sábado, janeiro 31, 2009

Tá velho mas tá pago!

Com um calor de rachar em um carrinho popular sem ar-condicionado, ao menos os Beach Boys eram companhia agradável neste trânsito maluco da São Salvador de Todos os Santos. Apesar de rolar “Fun fun fun” no cd, eu não tinha motivos para me alegrar: acabara de doar para o governo a bagatela de 400 mangos no pagamento do famigerado IPVA ( quer saber pra que serve o IPVA ao menos teoricamente? Clique AQUI).

Guiava meu teco-teco pelas ruas e pensava nos custos para se manter um carrinho. É muito dinheiro. Só de impostos e licenciamento, é uma pequena fortuna. Gasolina, então, nem se fala. Dizem que um cara inventou um carro movido à água e desapareceu. Os chefões do cartel do combustível deram fim nele. Adoro essas teorias conspiratórias de boteco!
E graças à eficiente segurança pública que temos, um seguro é fundamental. Se o dinheiro não der, o jeito é botar um alarme que só faz barulho (até hoje não sei a utilidade desses alarmes). Talvez uma trava. Correntes e cadeados na direção. Ou então o santinho de São Cristovão no vidro do carro. E é bom pedir ao santo uma forcinha pro carro não pifar - e aí é hora de lidar com mecânicos e peças. Tende piedade, São Cristovão!

Eu cantarolava “Help me Rhonda” (meu carro é Fiat da P...) trafegando por uma rua tranquila quando me deparo com uma verdadeira pérola: um Chevette, de cor bege, caindo aos pedaços, todo detonado. Devia ser ano 77 ou 79 . Mas andava, sabe lá Henry Ford como! Há quanto tempo não via um Chevette! O que me chamou a atenção mesmo foi o letreiro pintado à mão na lataria do carro, na parte traseira (onde deveria existir um pára-choque):
Até agora esta foi a melhor frase que li em adesivos ou letreiros em carros neste ano. Deve ser até antiga, mas é a primeira vez que eu vi. Gosto de prestar atenção nesses adesivos e letreiros que o povo cola nos seus automóveis. A maior parte não tem graça: “Jesus é meu guia”, “dirigido por mim, guiado por Deus”, “Coração apaixonado”, “Quer emagrecer? Pergunte-me como” e mais um monte de outras frases nada originais, isso sem contar nas bandeirinhas de países europeus (geralmente Espanha e Portugal) para o dono mostrar que tem "descendência européia, seus pobres tupiniquins" ( um dia escrevo sobre isso). Que saudade dos pára-choques de caminhão!

O que eu achei mais sensacional em “Tá velho mas tá pago” ( ele não paga IPVA – carros com mais de 20 anos de uso estão isentos) foi o debochado recadinho a uns novos-ricos que circulam pela cidade com seus possantes carros 0km e não tem nem onde cair duro. Não sei se o dono do Chevette lê jornal, mas eu leio e estava lá: Inadimplência em compra de carros é a maior da história.

Para Miriam Big Pig até os furos nas calçolas são culpa da apocalíptica e devastadora crise. Mas e se o fulano compromete metade do salário num financiamento de uns 72 meses para comprar um carro zero? Claro, as taxas de juros, mas e a taxa de simancol do fulano pra não se meter em dívidas e mais dívidas? É que estou pensando no vizinho do terceiro andar e você deve conhecer algum assim: o cara todo mês atrasa o condomínio, mas o carro na garagem é zero, novinho. E tem ar condicionado, vidros elétricos, umas rodas invocadas e,é claro, tem som potente pro mané mostrar para todo mundo seu excelente gosto musical. O síndico já tá de olho no sujeito.

Já faz certo tempo que li uma frase interessante, não me lembro onde: "carro não serve para fazer você chegar a algum lugar; carro serve para mostrar onde você chegou". Tem lógica. Vejo umas pick-ups enormes por aqui ( em Salvador, a cidade onde as ruas são estreitas e lá do tempo do rei) e sempre faço a mesma pergunta: “pra que diabos esse cara quer um carro deste tamanho?”. É, pode ser isso aí mesmo que você pensou.

Passei o velho Chevette, dei um toque de buzina, e o motorista retribuiu. Não vi a cara do sujeito e nem me interessava. O carro, detonado e já nas últimas, tornara-se simpático, até. Talvez o dono queira um carro mais novo; talvez ele queira mesmo reformar o Chevette, todinho. Vai saber. Enquanto isso os Beach Boys tocavam “Wouldn’t it be nice”, que inspirou o jingle para uma propaganda de conhecida pick up – por "apenas" o custo de uma casa, com juros “camaradas” e planos de até 100 meses para pagar!

Sei não...daqui a algum tempo, acho que serei eu a estampar no meu carrinho um “tá velho mas tá pago”.

terça-feira, janeiro 27, 2009

Em tempos de crise, a indústria pornô continua ereta!

Em minha busca por setores que não foram afetados pela apocalíptica e monstruosa crise mundial – a indústria bélica faturou mais de 3 trilhões no ano passado – encontrei um setor que aparentemente está a salvo dos tentáculos da besta: a indústria pornô!

É que acabo de ler esta notícia: Produtora pornô abre inscrições para atores e atrizes. O mundo inteiro sofrendo com o desemprego em massa, mas pelo jeito o setor pornô está por cima!

E já tem mais de 2 mil inscritos. Os selecionados atuarão com gente que entende do assunto, como Carol Miranda e Júlia Paes!

Comecei a viajar por aqui. Não com as beldades e tampouco porque eu queira me inscrever para tentar a vida no ramo pornô - até porque prefiro exercitar meus dotes artísticos em outras áreas. Eu comecei a viajar nos testes de seleção que devem ser feitos com os candidatos:

- Próximo! Currículo!
- Tá aqui!
- Mede aí...18 cms? Desculpe, precisamos de experiência maior. Próximo!

Ah, deve ter o famoso “teste do sofá” com o diretor, com o produtor, com os atores, com o cenografista, com o câmera, com o faxineiro do estúdio...

- Bem, minha querida...vamos fazer um teste, agora...
- Uai, moço, é só falar! Eu sei dançá, sei cantá, sei interrrpretá...eu fiz teatro na escola, ganhei até prêmio de melhó atriz na 4ª série, então sei que posso fazer um bom papel no firme!
- Ô, minha filha, você deve mostrar é outros talentos...vem cá pra eu te explicar melhor...

A qualificação profissional, neste ramo, é muito importante, ao contrário do que as pessoas pensam. Conhecimento em línguas, por exemplo. Língua, no ramo pornô, é fundamental!

- Minha filha, nossa produtora é internacional. Então quero que você leia esse texto em inglês, ok? Vai lá.
- Oh yes. Oh yes, fuck me. Yes. Yes. Oh yes. Yes! Oh yeah, fuck me! Fuck! Fuck! Oh, yes! Yes! Yes! Oh yes! Fuck! Fuck! Yes yes yes!
- Excelente! Está contratada!

É um setor que tem público cativo e rende muito bem. Em torno de 250 milhões de pessoas contribuem para lucros na casa de US$ 60 bilhões ao ano. Até 2007 havia 260 milhões de páginas pornôs na internet. Tem de tudo para todos os gostos e é só acessar, relaxar e gozar.

Bom, esses números fazem a festa das produtoras, mas e as atrizes pornôs? Será que compensa financeiramente? As meninas do pornô brazuca ganham R$ 500 por cada cena de sexo ( e esse dado já tem um certo tempo). As produtoras dos EUA pagam 6 vezes mais. Muitas meninas preferem largar as boates, os bicos que pegam aqui e ali como modelos, deixam as calçadas e até os gramados de futebol para dar duro na indústria pornográfica.

Acho que o caso mais curioso é o fenômeno das celebridades de segunda e terceira linha, do tipo Rita Cadilac, Alexandre Frota, Leila Lopes, Gretchen, Carol Miranda, Vivi Fernandes, Regininha Poltergeist e tantas e tantos outros “ex-famosos” que resolvem largar a vidinha obscura de ex-globais e se introduzem com gosto na indústria pornô. Ah, a fama, o dinheiro, o "sucesso"...um dia tudo isso acaba! Depois é só "virar evangélica" e pronto! Assim limpa a barra perante o "grande público".

Pode parece até papo careta, de tiozinho, mas quando vejo ( yes! Oh yes!) essas meninas todas fazendo mil e uma peripécias diante de uma câmera, penso logo na família das garotas. O pai, por exemplo. Será que aceitou numa boa? Como ele lida com alguns comentários? E a mãe?

Sei não, mas do jeito que estão as coisas, é bem possível que aconteça algo assim:

- Paiê, vou fazer um ensaio pra Hard Sex Machine Magazine
- Ensaio? Que ensaio, minha filha?
- Tipo, vou posar nua, papai, num estilo mais hard.
- E quanto vão pagar?
- Ah, sei lá, acho que trezentos reais.
- De jeito nenhum! Filha minha não tira a roupa por uma mixaria dessas!
- Ahhhh, paiê, é que a editora tipo assim também atua no segmento de filmes, sabe? Então, eles me falaram que se gostarem do meu ensaio eu posso virar atriz!
- Peraí, que tipo de filmes?
- Ah, pai, tipo assim, é pornô, né? O dono lá me disse que eu poderia ser escalada num filme de orgia bi hardcore. Mas é pro exterior, né? Então é pornô chique, internacional, é outro nível! A Roxxxana Blow Cat faturou ano passado 100 mil reais só num filme!
- Minha filha, me dá um abraço! Boa sorte!Vou rezar para que você faça um bom ensaio e consiga esse papel! Mostra pra eles do que você é capaz!

É mole?

sexta-feira, janeiro 23, 2009

A sociedade da informação!

Sei lá...sabem que a cada dia venho perdendo a esperança nessa conversa de "mundo melhor"? “Lá vem outro texto pessimista e amargo! Ah, chega de ler essas coisas. Fui!”.

Não, não se incomode e nem precisa justificar nada. Obrigado pela visita e espero que volte outras vezes, afinal tenho lá meus momentos mais otimistas. Mas é que sou um homem que vive no século XXI, em um período que dizem se chamar “sociedade da informação”. E, mesmo que eu tente evitar ou selecionar o máximo possível, recebo uma tonelada de informações todos os dias.

E as informações são ótimas e de grande utilidade. Um das melhores, e em destaque considerável no site de notícias, me informa que Rogornaldo Fenômeno de marketing cortou o cabelo por R$ 15. Cortou, não: reduziu o volume. Não é sensacional? Certamente é o tipo de informação que agrega conteúdo e conhecimento.

Rolo a tela – não é interessante? Até pouco tempo seria “viro a página”; hoje é rolo a tela, clico no link, etc. Onde estava? Ah, sim: então, rolo a tela e lá está outro destaque, desta vez acompanhada com uma foto enorme: “Priscilla convida Emanuel para dormir com ela na primeira noite”. Outra informação útil, mesmo que eu não faça idéia de quem sejam Priscilla e Emanuel. Depois vejo que é coisa do BBB9. Ah, agora sim. Entendi perfeitamente!

Opa! Leio algo interessante agora: Super Obama já começa a planejar com autoridades militares a retirada de tropas estadunidenses do Iraque. Bacana. Já é um grande passo em busca da paz.

Paz, eu disse? Sei não...recebi um e-mail de um colega dizendo que existem hoje no mundo mais de 100 guerras e conflitos entre nações. Seria um exagero deste colega? “Puxei pela memória” e me lembro de alguns conflitos ou guerras ao redor do mundo.

Só na África os conflitos e guerras são numerosos. Acho que nem dá para contar. Lembro-me de cara da Nigéria, que tem briga entre cristãos x muçulmanos que se arrasta há anos; Darfur, no Sudão, foi até tema (bem oportunista, como sempre) da VEJA; tem ainda a Somália, Ruanda e Burundi (esses eu bebi na fonte da internet) e mais um monte de conflitos e guerras tribais pelo continente.

No Oriente Médio, nem se fala, também. Israel/EUA x Palestinos é apenas mais um e o mais famoso. E que tal a postura do Iraque e Turquia em relação aos curdos? E ainda tem os afegãos que sofrem nas mãos do Taleban e dos EUA!

E a agora global Índia ( preparem-se: teremos uma "invasão cultural” de Índia por aqui. Lembram-se de “O clone”, com quase todo mundo falando “Ichi Alá” e a dança do ventre? Pois é, podem esperar por expressões, danças e moda from Índia!) sempre em confronto com o Paquistão por causa da Caxemira; vira e mexe a Espanha tem problemas com o ETA; a Rússia sempre às voltas com alguma parte da ex-União Soviética querendo a independência; e a Sérvia às voltas com Kosovo.
Mundo tranqüilo, hein? Ah, o trema? Deixa ele aí, até 2012, mais ou menos.

Sabem, começo a achar que tem razão mesmo uma considerável parte dos leitores do jornal A TARDE, de Salvador. Uma olhada no site do jornal e vejo que as notícias mais lidas no dia 22 de Janeiro são estas:
Nasce o filho de Cláudia Leitte
Primeira noite de Claudia Leitte como mamãe foi movimentada
Filho de Cláudia Leitte chega ao quarto e mama pela primeira vez


Acho que o melhor mesmo é acompanhar o corte do cabelo do Rogornaldo, as notícias empolgantes do BBB e o nascimento do filho de uma cantora de axé. São bem mais úteis que informações descartáveis sobre conflitos mundiais na África, Oriente Médio, Europa, América.

Pelo menos, todo mundo comenta e dá para passar o tempo na fila do banco, no boteco, na padaria...e eu não me sinto deslocado. Afinal, o corte de cabelo do Rogornaldo Fenômeno de marketing merece mais destaque do que Dafur e o Burundi. Burundi? O que é isso?

terça-feira, janeiro 20, 2009

A fé

Como se diz por aí, quem tem fé, tem tudo.

Fé em Deus, fé em políticos, fé nos milagres, fé no atacante perna de pau que uma hora desencanta, fé no amigo que vai te pagar aquele dinheiro emprestado, fé naquele partido político que era de esquerda...

Estou aqui com dois exemplos dos quais só a fé, misteriosa, pode explicar.

A posse do Obama é um espetáculo da fé – de todo o mundo, na verdade, e não apenas dos estadunidenses ( ou ao menos de boa parte deles). É como se todos os anseios de todos os povos fossem canalizados em um homem alçado ã condição de semi-deus. Super Obama vai retirar as tropas do Iraque. Super Obama vai dar um jeito na economia. Super Obama vai conseguir a paz entre israelenses e palestinos. Super Obama terá um olhar diferente para a África. Super Obama acabará com o embargo à Cuba. Super Obama dividirá as águas do Mar Vermelho e conduzirá o povo à terra prometida.

Eu tenho fé que Obama faça um governo bem diferente do terrorista George Bush - e tenho fé que este sujeito se isole no seu rancho no Texas e dedique-se à criação de asininos, animais dos quais ele tem muita afinidade. Se nosso brother Barack fizer isso, já está bom. Veja que minha fé é modesta...

Já o outro tipo de fé é bem mais difícil de explicar. O desabamento do teto de uma igreja Renascer em São Paulo merece todas as investigações para que se apurem as responsabilidades (sejam da igreja, da prefeitura de São Paulo, do CREA, sejam lá de quem for) e que a justiça – dos homens – seja feita, afinal foram 9 mortos e vários feridos.

Surpreendentemente, a igreja Renascer está falando em “milagre”. Sim, “milagre” pelo fato da igreja não estar lotada, o que configuraria uma tragédia ainda maior. Como é mesmo aquela frase? “Dos males, o menor”...ou o "menos pior", vai saber. Os pastores da igreja continuam suas atividades normais e dizem que a morte de 9 pessoas aconteceu “porque Deus sabe o que faz”.

Mas quando os líderes da igreja são presos nos EUA por contrabando e conspiração, aí não é com Deus, e sim com Satanás.

Satanás, por falar nele, está “criando mentiras sobre o desabamento”. E possivelmente este blog e tantos outros que se prestem a falar sobre as investigações que devem sim ocorrer na igreja estejam sendo escritos por Satanás. Repórteres da Globo tiveram seu trabalho impedido. Como sabem, a Globo é o diabo!
Mas, como o Senhor é misericordioso, o troféu que o jogador Kaká ganhou como o "melhor do mundo" em 2007 não estava na igreja. Deus sabe mesmo o que faz.

Fé é o mesmo que confiança, segundo o Aurélio ( o porteiro aqui do prédio, seu Aurélio. Gente fina!). Dá pra confiar no Obama? Quem sabe? É esperar pra ver. As expectativas são grandes. A fé, neste caso, ainda se sustenta pela esperança e pelo desejo de ver um mundo diferente, apesar de que é preciso ter muita fé para depositar em políticos.

E na igreja Renascer e seus líderes, dá pra confiar? Não estou envolvendo o divino, mas ter fé em uma instituição que utiliza a palavra de Deus e os (belos) ensinamentos de Jesus Cristo ao mesmo passo em que seus líderes estão presos nos EUA por contrabando e ainda responderão, no Brasil, por crimes como lavagem de dinheiro, ocultação de bens, formação de quadrilha e estelionato chega a ser um exagero...tanto quanto considerar o "apóstolo" Estevam como pai ( tem orkut? Dá uma olhada nessa pérola). Mas não é só a Renascer, não. O que tem de igreja por aí enrolada mas defendida a "unhas e dentes" pelos fiéis nem se conta!

E a fé se materializa:



Bem, eu tenho fé de que você, ao ler estas mal-digitadas, não procure agir como um radical KKK e nem me mande pro inferno...aqui é só um blog acompanhado por 3 ou 4 leitores, calma...tenha fé, um dia eu canso desse negócio e deixo a blogosfera com um chato a menos!

domingo, janeiro 18, 2009

Adeus, quartinho...agora, é a cozinha da empregada!


Salvador vive um “boom” imobiliário. Para onde quer que se olhe, lá está um prédio residencial sendo erguido. Os prédios tem nomes pomposos – Le Parc Residential Resort, Green Park Residence, Manhattan Square Residence, Garibald Park, Salvador Prime, L’Atellier Residencial, Bye bye Bush Fuck you, good luck Obama e outros nomes ótimos para se conversar ao telefone:

- E onde fica, senhor?
- Manhattan Square Residence.
- Queira repetir, senhor?
- Manhattan Square Residence!
- Confirme, por favor: Mãe Ratan...
- Manhattan. M-a-n-h-a-t-t-a-n...

E o conceito destes novos edifícios residenciais é que eles possuem “área de lazer com 300 itens para você e sua família blá-blá-blá”. Deve ser bacana pro sujeito que adquire um apartamento nestes prédios constatar que aquele quiosque da “área da lazer” é bem maior que a sua sala. Pensando bem, é maior que o apartamento em si. E ainda tem que pagar uma taxa de condomínio altíssima para desfrutar deste quiosque ou, melhor ainda, do “espaço fitness”, com 2 bicicletas ergométricas disputadas a tapa por sei lá quantas famílias!

Mas aproveitando que eu não tinha mais o que fazer (todo mundo precisa ter seus momentos "vagais", ora!), fui passear pelos estandes de alguns empreendimentos residenciais que estão em construção. Só aqui perto de casa tem uns 4 prédios sendo construídos. Como olhar não paga nada (ainda) e sempre rola um cafezinho ou um chá "de grátis", fui ver.

Eu sei lá se isso é tendência ou economia de material ou “otimização de espaços” ( fala a verdade, essa foi sensacional!), mas pelo jeito o padrão é morar em cubículos com 55 a 65 metros quadrados. Pequenos, apertados... mas geralmente os arquitetos capricham na sala e as decoradoras conseguem convencer que uma família com 5 filhos consegue viver numa boa naquele cubículo.

Bom, dependendo da construtora, vemos salas maiores, outras menores, varandas espaçosas, varandas gourmet ( ô nomezinho!)...só que uma coisa todos os apartamentos, independente da construtora, tem em comum: a cozinha é um pequeno e estreito corredor!

Não sei onde foi que eu li, há algum tempo, que essas novas cozinhas em apartamentos residenciais não passam de uma espécie de "senzala moderna", um prolongamento do famigerado e minúsculo “quartinho da empregada”.

E realmente fiquei com essa impressão: quem projetou essa cozinha pensou em uma empregada doméstica, e não na dona da casa. Lembrei-me, de certa forma, do livro “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre.

A cozinha é para os empregados, para os escravos. As senhoras apenas passam por lá para conferir o serviço, quando muito. Repare as novelas da Globo ( é, é isso mesmo: novela da plim-plim!) com o “núcleo rico” e veja se as madames vão para a cozinha. Não é fantasia. Apenas reflete uma herança arquitetônica e até mesmo cultural, algo que vem desde o Brasil colonial e que perdura até hoje na elite e classe média alta ( e até baixa).

Isso pode parecer birra deste chato, mas descubro que o senador Cristovam Buarque tem um projeto que pretende ampliar a área de dependência da empregada, sob pena do empreendimento não conseguir liberação. Eis algo interessante de se acompanhar em Brasília. Lembram da polêmica dos "elevadores sociais e de serviço"?

Deixei os estandes destes apartamentos com essas reflexões. E lembrei-me das cozinhas de minhas avós: amplas, com bancos onde todos sentavam e jogavam conversa fora ao delicioso aroma de um café sendo preparado pela própria avó no fogão de lenha. Até senti o cheirinho agora, só em lembrar!

Mas é esquecer isso e adatar-se aos tempos mudernos, ao pogresso!
- Arranjou emprego, foi? Que bom! Onde é?
- É no Mãe Rata Super Residenci. Acho que é um restaurante, porque o homem perguntou se eu sei cozinhar...

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Investir no que mata, desprezar o que salva

Antes de tudo, alguém poderia me explicar por que eu, morador da cidade do Salvador, estado da Bahia, me deparo com propagandas da SABESP (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) na TV Globo, em chamado “horário nobre”? E, se é em rede nacional, o que um morador do Maranhão ou de Goiás tem a ver com a companhia de águas do estado de SP?

Esta propaganda, se exibida em rede nacional, deve ter custado um bom dinheiro para o estado paulista. Mas falando em dinheiro, acabo de ver nos telejornais - com muita ênfase, aliás - que os índices de mortalidade infantil no Brasil aumentaram. Não vou incluir aqui as complicadas estatísticas, até porque não é todo mundo que tem estômago pra analisá-las.

Como de praxe, o Ministério da Saúde contestou os dados apresentados pela UNICEF, na África do Sul. Mas desta vez o Ministério da Saúde não está sozinho: a própria UNICEF-Brasil contestou os dados. Entendeu alguma coisa? Pois é. O próprio órgão das Nações Unidas reconhece que a situação da mortalidade infantil no Brasil vem melhorando desde 1990. Neste ano, a taxa era de mortalidade de menores de um ano era de 49 para cada 100 nascimentos; hoje é de 20 para cada 100. Embora ainda seja alta, houve uma redução significativa.

Reduzir a mortalidade infantil é uma das metas dos 8 itens assumidos por 191 estados-membros das Nações Unidas até 2015. Acesse a página do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e surpreenda-se: o Brasil avançou, até agora, 100% nesta meta. Quem disse que este blog só traz notícia ruim?

Se houve avanços desde 1990, então é não deixar a peteca cair. É investir mais – principalmente em infra-estrutura sanitária, que está intimamente relacionada à mortalidade infantil - e não permitir que “receitinhas milagrosas” interfiram no processo.

Lembra do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do Banco Mundial? Bom, ao menos já ouviu falar destas entidades supremas e infalíveis, tão preocupadas em ajudar os países pobres do planeta. Quer entender o papel destes deuses na mortalidade infantil? Leia Planeta Favela, de Mike Davis:

"Na América Latina e nas Antilhas, a austeridade imposta pelo PAE (Plano de Ajuste Estrutural, cujas regras são ditadas pelos deuses supremos do FMI e Banco Mundial) durante a década de 1980 reduziu o investimento público em redes de esgoto e água potável, eliminando assim a melhora da sobrevida infantil gozada anteriormente pelos moradores pobres."

Se quiser entender o porquê desta crise econômica mundial e porque tantas pessoas morrem de fome e doenças no mundo - doenças que seriam evitadas simplesmente lavando as mãos e tomando água potável - já tem uma pista. Apenas em uma dentre tantas outras e que você já conhece algumas.

Um setor, pelo visto, não foi atingindo pela crise e não houve cortes de orçamento: a indústria bélica. Em 2008 o mundo gastou US$ 1,33 trilhão ( não é mi, bi...é tri!) com armas. Tipo dessas aí que Israel vem usando contra os terríveis terroristas em escolas e hospitais na faixa de Gaza. E 2,4 bilhões de pessoas não têm condições básicas de saneamento básico. É melhor investir no que mata do que investir no que salva? Como é mesmo aquela música do Caetano? “Alguma coisa está fora da ordem”...

Dinheiro não falta para bancos falidos, especuladores, armas e propaganda, é claro. Aliás, a propaganda da SABESP é tão bonitinha, tão bem-feitinha que dá até vontade de morar em SP, mas não na periferia, onde água encanada é um dos principais problemas.

Essa conversa deu sede. Vou tomar um copo d’água. Droga! Tá sem água! Vou ligar pra SABESP e...ah, é mesmo, eu moro em Salvador.

sábado, janeiro 10, 2009

Cadê os sapos?

É isso mesmo o que você está lendo: um texto sobre sapos. Meus 2 ou 3 corajosos leitores devem pensar que pirei de vez. Mas não é nada disso. Não sou biólogo e nem estudante de ensino fundamental escrevendo alguma redação sobre bichinhos. Tampouco falo de contos de fada. Vou falar de sapo mesmo, o bicho nojento e nada simpático que vive em...

Esse é o problema. Sapo, hoje, tá difícil encontrar. O bicho, não os manés que se acham os príncipes da moda. Até brejo é uma raridade. Deram lugar a condomínios de luxo ou viraram pasto pra gado. O assunto é sério e é tema de várias pesquisas entre biólogos, zoólogos e cientistas. É só digitar “extinção dos anfíbios” no Saint Google para se aprofundar sobre o problema.

Há quem sustente a tese de que os nossos amigos sapos estão em um processo de desaparecimento parecido ao dos dinossauros. As mudanças no clima do planeta (sei que você não agüenta mais ouvir falar, mas é isso aí: aquecimento global), poluição, o uso de pesticidas, herbicidas, desmatamento (ah, o progresso! E as estradas que encurtam distâncias para o automóvel soberano esmagar tudo quando é bicho em seu habitat!) – os anfíbios são animais muito sensíveis, apesar da aparência grotesca – são as hipóteses mais levantadas entre os que se dedicam a estudar o tema.

Mas porque estou falando sobre estes nada simpáticos mas úteis bichinhos, com tanta coisa acontecendo no Brasil e no mundo ( Israel detonando a Palestina, pra variar e a ONU mostrando para que serve)?


Primeiro que ninguém liga pra sapo. Nem eu, na verdade. Mas como bom observador, estive há pouco no sertão baiano, em uma região próxima à Chapada Diamantina. Não vi um sapo ou uma rã sequer. E olha que visito a região há muito tempo (desde criança) e sempre vi abundância de anfíbios no local – principalmente deste sapo simpático aí na foto, o sapo cururu.

Não que eu saia por aí caçando sapos e rãs. O que me chamou a atenção mesmo foi a quantidade de insetos, principalmente de besouros, à noite. Sem predadores naturais – e aí sentimos a falta que o sapo faz – eles se multiplicam rapidamente. E o povo se protege como pode: inseticidas, mosquiteiros, repelentes, etc e etc.

Citei algumas hipóteses que ameaçam os anfíbios e ainda tem outra: o pessoal vê um sapo ou uma rã e mata. Estes bichos em geral não oferecem perigo ao homem – a não ser que alguém literalmente engula um sapo, que tem glândulas com substâncias tóxicas. Há algumas rãzinhas coloridas na Amazônia que são perigosas, mas estas ficam lá no coração da floresta.

Os anfíbios acabam “pagando o pato pela feiúra”. Quer ver outro bicho que “paga o pato pela feiúra”? A simpática e inofensiva lagartixa (não, ela não transmite ‘cobreiro’). O bichinho quebra o maior galho comendo tudo que é inseto nas casas e o que ganha em troca? Uma vassourada ou uma chinelada.

Sábio mesmo é minha avó com seus 80 e poucos anos que diz: “o povo tá matando os bicho pra se matar respirando veneno”.

Alguém discorda?

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Estamos em uma guerra não declarada

Os ataques do exército de Israel aos Palestinos na Faixa de Gaza já mataram mais de 500 pessoas em dez dias de confronto. O exército israelita utiliza moderno armamento militar, tanques, aviões e helicópteros e mísseis inteligentes sob a justificativa de acabar com o grupo palestino Hamas (grupo terrorista, segundo Israel). Caso queria entender o conflito, clique AQUI.

No Brasil saiu o balanço da polícia rodoviária federal em relação às festas de fim de ano. Foram 435 pessoas mortas nas rodovias federais no curto período compreendido entre 20 de Dezembro e 04 de Janeiro.

Repare bem: Na Palestina sob ataque, em 10 dias, mais de 500 mortos; No Brasil, com feriadão e “festas” de fim de ano, em 14 dias, 435 mortos.

Isso apenas nas estradas. Se pudéssemos contar o número de homicídios ocorridos no Brasil apenas nestes primeiros 05 dias do novo ano, teríamos números estarrecedores, que certamente ultrapassariam 500 vítimas em curtíssimo espaço de tempo. Apenas em Salvador nos 3 primeiros dias do ano foram 19 assassinatos.

Para a ONU, Organização das Nações Unidas, um índice acima de 15 mil mortes violentas por ano em um país configura um estado de guerra.

No Brasil tivemos, em 2006, 50 mil mortes violentas.

Em suma, estamos em guerra não declarada. Exército em morros cariocas, esquadrões da morte em favelas de São Paulo e Vitória grupos de extermínio em Salvador e Recife, um trânsito claramente agressivo nas grandes e médias cidades, meninos de rua executados, assassinatos cruéis, violência gratuita de grupos de jovens ( pit boys, arrastões, etc).

O pior é que toda essa violência é banalizada. É comum ligar a TV às 7 da manhã e deparar-se com cadáver com um tiro na testa e sangue à vontade na rua enquanto você toma seu café da manhã.

- Tenha um bom dia, amor!
- Bom dia, querido! Ah, você pode me buscar hoje? É que quero chegar mais cedo em casa...é hoje que a Amelinha vai matar o Florêncio na novela!

Difícil explicar o porquê de tanta violência no Brasil. Sérgio Buarque de Hollanda (sim, pai do Chico) em seu “Raízes do Brasil” lançou a tese do “brasileiro cordial”. Que não tem nada a ver com mansidão ou gentileza. O “cordial”, nesse caso, vem do coração, da emoção, de como o povo brasileiro coloca a emotividade em primeiro lugar. Da informalidade no cotidiano, do “jeitinho” pra se dar bem à custa da conversa.

O caso do trânsito, por exemplo. Há leis rígidas. Mas quem ganha: a lei ou a lábia do motorista infrator acompanhada de um “cafezinho”? O cara sabe que não deve dar uma de esperto e pegar a pista na contramão. O cara sabe que ele não pode tomar aquela garrafa de cerveja e dirigir por aí. Mas ele faz. Não tem “otoridade” olhando pra multar. Se não tem quem multe, então tá liberado, galera! Depois da curva é que se vê o resultado.

Junte estas supostas raízes com tráfico de drogas, falta de investimentos em educação e infra-estrutura, corrupção, Gilmar Mend...digo, judiciário ineficaz e teremos a guerra. Mas logo, logo começa o Big Bródi e tudo fica legal...

sábado, janeiro 03, 2009

Ano Novo? Mais do mesmo...o de sempre.

Feliz Ano-Novo! Muita paz, muita saúde, felicidade e que seja um ano repleto de conquistas e sucesso!

Podem me chamar de chato ou amargo (até porque sou mesmo), mas essas coisas me soam cada vez mais indiferentes e cada vez mais distantes. Ora, a julgar pela quantidade de pessoas que se acotovelam nas praias para assistir uns 10 ou 15 minutos de fogos de artifício, vestem-se de branco porque “branco é a cor da paz e da energia positiva”, cumprem rituais diversos relacionados à paz e à felicidade, não deveríamos nem nos deparar com uma notícia assim:

Dezenove homicídios registrados nos primeiros dias de 2009

Isso em Salvador, cidade outrora considerada alegre e receptiva. Os “primeiros dias de 2009” correspondem a...somente 3 dias, até agora. Três dias e 19 homicídios! E nem quero saber das outras capitais...os índices devem ser absurdos, também. Na capital baiana um dos mortos foi um rapaz de 18 anos, espancado na Barra, durante o “show da virada”.

Será que esse rapaz desejou um “Feliz Ano Novo com muita paz e felicidade” pra alguém? Será que os homens que o espancaram também desejaram “Feliz Ano Novo com muita paz e felicidade” para outras pessoas?

Será que estavam com alguma peça de roupa branca? Há quem pague os olhos da cara numa peça de roupa branca apenas para vestir na virad...digo, Reveión, porque é mais chique falar Reveión. Mas esse tipo de roupa não é problema em Salvador, afinal o sincretismo religioso por aqui faz com que muitas pessoas vistam-se totalmente de branco na sexta-feira. É uma questão cultural: em alguns países do Oriente, a cor branca representa luto. Com 19 homicídios em 48 horas, talvez seja uma cor adequada, de fato. A violência nas grandes cidades brasileiras equipara-se à violência de países como o Iraque.

A queima de fogos teve seu encanto, foi rápida, teve um showzinho e depois? Ano novo, vida nova? Dia 05 já começam a ser emitidos carnês de IPVA, IPTU, Mensalidades escolares, os jornais já começam a publicar matérias sobre Imposto de Renda...ou seja, nada mudou. Como as coisas estão fugazes, não? Natal e Ano-Novo passam quase sem deixar vestígios...a não ser pela fatura do cartão de crédito daquelas lembrancinhas todas de Natal e daquele conjunto todo branco que custou uma fábula e a pessoa veste uma única vez. Agora já falam em Carnaval, abadás, camarotes, trios... Depois é o coelhinho da Páscoa. Crise?

Sucumbimos ao consumo. O consumo vazio, fútil. Na verdade, tudo virou mercadoria. As palavras perderam significados, há apenas convenções politicamente corretas, clichês, distanciamento do que é dito e do que é feito. Frases como "Feliz Natal" e "Feliz Ano Novo" soam cada vez mais vazias.

O Brasil é um país cristão. Muita gente vai pra todo tipo de igreja que tem em cada esquina deste imenso país. Lêem a Bíblia, oram, estudam os ensinamentos de Jesus Cristo...e tudo continua na mesma. O cara que te chama de “irmão” e te deseja um “Ano Novo de paz” é o mesmo que usa um adesivo “Jesus é meu guia” no carro e xinga todo mundo no trânsito, cometendo insanidades ao volante.

Com tanta gente desejando paz e felicidade e falando em Jesus, esse país deveria ser bem mais tranqüilo, não?

De qualquer forma, o ser humano ainda mantém aquela coisa conhecida como “esperança”. É por isso que muita gente veste branco, vai à praia dar sete saltos nas ondas, come lentilhas e deseja um Feliz Ano Novo com sinceridade.

A esperança mantém a sanidade.

PS: ainda mantenho o trema, utilizo a acentuação e o hífen como aprendi...e não sei se vou conseguir acostumar a escrever "ideia". Mas tenho até 2012 para tentar.
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