de um líder. Um líder ousado e revolucionário, e não estamos falando do Obama.

Este líder surgiu na América do Sul, mais precisamente no Brasil,em 2009. Este líder não era tão carismático quanto tantos outros líderes mundiais, mas teve uma idéia brilhante: mudar o mapa da região. E não foram mudanças apenas no desenho dos mapas. Foram mudanças profundas e significativas, que alavancaram a economia do continente sul-americano.

Desta forma foram criados dois novos países: Paraguay del Norte e República Oriental del Paraguay. Vamos descobrir mais sobre estes recentes vizinhos.

REPÚBLICA ORIENTAL DEL PARAGUAY
A criação da República Oriental del Paraguay foi muito fácil. Desde os tempos de Solano Lopez, em meados do século XIX, o Paraguay sempre ambicionou possuir um litoral, seja no Oceano Pacífico ou no Oceano Atlântico. E por isso o Paraguay envolveu-se em uma guerra terrível contra Brasil, Argentina e Uruguai.

Já o Uruguai possui um litoral que é pouco aproveitado pelos seus habitantes, destacando-se apenas o balneário de Punta del Este. Os uruguaios não ligavam pro mar, queriam apenas um território maior para a criação de gado e a energia de Itaipu, é claro.

Sob a liderança do líder brasileiro e sua competente equipe de geógrafos, foi muito simples fazer a troca: o Uruguai vai pro lugar do Paraguay e este ocupa o território que um dia foi a Província Cisplatina. E assim o novo país foi batizado como República Oriental Del Paraguay e os paraguaios orientais estão muito felizes com suas praias, tanto que o país já possui a nova sensação do surfe mundial, o jovem Pablo Romerito e só por isso o Paraguay virou o novo destino dos surfistas de todo o mundo, promovendo o turismo no país. Isso gerou novos empregos e minimizou os efeitos da crise.

REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DEL PARAGUAY DEL NORTE
Já a República Democrática del Paraguay Del Norte teve um processo mais complicado. Tudo começou quando o presidente boliviano Evo Z. Morales aceitou refugiados paraguaios - que se recusaram a mudar de país - em seu território. Sob a alegação de serem perseguidos políticos, o governo boliviano forneceu a eles todos os direitos que os cidadãos bolivianos possuem - inclusive mascar coca e a liberdade para negociar.

Os paraguaios criaram, então, uma espécie de governo paralelo no sul da Bolívia, onde não faltava nada àquela região: aparelhos de TV, DVD, som, celulares e até gás natural made in Paraguay. O presidente Evo Z. Morales tentou expulsar os paraguaios, mas sem sucesso: eles já eram numerosos e os poucos bolivianos que restavam na região já aderiram ao modo de vida paraguaia, inclusive cantando guarânias.

A situação tornou-se insustentável na região quando os refugiados paraguaios começaram a falar em independência. O presidente boliviano enviou tropas do exército com a intenção de acabar com os focos de rebelião e idéias separatistas, mas não houve resultados.

Após violentas manifestações pela independência daquela região, o presidente Evo Z. Morales aceitou os termos sugeridos pelo líder brasileiro e recebeu uma indenização de US$ 1 milhão pelo território mais a construção de uma ferrovia na Bolívia.

E assim foi fundada a República Democrática del Paraguay del Norte, que tem como capital a cidade de San José de La Serra, em homenagem ao cerebral líder brasileiro que teve a brilhante idéia de criar dois Paraguais e, assim, fortalecer a economia da América do Sul.

REPUBLICA DEMOCRATICA DEL PARAGUAY DEL NORTE
Fundada em 2009.
Capital: San José de La Serra
Cidades principais: Dom Fernando Henrique Caballero, Ciudad del Oeste, Crusius City, Fuerte Neves, Doctor Chalita de La Peña
Moeda: o que tiver em mãos
População: 200 mil habitantes. Em finais de semana, 1 milhão de habitantes.
Economia: baseada em eletrônica de subsistência
Religião: mercado
Língua oficial: adaptável (de acordo com o freguês)
Transporte: buracos do metrô começam a ser cavados; o país começa a formar uma malha de rodovias com pedágios.
Fornecimento de água: a água é cristalina e pura da SABESP.
Educação: há faculdades e escolas, todas sob a supervisão de especialistas da Finlândia.
Renda per capita: impossível de se descobrir.

terça-feira, março 24, 2009

Vote no Groo!

Brasileiros e brasileiras, meu povo e minha pova, minha gente! Este humilde blog está participando do V concurso de Blogs da Comunidade Eu tenho um blog, no orkut. O Grooeland, minha gente, está entre os 5 classificados como melhores na categoria cotidiano (cotidiano, caro eleitor, não tem nada a ver com “coitado”, significa dia a dia).

E é por isso que venho pedir o seu voto, caro blogueiro! Preciso do seu voto para lutar pela educação, pela saúde, pela segurança e pela manutenção da bolsa-família! O Grooeland já conseguiu apoios importantes:
Portanto, minha gente, não me deixem só! O Grooeland precisa de seu voto, precisa de seu apoio! Se o Grooeland não for um bom blog, nunca mais votem em mim!

E votem também no companheiro Renan, do blog Melhor Opinião, que concorre na categoria humor!

Para votar acesse a comunidade e siga para “enquetes”. Localize “categoria cotidiano” e vote no Grooeland!

domingo, março 22, 2009

Professores, escola e tempos modernos

Na semana passada uma professora da rede estadual em SP foi agredida por um “aluno” de 13 anos primeiro com xingamentos e depois com chutes e até mordidas. Tudo porque a professora chamou a atenção do aluno que bagunçava na sala de aula. Como de praxe, o adolescente não sofreu nenhuma punição, ao menos até agora.

Quem está fora do cotidiano escolar surpreende-se com notícias neste teor, mas quem vive no meio educacional sabe muito bem que agressões verbais e ameaças de violência física (e sua consumação) por parte de certos alunos a professores acontecem todos os dias. E geralmente o agressor não sofre nenhuma punição ou, quando é punido, é algo muito brando.

Em seu pequeno, mas interessante livro paradidático “Sociedade Tecnológica”, Ciro Marcondes Filho dá uma boa pista do que vem acontecendo não apenas nas escolas, mas na sociedade em geral: “Isso não ocorre só com a autoridade paterna, que na verdade já perdeu seu espaço há décadas ou com a autoridade política, policial. Também as autoridades morais, filosóficas, intelectuais, que antes ditavam normas, orientavam caminhos, propunham soluções, perderam crédito. O homem de final de século é mais descrente, cínico, irônico em relação a qualquer tipo de autoridade...”.

O autor fala sobre a perda de autoridade nesta chamada sociedade tecnológica ou contemporânea ou pós-moderna ou do conhecimento ou... vejam que não há sequer uma definição para este período, que na verdade é uma transição entre os “velhos conceitos” ( de nossos pais e avós) e os “novos conceitos” ( geração moldada com base no entretenimento televisivo e informático, com novos padrões de comportamento e de consumo).

Muitos pais esperam que os professores dêem “jeito” em seus filhos; professores esperam que os pais façam sua parte na educação da garotada. Neste jogo de empurra, o estado é omisso e a rede particular esconde absurdos que acontecem no interior de seus grandes e protegidos muros. Engana-se quem acha que problemas com drogas e agressões verbais a professores é exclusividade da rede pública. Na rede particular o “marketing negativo” que poderia ocasionar a perda de “clientes” é rapidamente abafado.

Basta observar que muitos filhos de classe média envolvem-se constantemente em crimes e atos de vandalismo e, não raro, os próprios pais intercedem em favor dos filhos com subornos a delegados e policiais para que não seja feita a ocorrência. Em casa, apenas um sermão (que é recebido com desdém pelo jovem) e fica tudo por isso mesmo.

E na sala de aula todo esse "mix" de perda de autoridade e desdém atinge seu ápice. Professores já desmotivados por salários que se assemelham mais a ajuda de custo, péssimas condições de trabalho (não é fácil lidar com salas com 40 alunos amontoados em um espaço onde mal cabem 30) e fragilizados emocionalmente e até fisicamente com cargas horárias absurdas são os alvos preferidos de frustrações, falta de limites, carência e recalques de muitos adolescentes. Mesmo diante deste quadro, os docentes são os únicos responsabilizados pelos péssimos índices de educação no país e pela violência cada vez mais crescente dentro da escola - escola que, segundo estudiosos da educação, precisa "rever sua função". Correto. Mas antes de tudo a escola precisa recuperar sua função, que é promover o acesso ao conhecimento, à socialização, atuar como parceira na educação e desenvolvimento das crianças e jovens, sem desprezar as novas tecnologias de informação e comunicação.

Mas “especialistas” da educação como colunistas da VEJA e FOLHA acham que é só “copiar o modelo da Finlândia” que resolve tudo. Também acho. Na Finlândia governador canalha não vota contra um piso milionário de R$ 950 para professores, por exemplo. E também acho muito difícil um professor em Helsinque receber um pedido como este de uma mãe na escola: “se o senhor puder colocar algum juízo nesse menino, eu agradeço, porque eu mesma já desisti, larguei de mão”.

Na verdade é um pedido de socorro. O professor e a escola constituem-se na última esperança de muitos pais em verem os filhos trilharem um caminho melhor. O problema é que professores e escolas também pedem socorro para trilharem caminhos melhores e serem de fato agentes de transformação, com toda a estrutura necessária para desempenharem um bom trabalho. E isso não é pedir muito.

sexta-feira, março 20, 2009

Teoria conspiratória


Nesta semana aconteceram fatos interessantes que valem a pena tecer algumas palavras, como a questão da reserva indígena Raposa Serra do Sol ( e até que enfim um ministro do STF comenta sobre o problema das ONGs estrangeiras na Amazônia) e agressões a professores em Minas Gerais e São Paulo ( e em SP o agressor foi um pitbull, digo, aluno de 13 anos que desferiu socos, pontapés e mordidas na professora de educação física), mas resolvi tratar das banalidades, pois é assim que dá audiência.

Não sei se já comentei por aqui, mas adoro as teorias conspiratórias. Aliás, teoria conspiratória é uma espécie de fofoca mais elaborada. E vocês gostam que eu sei. Não se faça de desentendido: vai dizer que aquela historinha de que o homem não pisou na Lua e que na verdade foi tudo montagem dos Estados Unidos não o interessou? E aposto como você adorou o tal "Código da Vinci". (uma pataquada de teorias conspiratórias cuja obra nem perdi tempo - e dinheiro - em ler. Dan Brown é um cara esperto, admitamos)

E que tal essa: Jim Morrison continua vivo até hoje em uma fazenda no Sul da França porque a CIA tirou todos os subversivos da juventude de cena ( Janis Joplin e Jimi Hendrix foram envenenados e John Lennon teve o que merecia mais tarde). Não se impressionou? Pois saiba que Paul McCartney morreu em 1966 e foi substituído por um sósia, vivo até hoje. Ou seja, esse que você vê aí cantando e fazendo shows não é o Paul McCartney!

Não é divertido? Uma das teorias da conspiração que eu mais gosto é a da Terra Oca, também conhecida como Agartha, um mundo subterrâneo cuja entrada é pelo pólo Sul...ou Norte, vai saber. Há quem diga que Hitler não se suicidou coisa nenhuma e embarcou num submarino rumo ao reino de Agartha, fundado pelo habitantes da velha Lemúria, chapas dos Atlantes. Mas eu acho que a Terra Oca foi fundada pelos antepassados do Pedro Bial ou do Diogo Mainardi. Ou até do Zé Serra, já que esse entende de metrô e terra oca.

Nesta semana o Brasil ficou chocado com duas noticias: Vera Fischer não transa há dois anos e Clodovil morreu. Confesso que a revelação da Vera me chamou bem mais a atenção do que o Clodô por motivos óbvios, tanto que até pensei em mudar para o Rio de Janeiro. Até porque o Clodovil não me diz muita coisa. Mesmo sua eleição como deputado federal não mereceu manifestações de minha parte, visto que o povo elege gente muito pior como Collor, Sarney, Kassab, Serra e até Michel Temer ( como é que esse cara sempre é eleito? Não consigo entender).

E não é que criaram uma teoria da conspiração em torno do Clodovil? Oba, oba! Agora andam dizendo que o Clodovil foi, na verdade, assassinado! Uau! Mas por quem? Por quais motivos? Seria uma sórdida conspiração política ou uma picadura de mosquito da dengue? Terá sido pelo seu projeto “muito macho” de reduzir o número de deputados em Brasília? Ou terá sido praga da deputada que foi chamada de “tão feia que não podia nem ser puta”?

Pois é, vamos apurar. E se puder aumentar um bocadinho, é bom ,pois é assim que enriquecemos essas teorias. Eu acrescentaria que Clodovil foi assassinado a mando da Illuminati ( que detém o poder do mundo inteiro em posições estratégicas e, claro, secretas), pois o velho estilista “sabia demais” e poderia botar a boca no trombone – o que, aliás, era sua especialidade, e não apenas no trombone. Vai ver o "assassinato" do Clodovil tenha sido por isso: meteu a boca onde não foi chamado.
E deixa eu parar por aqui porque já ouço barulhos o tempo todo no teto, o telefone toca mas nunca tem alguém do outro lado e parece que aquele sujeito parado ali no boteco tá me seguindo. Será que tô devendo uma cerveja pra ele ou será algum agente da CIA?

quinta-feira, março 19, 2009

Navegando pela imprensa

(clique na imagem para visualizar melhor)


Algumas pessoas dizem que eu pego no pé da imprensa. Isso não é verdade. Eu continuo lendo jornais, acessando sites de notícias on-line e prestigiando alguns colunistas de renome nacional, de forma que ajudo na manutenção de muitos veículos de comunicação espalhados pelo Brasil.

Sei que cometo um erro. Deveria ler menos jornais e acessar a internet só para fuçar o orkut, jogar conversa fora no MSN e visitar blogs com piadas e vídeos kkkkkk. Mas eu não consigo. Como ficar impassível diante de uma notícia destas, estampada com letras garrafais:

VERA FISCHER DIZ QUE NÃO FAZ SEXO HÁ DOIS ANOS

Vejam se eu posso me dar ao luxo em desprezar a imprensa. É por causa de notícias relevantes e fundamentais como esta da Vera Fischer (e tal notícia está no suplemento CULTURA, o que a torna muito mais fundamental para os destinos da própria cultura no país) que eu não desisto da imprensa. Esta notícia causou-me impacto tão grande que penso até em mudar para o Rio de Janeiro. Nunca se sabe, né, vai que eu encontro a Vera Fischer na praia ou caminhando no calçadão e uma conversa aqui, um prestobarba ali...

Eu deveria desistir de ler jornais e os sites de notícias para correr atrás da Vera Fischer, isso sim, mas eu continuei por aqui navegando pelos referidos sites. E valeu a pena, como valeu! Encontrei uma declaração do grande senador Mão Santa, do Piauí, que é simplesmente emocionante:

“Esta Casa é grandiosa, este Senado. O que tem muito é inveja. (...) nós representamos o que há de melhor neste País. Julgo os outros por mim. Nós somos virtuosos. Nós devemos e somos os pais desta Pátria.”

Não é tocante? Agora os meninos de rua abandonados descobriram que tem pai! Que Mão Santa interceda pelos seus filhos desvalidos neste vale de lágrimas, amém. Na verdade são 81 pais virtuosos, guardiães da moral e representantes do que há de melhor no país. Inclusive o Collor. Que inveja!

Depois de enxugar as lágrimas ao ler as lindas palavras do senador Mão Santa (Michael, eles se preocupam com a gente!), continuei meu giro pela internet e nos sites sérios de notícias. Mas eu citei o Collor logo acima, não foi? Pois é! Fala-se no diabo e olha o que encontro:

COLLOR ADMITE QUE BLOQUEIO DE POUPANÇA FOI UM ERRO

Quase não consegui ler o restante da notícia. Eu acho tão bonito quando um ser humano admite um erro e arrepende-se com toda a humildade do mundo! Recuperei-me do choque inicial, mas por pouco tempo. Minha gente, o Collor quer outra oportunidade! Olha só isso, olha só: “Se tivesse outra chance, não teria bloqueado a poupança de pessoas físicas e jurídicas”.

Chega! É muita emoção para um dia só. Vera Fischer na seca, Mão Santa e os 80 virtuosos, Collor arrependido...como eu posso “pegar no pé” da imprensa quando ela proporciona momentos tão importantes como os registrados nesse texto? Imagina se eu faria isso, veja só!

terça-feira, março 17, 2009

Pirataria, APCM e internet

Dia desses eu entrei nas lojas Americanas - não estou fazendo merchandising para a empresa, isto é apenas um texto ( longo, é bom advertir logo) - e comprei algo que não adquiria há muito tempo: um CD.

E não era um CD qualquer, era um “Ramones – the greatest hits” na promoção por R$ 9,90. Adoro essas promoções “de baciada” nas lojas. Encontra-se muita coisa boa escondida sob pilhas de CD’s do Amado Batista, Belo e O Melhor do Pancadão. Já achei um Stevie Ray Vaughan por apenas R$ 4,99. Preços bem acessíveis, não?

Em compensação, fui dar uma olhada em outros CD’s na prateleira. Artistas bem mais populares como a dupla Victor e Léo tem o CD vendido por R$ 25 e até o Zeca Pagodinho tem um CD que custa o mesmo valor. Aí o sujeito vai ali na esquina e descola o CD do Victor e Léo por R$ 3.

CD pirata, claro, mas como resistir à tentação?

Uma certa APCM ( Associação Antipirataria Cinema e Música) fez tanto barulho que conseguiu (segundo eles) acabar com a comunidade “Discografias”, no orkut. A comunidade disponibilizava links de artistas e bandas de todos os gêneros para que os internautas baixassem álbuns completos, tudo na “faixa”. A APCM considera que a extinção da comunidade foi uma grande conquista.

Fui fuçar o site da tal Associação.Esse pessoal não brinca em serviço, tanto que possui desde cartilhas para identificar produtos piratas até um “Treinamento de Capacitação em Antipirataria”, cujo objetivo “é treinar agentes públicos para a identificação de produtos piratas e abordar aspectos referentes à legislação vigente”. Uau! “Agentes públicos”. Dá até medo...

VERTENTE “EDUCATIVA”
Encontrei , no próprio site da associação, uma declaração muito interessante do diretor executivo da APCM que eu gostaria de chamar a atenção para meus pacientes e raros leitores:

“Trabalhamos atualmente em três vertentes, a educativa, a repressiva e a econômica, porém é importante ressaltar que todas elas precisam da participação direta da sociedade, tanto realizando denúncias, por meio do site da APCM, quanto não alimentando o comércio ilegal de produtos piratas”.

Interessante o termo “educativo”. O “educativo”, neste caso, serve apenas para formar os tais “agentes públicos” e a reconhecer produtos piratas. Mas eu adoraria saber duas coisinhas também bastante “educativas”:

a) Qual a postura da Associação ou qualquer outra entidade “caça-pirata” em relação aos absurdos preços dos CD’s e entradas de cinema no Brasil?

b) Por que ninguém fala do tenebroso e imoral JABÁ que rola solto nas emissoras de rádio e TV divulgando artistas de “talento” duvidoso de grandes gravadoras, prejudicando artistas independentes que ficam sem espaço para mostrar seu trabalho?

Creio que as respostas a essas duas perguntinhas seriam bastante didáticas. É fácil arrotar a lei e promover uma caça às bruxas não apenas aos grandes piratas, mas também aos consumidores destes produtos, enquanto distribuidoras de filmes e gravadoras são poupadas, defendidas e saem como os “mocinhos da história”.

ACESSO À CULTURA
Uma família pequena (casal e 1 filho) que queira assistir a um filme no cinema em Salvador no final de semana não gasta menos de 50 reais na bilheteria e bomboniere das salas de cinemas dos shoppings centers ( porque cinema popular, de bairro, só mesmo em DVD pirata ou no “gato” da TV a cabo). Tem como condenar esta família se ela compra o DVD pirata lá na esquina por 4 reais e com mais uns 3 reais compra pipoca e um refrigerante de um litro? Elitizar e restringir o acesso ao cinema é a melhor forma de combater a pirataria? Olhaí, APCM, mais questões para exercitar o seu “lado educacional”.

Atenção: o argumento aqui não é justificar a baixa condição financeira da população para pregar o “vale tudo” em relação ao comércio. Estou falando é de acessibilidade, de incentivos para que as pessoas possam ir ao cinema e pagar um preço justo e razoável, e não a verdadeira escorcha praticada nestas salas. E isso vale para o CD também.

Existe a questão do direito autoral do artista e é justo que ele receba seus caraminguás pela obra. Só que esse mesmo artista tem que botar na cabeça que o tempo de ganhar dinheiro só com venda de CD já era. Ninguém precisa mais rastejar diante de gravadoras e distribuidoras para divulgar seu trabalho. A internet faz isso muito bem. Ao mesmo tempo em que se retira do ar comunidades de discografias surgem milhares de blogs, fóruns, programas para trocar MP3 de todos os gêneros e gostos musicais. E agora, José?
Como se vê, a solução passa bem longe da “formação de agentes públicos” caçando e denunciando pirataria por aí. Há boas idéias e iniciativas surgindo. O próprio Ministério da Cultura vai disponibilizar aparelhos para a reprodução de filmes em pequenas cidades e nas periferias das grandes capitais; e o que falar do Cinema na Laje, no Bar do Zé Batidão, que disponibilizará a projeção de filmes e documentários...na laje de um bar na periferia de São Paulo?

Enquanto as gravadoras, os governos e os artistas apenas assumem posições agressivas e não oferecem soluções, há quem dê um jeitinho. Eu dei meu jeitinho: baixei algumas músicas dos Beatles, gravei em um CD e usei-o na escola, para dar aulas aos alunos com música. Segundo a APCM, eu sou um criminoso por ter feito isso.

domingo, março 15, 2009

A professora robô

Agora vai! Cientistas japoneses (sempre eles) testaram um robô que irá revolucionar a educação em todo o mundo: a professora robô.

A professorinha robótica ainda não faz muita coisa além de fazer a chamada e dar broncas do tipo “fiquem quietos”, mas já consegue expressar algumas “emoções” como raiva, surpresa, felicidade e tristeza – sendo que esta é bastante peculiar aos "professores humanos” principalmente quando conferem seus contracheques.

Apesar do criador do engenhoso robô garantir que o objetivo não é substituir os professores humanos, é certo que muita gente já vê com bons olhos a substituição dos arcaicos seres humanos no ramo da educação. A maioria dos internautas que respondeu a enquete na página onde se encontra esta notícia, por exemplo.

E contextualizando para nosso Brasil brasileiro, aposto como tem muito “especialista em educação” e governante de olho nesse robozinho aí. Finalmente criaram algo que poderá acabar de vez com as queixas destes inúteis professores brasileiros, que adoecem o tempo todo, participam de greves, reclamam (de barriga cheia) por melhores salários e condições de trabalho, são desatualizados e foram doutrinados por comunistas perigosos como Paulo Freire.

Com uma professora robô tudo ficaria mais fácil. Em primeiro lugar, não haveria necessidade do governo se preocupar com bobagens como salário, plano de saúde e férias. Tudo isso custa caro. Basta uma simples e barata manutenção periódica e o robot teacher terá uma vida útil bem mais útil que estes velhos professores humanos; além disso, não será necessário gastar nenhum tostão com aqueles velhos cursos de formação e “capacitação” (pior que “capacitação” só mesmo o termo “reciclagem”): basta uma programação inserida ( não me perguntem por onde) no robô com todo o conhecimento necessário para que o aluno “aprenda”. O país economizará uma fortuna e com isso poderá finalmente partir para o progresso: o progressivo aumento em salários de deputados, vereadores, senadores e ministros do glorioso STF.

Evidente que no Brasil a professora robô teria que passar por algumas modificações, principalmente reforço em sua lataria e até o acréscimo de alguns dispositivos de defesa como escudo, campo de força e armas de choque. A sua programação também teria que adaptar-se à realidade brasileira, pois certamente o robô japonês não está programado para processar inúmeros palavrões com os quais os professores brasileiros são agraciados todos os dias nas escolas públicas e particulares. E se o robô for equipado com um “nariz”, esta peça deverá ser inutilizada imediatamente, sob risco de curto circuito na máquina - a não ser que o robô não freqüente os banheiros.

Assim como o vídeo cassete e o computador, a professora robô virá para substituir os nossos professores humanos. Mas provavelmente até o mais simpático dos robôs não daria certo nas escolas brasileiras. Porque seguiria a lógica para a qual foi programada, ou seja, dar aulas, apenas; nada de limpar banheiros da escola, nada de assumir papéis de psicólogo ou assistente social e tampouco mediar conflitos entre gangues rivais.

E o fundamental: uma professora robô jamais conseguirá "processar" os momentos mágicos em que a criança entra no mundo mágico da leitura, da escrita e das artes com o estímulo, a paciência e a dedicação de uma professora “normal”. Isso é humano demais para uma reles máquina.

sexta-feira, março 13, 2009

Chega de exclusão!

Relaxando no final de tarde em um animado bate papo com um amigo regado à limonada bem gelada, ele me surpreende com uma pergunta incomum:
- Qual é a sua ambição nesta vida?
- Ser um cabeça de vento!

Como assim ser um “cabeça de vento”? Vou tentar explicar para vocês, que tem a coragem de ler o que escrevo por aqui - aliás, obrigado pela paciência! Mas vamos lá. Como é difícil definir um cabeça de vento, creio que um exemplo seria mais didático:

- Que coisa...onde já se viu! Os deputados querem aumentar seus salários novamente!
- É...
- Isso não é um absurdo?
- É...
- O que está acontecendo com o mundo? Meu Deus, que loucura, um jovem matou vários colegas de escola lá na Alemanha! Onde vamos parar?
- É...triste.
- Deixa eu ver o que tem no outro canal...ah, saco, olhai, de novo o gol do Ronaldo! Não agüento mais ver isso, é toda hora a mesma coisa!
- Mas ele merece, cara, Ronaldo é guerreiro, é um iluminado, é um exemplo de superação, pô velho, Ronaldo é o cara, ele é 10! E é só o começo hein? E olha que ele tá fora de forma, hein? É um exemplo, é guerreiro, é o cara, ele merece, cê num acha?

Acho. Mas vocês entenderam? Queria ser como estes caras. Não estão nem aí pra crise, crase, pra governo, para os bons modos no dia a dia, para a conjuntura do país, para o destino do dinheiro público, relações humanas, trânsito civilizado e outras questões irrelevantes. E é curioso: demonstram estar numa boa, despreocupados, sempre acabam se dando bem e curtem seu som na mala no carro com uma potência de 1 milhão de decibéis, tomando sua cerveja e não ligam para essas bobagens de política, escola, cidadania.

O que reforçou mais ainda meu desejo de ser um cabeça de vento foi ter acessado a versão on-line do jornal baiano A TARDE e deparar com a notícia sobre a eliminação da gulosinha da Maíra, do BBB. Ora, isso é um fato relevante e a imprensa tem o dever de publicar. A minha cisma é que a notícia sobre a moçoila que adora um pirulito e um celular (com câmera, evidente) estava na seção destinada à cultura. E é uma das notícias mais lidas por lá. Confesso que fiquei feliz. Foi uma revelação! Agora sei o que é cultura no Brasil, finalmente.

É isso aí! Já decidi: não quero mais ser um excluído! Chega de ficar fora das rodinhas de conversa no final de semana. Farei um sacrifício para tornar-me um sujeito culto e assim juntar-me à sociedade dos cabeça de vento! Torrarei a grana de 5 meses de salário num som automotivo super potente de 1 milhão de decibéis – e com direito a DVD no carro, lógico. E não é pra tocar Pink Floyd ou Led Zepellin coisa nenhuma: meu negócio vai ser o hit parade do pancadão!
Vou trilhar o Caminho das Índias e espiar todos os dias o Big Brother Brasil (quero saber quem será a próxima a seguir o Caminho das Brasileirinhas. A tal de Maíra já fez até um trailer caseiro) e me ligar nas notícias passo a passo (de elefante) do Fenômeno de marketing. E, claro, ser mais esperto que o esperto ao lado, principalmente no trânsito e nas repartições públicas. E o primeiro passo está dado: escrever um texto que só um cabeça de vento escreveria! Já estou experimentando os efeitos da mobilidade social!

Porque os cabeças de vento ainda herdarão este país - se é que já não herdaram.

quarta-feira, março 11, 2009

Fenômenos energúmenos

O brasileiro acrescentou duas "novas" palavras ao seu vocabulário nesta semana. E não cairão no esquecimento, pois são utilizadas incessantemente na “grande imprensa” e já caíram na boca do povo: “superação” e “guerreiro”.

Na verdade “guerreiro” já está aí há algum tempo. Desde que Pedro Bial, o poeta-filósofo-garanhão da Globo usou o termo para definir os sofridos participantes do cultural Big Brother Brasil, a palavra “guerreiro” é designada a todas as pessoas que batalham pelos seus sonhos - e geralmente sonhos edificantes como tirar a roupa numa revista masculina ou virar apresentador de programa de fofocas. Ou, quem sabe, fazer carreira no cinema! Yes, yes, ohhh yes!

Mas fiquei por aqui refletindo um pouco mais sobre estas palavras que apenas ontem ouvi umas 500 vezes, no mínimo. E isso sem contar as emissoras de rádio que não ouvi, pois tirei o dia para prestigiar o Led Zepellin, que é pra nenhum radialista me encher o saco com historinhas de deputados que querem aumentar seus próprios salários.

E lembrei-me da minha colega, a professora Regina*. Ela é professora de educação infantil da rede municipal em Salvador. Sai de casa às 6 da manhã e só retorna às 6 da tarde, quando ainda terá que cuidar do marido, do filho e do planejamento das aulas para o dia seguinte. Raramente dorme antes de meia-noite. A esperança da professora é que o piso salarial de R$ 950, juntando com os caraminguás de gratificações disfarçadas sob salários, traga um pouco mais de tranquilidade ao orçamento doméstico. Não é nenhum valor assim como a módica quantia de R$ 24 mil que os deputados querem receber, mas trata-se de quase mil reais! Uma bolada! Esses professores reclamam de barriga cheia, isso sim!

Tem também o seu Ivanilton*, aposentado que, entre pagar uma fortuna para que os donos dos planos de saúde se divirtam em Miami ou se alimentar, fez a pior escolha: comer. E como castigo vai pra fila do SUS tentar marcar uma consulta com o cardiologista para o mês de Maio – se der sorte. Seu Ivan já fez um acordo com seu coração: ele não come mais torresminho e o coração segura as pontas até Maio ou Junho, por aí.

Regina e seu Ivan não são referenciais de sucesso para ninguém. Regina não vai a boates e nem tem seu nome envolvido em escândalos sexuais e conjugais; Seu Ivan bebe sua cervejinha, claro, mas não induz ninguém a consumi-la através de propagandas na TV.

Ela é apenas uma ingênua professorinha que fala bobagens do tipo “a boa leitura é importante para formar bons cidadãos”; ele é apenas mais um fardo para o sistema previdenciário e deveria "bater as botas" pra aliviar o orçamento. São desprezados pela sociedade, humilhados pelo poder público, seus trabalhos e esforços ridicularizados e são invisíveis para a “grande imprensa”. Não atraem holofotes, não são paparicados e quase ninguém torce por eles.

“Deus existe”, berrou misturando gritos e lágrimas um senil Luciano do Valle quando o Fenômeno de marketing fez seu gol graças à colaboração da zaga palmeirense. Os brasileiros comuns, que fazem seus golaços ao colocar comida na mesa todos os dias e tentam driblar vários adversários desleais como vereadores inúteis e deputados indecentes, também esperam que Deus conceda a graça da superação no seu dia a dia de guerreiros.
*estão por aí, em cada esquina, escola, ruas, bancos de praça, etc...

segunda-feira, março 09, 2009

Fé de mais não cheira bem

Devo dizer que tenho uma formação católica. Fui batizado, fiz primeira comunhão e fui crismado na igreja católica apostólica romana. Não sei se deu muito certo, pois vou à igreja apenas de vez em quando e só me confessei ao padre uma única vez.

Devo dizer também que gosto de três santos: Santo Antônio, São Francisco de Assis e do SantosFC.

Parafraseando o sombrio príncipe dos sociólogos FH, o Cardoso, eu tenho um pezinho no catolicismo; mas nem por isso concordo com o que diz o Vaticano sobre temas como homossexualismo, preservativos e eutanásia. O aborto, a meu ver, é questão bem mais complicada, pois envolve não apenas princípios religiosos. Conheço uma pessoa que se declara ateu e incrivelmente se posiciona contra o aborto por uma série de razões, menos religiosas.

Tenho lido as mais diversas opiniões sobre este caso da menina de 9 anos estuprada pelo padrasto em Pernambuco, da excomunhão dos médicos (por realizarem o aborto) e da mãe da garotinha (por autorizar o procedimento feito pelos médicos). Que a igreja católica tem saudades da idade média, que é a volta da inquisição, que a igreja é retrógrada, que já mandou muita gente pra fogueira injustamente, que a igreja abafa escândalos com padres pedófilos, que se omitiu durante o holocausto na 2ª guerra, que o Papa é isso e aquilo, etc e etc.

Com exceção das teorias conspiratórias malucas, todos têm razão com estas considerações. Além disso, a igreja católica mantém sua rígida postura mesmo diante de um caso terrível e absurdo, como este da menina em Pernambuco. Mas pensando bem, a igreja católica está sendo coerente com uma diretriz que vem defendendo há tempos. Se por um lado é revoltante, por outro não há espanto com as palavras do bispo José Cardoso Sobrinho e a resolução do Vaticano.
Todos nós já sabemos o que pensa e prega a Santa Sé sobre o aborto, o homossexualismo, a eutanásia, os preservativos. Se interfere na opinião dos fiéis? Interfere, claro. Mas tente explicar a um católico fervoroso o que foi a inquisição. Tente explicar a um fiel da Universal que o Bispo Macedo é um picareta. Tente explicar a um fiel da Renascer que o Apóstolo e a Bispa são dois bandidos. Quando tem aquela fé cega envolvida, fecham-se os olhos da razão.
E nisso de bater o tempo todo e dar tanta atenção ao que diz a igreja católica (estamos em um estado laico, a igreja não apita, ao menos oficialmente, por aqui, mesmo que quisesse entrar na justiça para impedir o aborto: a legislação brasileira permite tal procedimento se a mãe correr risco de morte e se a gravidez surgir em decorrência de estupro), esquece-se do que deveria ser a principal indagação neste caso em Pernambuco: o que está acontecendo para que tantos casos de abuso e violência sexual contra crianças surjam todos os dias no Brasil?

Ao invés de bater naquilo que já sabemos (e enquanto Chico Bento XVI estiver por lá isso não vai mudar) deveríamos nos perguntar o que vem contribuindo para que este aumento no índice de abusos e violência sexual a crianças que vem ocorrendo no Brasil. Pra mim este é o foco que não devemos perder de vista, é com isso que devemos nos indignar e não cobrar que a igreja faça isso ou aquilo, até porque ela já demonstrou que não abre mão de seus dogmas. Cobrar da justiça brasileira punições mais severas para estes violentadores e exigir que a CPI da pedofilia seja de fato relevante e não tenha o mesmo fim da CPI das ONG’s são boas pedidas, bem mais interessantes do que lançar “campanhas” para a “excomunhão” de bispos, padres, etc.

Eu mantenho minha fé em Deus sem precisar de Papas, bispos, pastores e apóstolos como “despachantes” da fé – na verdade, ninguém precisa destes despachantes, afinal o Reino de Deus não é burocrático como o inferno (leia-se repartição pública brasileira). E mantenho minha fé nos meus três santos preferidos: Santo Antônio, São Francisco de Assis e no SantosFC, que já tem um candidato a novo reizinho na Vila, o garoto Neymar, de 17 anos. Nesse eu boto fé!

sábado, março 07, 2009

Dona Neuza e o dia internacional da mulher

Hombres latinos mucho machos de Brasil: os outdoors e as homenagens em forma de propaganda nas TVs, rádios e jornais evidenciam que o dia internacional da mulher será comemorado neste domingo, dia 08 de Março. Hora de tirar uns trocadinhos da cerveja de todo o fim de semana e comprar aquele liquidificador super moderno pra patroa, não acha?

Ora, não me acusem de machismo ou insensibilidade. A saudosa revista MAD em seus bons tempos já contava essa historinha. O sujeito pergunta para a atendente de um shopping center onde é a seção de presentes, pois é o aniversário da esposa. A atendente indica as alas onde há joalherias, floriculturas e perfumarias. O cara responde que estava pensando em um liquidificador transado ( gíria antiga, axu q vc naum conhece tah ligadu?), um ferro de passar roupa moderno...um romântico incurável, não acham?

O comércio embarca nessa idéia, tão pensando o que? Uma rede de lojas aqui em Salvador anuncia grandes promoções de liquidificadores, panelas, ferro de passar e até de batedeiras com descontos a perder de vista! Eles dominam “O Segredo”. Imagina você, meu caro Manolo*, chegando no domingo com um presentão destes pra tua esposinha linda na beira da pia tratando aquele frango que, estranho, depois de descongelado encolheu...por que será?

Mas as “homenagens” ao dia internacional da mulher nos outdoors e nas propagandas de TV aqui em Salvador são ótimas. As mulheres são lindas, jovens, com cabelos revoltos ao vento, sorrisão sedutor e pernas fantásticas! “Parabéns, mulher”, estampa um outdoor gigantesco em movimentada avenida. O sorriso da modelo é tão radiante que o brilho até tirou minha atenção no trânsito e quase me envolveu numa batida!

Pena que Dona Neuza* esteja fora deste padrão de “homenagens” para este domingo. Dona Neuza é minha aluna no EJA (Educação de Jovens e Adultos) em uma escola na periferia, à noite. É negra, baixinha, gordinha, já com seus cinquentinha e trabalha na indústria têxtil. Recebe um salário mínimo – e o dono, grande empresário, reclama dos altos custos com a folha de pagamento. Esse tem saudades do chicote, tanto que na saída da fábrica, lá pelas 17:30, dona Neuza e as demais costureiras são submetidas à revista em bolsas e sacolas. Tá, é ilegal, mas sacumé, não pode dar confiança pra esse povo...
Dona Neuza chega à escola cambaleando de sono. Merenda por lá mesmo na cantina e assiste às aulas. Pega no sono às vezes, mas logo desperta. É raçuda. Já tem filho adulto e voltou a estudar depois que “o marido largou”. Maridão achava que esse negócio de mulher estudar à noite era pra “botar chifre”. Ela quer estudar pra “tirar o 2º grau e arrumar um serviço melhor”. Sonha, inclusive, com faculdade. De Artes, porque é boa em trabalhos manuais.

Hombres, não é nada contra a homenagem às mulheres lindas, loiras de seios fartos, pernas lindas e sorrisos radiantes de parar o trânsito. Amamos todas elas, não é verdade? Mas são as Donas Neuzas espalhadas por este país, excluídas, esquecidas, desprezadas, guerreiras de verdade ( viu, Pedro Bial?) que deveriam ser lembradas em outdoors, propagandas na TV, internet, revistas, jornais. E mais importante do que isso: deveriam ser lembradas e homenageadas em casa. Não precisa fazer aquela macarronada que gruda todinha no fundo da panela neste domingo, Manolo...mas dê ao menos um pouco de atenção e carinho pra tua esposa, rapaz! Ou mãe, avó, namorada, noiva, tia, sogra...não faça essa cara, a sogrinha merece!

Dona Neuza não vai ganhar um liquidificador ou uma batedeira no domingo. Mas só em não ter um hombre latino mucho macho impedindo-a de estudar e sonhar já é o melhor presente que ela poderia receber!

*Dona Neuza existe. Só o nome foi trocado. Mas você a conhece.
*Quem diabos é Manolo? Ora, Manolo é um cara comum, que você também conhece.

quinta-feira, março 05, 2009

Canalhas do CÃOgresso Nacional!

Só não digo que estamos em um circo para não ofender a boa gente que trabalha neste ramo. Sob as lonas ainda damos risadas com os palhaços, nos encantamos com os mágicos, ficamos ansiosos quando o malabarista passeia pelo ar e nos impressionamos com os animais adestrados. E as crianças adoram.

Na verdade os palhaços somos nós. Acreditamos em uma imprensa imparcial e em processos democráticos transparentes. Acreditamos que a justiça é igual para todos, sem exceção, do rico ao pobre e do branco ao negro. Acreditamos que ainda seremos uma grande nação e que os nossos políticos estão realmente preocupados em questões como saúde, educação, reforma agrária, meio ambiente e cultura.

A eleição de um facínora como Fernando Collor de Melo para um cargo importante dentro do senado demonstra claramente a que ponto chegou a canalhice neste país. É simplista demais citar o “caçador de marajás” apenas como “o presidente que sofreu impeachmente por denúncias de corrupção em seu governo”. Este canalha é um assassino, um bandido que confiscou o minguado dinheiro que as pessoas juntavam a vida inteira na caderneta de poupança ( depois ele "devolveu" a grana) o que levou muita gente à falência, à situação de penúria e até mesmo ao suicídio. Apenas este fato já seria o suficiente para que um canalha como Collor passasse um bom tempo atrás das grades ou ao menos o tornasse inelegível para sempre.

Ontem vi na TV as imagens destes dois bandidos, Collor e Renan Calheiros ( amigões de longa data) sorrindo, se cumprimentando e um monte de vagabundo dando tapinhas das costas e cumprimentando-os pela vitória. Vitória de que? Vitória da impunidade? Vitória da canalhice? Vitória dos acordões espúrios nos bastidores do Congresso, aquele antro de corrupção?

O senador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, afirmou antes do carnaval que o PMDB era um partido corrupto e que os políticos só queriam mesmo era saber disso. Em que pese a ficha do sujeito, ele apenas falou a verdade. E onde estava o ministro do STF, Gilmar Mendes, que gosta de dar palpite em tudo que envolve dinheiro público? Onde está a grande imprensa e seus grandes jornalistas, que arrotam por aí a “moralidade, a ética e a verdade” para fuçar e remexer essa história?

Collor derrotou - com a providencial ajuda da Rede Globo e da “grande imprensa” comprometida com a ética e a moralidade deste país - Lula em 1989 para a presidência da República. Tenho saudade do Lula de 1989, que se referia ao Congresso como uma casa cheia de “300 picaretas com anel de doutor”. O grande pecado do Lula presidente foi costurar acordos e dar poderes a este partido de aluguel chamado PMDB. E nisso cambada toda está de volta: Sarney, Michel Temer ( alguém conhece alguma coisa relevante que esse sujeito fez pelo Brasil nos últimos 20 anos em que é eleito e reeleito deputado?), Renan Calheiros, Fernando Collor de Melo.

Enquanto isso, nas escolas, eu nunca vi colegas professores tão desestimulados e tão desanimados com o ínicio de um ano letivo como agora. Entra ano, sai ano e os mesmos problemas de sempre, a violência de sempre, a perda de autoridade e a ajuda de custo que é chamada vergonhosamente de “salário” (e ainda há governadores pilantras que querem barrar a “fortuna” de R$ 950 como piso salarial aos professores). Mas para aumentar o salário dos deputados, já encontramos safados se pronunciando!

“Não me deixem só”. Esta foi a frase dita por um desesperado Collor antes do processo de impeachment. Como todos percebemos, o desgraçado nunca esteve sozinho.

quarta-feira, março 04, 2009

Paranóia

Encontraram-se no botequinho do Zé.

- Fala, rapaz! Que cara é essa?
- Tô desempregado. Fui mandando embora.
- Droga! Que merda, hein?
- Eu já esperava...deram aviso prévio e ontem fui lá na empresa só pra acertar o que me deviam. Eu tinha era 16 anos de empresa, imagina aí!
- Mas por que te mandaram embora? Você sempre foi um funcionário exemplar...
- Foi a crise.
- Maldita crise! Tá assim em todo o lugar!
- Mas era só questão de tempo. Eu e mais um bocado foi demitido. A matriz da empresa já tava demitindo lá nos estrangeiro. Tudo culpa da crise.
- Pô, parece que essa crise não acaba nunca...
- É, mas deixa pra lá. Fazer o que...chorar não vai adiantar. Vamo mudar de assunto: resolveu tua situação com a Verinha?
- Que nada, rapaz...ainda tô dormindo fora de casa. Crise conjugal é fogo!
- É a crise dos 7 anos de casamento, dizem.
- Sei lá. Só sei que a mulher vivia dizendo que eu mudei, eu dizia que ela também não era mais a mesma e...pronto. Entramos em crise.
- Mas tudo se ajeita, você vai ver. Essa crise passa.
- Tomara que sim. O jeito é dar tempo ao tempo, né? Quem sabe... Mas vem cá, rapaz...e o nosso time, hein? Perdeu de novo!
- Assim não dá! Se é pra continuar desse jeito é melhor nem entrar em campo! Também, aquele técnico é muito burro!
- É, o time entrou em crise e tinha que demitir o sujeito! O cara escala o Toninho no ataque e deixa o Pururuca no banco! Que absurdo!
- Quer saber? Eu acho bom que entre em crise mesmo! Pra esses dirigente aprender!
- É, mas o técnico tem que sair pra ontem, antes que aumente a crise no time!
- É!
- Rapaz, e essa violência toda hein? Mataram outro policial!
- Pra você ver como nosso país tá numa crise de segurança! Antigamente era policial que corria atrás de bandido! Hoje é bandido que corre atrás de polícia! Tá tudo mudado, tá tudo de ponta cabeça, uma crise de valores, filho não respeita pai, ninguém respeita autoridade...
- Isso! Meu irmão é professor e diz que os alunos xingam ele e os colegas direto.
- É a crise da educação.
- E sem falar na crise da saúde e na crise do meio ambiente! Só falta aparecer outra crise do petróleo!
- É, não tá fácil...o jeito é tomar uma cervejinha! Ô Zé, traz aquela, a redonda! Que? Não tem? Pô, então traz outra mesmo! Droga, que crise de azar desgraçada! Nem minha cerveja tô achando mais!
- É a crise, é a crise...

Dedicado a Miriam Big Pig

domingo, março 01, 2009

De graça? Solidariedade? Cê tá loco!

Durante um curto período trabalhei em um projeto que envolvia arte digital e educação para escolas públicas. A intenção era promover inclusão digital através de desenhos, textos, animações e vídeos, aproveitando a natural curiosidade da garotada, dos adolescentes e desenvolvendo potenciais através de mini-cursos e oficinas. Um trabalho bacana.

A equipe contava com um grupo de universitários, todos bem jovens e estudantes de cursos como design e análise de sistemas. Foram contratados como estagiários por um período de 3 meses. Eram bem falantes somente entre eles, e desconfiados e distantes com os de fora da ‘panela’.

Enquanto eu fazia uma pesquisa na internet, dois deles conversavam quase ao meu lado, numa pausa para o cafezinho. Falavam de séries enlatadas norte-americanas. Então um deles começou a contar um caso em uma escola onde ocorreu uma oficina:

- Ah, cê viu? O carinha lá queria que eu desse umas dicas pra ele no Corel Draw. É cada uma! Eu estudo pra caramba, pago a faculdade, compro livros e ainda tem quem queira dica! Ele que vá estudar, não tô na faculdade pra sair por aí dando diquinha pra qualquer um, não. Faço meu trabalho e pronto.

Eu não sou de ouvir conversa dos outros, mas o moleque falou alto, como se quisesse impressionar com sua nobre condição universitária. O sangue subiu e juro que tive vontade de virar e responder pra ele algo assim:

- Tomara que um dia tu tropeces e arrebentes a cabeça na calçada, sangrando feito um porco e pedindo ajuda até aparecer um médico, de folga e que passava por ali e diga: “Não estudei 8 anos de medicina pra dar ‘ajudazinha’pra qualquer um não. Passar bem”.

Sei lá porque eu acabei não falando isso. Talvez por ser muito covarde ou por não querer arrumar encrenca. Não que eu fosse bem mais velho que o moleque, lá pela casa dos 19, 20 anos. Eu também não estava muito distante disso aí. Me arrependo até hoje de não ter dito umas verdades pro cocôzinho universitário.

Lembrei-me dessa história porque conversava com um amigo sobre estes tempos malucos em que falar sobre “solidariedade” é quase uma babaquice, pois ainda há exceções. Mas pedir um favor, hoje, é quase uma ofensa. Um ajuda, então, é você é tratado como mendigo vagabundo. Lembro da frase magistral da Margarida em Fausto, de Goethe: “Tudo gira em torno do ouro. Pobres que somos”. Tio Patinhas, Sílvio Santos, Edir Macedo e Miriam Big Pig discordam.

Fui voluntário em um curso pré-vestibular para alunos carentes por 1 ano. Aulas quase todos os sábados, à tarde. Alguns colegas disseram que não fariam isso, pois não ganhavam nada - de fato, recebíamos apenas uma garrafinha d'água. Quando eu falei em “ganha satisfação, aquela sensação de ajudar alguém”, um desses colegas começou a rir. Ele falava mesmo era de grana e, com pena de mim, pagou a cerveja.

Uma coisa é uma grande empresa pedir um trabalho para o profissional “de graça”. É até ofensa; outra coisa é indicar caminhos, dar uma ajuda para pessoas que não tem condições, mas levam jeito e querem aprender determinado assunto ou técnica. Não é "peninha", não. As universidades estão mais para as normas da ABNT em monografias e teses das quais 98% serão arquivadas e esquecidas (mas ótimas para inflar muitos egos) do que o caráter social que elas deveriam manter.

O terrível comunista, terrorista e sanguinário comedor de criancinhas ( eu leio VEJA e fui catequizado) Che Guevara já dizia: “um dos grandes deveres da universidade é implantar suas práticas profissionais ao seio do povo”.

Que babaca! Só podia ser argentino...
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