sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Cinismo politiqueiro

Devo confessar aos meus poucos e corajosos leitores um grave defeito que eu tenho: quando eu escrevo acabo me empolgando. Seja na indignação, seja no humor, seja com crônicas simples do cotidiano, seja na análise crítica procurando aplicar um tom de bastante leveza – até porque não tenho intenção de ser um sociólogo ou um cultivador da vaidade acadêmica. Só tenho a agradecer quem tem paciência em ler estes longos textos que eu digito – e muito mal digitados, na verdade.

Eu tento conter as palavras, mas tem coisas que não dá para sintetizar em poucas linhas (ou em 120 caracteres). É porque tenho a sensação de que vivo em outro mundo ou, vai saber, em outra frequência.

Não dá pra aliviar. Vejo que foi um grande destaque nos telejornais as declarações do guardião da justiça de nosso país, o estupendo ministro do STF (Supremo Tribunal da Falcatru...digo, Federal) Gilmar Mendes, defensor dos fracos e oprimidos colarinhos brancos. O nosso grande juiz questiona o financiamento público de movimentos que cometem atos ilícitos.

Claro que ele se refere ao Movimento dos Sem Terra, o MST, que promoveu invasões durante o período de carnaval e uma destas invasões terminou em tragédia em Pernambuco.

Mas não é do MST que eu quero falar, até porque não tenho procuração para defender os sem-terra e não confio na relação entre imprensa e o movimento – tanto que o Jornal Nacional aproveitou para dedicar um bom tempo a falar da amizade do presidente Lula com o MST e José Rainha.

Minha crítica e indignação são dirigidas ao cinismo da imprensa brasileira e da cara de pau do extraordinário Gilmar Mendes. E também ao sagaz presidente do Congresso, Michel Temer e, claro, ao homem que tem amor à vida pública, o incrível José Sarney. Todos eles foram na linha do Gilmar Mendes e a imprensa só faltou chegar a um orgasmo, como o editorial lido no Jornal da Band pelo jornalista Joelmir Betting ( que estava acordado, desta vez) em nome do grupo Bandeirantes.

Se todos esses nobres personagens que tanto enobrecem o Brasil estão de acordo que a utilização de dinheiro público para financiar movimentos deve ser analisado, onde todos estes arautos da ética e da justiça estavam quando houve a CPI das ONG’s? Por que estes grandes homens não se manifestaram quando um bando de governadores canalhas tentou impedir o miserável piso de R$ 950 para os professores?

“Oh, isso não é de nossa alçada”, responderiam, rapidamente, estes homens ocupados em restabelecer a moral e a ética no Brasil. A CPI das ONGs, que descobriria muitos podres de organizações não-governamentais picaretas que recebem dinheiro público, é constantemente esvaziada, adiada, boicotada, agoniza entre papéis, burocracias e grandes acordos (seriam negociatas?) partidários. Ao invés de aumentarem a fiscalização para saber o que essas ONGs fazem com o dinheiro público, tem projeto para diminuir esta fiscalização. Talvez tal projeto seja da "alçada" dos defensores da transparência no gasto do dinheiro público.

E nestas horas onde estão os grandes moralistas Gilmar Mendes, Zé Sarney, Michel Temer, imprensa brasileira? Aliás, por que a imprensa, sempre preocupada com a informação relevante para a população, não vai fuçar esse monte de ONG picareta que tem por aí, inclusive as estrangeiras lá na Amazônia? ONGs que promovem um assistencialismo sem-vergonha, exibem a pobreza e as deficiências de uma comunidade em vitrines para “intelectuais” discutirem e o resultado é um monte de criança tocando tambor e fazendo malabarismos em semáforos pedindo esmolas para os motoristas; por que não procuram saber das relações pra lá de suspeitas com algumas "fundações" de grandes empresas? Trata-se de um excelente modo para se conseguir incentivos, isenção de impostos e uns trocados por fora! Por que não questionar o motivo daquela ONG cujo projeto social é “tirar crianças da rua através da arte” receber R$ 100 mil por ano enquanto a escola daquela comunidade recebe apenas R$ 12 mil no ano pra se virar com merenda, material escolar e didático?

Não se trata de moralismo barato. Há ONGs que realizam trabalhos sérios, relevantes para diversas comunidades, tanto como Fundações e OSCIPS ( Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público) e estas devem ser valorizadas. E seria ótimo se nossos respeitabilíssimos congressistas e ministros deixassem demagogias e politicagens de lado para realmente se preocupar com a transparência e a lisura das organizações que recebem dinheiro público para suas atividades. E a imprensa, fuçar por aí e informar, e não ficar restrita aos releases de assessorias de políticos, empresários e instituições.

Pena que escrevi demais novamente. Falta-me o talento de um...deixe-me ver, um Veríssimo, para sintetizar um assunto em poucas linhas. Mas é que certos assuntos fazem com que as palavras "saiam do controle". Acho que assim é que bom. Pra gente do naipe de Gilmar Mendes, Sarney, Temer e tantos outros, não dá pra trocar palavrinhas...só palavrões!

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Feliz 2009!

Feliz ano-novo, pessoal! Um 2009 de muitas conquistas, paz e saúde para todos nós!

Com o fim do carnaval, o ano começa agora no Brasil. Quer dizer, agora não, né...deixa pra segunda-feira, dia 02...bora emendar logo essa quinta e sexta-feira, afinal de contas o fim de semana está aí mesmo.

Bom, agora que acabou o carnaval, o povo sairá de sua alienação e apatia e voltará ao “mundo real”, ao trabalho, rumo ao desenvolvimento e ao fortalecimento da cidadania, certo? Se as extinções do carnaval e do futebol transformassem o Brasil numa Finlândia (o fetiche dos colunistas da VEJA, que há tempos foi uma revista interessante), seria fácil demais, não é mesmo? O importante é que tudo correu em paz!
MUDANÇA DO GARCIAMesmo o carnaval privatizado e descaracterizado tem seus momentos interessantes, até com crítica social, por incrível que pareça. Em Salvador existe um divertidíssimo e tradicional bloco: é o “Mudança do Garcia”, que há 60 anos ironiza os governantes, bate forte em assuntos como corrupção e a situação precária da saúde, da educação, da segurança, etc. Temas sérios tratados com muita irreverência, típica dos carnavais tradicionais. Sobra pra todo mundo, desde Bush, Lula, Obama, políticos locais (o prefeito de Salvador, que admitiu desviar dinheiro da merenda e dos remédios para o carnaval, não escapou), “cornos anônimos”, o acordo ortográfico ( boa idéia, digo, ideia) e até Ivete Sangalo com seu hit torturante “Dalila”.
Aliás, se vocês conhecerem alguma recém-nascida que recebe o nome “Dalila”, agradeça à Ivete Sangalo, Carlinhos Brown,às cantoras e cantores de axé e pagode, além das emissoras de rádio, TV, vídeos na internet, rádios on-line, foliões...as técnicas de Jim Jones e do Reverendo Moon perdem feio para o jabazão Dalila!

Nestes dias de folia em que as pautas foram completamente tomadas para notícias do tipo “Ivete diz que é a ‘toda boa’ do carnaval” ou “Claudia Leitte garante que não fez plástica” pesquei dois fatos bem interessantes:

Beyoncé deixa escapar parte do seio em apresentação no Oscar

Ou é muito desespero para se arranjar alguma pauta ou o sujeito que detectou essa “parte do seio” da moça é um taradão detalhista ao extremo ( conforme a academia de letras "Galvão Bueno"). E o jornalista e a empresa que publicaram essa relevante nota são corajosos...ou apostavam que ninguém ia ligar, afinal é carnaval e o que mais se viu por aí foi peito e bunda.

Mas a pérola maior está aqui:
Vocês podem não acreditar, mas no momento em que eu escrevia essas mal-digitadas, recebo uma ligação:
- Alô?
- Alô. De onde fala?
- Você quer falar com quem?
- É que eu queria colocar meu nome na oração.
- Ô, irmão, não é daqui não.
- Desculpe, foi engano.
- Que Deus e somente Deus te abençoe. Boa noite.
- Amém, boa noite.

É um sinal divino! O chamado do Senhor para participar do “Projeto Neemias da Reconstrução”, uma campanha da igreja Renascer para reconstruir o templo que desabou em SP. Tem até vídeo com os valores dos carnês ( depois de um discurso tocante do apóstolo, descubro que o carnê diamante é para doações acima de mil reais).

Eu aprovo esse tipo de iniciativa. E digo mais: o governo deveria ajudar neste nobre propósito com verbas do BNDES e com a diplomacia para libertar os líderes da igreja presos nos EUA, afinal o apóstolo Estevam Hernandes é um homem simples, humilde, que levou ao pé da letra aquelas palavras de Jesus, o Cristo:

“Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me”.

Tanto o apóstolo quanto a Bispa Sônia estão presos por uma manobra perversa de Satanás, afinal os dólares na Bíblia seriam distribuídos entre os pobres, da mesma forma que o haras e as fazendas do “apóstolo” seriam distribuídos ao MST para ajudar na reforma agrária, e os casacos de pele da “bispa” doados para campanhas do agasalho e as mansões e apartamentos seriam gentilmente doados para os sem-teto. Regozijai-vos, pois os humildes serão exaltados!

IMPEACHMENT JÁ!
Lula “passou uma cantada” na Suzana Vieira! Foi em um cerimonial na capital Federal onde o presidente se derramou em elogios à “atriz” – segundo versão da estonteante atriz fã de michês.
Tucanos, DEMos, Trolha de S.Paulo, VEJA e Nosferatu Serra se mobilizarão para criar uma CPI pedindo o impeachment do presidente Lula! Alegarão mau gosto do presidente, pois até o Itamar Frango pegou coisa melhor no carnaval ( aliás, cadê aquela “modelo”, hein?), sem contar que o FHC catou foi uma jornalista da Globo (e depois de nove meses viu o resultado) e o Collor simplesmente pegou a Claudia Raia! Fora, Lula!

DEU CERTO?
Como acredito mais em donas de casa e camelôs do que em dados estatísticos, economistas e secretários, parece que a Lei Seca mostrou algum resultado ao menos em Salvador. Os ambulantes vendedores de cerveja reclamam que venderam menos este ano. Quem diria, hein? Chuva e Lei Seca são apontados como prováveis causas. Miriam Big Pig aposta na crise, tenho certeza.
E, COM VOCÊS, TODA A GRAÇA, SIMPATIA E LISURA DE...
...Ivete Dalila Sangalo, é claro:

"O que é que vocês estão bebendo, seus filhos da p...? Revelação de quê? Sou revelação para o meu namorado entre quatro paredes. Faço ele gemer sem sentir dor. Sou uma mulher da porra ou não sou? Se querem me dar algo, que seja dinheiro ou cesta básica. Vocês deveriam entregar esse troféu de revelação para Mariana Assis, da banda Mina”.

Tá certo que o tal jornalista não teve simancol nenhum ( entregar prêmio revelação pra Xinguete Sangalo é coisa de bebum mesmo), mas a atitude da Piriguete Sangalo não condiz com a mulher fina que é. E nada interesseira, também: ela citou a banda "Mina" por puro altruísmo e vontade de ajudar novos artistas - nada a ver que a referida banda faz parte do "cast" de sua produtora; é coisa de quem está disposta a ajudar mesmo. Mas o destempero, vai ver, foi coisa de Dalila.

MAS QUEM É DALILA?
Eis uma boa pista:

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

A sinceridade tomando conta do país!

Mas o que está acontecendo neste país? Vejam que o negócio agora é ser sincero! Quem diria... isso é uma revolução! E tal revolução vem justamente de onde menos se esperava: de políticos e empresários!

Primeiro foi o prefeito de Salvador, João Henrique, que admitiu desviar dinheiro da merenda escolar e dos remédios que são distribuídos nos postos de saúde para investir no carnaval;

Depois foi a vez de o senador pernambucano Jarbas Vasconcelos dizer que os partidos políticos - inclusive o seu PMDB - são corruptos e que político quer mesmo é saber de corrupção;

E agora foi o presidente da FIESP, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, o Paulo Skaf, que pediu cadeia para os banqueiros agiotas!

Eu fico tocado com tanta sinceridade. De verdade. É caso até para se emocionar com o nobre serviço que estes homens vem prestando ao país. Ora, o nosso decente prefeito João apenas expôs o que muitos prefeitos fazem (principalmente do interior): tiram verbas da educação e da saúde para promover o pão e circo; O nosso vetusto senador Jarbas apenas comprovou, de forma oficial, o que todo o brasileiro “desconfiava” (não podemos duvidar da lisura de nossos políticos, não é?); e o Paulinho da FIESP? Pediu cadeia para os banqueiros. Todos, é claro. Porque no Brasil banqueiro é agiota mesmo e fim de papo.
O que eu queria ver mesmo era que essa sinceridade toda chegasse também à nossa super informada e qualificada imprensa. Principalmente àquela que se intitula “jornalismo de celebridades”, acho. Do tipo “Caras” e similares.

Na sala de espera de um consultório médico, folheei um exemplar da sempre inteligente revista “Caras”. É legal ver algumas fotos do high society: todos sorridentes e irradiando felicidade, principalmente as mulheres com quilos de maquiagem e colares discretíssimos ressaltando toda sua beleza natural, a beleza da autêntica mulher brasileira que compra na Daslu, baby!

Viro a página me deparo com uma página inteira e um casal radiante na democrática Ilha de Caras e uma chamada mais ou menos assim:

JORGINHO DE VON ROSKITA RELAXA NA ILHA DE CARAS
Empresário se rende aos encantos da ilha em companhia da namorada Martinha Mayrink

Eu fico pensando é no termo “empresário”. Empresário de que? O que mais se vê nas colunas do High Society é “empresário”. Sei lá do que, mas certamente passa uma idéia "respeitável". Adoraria saber o ramo em que atuam. Seria esclarecedor ler chamadas assim:

JORGINHO DE VON ROSKITA RELAXA EM TREMEMBÉ
Sonegador e formador de quadrilha em momento de reflexão no presídio de Tremembé

A ALEGRIA DE LETÍCIA DE ALBUQUERQUE SMITH
Socialite se diverte cumprindo pena por maus tratos à empregada com trabalho comunitário no Morro do Alemão.

Lembram do Ricardo Mansur? Não? Era – ou é, sei lá - “empresário”, figurinha carimbada na Caras e “High Society”. Um dos grandes pilantras deste país e que levou lojas como a Mesbla e o Mappin à falência em um processo de fraude gigantesca e que prejudicou muitos trabalhadores das lojas citadas, além dos clientes; Conhece Cleber Marques, o Rei do Café? Sei, você nunca ouviu falar. Mas da Ilha de Caras você já ouviu falar. Pois é. Era o dono da ilha. Esse grande empresário também era outra figurinha fácil no high society. Foi preso por sonegação de impostos, formação de quadrilha e corrupção ativa. Grandes “empresários”, homens que investem no desenvolvimento de nosso país e geram emprego para nosso povo!

Saudemos João, Jarbas e Paulo, os grandes restauradores da verdade e da moral neste país! Tudo bem que soltaram estas bombas às vésperas do carnaval e aí todo mundo esquece dos atos nobres destes homens; mas espero que sejam recompensados pela divina corte celestial! É de homens assim, que pregam a verdade, que este país precisa!

CARNAVAL
Falando em homens de bem e bens, continuo com um exemplo de cidadão que o país precisa: o grande Belo, pagodeiro, compositor e empresário (opa!) bem-sucedido no ramo de calçados. E ele estará no carnaval de Salvador!

Já adquiri meu abadá do Bloco Milenar, que trará para a avenida o grande Belo e os manos Rodriguinho e Chrigor. Tudo por uma verdadeira pechincha: 02 dias por 180 mangos! Sinceramente, é muito barato para sair no bloco que reúne grandes feras de nossa música. Acho até que deveriam cobrar mais, dada a relevância destes artistas.
Veja se não é bastante apropriado para o carnaval:

Já te avisei
Eu sou um cara
Bem comprometido
Eu te falei
Só vai rolar
Se for muito escondido...


Até 2009, pessoal! Aproveitem bastante o carnaval, à sua maneira. Juízo!

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

7 milhões de anos para evoluir...

7 milhões de anos em evolução para dar nisso aí:

Neste dia 12 de Fevereiro de 2009 comemora-se o bicentenário do nascimento do Charles Darwin. Você o conhece ou já ouviu falar: foi o naturalista inglês que apresentou uma teoria da origem e evolução das espécies bem diferente daquela de "...e Deus viu que tudo era bom e descansou no sétimo dia" - e tal teoria, apresentada em 1859, causa confusão até hoje entre os adeptos do criacionismo x darwinismo.

Mas é que lá pela metade do século XIX estava na moda contestar o Todo-Poderoso. Teve até um genial e doido filósofo que ousou afirmar "Deus está morto". Se isso hoje já causa uma polêmica, imagine lá em 1800 e pedrinha!

Voltando à conversa sobre "evolução". Além deste fato do bicentenário de Darwin, ontem assisti a uma vídeo motivacional que falava justamente como "a evolução humana é fantástica"! Sabe esses vídeos de auto-ajuda fofinhos, cheio de imagens e cenas maravilhosas,trilha sonora empolgante e narração repleta de "calor humano" ao falar de nossos progressos na medicina, nas comunicações, etc? Isso! Esse aí mesmo que você pensou!

Sempre que vejo ou leio obras com esse teor de auto-ajuda me pergunto se evoluímos realmente...

Mas perguntei ao seu Aurélio ( o porteiro aqui do prédio, gente fina!) qual a diferença entre evolução e progresso. Eis a resposta:

-Progresso é substantivo masculino e evolução é substantivo feminino, ora! Mas ambos representam a mesma idéia: desenvolvimento. Vai dizer que não sabia disso...francamente!

Bom, se o seu Aurélio falou, tá falado, embora "evolução" na biologia deva ter outra conotação, imagino. E nisso eu me lembro do professor Giovanni Sartori e seus escritos:

Em si, progredir significa apenas "ir para frente" implicando a idéia de um acréscimo. Entretanto, nem sempre é possível afirmar que tal acréscimo é necessariamente positivo. Com efeito, até a respeito de um tumor se pode dizer que está progredindo; mas, neste caso, o que aumenta é um mal, uma doença. Portanto, em muitos contextos a noção de progresso é neutra.
Este é o ponto. Não há dúvida que progredimos ou evoluímos um bocado nos últimos 7 milhões de anos. O ser humano desenvolveu a fala e a escrita, as moradias, os transportes, a cultura, a ciência, as tecnologias, o rock n' roll... tudo muito bonito, tudo muito fantástico, tudo muito impressionante - e é, de fato, seja lá em que você acredite ( em Adão e Eva ou Darwin ou na cientologia do Tom Cruzes). Mas será que não destacamos demais o progresso ou evolução da técnica e das máquinas em detrimento à evolução humana - e digo humana considerando que somos seres inteligentes, emotivos, artísticos,etc?

É inadimíssivel que tenhamos, em pleno século XXI, neonazistas espalhados por aí ( inclusive no Brasil, que conseguiu um feito: só aqui pra ter neonazista "moreninho"), pessoas que literalmente jogam os filhos recém-nascidos no lixo, trotes universitários imbecis e violentos e "esfrega a xana no asfalto". já citei aqui um livrinho que mostra "a real" do nosso lindo planetinha, chamado "Planeta Favela", de Mike Davis. É ler e repensar a trajetória humana nestes 7 milhões de anos em evolução.

O sonho do homem no período da Revolução Industrial, que era ter máquinas trabalhando enquanto ele, homem, dedicava-se às atividades relacionadas ao lazer e à cultura, foi por água abaixo, pelo visto. Até que ponto nos deixamos "escravizar" pelas máquinas e até que ponto nos "desumanizamos"? Exemplo: celular hoje é necessário, mas qual o grau de importância damos a este aparelho ( e olhe que vivemos milhares de anos sem ele)? A internet é genial, pois dentre outras vantagens há a possibilidade de publicarmos nossas idéias ( como faz este Zé Mané com este blog); mas a grande rede também pode facilitar o acesso à pedofilia, exploração sexual, grupos violentos, dentre outras bizarrices. Progride-se de um lado (a técnica), regride-se de outro ( as relações humanas).

Algumas cidades brasileiras (menos Buenos Aires) irão homenagear Charles Darwin. Curioso, pois Darwin passou um período no Brasil e não foi de muitas amizades, não...na verdade, nosso Charlie gostou mais das rãs e borboletas do que das pessoas e cidades brasileiras - Rio, Salvador e Recife. E detonou o carnaval ( sim, meus caros, carnaval não é invenção da Globo,não). Claro que o interesse de Darwin era mesmo a natureza, mas não precisava desancar: "A cidade é repugnante em toda parte, com suas ruas estreitas, mal pavimentadas e imundas", escreveu sobre Recife. Não precisava, Charlie...

E por falar em evolução, dizem que os seguidores da cientologia são mais inteligentes que os "simples mortais". Realmente, pelo exemplo de nuestro hermano Tom Cruise, percebe-se isso.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Fábula de hoje: O castelinho

28 - 40 - 42 - 54 - 55 – 57. Assim não dá. Vai ter sorte assim sei lá onde! Acertar esta sequência aí não é pra qualquer um, tem que ter muita sorte. Nem sei porque insisto em loteria, já que nem rifa de liquidificador usado eu ganhei. Mas ao menos acertei o 28, o que já é alguma coisa pra quem não acertava um número sequer. Se eu fosse o João Alves, acertaria fácil, fácil na loteria. E nem precisava ser 200 vezes.

Por falar em João Alves, loteria, dinheiro, sorte, tenho aqui uma fábula muito bonita que eu gostaria de compartilhar com vocês. Chamem as crianças, coloque-as na frente do computador ou, melhor ainda, imprima esta fábula e leve a garotada para um parque ou jardim. Leia em voz alta.

O CASTELO*
Era uma vez, em um distante reino chamado Zilbra, um casal muito pobre que teve oito filhos. Um desses filhos era o pequeno Dimarzinho, que se destacava dos demais irmãos graças à sua coragem e inteligência.

Um dia a família de Dimarzinho fez uma longa viagem cruzando boa parte do reino até chegar ao mar. Dimarzinho ficou encantado com a imensidão do mar, mas gostou mesmo foi de brincar na areia, onde construiu vários castelinhos.

- Um dia terei meu próprio castelo, bem grande!, disse o Dimarzinho.

Já crescido e agora conhecido como Dimar, conseguiu ingressar nas forças de segurança da província General Mines e chegou rapidamente ao posto de capitão. O capitão Dimar era louvado por defender as nobres donzelas da província dos mais terríveis vilões e monstros, não poupando esforços e homens da guarda para correr em auxílio das nobres quando estavam em perigo. Foi assim que conheceu e casou-se com a encantadora e humilde Jujuzinha.

Dimar resolveu respirar novos ares e mudou-se para a província de Saint Paul, a mais rica do reino, a terra das oportunidades. E graças à sua inteligência, ao seu cuidado em escolher somente as boas companhias selecionando amigos corretos e confiáveis e demonstrando habilidade em cálculos e leis, tornou-se milionário!

Mas isso era pouco para Dimar. Sempre ao lado de figuras honestas e de caráter acima de qualquer suspeita, tornou-se membro do Legislativo de St.Paul, cargo de alta importância. Sua habilidade e principalmente a retidão em lidar com as finanças dos serviçais e aposentados da província tornaram-no querido em seu círculo de amizades.

Mesmo milionário e muito bem conceituado na sociedade, Dimar andava infeliz. Faltava alguma coisa em sua vida. Precisava de algo grande, que o tornasse reconhecido em todo o reino. Então a encantadora e humilde Jujuzinha sugeriu:

- Benhê, faz um castelo pra mim, faz...

Dimar lembrou-se de sua infância, naquele dia na praia, onde jurara que iria construir um castelo, bem grande. Era um sinal do destino! A hora chegou: teria um castelo, bem grande, imponente, onde iria abrigar sua encantadora e humilde esposa e filhos.

E construiu. Com muita luta e suor, estava erguido o maior e mais luxuoso castelo do reino. Não havia outro castelo que rivalizasse ao castelo de Dimar e Jujuzinha. Seus amigos queriam dar-lhe a coroa da província e até do reino. Mantendo sua inabalável humildade, recusou. Mas em uma prova de generosidade e de amor, deu o castelo de presente ao seu filho, o príncipe Leozinho, que já segue os caminhos do pai e é também membro do Legislativo na província de General Mines.

E assim viviam felizes Dimar e toda sua família em um lindo castelo com jardim e 32 suítes! Esta fábula poderia chegar ao fim com o bordão “e viveram felizes para sempre” se não fosse a visita da bruxa malvada, que lançou um terrível feitiço e transformou o nobre Dimar em Edmar Batista Moreira, o DEMônio.


* Não é o do Kafka, mas teve agrimensor para ajudar na construção. E ninguém entra.

Bem, é isso aí, pessoal. Gostaram da fábula de hoje? Acho que é muito didática para as crianças e jovens de nosso país, afinal “o segredo” é fazer tudo... em segredo, ora! Essa historinha não termina aqui. Qual será o destino do pobre Dimarzinho, transformado em DEMo pela bruxa má? Acompanhe nas páginas...policiais.

sábado, fevereiro 07, 2009

Devaneios na lotérica ( Yes! I can...be a rich man!)

Entreouvindo na fila da lotérica (ora, também faço uma fezinha, porque sou brasileiro e não desisto nunca – e dou uns trocados a mais pro governo. Talvez pra um deputado desviar e construir um castelo medieval em Minas Gerais. Sei o que deve estar pensando. Um otário, eu. Deixa pra lá):

- Minina, ainda bem que segunda-feira já começa as aula.
- Minha filha, eu já num güento mais esses minino em casa! Toda a hora quer isso, quer aquilo, num tenho sussego! Graças a Deus que vão tudo pra escola!
- Oxe, num é o quê! Mas vem cá: tu viu o bafafá lá na casa de Vânia? Minina...

Não quis bisbilhotar o caso da Vânia e pensei no que a ‘cumadi’ falou sobre a volta às aulas. Eu acho interessante este período. Muitos pais levantam as mãos para os céus – afinal eles terão ‘um pouco de sossego’, o governo faz sua propaganda básica de que está investindo em educação e tome lá uma cacetada de números e dados que ninguém se interessa ( e nem entende direito), a imprensa faz suas reportagens de sempre sobre a “volta às aulas”: pesquise antes de comprar o material escolar, o que vai na lancheira da criançada, como fazer para acordar a galerinha logo pela manhã cedinho, crianças dizendo que vão sentir saudades das férias, o que fazer no primeiro dia de escola, etc e etc.

Ou seja, tudo completo, tudo certinho. Belo trabalho de informação.

Ah é, tem só dois detalhezinhos à toa, quase insignificantes: os professores e a condição das escolas. Besteira, detalhes, não precisamos perder tempo com essas coisas...

É mais do mesmo. Na Segunda-feira as aulas começam em parte das escolas em Salvador. E começam com os mesmos problemas de sempre: a grande maioria das escolas com infra-estrutura precária, materiais e condições de trabalho escassas, professores recebendo as turmas e já antecipando “o tamanho da encrenca” em salas abarrotadas com 45 alunos e todos eles com histórias diversas de vida, com sonhos, com dramas, problemas, esperanças e desilusões. Ser professor principalmente em escola pública na periferia das grandes cidades é algo heróico – e professores não querem honrarias e gratificações, querem dignidade para trabalhar, pelo menos.

Durante o ano letivo nas escolas é “projeto” pra tudo quanto é lado: cidadania, direitos humanos, educação ambiental, educação no trânsito, consciência negra, sexualidade, higiene e mais um bocado de temas e sub-temas. E na sala dos professores é um tal de conversa, planeja, faz reunião, briga, impõe, cede, justifica, flexibiliza, escolhe, não escolhe, vota, não vota...

Nada contra projetos interdisciplinares; o problema é que muitos destes projetos pretendem ensinar aos alunos – e estou falando de ensino fundamental I, o velho primário da 1ª a 4ª série - que eles devem lavar as mãos antes das refeições, que para atravessar a rua é preciso olhar para os dois lados, que o sinal vermelho significa PARE, que não devemos jogar lixo na rua, que devemos tratar os outros com respeito...

Ops...! Sentiu algo familiar? Deixa eu perguntar de novo: sentiu algo familiar?

É certo que o perfil de família vem mudando no Brasil. “Mães solteiras” tem aos montes. Mas é preciso entender que filhos trazem responsabilidades – e quem deve assumi-las é a mãe ou o pai. Melhor se ambos, na verdade é o ideal. Não é a professora que deveria ensinar a criança a lavar as mãos antes de comer ou como atravessar uma rua. Mas perdura a lógica do "não tem quem ensine, então vai lá, profe!". Como é mesmo aquele jargão do Bombril?

Não, não sou radical e nem insensível à problemática social que atinge muitas famílias e mães solteiras sobretudo na periferia. Tal descaso com a educação dos filhos acontece também na fodona classe média – e aí é pior ainda, porque o casal precisa trabalhar feito burro de carga o ano inteiro para trocar de carro no final do ano ou viajar para Nova Iorque ou Miami ( e matar o vizinho de inveja, essa é a melhor parte!) . E quanto ao filho ou filha? Deixa lá na escola – particular e cara - que os professores se viram. Vínculos afetivos, referências familiares? Bota Shrek ou A Era do Gelo lá no DVD, Maria! E depois sirva o jantar, mas uma saladinha light, bem magra, porque estou agora na Dieta da Lua Cheia!

Lamento pelas cumadres na fila da lotérica que referem-se à escola apenas como “depósito” de crianças. Infelizmente muitos pais também pensam assim. Professores assumem responsabilidades e papéis que não são pertinentes à sua função e...

- Próximo da fila!
- Opa, bom dia. Faz esses dois jogos, por favor.
- Num quer entrar no bolão, não?
- Não. Agora, vai! Sonhei com esses números!
- Boa sorte...
- Com toda essa "vibração positiva" em suas palavras, ainda bem que sonhei com os números!
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