quarta-feira, dezembro 17, 2008

"Voluntários" e soldados do exército em Santa Catarina roubam doações: fato isolado ou algo comum?

O vídeo que mostra alguns “voluntários” ( atenção: tomemos o cuidado para não rotular os voluntários que trabalham em Santa Catarina) e alguns soldados do exército simplesmente roubando roupas e mantimentos doados para as pessoas desabrigadas em Santa Catarina já está “rodando” pela internet e vem sendo destaque em algumas emissoras de TV.

Para quem ainda não viu:



É revoltante, é antiético, é desonesto e tudo o mais. Na verdade é apenas mais um pouco do tanto de aproveitadores que tentam se dar bem com uma tragédia ( leia também o post "Aproveitadores da Tragédia em Santa Catarina").

Mas estive por aqui refletindo: seria um fato isolado ou algo que já faz parte da vida de muitas pessoas?

- É proibido retornar aqui, olha a placa!
- Ah, ninguém tá vendo mesmo e o próximo retorno é lá na casa do chapéu!

- Ih, a moça do caixa deu troco a mais.
- Já era, problema dela.

- Ô, o final da fila é lá atrás!
- É só um minutinho, amigo, só vou perguntar uma coisa pra moça...

- ‘Bora ali na feira do rolo!
- Mas lá só tem coisa roubada!
- E daí?

- Pô, meu velho, não jogue a latinha no chão, não...
- Fique na sua, mermão...tu não é minha mãe!

- Deixa eu provar desse iogurte aqui...ahhh! É ruim! Credo!
- É, mas agora abriu e tem que levar.
- Que nada! É só fechar aqui, ó...pronto! Volta lá pro lugar, nem parece que mexeram.

- O farol tá queimado e o licenciamento tá atrasado.
- Olha, seu guarda, estou ciente disso e juro que vou resolver tudo...é que a situação ta difícil e tal...tem como liberar não, seu guarda?
- Bom, vê um agradozinho aí que a gente dá um jeito.

Pois é. No dia a dia vemos uma série de situações em que prevalece a famosa “Lei de Gérson”, onde o que importa é levar vantagem em tudo, seja lá de que jeito for. Mas isso não é novo no Brasil.

Desde as bajulações de Pero Vaz de Caminha a el-rei de Portugal na carta de "descobrimento" do Brasil, passando pela vinda (leia-se fuga) de D. João VI, com romances como “Memórias de um Sargento de Milícias” ( recomendadíssimo) retratando o cotidiano carioca e por contos de Machado de Assis e Lima Barreto (geniais), verificamos que o “arranjei-me” já está entranhado na formação do país.

É o “jeitinho brasileiro”, que Roberto Da Matta define: “nos países igualitários, não há muita discussão: ou se pode fazer ou não se pode. No Brasil, porém, entre o ‘pode’ e o ‘não pode’, encontramos um ‘jeito’. Na forma clássica do ‘jeitinho’, solicita-se precisamente isso: um jeitinho que possa conciliar todos os interesses, criando uma relação aceitável entre o solicitante, o funcionário-autoridade e a lei universal”.

Quem aqui já não utilizou um “jeitinho” diante de algumas situações onde não raro a burocracia impera?

O problema é quando esse já famoso jeitinho torna-se um hábito recorrente, passando a reger todas as situações. Como o jeitinho, o “aproveitar” já é comum em muitas pessoas e normalmente elas cometem desvios como esses em Santa Catarina. Talvez até tenham consciência de que estejam fazendo algo errado, mas a tentação em "aproveitar porque ninguém está vendo mesmo" é maior.

E daí para desvios maiores é uma tênue barreira. É do “jeitinho” ao “aproveitar”, do “aproveitar” ao “desvio”, do “desvio” à “fraude”, e por aí segue. Basicamente estas pessoas estão ao mesmo nível de políticos, empresários e especuladores que desviam milhares de reais dos cofres públicos.

A diferença, aí, é apenas na questão de valores (bens) e posição social.

Visite também: GROOELAND 2.0!

E, pra encerrar a semana...ele, RONALDO, O FENÔMENO...de marketing ( e que segundo fontes ligadas ao jornalismo esportivo, poderia ter ido pro Santos. O problema é que o time da Vila já tem a Baleia como mascote).

sábado, dezembro 13, 2008

21 minutos que valem a pena

Com esta correria típica de final de ano no ramo da educação sobra pouco tempo para atualizar o blog. Assunto não falta, falta tempo, na verdade.

Então recorrerei a uma estratégia muito comum entre muitos blogueiros: adicionar um vídeo.
Mas não é um vídeo qualquer, tampouco uma pegadinha de 1 minuto feita pra dar risada e render comentários profundos do tipo "ae moh legau".

O vídeo postado aqui tem longos e quase inimagináveis 21 minutos - para internet e para um blog isso é uma eternidade. "Quem vai parar para ver um vídeo com mais de 20 minutos hoje em dia e ainda mais no seu blog???"

Talvez algum desavisado ou um e outro que não tenha muito o que fazer. Mas este vídeo eu recomendo que "gaste" preciosos 21 minutos de seu tempo para vê-lo. É daqueles que valem realmente a pena e nos deixa com um "ponto de interrogação" na mente...ou uma certeza: fomos e estamos, como humanidade, indo longe demais.

Caso o vídeo não carregue aqui no blog, assista-o diretamente no youtube.



RONALDO
Como o assunto da semana foi o Ronaldo e o Corinthians, meu alter-ego Ministro Veiga também foi no embalo e pegou carona no oba-oba da mídia...com o sarcasmo característico do Veiga:
GROOELAND2.0
O wordpress não tem uma interface muito amigável, mas confira também o post "máscaras" no Grooeland 2.0.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Aproveitadores da tragédia em Santa Catarina

O telefone toca e do outro lado da linha uma pessoa identifica-se como representante da Defesa Civil de Santa Catarina e pede doação em dinheiro para ajudar as vítimas das chuvas e desabamentos no estado. A pessoa fornece o número de uma conta para depósito ou manda um motoqueiro buscar o dinheiro no endereço que o doador fornecer.

Este é apenas um dos vários golpes que vem sendo usados em nome da tragédia em Santa Catarina por aproveitadores que enxergam uma oportunidade de lucrar alguns trocados com a boa vontade da população.

Estou falando em golpe e de aproveitadores porque deparei com uma notícia que precisa ser mais apurada e merece maiores detalhes. Vou reproduzir um trecho aqui:

O Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) negou que esteja fiscalizando a campanha de arrecadação de dinheiro promovida pela Record para reconstruir casas afetadas pela chuva em Santa Catarina, diferentemente do que a emissora vem divulgando.

A informação é do jornal Folha de S.Paulo, que continua:

Desde a última sexta-feira (28), a emissora divulga o número de uma conta bancária do Instituto Ressoar (ONG que pertence à TV) para que os telespectadores façam doações. Para dar credibilidade à campanha, a rede informou durante a programação que os gastos seriam auditados pelo Ministério Público.

O próprio MP, no entanto, esclareceu que não cabe à entidade fiscalizar esse tipo de campanha.

Seria esse outro trambique da IURD? O jornal estaria mentindo? No site do Instituto Ressoar não há nenhum esclarecimento (até agora, 02/12) sobre a nota divulgada pela Folha de S.Paulo. Há uma espécie de “prestação de contas” com o montante arrecadado e de quantas casas populares serão construídas (ao custo de R$ 15 mil cada uma).

Há quem possa pensar o seguinte: o que importa é que a igreja e a emissora estão ajudando as pessoas em Santa Catarina.
Toda a ajuda às pessoas será muito bem-vinda. Mas precisa divulgar uma informação que não é verdadeira apenas para conferir credibilidade ao movimento? Se não havia o que desconfiar da ação da IURD através do instituto dirigido pelo pastor Ivanildo Lourenço, o comunicado do Ministério Público termina por “queimar o filme” da emissora, do instituto e da igreja.

Não é a primeira vez que a emissora tenta manipular dados e informações. Neste ano a emissora já manipulou grosseiramente gráficos do IBOPE para induzir os telespectadores que estava “encostado” e “ultrapassado” a emissora líder, no caso a Rede Globo.

Mas vamos ser sinceros: não achem que a emissora e a IURD estão fazendo isso por puro altruísmo e movidos pelo espírito cristão. Quem conhece as práticas da igreja sabe que os métodos empresariais e financeiros dão o tom entre os pastores e bispos. E o “SOS Santa Catarina” cheira sim a oportunismo de uma bem tramada estratégia de marketing social ( e nisso há semelhanças com o “Criança Esperança” da Rede Globo). Faz bem para a imagem tanto da emissora quanto da igreja, que tem dois alvos: a emissora concorrente e a Igreja Católica.

“A Globo e a Igreja Católica não fazem nada, pelo menos eles da Universal fazem alguma coisa, seja lá o modo como fazem”. Se você pensa assim significa que a estratégia da Record e IURD funcionou. E vem funcionando.

Em Salvador a TV Itapoan, emissora que é afiliada da Record, vem fazendo campanha maciça para arrecadar roupas, alimentos e dinheiro para o SOS Santa Catarina. E é grande a quantidade de doações.

Repito: não há mal nenhum em ajudar. Há vários modos de se ajudar as vítimas em Santa Catarina. O problema é que a pouco mais de 100 km de Salvador há pessoas que sofrem com a seca e não tem TV Itapoan, não tem Record, não tem Ressoar de trombetas, não tem IURD, não tem nada. Só a bolsa-família para aliviar um pouco o sofrimento de quem vive no semi-árido. E é na Bahia e no Nordeste: só em Pernambuco já são 390 mil pessoas sofrendo com a seca. É uma catástrofe natural, mas pouco lembrada.

E, quando chove forte, desaba quase tudo. Já ouviu falar do município de Coração de Maria, a 104 km de Salvador? Pois é. Clique AQUI para saber o que aconteceu com a cidade.

QUEM QUISER AJUDAR
Como mais uma vez a IURD demonstra não ser muito confiável, o portal TERRA divulgou uma lista de entidades e canais pelos quais as pessoas podem fazer suas doações para Santa Catarina. Além disso, há o próprio site da DEFESA CIVIL DE SANTA CATARINA que disponibiliza informações para os doadores.

RECOMENDAÇÃO
Recomendo entusiasticamente a leitura do blog “Antes que a Natureza Morra”, que traz informações bastante interessantes e pouco divulgadas na “grande imprensa” sobre os descasos ambientais em Santa Catarina. Leia com atenção a postagem “o outro lado do drama em Santa Catarina”. Obrigatório. Luís Nassif também abordou o assunto e também o site O ECO traz uma matéria reveladora sobre Santa Catarina.


Aos poucos vamos pinçando informações aqui e ali apenas para comprovar o óbvio: as políticas ambientais no Brasil são tratadas como lixo. O terreno é fértil para ONG's picaretas ( e como tem ONG picareta no Brasil principalmente pelos lados da Amazônia) e aproveitadores de todos os tipos.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Crise e meio ambiente: pagamos e pagaremos um preço alto

Até agora, são 99 mortos, 16 desaparecidos, 27 mil desabrigados, 51 mil desalojados. Estado de calamidade em 12 municípios. Falta de água potável e médicos. Aulas suspensas e ano letivo terminado. Saques. Falta de energia elétrica e cidades ilhadas, sem comunicação.

Esta é a situação terrível em Santa Catarina, afetada pelas fortes chuvas das últimas duas semanas. Várias entidades colocam-se à disposição para ajudar os desabrigados e as doações chegam de todos os cantos do Brasil, de remédios a copos de água. Quem quiser ajudar de alguma forma, confira o site da DEFESA CIVIL DE SANTA CATARINA.

Chuvas torrenciais em Santa Catarina, incêndios e seca na Chapada Diamantina, cidades do Nordeste sem chuvas há meses. O mundo paga um preço alto pela farra de consumo de energia e desrespeito ao meio ambiente.

Se Deus escreve certo por linhas tortas ou se há alguma relação cósmica por trás disso tudo, o fato é que talvez a crise mundial tenha surgido em um momento oportuno.

Não dá mais para sustentar um modelo econômico perverso de concentração de renda e desrespeito à natureza em nome de certo desenvolvimento. O assunto já vem sendo tratado aqui nesta Grooeland há algum tempo. Basta conferir os posts “e nosso frágil planetinha” e “descaso ambiental”. Há nestes posts dados interessantes e assustadores sobre consumo, meio ambiente e falta de planejamento urbano ( com dados do livro "Planeta Favela", de Mike Davis, leitura obrigatória para entender como as grandes cidades do mundo estão se transformando em verdadeiras favelas, um desastre urbanístico, ecológico e em relação aos direitos básicos das pessoas).

Para exemplificar: com a crise, as vendas de carros caíram em Salvador. Em boa hora, afinal havia uma média de 160 veículos novos emplacados DIARIAMENTE. É muito carro pra pouca estrutura.

Claro que a crise provoca desemprego, mas há também oportunidades que surgem ou deveriam surgir. As cidades precisam de infra-estrutura. É preciso gente para trabalhar. Veja o caso do setor de reciclagem de lixo. Gera emprego e renda e dificilmente é afetado por crises e chiliques de dólares e petróleo, afinal o Brasil produz cerca de 240 mil toneladas de lixo DIARIAMENTE. Deste montante, 88% vai direto para os aterros sanitários.

Para driblar a crise e combater o desemprego há várias alternativas e que ainda ajudam o meio ambiente. Desenvolvimento não significa apenas indústrias, estradas e carros. Espera-se que esta visão, com a crise, tenha sido modificada. Os alertas são cada vez mais freqüentes e não aparecem apenas em palavras, números e relatórios frios recheados de estatísticas.

Os alertas aparecem no sofrimento das pessoas em Santa Catarina e no sertão nordestino. Não dá para virar as costas para o que está acontecendo.

UM POUCO SOBRE COTAS
Percebo uma predisposição em alguns textos e comentários favoráveis às cotas para afro-descendentes em qualificar até como “racista” quem se posiciona contra o sistema de “reparação”.

Durante o período de palestras e comemorações pelo dia da consciência negra percebi esse traço. Reportagens de jornais mostram, através de estatísticas e notas, que o desempenho de alunos cotistas é igual ou superior ao desempenho dos “não-cotistas” o que, segundo especialistas, “derruba o mito de que os beneficiados pelas cotas são incapazes de ter bom desempenho em um curso superior”.

Ora, evidente que todos são capazes. Tem que estudar. Uma das reportagens que li sobre o assunto, no jornal Correio da Bahia, destacava o feito de um aluno beneficiado por cotas estar entre os melhores do curso de psicologia da Universidade Federal da Bahia. Mas a própria reportagem traz um dado interessante: o estudante conseguiu êxito após a 6ª tentativa.

Ora, o aluno estudou, correu atrás, tentou várias vezes até conseguir se aprovado em um difícil vestibular. Dizer que um estudante desses entrou na universidade por conta da política de cotas é desmerecer o esforço e toda a perseverança do rapaz, que estudou muito para atingir seu objetivo.

Enquanto isso, em Salvador, parte do teto de uma escola municipal na periferia desabou sobre uma aluna, deixando-a ferida. No ínicio do mês, em Jequié (interior da Bahia), o muro de uma escola estadual desabou e matou 1 estudante e feriu outros 2. Enquanto luta-se por cotas e debates intensos são promovidos, muros e tetos desabam sobre os estudantes das escolas públicas, que tem clientela majoritariamente negra. E não vi nenhum debate acalorado ou movimentos que lutem por uma escola pública decente.

Com escolas caindo aos pedaços nos alunos, com professores desmotivados, mal pagos e mal formados e falta de compromisso total dos governantes e até mesmo de muitos pais, falar em cotas como instrumento de justiça social chega a ser uma insensatez.

VISITE
Ainda em fase de testes...mas visite também
http://grooeland2.wordpress.com

segunda-feira, novembro 24, 2008

CHINESE DEMOCRACY ( finally!!!) STARTS NOW!

Peço licença aos corajosos 3 ou 4 leitores deste tosco blog para tratar de um assunto banal desta vez, mesmo com discussões sobre cotas para afro-descendentes e para alunos de escolas da rede pública estarem na pauta de vários veículos e serem infinitamente mais importantes do que será tratado aqui.

Mas é que o ano de 2008 foi – e continua sendo - estranho. Estados Unidos e Inglaterra estatizando bancos, Eurico Miranda deixando a presidência do Vasco, terremoto em São Paulo, polícia x polícia, José Serra aclamado como “líder carismático”, a morte da Dercy Gonçalves e por aí vai. Quando pensamos que nada mais surpreendente poderia acontecer, eis que Axl Rose resolve lançar o lendário Chinese Democracy, já disponibilizado para audição no MYSPACE.

O álbum que vem sendo prometido há mais de uma década e que consumiu a fábula de US$ 15 milhões ao longo dos anos finalmente é lançado de forma oficial no último dia 23. De forma oficial, pois diversas músicas (mesmo em suas versões “demo”) do álbum já “vazaram” pela internet nos últimos anos e davam uma idéia do que poderia ser Chinese Democracy.

IRREGULARIDADE
É o que marca o novo álbum do Guns n’ Roses, que agora se resume a Axl Rose e um punhado de (bons) músicos. Na verdade, talvez esse seja o problema de Chinese: é um álbum que leva o nome do Guns n’ Roses e não do remanescente, o egocêntrico Axl Rose.

Quando se fala em Guns n’ Roses logo vem à mente grandes canções como Welcome to the Jungle, Sweet Child O’ Mine, Rocket Queen, You Could be Mine e mais uma coletânea de músicas com riffs certeiros e solos de guitarra envenenados. Cortesia dos ex-guitarristas Slash e Izzy Stradlin, base de quase tudo de bom que o Guns já lançou até hoje. Slash deixou a banda justamente pelo motivo do vocalista querer “mudar a direção e buscar novas sonoridades”, fascinado com Nine Inch Nails e seu rock industrial.

Ao ouvir Chinese..., a primeira coisa que qualquer fã ou simpatizante da banda faz é comparar este álbum de 2008 com qualquer outro que o GN’R tenha feito anteriormente. Quem fizer isso vai chegar à conclusão que o disco é ruim; mas quem ouvir Chinese e comparar com o que vem sendo atualmente no cenário rock, pode até chegar à conclusão de que o disco tem suas virtudes, podendo até ser classificado como bom.

Claro, há bons momentos: a faixa-título, a despeito de sua longa e cansativa introdução “repleta de suspense”, traz um bom riff de guitarra e é bem pesada; a música “Better” tem refrão ganchudo, boas guitarras e uns rococós eletrônicos que Axl tanto perseguiu ao longo dos anos para tentar soar “moderno”. Estes mesmos rococós acabam soando exagerados e desnecessários em músicas como “Shackler’s Revenge” (que soa como um Nine Inch Nails embolorado) e “If the World”.

“If the World”, falando nela, é uma das músicas mais singulares do álbum e até mesmo do que ouve-se por aí. Uma guitarra flamenca, uma base funkeada (não confundir com o batidão carioca!), os rococós eletrônicos aqui e ali. E a voz esganiçada de Axl temperando tudo. A música é uma herança do estranho e genial guitarrista Buckethead, que deixou o GN’R em 2005. Quem ouve os trabalhos solo do guitarrista não se surpreende com esse tipo de som. É incomum. Não é ruim, pelo contrário, mas a voz de Axl não “casou” com esse estilo.

Continuando com os bons momentos, eles reaparecem em “There Was a Time”, “The Street of Dreams” (que já era tocada ao vivo desde o Rock in Rio 2001 com o nome “The Blues e é uma belíssima canção, talvez a que mais lembre o Guns n’ Roses da época dos álbuns “Use your Illusion”) e “Madagascar” (outra velha conhecida dos fãs e uma música bastante interessante).

Há boas idéias que foram desperdiçadas por excesso de produção. “Catcher in the Rye” é uma música de altos e baixos que começa muito bem, mas torna-se uma confusão de solos e a voz do Axl da metade pra frente, deixando-a cansativa; “Sorry” é outra balada que tem potencial, mas a introdução nada inspirada acaba comprometendo o resultado; “IRS” era bem melhor e mais pesada nas versões “demo”.

Nota-se em outras baladas do álbum ( Prostitute e This I Love) toda a influência que bandas como Queen , Electric Light Orchestra e o cantor Elton John exerceram em Axl Rose. Infelizmente são músicas descartáveis, assim como as pesadas “Rhiad and the Bedouins” ( apesar dos bons solos) e “Scraped” ( o coral de vozes sobrepostas de Axl na introdução mata a música).
AXL ROSE SÉCULO XXI
Chinese Democracy vai tocar nas rádios e será sucesso comercial (já bateu recordes de execução no myspace: em 48 horas foram 1,3 milhões de execuções). Como disse o guitarrista Zakk Wilde ( ex-Ozzy Osbourne), Axl Rose é um cara muito esperto. A lenda de Chinese Democracy e suas jogadas de marketing quase deixaram a música em segundo plano. As demos “vazadas” na internet para o público se acostumar ao “novo GN’R”, sem Slash e cia...
Chinese Democracy entrou para a história, mais pela lenda e marketing do que pela música em si. Ao contrário do que dizem, Axl soube adequar-se a estes tempos onde tudo é fugaz e descartável. 15 anos sem gravar nada inédito é suicídio para qualquer artista. Mas Axl conseguiu manter fãs ávidos por um novo material durante esse tempo todo e provavelmente consiga mais alguns com essas novas músicas. Pra quem já falou que a Internet parecia uma "lata de lixo", Mr. Rose saiu-se muito bem.

Com tudo isso houve um superdimensionamento do álbum. Expressões como "o mais aguardado de todos os tempos" e "o lançamento mais desejado da história da música" estão aí. Não é revolucionário, não é um Apettite for destruction e tampouco um volume de Use Your Illusion. Não é ótimo, mas também não é péssimo e nem ruim. É apenas um álbum muito bem produzido com algumas boas músicas de rock e experimentalismos. Diante do que temos atualmente, está até bom demais.

sábado, novembro 15, 2008

O descaso ambiental

Pelo menos 13 mil hectares (de um total de 152 mil ha) do Parque Nacional da Chapada Diamantina, na Bahia, já foram devastados pelo fogo, que castiga a região desde o início de outubro.

Duas aeronaves vão reforçar o trabalho de combate aos focos de incêndio na Chapada Diamantina, sobretudo na cidade de
Rio de Contas, onde existem pelo menos 30 locais atingidos pelo fogo.

Cerca de 350 brigadistas trabalham neste domingo (9) para tentar controlar os focos de incêndio que atingem a região da Chapada Diamantina, na Bahia.

O que parece ser uma notícia só, na verdade é o recorte de três: a primeira é de 2005, a segunda é de 2007 e a terceira é a mais recente, de 2008.

Mas o que chama a atenção é que, segundo o corpo de bombeiros, os focos de incêndio são comuns na Chapada Diamantina nesta época do ano por causa do calor.

Eu posso ser bastante ingênuo, mas não posso deixar de observar: se praticamente nos anos anteriores, na mesma época, ocorreram os mesmos incêndios e já sendo sabido que isso é comum, o que é feito, afinal, para prevenir que grandes áreas da Chapada sejam dizimadas pelo fogo todos os anos?

Para o chefe do Parque Nacional da Chapada Diamantina, Christian Berlinck, 95% do fogo que ocorre no local é criminoso. De fato, na página do IBAMA que traz as características do Parque da Chapada Diamantina, um dos problemas citados pela equipe do órgão governamental é justamente o incêndio. E a causa natural mais comum para o fogo na mata é a queda de raios. E não está chovendo.

Ora, se todos os anos, no mesmo período e no exato local acontecem os incêndios criminosos de sempre, o que está faltando?

César Gonçalves, analista ambiental do Parque, dá a resposta que talvez você já tenha imaginado:

A verdade é que a gente faz de conta que administra um parque nacional. Ou alguém em seu juízo normal pensa que uma área com 152 mil hectares, com mais de 100 famílias morando dentro, cercada por cinco cidades que, de alguma forma, dela se utilizam para atender a suas necessidades, pode ser administrada por cinco analistas ambientais e está tudo bem?

O descaso para as questões ambientais no Brasil é vergonhoso. Este humilde blog já tratou sobre o meio ambiente e de como o país faz muito pouco pela preservação destes biomas ( para saber mais, confira o post "e o nosso frágil planetinha"). Faz muito pouco e investe muito pouco em políticas referentes ao tema. Pouco mais de 0,5% do orçamento é destinado ao Ministério do Meio Ambiente para TODAS as atribuições, inclusive fiscalizar e aplicar a legislação prevista para quem comete crimes ambientais.


Com escassez de recursos, os órgãos ambientais tem que se virar como podem. O desmatamento na Amazônia prossegue em níveis espantosos. Entre Agosto de 2007 e Julho de 2008 foram 8,1 mil quilômetros quadrados de área desmatada na região. Além da falta de fiscalização e apoio disponível, há outros interesses em jogo.

Como falamos em Amazônia, tomemos a região como exemplo. A pecuária e as plantações de soja são apontadas como as maiores causas do desmatamento da floresta, bem mais que a extração de madeira da mata. A agropecuária, aliás, é um dos setores mais beneficiados na região. Só em créditos, o governo já liberou quase R$ 2 bilhões para os pecuaristas, por exemplo; em relação à soja as questões são bem mais sérias e o governo faz vistas grossas. Grandes multinacionais do agronegócio como Bunge Corporation e Cargill são acusadas de todos os tipos de violações não apenas ambientais,mas também aos direitos humanos, inclusive com trabalho escravo. Há uma relação de promiscuidade entre essas empresas e o governo, afinal o governo concede todo o tipo de licença ambiental e "deixa pra lá"uma série de irregularidades e as empresas dão uma forcinha na infra-estrutura, construindo estradas, por exemplo. Em nome do progresso justificam-se todos os fins. Desde a derrubada de grandes hectares de floresta a expulsão de comunidades índigenas.

Não foi à toa, então, que o presidente Lula tenha dito que ambientalistas e índios constituem-se em entraves para o desenvolvimento.

E NÓS COM TUDO ISSO?

Se o governo não faz ou faz muito pouco pelo meio ambiente, provavelmente nós também não fazemos muito. E muitas vezes agredimos o meio ambiente sem nem perceber isso. Quer um exemplo? Seu celular. Este mesmo que você comprou há uns 4 meses e já quer trocar no natal por um "mais moderno". Qual o detino deste seu celular "velho"?

E aquelas sacolinhas plásticas que você pega aos montes no supermercado ou na quitandinha da esquina? Aliás, você já parou pra pensar que tem muito plástico por aí? Estas sacolinhas de plástico demoram pelo menos 300 anos para se decompor e desaparecer. Agora imagine o que são 1 bilhão de sacolinhas por mês distribuídas nos supermercados?

Vivemos em uma sociedade que preza o consumo excessivo e exibicionista, sobretudo. Você só é alguém "descolado e esperto" se tem o carro novo, o celular novo, tudo novo. Segundo relatório da organização WWF-Brasil, se os atuais padrões de consumo continuarem, em 2030 precisaremos de dois planetas para manter tais padrões. Portanto, reduzir esse consumismo desenfreado é uma das primeiras tarefas.

Mas, para variar, algumas empresas já tentam faturar em cima da "onda verde" ou "ecologicamente correta" com a venda de produtos "naturais, recicláveis e que não agridem o meio-ambiente". Há boas opções mas em boa parte não passam de produtos para exibicionismo típico de madame que adora mostrar "estar preocupada com o planeta".

Não precisa cair nessas armadilhas da "onda verde", virar um "ecochato" ou um 'bicho-grilo" para contribuir com o meio ambiente. Só precisa adotar alguns hábitos simples como usar pilhas recarregáveis pro seu MP3, por exemplo; você gosta de cantar "Stairway to Heaven" ou todos os clássicos da MPB debaixo do chuveiro? Escolha uma música de menor duração. Não precisa tomar "banho de gato", mas também não vá ficar mais do que 10 minutos com o chuveirão despejando em média 270 litros de água no ralo. Vai escovar os dentes? Ótimo. Mas enquanto escova, feche a torneira. Um minuto de torneira aberta consome 2,5 litros de água.

Estas medidas podem parecer pouca coisa, mas ajudam. Temos que cobrar dos governantes políticas ambientais bem mais efetivas do que as atuais ( adoraria ir e voltar do trabalho de bicicleta em uma ciclovia, por exemplo), mas é preciso que façamos nossa parte também.

Como muitos voluntários fizeram e fazem na Chapada Diamantina.

LINKS DIVERSOS - Abaixo relaciono alguns links interessantes com "dicas", sugestões, artigos e sites que trazem diversas informações a respeito do meio ambiente e de como podemos fazer um pouco, que seja, para melhorar as coisas em nosso sofrido e detonado planetinha.

http://www.wwf.org.br/participe/acao/dicas/index.cfm - dicas: como você pode ajudar o meio ambiente.
http://www.akatu.org.br/consumo_consciente/dicas - dicas e sugestões de consumo consciente;
http://www.terra.com.br/noticias/especial/pilha.html - notícia: “pilhas e baterias usadas devem retornar a fabricantes”;

http://www.maisnoticias.inf.br/ecomais_noticias/index.php?cn_id=23 – pequenas atitudes que ajudam o planeta;

http://oglobo.globo.com/blogs/nossoplaneta/post.asp?cod_post=98886 – artigo: consumo + sustentável = planeta – detonado;

http://www.reporterbrasil.com.br/exibe.php?id=853 - artigo: “o meio ambiente pede socorro”;

http://planetasustentavel.abril.uol.com.br/home/ - site com muitas informações sobre o meio ambiente e sustentabilidade;

http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos/ - mitos e vícios modernos em relação ao meio ambiente;

http://www.tvcultura.com.br/reportereco/artigo.asp?artigoid=19 - artigo: “consumo exagerado (Washington Novaes);

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ambiente/ult10007u464978.shtml - algumas sugestões para o meio ambiente em sua casa;

http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/ambiente/conteudo_280969.shtml - outro excelente artigo de Washington Novaes;

http://www.tvcultura.com.br/reportereco/artigo.asp?artigoid=27 – novamente um artigo de Washington Novaes desta vez sobre o desmatamento da Amazônia.

Tem pra todo o gosto. Divirta-se e procure aplicar algo.

segunda-feira, novembro 10, 2008

A internet e as novas tecnologias utilizadas pelos brasileiros


Ainda o Obama, mas não sobre o Obama. Uma das coisas mais interessantes que eu li sobre a eleição do novo presidente dos EUA foi no site do Azenha:

De uma forma considerável, dizem republicanos e democratas, isso é resultado de como a campanha de Obama buscou entender e tirar proveito da internet (e outras formas da assim chamada nova mídia) para organizar militantes e atingir eleitores que não se informam primariamente através de jornais e da televisão.

Descobriram por lá o que significa “Novas Tecnologias da Informação e Comunicação” e a internet como vedete deste novo paradigma de comuniação. Na verdade, os marqueteiros do Obama descobriram e se deram bem. Uma parte do público que se informava exclusivamente pela televisão e pelos jornais buscou novas fontes de notícias. Hugh Hewitt, em seu livro “Blog – entenda a revolução que vai mudar seu mundo” dá a pista:

Em setembro de 2003, metade das pessoas nos Estados Unidos – 150 milhões – entrou em rede, um recorde para o uso da internet. E entre metade e dois terços daqueles que entram na rede a utilizam pelo menos parte do tempo para receber notícias.

Isso foi em 2003, antes de algumas redes sociais como MySpace, Facebook e sites de vídeos como o Youtube surgirem e se popularizarem. No entanto, daqui pra frente, é por aí onde as pessoas “se encontrarão” e consumirão informações e notícias.

Dá para comprar com o Brasil, um país com inúmeros problemas sociais e educacionais e onde a maioria da população é excluída tanto socialmente quando digitalmente?

Apesar de tímido, vem crescendo os números de acesso à internet no Brasil. Hoje são 30 milhões de internautas que acessam a grande rede seja em casa ou em lan houses e uma em cada cinco residências já tem um computador. Parece e é pouco, mas mesmo assim o internauta brasileiro tem uma média altíssima de tempo destinados à internet: 23 horas e 51 minutos mensais. Isso é bem maior que a média de países como França ( 20 horas), Estados Unidos (20 horas) e Japão (20 horas).

E o que o internauta brasileiro anda fazendo em tanto tempo dedicado à grande rede?

Uma pergunta um tanto difícil de ser respondida, mas basta ir a qualquer lan house e verificar que o site de relacionamentos ORKUT e o comunicador instantâneo MSN são os campeões de acesso nesses locais. O ORKUT, na verdade, é praticamente um site “brasileiro”, pois mais da metade de seus acessos é composta de internautas brasileiros ( cerca de 55%, bem superior ao segundo colocado de acessos no orkut, que é a Índia com meros 16% ).

Evidente que o internauta brasileiro não é somente o das lan houses, mas não deixa de ser preocupante constatar que para muitos a internet resuma-se a ORKUT, MSN, Jogos on-line e pornografia. Pode não diferir muito do perfil do norte-americano, por exemplo, os quais gastam metade do tempo na internet com entretenimento.

Mas o que transparece é que o brasileiro desconhece o potencial da internet e de novas mídias como o celular. Afinal, a grande rede fornece uma quantidade imensa de informações (de forma caótica, é verdade) em que a grande questão é: como lidar com tanta informação?

Notemos que informação é diferente de conhecimento. As informações estão aí em grande escala e muitas vezes não passam de grandes lorotas. Mas como lidar com toda essa informação, selecioná-la e a partir daí transformá-la em conhecimento, em opinião, em algo que seja realmente útil para a sociedade ou para o individuo?

Seria a partir deste momento em que a educação entraria em cena, mas não é o que acontece, pois a escola brasileira, com poucas exceções, ainda não sabe como utilizar bem estas tecnologias na sala de aula. Mas antes que joguem pedras na escola e nos professores, é bom saber que essa falta de habilidade não é exclusividade brasileira.

Obama, o astro pop do momento, reconheceu que tal problema é comum também nos EUA:

"While technology has transformed just about every aspect of our lives, one of the places where we've failed to seize its full potential is in the classroom".

Tecla sap: Obama afirmou que enquanto a tecnologia vem transformando cada aspecto de nosso dia a dia, um dos lugares onde isso não vem acontecendo é na sala de aula. Veja, então, que neste aspecto, Brasil e Estados Unidos são bastante parecidos. Mas atenção: não é o computador ou a internet que vai "salvar" a educação. Nada substitui professores motivados, bem pagos, com boa estrutura de trabalho e com políticas públicas eficazes voltadas à educação e ao bem-estar social.

Voltando ao problema brasileiro: não há nada de errado em acessar ORKUT, MSN e jogos on-line; o problema é restringir a internet somente a isso. E é aí que falta orientação, falta uma visão de futuro, falta perspectiva, faltam boa educação ( a boa e velha educação doméstica, dos valores e dos limites). Sim, muito de que é feito na internet é também reflexo de como o adolescente ou jovem leva a vida no “mundo real”.

Ou será que é à toa que o este internauta brasileiro, cheio de vícios adquiridos em seu cotidiano, seja conhecido nos meios virtuais como “escória digital”?

Felizmente, existe um pessoal esperto que acessa a grande rede, bate papo no MSN e fuxica a vida alheia no ORKUT, mas também produz conteúdo bacana em blogs, youtube, fotologs, myspace, etc. São pessoas que se comunicam, trocam idéias, geram debates, opinam, concordam, discordam, produzem, levam o que assimilaram de bom do “mundo virtual” para o “mundo real” e procuram fazer a diferença.

Uma galera esperta como os alunos da Escola Estadual Profa. Ester Garcia, que sempre tem deixado comentários inteligentes ( com conteúdo e o uso correto do idioma, sem internetês do tipo “axu q naum”)neste blog, sob indicação do professor Fabrício. Não os conheço, mas são sempre bem-vindos para opinar por aqui. Parabéns a vocês! Troquem idéias, opinem, produzam, sejam sempre curiosos!

Afinal, é nessa galera que depositamos fé em um futuro bem melhor. E utilizando também a grande rede, é claro.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Obama rules!

O mundo conheceu o novo presidente da nação que ainda sustenta o poderio mundial: Barack Obama é o novo presidente dos EUA (para desespero da KKK e simpatizantes reaças).

O mundo, aliás, assiste nos últimos dias a ascensão de dois negros em situações onde havia uma espécie de hegemonia que parecia não ter fim: Lewis Hamilton foi o primeiro negro a sagrar-se campeão mundial de F-1( a categoria mais cara e "elitista" do automobilismo) e agora o negro Obama é o presidente dos EUA, coisa que o Monteiro Lobato já escrevera em 1926.

Mas por que o clima de festa, esperança e até de entusiasmo pela vitória de Barack Obama nos EUA, derrotando o republicano John McCain?

A resposta está aí. Em primeiro lugar, só pelo fato do mundo livrar-se do imbecil fundamentalista do George W.Bush já é digno de comemorações entusiásticas. A eventual vitória do republicano implicaria numa continuidade da política suicida de Bush para o mundo.

Em segundo lugar, abrem-se novas perspectivas ao retorno da diplomacia entre EUA e América Latina, cada vez mais progressista. Veja que Hugo Chavez, da Venezuela e Evo Morales, da Bolívia, já se mostram animados a retomar as boas relações com os EUA. Para entender um pouco melhor essa geopolítica, indico um excelente artigo do Eduardo Guimarães AQUI.

Na verdade, não apenas a América Latina, mas o mundo. Os EUA precisam rever suas relações para com os outros países. Os líderes de todos os países felicitaram Obama pela vitória, mas também já deram suas "cutucadas" clamando por mudanças. O presidente Lula deu suas felicitações e já mandou seu recado sobre os subsídios agrícolas e bio-combustíveis.

Até pelo discurso, a eleição de Obama mostra um avanço. Reconheceu que o planeta está em perigo, que há guerras em curso e uma crise econômica. Ora, discursos qualquer um pode fazer, mas já vemos um discurso bem diferente do fundamentalista George Bush, o qual contribuiu progressivamente e decisivamente para que o mundo se tornasse mais árido, aterrorizado e em crise ( e não apenas financeira).

Obama terá um caminhão de problemas para resolver. Desnudado sob o marketing hollywoodiano, os EUA constituem-se em uma nação doente, onde os mais pobres não possuem acesso a saúde de qualidade, com graves problemas educacionais (até o modelo da bolsa-família estão tentando viabilizar por lá) e habitacionais. Além disso, há a questão ambiental, onde os EUA são responsáveis por 20% da emissão de gases responsáveis pelo efeito estufa, o aquecimento global, há a questão de Israel ( aliado) e da palestina, o Oriente Médio, Cuba e a América Latina.

Se vai mudar algo ou não é outra história. O sonho permanece até Janeiro, que é quando Obama assumirá de fato a Casa Branca. Grandes expectativas, às vezes, geram também grandes frustrações. Mas não custa manter algum otimismo.

Cotas
E já surgem aqueles que enxergam Obama presidente dos EUA como “fruto do sistema de cotas”e utilizam tal feito como justificativa para a implementação total do sistema no ensino superior brasileiro.

Ora, vamos devagar. Não devemos tratar de forma simplista a questão das cotas e principalmente relacionar o que é feito nos EUA com o que é feito no Brasil, até porque a miscigenação brasileira é muito maior e a questão da própria identidade não é definida por aqui.

Aliás, o próprio Obama prefere não tocar muito no assunto das cotas. Preferiu falar não apenas dos negros, mas dos pobres ( independente da “raça”), dos hispânicos, do norte-americano em geral. O posicionamento de Obama quanto às cotas é dúbio: em 1990 escreveu uma carta em que dizia ter sido beneficiado pela política de ação afirmativa, mas dez anos depois afirmara que não sabia, de fato, se sua cor ajudara no processo de admissão na faculdade.

Nos EUA esta política de ação afirmativa começa a ser questionado.

Educação de qualidade é direito universal de todos. Vários grupos de comunidades afros lutam pelo sistema de cotas nas universidades públicas brasileiras, mas em que isso efetivamente vai ajudar a educação de forma geral? Se há quem enxergue Obama como fruto de tal política, enxerguem também Condoleezza Rice e Colin Powell, representantes de uma “elite negra”, ao passo que milhares de negros norte-americanos continuam à margem dos direitos civis – e, ironicamente ou não, vários negros integram as linhas de frente de soldados que são enviados ao Afeganistão ou Iraque em guerras fabricadas por interesses econômicos diversos.


A educação básica brasileira tem sérios, seríssimos problemas para se resolver. E é preciso envolvimento de professores (se bem que estes são os últimos "bastiões" que tentam manter a escola com alguma dignidade - mesmo sozinhos e sem uma boa formação e que seja continuada), pais, sociedade e governo. O que adianta promover um sistema de ação afirmativa se a educação básica continua de péssima qualidade? Adianta destinar uma cota de vagas para alunos afro-descendentes se muitos zeram em exames vestibulares?

Cotas é sempre um assunto polêmico. Voltando à educação como direito universal, se muitos desses grupos que promovem a “conscientização” para uma política de cotas que não deixará legado algum para filhos e netos promovessem a conscientização pela melhoria do ensino público universal gratuito e de qualidade, seria uma luta nada polêmica, muito pelo contrário: todos apoiariam, diferentemente das cotas. Demore o tempo que for, mas é preciso deixar ao menos a esperança para as futuras gerações.

sexta-feira, outubro 31, 2008

Notícias que "não importam"

Como agora nossa imprensa só tem olhos para dois assuntos ( crise apocalíptica e Obama X McCain), as notícias que vocês verão por aqui tiveram aquele box espremido lá no rodapé das páginas de jornais e não mereceram “análises minuciosas de especialistas econômicos”.

Vamos à primeira:




Governos vão ao STF para barrar piso do magistério
Os governadores de cinco Estados (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e Ceará) ajuizaram ontem, no Supremo Tribunal Federal, ação de inconstitucionalidade contra dispositivos da Lei 11.738/08, que estabelecem piso salarial de R$ 950 para os professores de escolas públicas e um terço da jornada de trabalho fora das salas de aula, para que aprimorem seus conhecimentos.

De acordo com os governadores do Ceará, Cid Gomes, e do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius , que fizeram questão de protocolar a ação pessoalmente, a lei federal, na medida em que tratou de questão da competência dos Estados, constitui "atentado à autonomia constitucionalmente assegurada".

Além disso, alegam que o aumento dos custos em virtude da necessidade de contratação de novos docentes para suprir a diminuição da carga horária dos atuais professores é estimado em "milhões de reais anuais".



É. Pois é. É um crime pagar R$ 950 para professor. Mas não acabou ainda...olha só essa notícia:
Câmara de Salvador aprova aumento para prefeito reeleito
A Câmara de Vereadores de Salvador aprovou um aumento de salário para prefeito, vice e secretários municipais. O aumento de 29,8% foi concedido três dias após o segundo turno das eleições, em que João Henrique Carneiro (PMDB) foi reeleito na disputa contra Walter Pinheiro (PT).

Com o reajuste, Carneiro, que havia vetado a proposta às vésperas do primeiro turno, passará a receber R$ 11.145,66. O salário anterior do prefeito era de R$ 8.586.
Vice-prefeito e secretários municipais também foram beneficiados. Com os 29,8% de reajuste, eles tiveram seus salários aumentados de R$ 7.155 para R$ 9.288,05. Na votação da proposta, apenas dois vereadores dos 35 presentes foram contra o reajuste.



Este assunto do piso e dos governadores tentando barrá-lo já foi tratado aqui neste blog, mas é sempre bom voltar à tona, mesmo que para 3 ou 4 corajosos leitores. Talvez estes disseminem estas notícias por aí.


Não é impressionante a canalhice? Veja o prefeito reeleito de Salvador, João Henrique: por conta das eleições, o prefeito vetou o aumento considerável para ele e secretários. Até porque ele não saberia se iria continuar lá e também pelo desgaste na imagem do candidato perante a população.


Já estes governadores até que foram coerentes: estão tentando barrar este piso nacional para os professores há algum tempo. Mas durante as eleições todo mundo ficou quietinho.


Bastou o período eleitoral terminar e volta tudo ao que era antes: o prefeito que rapidinho e sem problemas reajusta o salário ( dele e de secretários aspones) e governadores que consideram um “atentado à autonomia estadual” um piso de R$ 950. Gozado que sempre há dinheiro para reajustes como estes em Salvador e as coisas são votadas tão rápidas, ao passo que para se conseguir um piso nacional para o magistério da bagatela de pouco mais de 900 reais é uma luta, uma demora, são ações aqui e ali, justificativas de todos os tipos (contra, é claro)...


Ora, nem 5% do PIB Nacional é destinado à educação. O próprio ministro Fernando Haddad já dissera em várias oportunidades que o mínimo exigido para a educação deveria ser 6% do PIB.


Na verdade o ideal que é feito do professor por estes políticos e burocratas de plantão é o “professor-sacerdote”, aquele que se doa por uma causa e não mede esforços pela educação. O ensino público brasileiro é composto por professores com má-formação acadêmica (os cursos de pedagogia e vários de licenciatura são coordenados por mestres e doutores que, em muitos casos mas sem generalizar, nunca pisaram os pés em uma escola pública na periferia e desconhecem totalmente o cotidiano do professor), com carga horária elevada (não são poucos os professores que trabalham 60 horas semanais nas escolas), com condições de infra-estrutura muito ruins (apesar de alguns acharem que ter água e luz na escola já está de bom tamanho) e péssima condição salarial.


Claro que existem maus profissionais que ganham até muito pelo o que fazem ( ou não fazem), mas estes constituem-se em exceções diante do quadro geral de magistério, onde vemos boa parte dos professores tentando ( muitas vezes às próprias custas) conferir qualidade à educação.


Como se não bastasse, o professor ainda tem que atuar em várias frentes, pois a “educação integral” da criança e do adolescente deve ser de responsabilidade total e única dos professores, quando na verdade “educador” é tanto o pai, a mãe, o professor, o vizinho, o dono da birosca que não deveria vender pinga pro aluno com a camisa da escola, do político que deveria tomar vergonha na cara, do policial, da sociedade em geral.


Estas notícias acabaram passando “batidas”. Inclusive por muitos professores. Não é de surpreender. A imprensa, quando não tem algum Big Brother em apartamentos por aí, está mais preocupada com a crise apocalíptica quem vem aí ( embora a dona Dalva que vende salgadinho ali na esquina se pergunte “que diabo de crise é essa?”) e com Democratas e Republicanos do que com notícias mais relevantes para a vida real dos pobres mortais que não especulam em bolsas, não tem bancos falidos e não viajam todo o final de ano para Miami ou New York.


Enquanto isso, os canalhas pintam e bordam. E dá-lhe Obama contra a crise!

sexta-feira, outubro 24, 2008

A crise econômica e o futuro da humanidade (salve-nos, Carla Bruni!)

O presidente da França, o atlético e simpático Nicolai Sarkozy, fez uma declaração para encher de esperança a humanidade aflita com a crise econômica:

“A crise financeira põe em perigo o próprio futuro da humanidade".

Ou o esbelto presidente francês anda assistindo muito a Miriam Big Pig ( a porta-voz do apocalipse financeiro) ou a Carla Bruni está dedicando mais tempo ao seu violão.

Este humilde e tosco blog lido pelos seus 3 ou 4 corajosos leitores terá a petulância em mostrar ao Sarkozy o que realmente coloca em perigo o futuro da humanidade. Duas notícias que passaram despercebidas ao longo destas semanas em que “o mundo” só anda preocupado com a crise.

O Fundo Mundial para a Natureza ( WWF em inglês) alerta: mudança climática é mais rápida e mais grave do que se temia.

Outra notícia que passou batida:

Pobreza extrema atinge 1,4 bilhões de pessoas. São pessoas que vivem em extrema condição de pobreza ou com pouco mais de US$ 1 por dia.

Estas notícias não foram publicadas em algum jornaleco de esquerda em uma república de bananas qualquer. Tiveram sua gênese na Europa, continente onde situa-se a França, que o lar doce lar de Sarkozy.

O que leva um presidente a fazer uma declaração tão infeliz e apocalíptica como esta? Seria “realismo” ou ignorância mesmo? Ou seria desespero pelos amiguinhos especuladores pedindo ao estado “pelo amor de Deus, um dinheiro aí”?

Não deveria o Sarkozy se comportar como o "analfabeto e sapo barbudo" Luís Inácio Lula da Silva, que aparentemente se porta com tranqüilidade e otimismo diante da crise ( para desespero da Miriam Big Pig, Arnaldo Jabor, Reinaldo Azevedo, Mainardi e demais reaças com PHD sem sei-lá-o-que)?

O mais interessante é que essas duas reais ameaças para a humanidade ( mudança climática e pobreza extrema) tem saídas para que sejam ao menos amenizadas, ao contrário da atual crise econômica.

O diretor da FAO (organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), o senegalês Jacques Diouf, já deu a receita: com US$ 30 bilhões atuais daria para recuperar a agricultura nos países pobres e com US$ 40 bilhões daria para comprar 250 quilos de grãos para quase 1 bilhão de desnutridos no mundo.

É muito dinheiro? Quanto foi que os EUA e a União Européia injetaram nos bancos falidos mesmo?

Mas isso é fácil entender, de certo modo. Mike Davis, em seu “Planeta Favela”, escreve:

“É claro que este é um mundo no qual as reivindicações dos bancos e credores estrangeiros sempre tem precedência sobre as necessidades de sobrevivência dos pobres rurais e urbanos; é um mundo no qual é considerado ‘normal’ que um país pobre como Uganda gaste per capita doze vezes mais com o pagamento da dívida de todo ano do que com assistência médica em meio à crise do HIV e da AIDS”.

Durante as décadas de 80 e 90 as cartilhas do FMI ditavam as receitas para o “crescimento” em países subdesenvolvidos ou “em vias de desenvolvimento”. Os países se atolaram na miséria e em crises dramáticas com dívidas impagáveis enquanto os grandes banqueiros e especuladores riam à toa:

"Durante os anos 1980, para cada US$ 100 adicionados na economia global, cerca de US$ 2,20 eram repassados para aqueles que estavam abaixo da linha de pobreza. Durante a década de 1990, esse valor passou para US$ 0,60. Essa desigualdade significa que para que os pobres se tornem um pouco menos pobres, os ricos tem que ficar muito mais ricos".

Esta afirmação interessante sobre o sistema atual é de Andrew Simms, diretor da New Economics Foundation, com sede em Londres (leia o artigo, é bastante esclarecedor e herético ao "deus mercado"). Note: em Londres. Não é bravata de algum ditador maluco que estatiza bancos...epa! E não é que agora estão estatizando bancos por aí?

Mas o que aconteceu com “a mão invisível do mercado” e a “auto-regulamentação financeira sem intervenção estatal”? Pois é. Um dos papas do neoliberalismo, Alan Greenspan, ex-presidente do FED (Banco Central norte-americano) e possivelmente o ator principal dos sonhos eróticos de Miriam Big Pig, soltou essa:

''Eu cometi um equívoco ao presumir que os próprios interesses das organizações, especificamente os bancos, entre outras, eram de tal natureza que as tornavam mais capazes de proteger os seus próprios acionistas e a sua equidade''.

Ora, mas é o fracasso do neoliberalismo. Fracasso em termos, porque funcionou durante anos e cumpriu seu propósito: enriqueceu um bando de espertalhões e mafiosos ligados à jogatina das bolsas e corporações.

Por isso o Sarkozy está desesperado: acabou a farra. Um novo modelo econômico deve se impor. O atual sistema só fomenta desigualdades e deixa mercados vulneráveis a mais crises.

Carla Bruni deveria cantar uma musiquinha de ninar pro Sarkozy. Aliás, não é só pro Sarkozy não. Muita gente por aí ( incluindo "especialistas econômicos") anda precisando.

Enquanto isso, no Brasil
A adolescente Nayara confirmou que o maníaco Lindemberg só atirou nas garotas no momento em que a polícia invadiu o apartamento em Santo André.

A blindagem ao governo José Serra continua: por que os vetustos jornalistas não questionam de onde partiu a ordem para tal invasão? E por que nenhum dos admiráveis órgãos de imprensa paulistanos não trata da grave crise na segurança pública em SP com a mesma profundidade que tratou do “caos aéreo”?

O projeto é claro: Nosferatu 2010. E a partir de terça-feira ( porque segunda é dia de “análise” das eleições) tome crise, crise, crise e mais crise.

segunda-feira, outubro 20, 2008

A atuação da imprensa em Santo André ( Eloá) e a blindagem ao governo

Ninguém deve dar conta oficialmente do que pensa. Em troca, todos são encerrados, do começo ao fim, em um sistema de instituições e relações que forma um instrumento hipersensível de controle social. Quem não quiser soçobrar deve não se mostrar muito leve na balança do sistema. Adorno

Quem assistiu ao Fantástico neste domingo viu uma matéria com um brasileiro especialista em segurança responsável pelo treinamento de equipes da SWAT.


Uma afirmação forte do instrutor dizendo que “sentia vergonha de ser brasileiro” ao ver a ação desastrada da polícia mostrou a indignação do especialista com os métodos utilizados pelo GATE. E sugeriu algumas alternativas que poderiam ser utilizadas para solucionar um seqüestro que durou mais de 100 horas.

No entanto as alternativas sugeridas pelo instrutor para um resgate bem-sucedido esbarrariam em um detalhe: a cobertura irresponsável e circense da grande mídia/ imprensa.

Qualquer ação que fosse tomada pela polícia, lá estava uma câmera de TV mostrando “ao vivo para todo o Brasil”. Inclusive para o Lindemberg. Até emissoras de rádio detalhavam o que os policiais estavam fazendo e, principalmente, o estavam planejando fazer. Até um radinho de pilha ou um FM de celular já bastavam para informações.

Basta verificar a postagem anterior neste blog: a própria polícia ficou incomodada com a atuação da grande mídia. Lindemberg foi elevado à categoria de “astro” em alguns programas de entretenimento espalhados pela TV e apresentadores de fofocas e trivialidades agiam como negociadores da polícia. Algo deplorável que rendeu pontos no famigerado IBOPE. Certamente urubus do naipe de Sônia Abraão, Brito Jr, Datena e tantos outros comemoraram um ou outro pontinho a mais.

Esperava-se que Isabela Nardoni deixasse algumas lições. Deixou, mas diante dos pontinhos do IBOPE e da “exclusividade”, às favas qualquer bom senso!

A IMPRENSA
O depoimento da garota Nayara, sobrevivente do seqüestro, promete uma reviravolta neste caso. Aliás, Nayara é “peça-chave” para que se comece a apurar algumas responsabilidades que levaram à morte da garota Eloá.

Pra começar, o pai de Nayara reafirma categoricamente, para quem quiser ouvir, que não deu autorização para a garota retornar ao cativeiro e, pior, isso foi considerado pela polícia como “estratégia de negociação”. No entanto, o pai de Nayara não é ouvido. Ficamos com a “versão oficial” do coronel da PM falando sobre tal estratégia ( condenada por todos os especialistas ou pessoas ligadas à segurança).

Agora, Nayara afirma que Lindemberg só atirou nas duas garotas QUANDO a polícia invadiu o apartamento, contradizendo a “versão oficial” da polícia.

E o que a imprensa tem a ver com tudo isso? Muita coisa. Primeiro existe, sim, uma tentativa em poupar a polícia paulistana e os comandantes da operação de falhas grotescas ocorridas na ação.

Tudo aconteceu muito rápido: a crise entre polícia militar e polícia civil em SP com direito a uma das mais lamentáveis e chocantes manifestações já vistas e o terrível desfecho em Santo André.

Segundo, as questões se segurança pública, de alçada estadual. É blindagem total ao governo Serra, que acalenta o sonho de ser presidente da República e não esconde isso de ninguém. O desespero de José Serra durante a manifestação das polícias foi tão evidente que a primeira coisa que ele fez foi culpar o PT e o deputado Paulinho da Força Sindical pelo o que aconteceu.

Marta Suplicy, que cometeu uma cagada imensa com sua tática burra e preconceituosa em questionar a vida pessoal de Kassab (embora a VEJA também tenha feito suas perguntinhas capciosas para o candidato a prefeito), relaxou e gozou com o desequilíbrio do governador Serra.


Para a “crise mundial”, “especialistas” do porte de Miriam Big Pig se debruçam e tentam “analisar a fundo” os números da economia global e como isso vai quebrar o país. As frases do presidente Lula são esmiuçadas cuidadosamente, lidas e relidas para que se pegue “alguma besteira” (embora isso não seja difícil e o presidente solte lá suas pérolas de vez em quando).

Porém as graves crises nas áreas de segurança e educação que acontecem no governo José Serra não merecem “análises a fundo” e ninguém esmiuçou cuidadosamente a trapalhada que o governo de SP fez ao anunciar a morte da menina Eloá. Foi patético e cruel com a família e com os amigos: Eloá morreu. Eloá não morreu. Globo anuncia morte de Eloá; Globo anuncia que Eloá não morreu. Record News só aguarda confirmação da morte; Record News desmente.

Espera-se, agora, que Nayara não tenha sua opinião “mudada”. E que o pai da garota seja ouvido, também, mas não por urubus de entretenimento vespertino. Que não fiquemos apenas com a “versão oficial” da polícia e do governo. E que as eleições no próximo domingo não sejam empecilho para que as versões sejam confrontadas e chegue-se à verdade.

A ATUAÇÃO DOS BLOGS
Embora a população brasileira ainda não tenha acesso em larga escala à internet e muito do que é acessado na grande rede seja entretenimento e bate-papo, a atuação dos blogs é muito importante para que não exista apenas a “palavra oficial” da assessoria de imprensa governamental repetida pela grande mídia que joga com uma camisa e esta camisa não é a da informação com credibilidade, como gostam de propagar.

A partir da leitura de várias opiniões em blogs pode-se formar debates, discussões, obter pontos de vista diferentes, concordar, discordar, enfim, criar o primeiro passo para uma massa crítica com o vizinho, com os amigos...disseminar informações e questionar certos posicionamentos da grande imprensa.

E já está mais do que na hora.

INDICO
Há interessantes artigos na rede. Selecionei alguns que julgo valer a pena a leitura. Que algum tenho certo exagero ou seja contido, não importa. Leia, critique, concorde, discorde, repasse, dissemine. O importante é não ficar impassível diante do que vem acontecendo.

Crônica de uma tragédia anunciada :

A mídia e o seqüestro em Santo André

Nayara diz que Lindberg atirou após a invasão da polícia

Tragédias paulistas e paulistanas

O seqüestro: é você sob a mira de um revolver

Cidadania.com

O estatuto da criança e do adolescente e o seqüestro em Santo André

Sucesso, estilo, competência e um bom trabalho!


Matamos Eloá


Secretário de segurança: "É uma imensa infelicidade" (blog Josias de Souza)


Mídia foi criminosa e irresponsável"

sábado, outubro 18, 2008

Seqüestro em Santo André e a espetacularização entra em cena novamente

Não vou cair na armadilha fácil dos clichês que acusam a polícia paulista de negligente ou despreparada em relação ao desfecho lamentável do caso da garota Eloá, em Santo André, SP.

Até porque não sou especialista em táticas policiais e ainda há muitas perguntas sem uma boa resposta, como a volta da garota Naiara ao cativeiro com autorização da polícia ( algo inédito, segundo os próprios especialistas em segurança) e de onde partiu os tiros que acabaram atingindo as garotas ( até este momento, 18/10, 23:10, a garota Eloá ainda luta pela vida em um hospital, embora seu estado seja gravíssimo).

O máximo que eu posso dizer sobre a ação policial é que lembrou muito o caso do ônibus 174 no Rio de Janeiro.


A IMPRENSA E O ESPETÁCULO

"O espectador não deve trabalhar com a própria cabeça; o produto prescreve toda e qualquer reação(...) toda conexão lógica que exija alento intelectual é escrupulosamente evitada." Adorno

Há que se destacar a cobertura dada pela imprensa a este caso. Mais uma vez determinados setores da mídia seguiram o caminho fácil e questionável da espetacularização da notícia. O conjunto habitacional onde acontecia o “espetáculo” só foi esquecido momentaneamente por conta da manifestação da polícia civil e do choque destes com a polícia militar (aliás, que papelão do Serra. Se a Marta fala bobagem, Serra também não fica muito atrás).

Um programa matinal de “variedades” da Rede Record apresentou uma entrevista com o seqüestrador Lindemberg Alves onde o rapaz quase foi canonizado ali mesmo; o programa da fofoqueira sem escrúpulos ( há quem a chame de jornalista e pode ser que ela seja mesmo, inclusive com MTB) Sonia Abraão também trazia entrevista com o seqüestrador e este foi alçado à categoria de “coitadinho excluído da sociedade opressora”.

Então a imprensa é culpada por este terrível desfecho? Claro que não.É algo condenável quando a "grande imprensa" resolve criar circos para determinadas situações. E a polícia tem suas críticas em relação à atuação da mídia. Um capitão da PM declarou ao jornal Estado de S.Paulo:

“Para esse tipo de ocorrência existem pessoas treinadas, especializadas. Às vezes, uma palavra errada da apresentadora coloca tudo a perder.”

O resultado de tantos holofotes tornou o seqüestrador deslumbrado, como se fosse uma “vedete”, segundo o coronel José Félix, do Batalhão de Choque.

PREOCUPAÇÕES
Como o pior já está feito, este blogueiro só tem algumas preocupações:

1 – que a garota Eloá, de apenas 15 anos, consiga vencer a morte e que tenha uma longa e feliz vida;

2 – algumas besteiras que começam a aparecer por aí, além dos oportunistas dos direitos humanos. Que tal este título de matéria? “Mensagem no Orkut teria motivado seqüestro em São Paulo”.

O orkut já é responsabilizado pelos casos de pedofilia, brigas de torcida organizada e até assassinatos. Agora, é a vez do seqüestro. Interessante que tal site seja “a bola da vez” – na verdade, para alguns setores mais conservadores e desesperados da imprensa, a internet e suas redes sociais constituem-se em perigosas ameaças para a família e sociedade em geral. E olha que são os mesmos que saúdam a livre concorrência e o cassino especulativo na roda financeira! TFP, CCC, ah, que saudade!

3 – É só esperar: faltando 1 semana para as eleições do segundo turno para a prefeitura de SP, tá na cara que a questionável ( para não ser leviano) ação da polícia será utilizada com finalidades políticas, da mesma forma que o Serra acusou o PT e o deputado Paulinho da Força Sindical ( pelegão) de armarem tudo aquilo com a polícia civil em greve há 1 mês (Aliás, só um detalhe sobre aquela propaganda da Marta Suplicy insinuando que o Kassab é-ou-não-é: a “revista” VEJA também fez das suas. Olha só a pergunta pro Kassab: Não é muito comum um homem público de sua idade ser solteiro. Existe alguma cobrança sobre o senhor nesse sentido? Quem quiser conferir a entrevista, é só clicar AQUI. Detalhe: é do dia 18 de Junho!).

A impressão que se tem é que há torcida pra “quanto pior, melhor”. A baixaria promete correr solta.

quarta-feira, outubro 15, 2008

15 de Outubro - Dia do professor. Vale a pena?


Um velho amigo me perguntou:
- Groo, meu chapa, diz aí: vale a pena ser professor neste país?

É de se pensar um pouco antes de responder. Há colegas que respondem na bucha: não, não vale. Outros respondem que amam a profissão. E há os que dizem “ter lá suas vantagens”.

Como se vê, não há um consenso, embora cada um tenha seus motivos.

- Não enrola, Groo. Vou facilitar pra você: quais são os motivos que valem a pena para ser professor e quais os motivos que não valem a pena?

Ah, essa lei seca! Antes, com a cerveja correndo solta nas mesas, meu amigo falava sobre mulheres, futebol e rock n’roll, não necessariamente nesta ordem. Agora, com suco de uva e água de coco, é dado a filosofias e papos cabeça!

Bem, vamos lá. Por que não vale a pena ser professor? Poderia citar alguns motivos...péssimas condições de trabalho é apenas um destes motivos. Apesar de determinados "especialistas em educação" acharem que as escolas públicas brasileiras têm boa infra-estrutura, não é bem o que acontece. Não é raro que professores banquem do próprio bolso o material para o seu trabalho e ainda encontramos comunidades que dão aquela força em mutirões de limpeza e até reformas. Se depender dos governos, as escolas permanecem do jeito que estão.

O que mais? Baixo salário é um motivo clássico. Não são poucos os professores que possuem carga horária semanal de 60 horas ( isso: manhã, tarde e noite trabalhando. Às vezes as madrugadas, também). Ao contrário do que muitos “especialistas em educação” pensam, tal carga horária não é propriamente pelo prazer de ensinar: é o jeito que se tem para levar uma vida razoável e não deixar faltar nada em casa. Mas já reparou como há escassez de professores principalmente de matemática e química? E os cursos de licenciatura não têm lá grande procura...

Nossa, tem outros tantos motivos ruins...alguém falou em alunos. Há quem diga que os alunos são grandes "problemas", mas não é verdade. Conflitos em sala de aula sempre existiram, em maior ou menor escala e estes são resolvidos; infelizmente há pessoas problemáticas que agridem, humilham e desprezam os professores - e isso ocorre tanto na escola pública como na particular. Na escola particular, o cliente sempre tem razão; na rede pública "tudo pode". Agressões verbais a professores se constituem em problemas "comuns", infelizmente, nas escolas.





Problemão mesmo é o que temos nas secretarias de educação e governantes. A Educação não pode e nem deve ficar restrita a gabinetes e burocracias tolas e que não consideram as diversidades (e realidades) das escolas. O discurso de "educação é fundamental" precisa sair do verbal e do plano das ideias e chegar aos mais interessados: alunos, professores, gestores. E olha que eu ainda nem falei das doenças ocupacionais que...

- Groo, meu velho, você só fala em coisa ruim, cara! E como fala! Aposto que vai escrever aquele monte de palavra no blog pra ninguém ler! Blog com texto longo ninguém lê, rapaz!

- Mas...você perguntou sobre ser professor e se vale a pena, né?
- Pô, depois do que você descreveu, já sei a resposta: é um não bem grande.
- Eu ainda não terminei. Não falei dos bons motivos para ser professor.
- E tem? Não, né? Diante desse quadro de horror que você pintou...

Mas eu iria dar bons motivos para o sujeito ser professor. No entanto, prefiro citar apenas um motivo que eu acho emblemático. 

Leciono inglês em uma escola pública localizada na periferia de Salvador. À noite. O bairro é considerado “perigoso”, mas nunca me aconteceu nada além de um risco na porta do carro e um aluno bêbado que me chamou de “abestalhado”. Mas riscos em carros de professores são comuns. Carro de professor sem risco é porque é novo e está em férias escolares, assim costumam dizer.

Então, onde eu estava? Na escola, pra variar. Pois é. Leciono inglês para uma turma de EJA ( Educação de Jovens e Adultos). A maior parte dos alunos tem mais de 40 anos. Tem aluna com idade para ser minha avó, imaginem o esforço e a força de vontade destes alunos. 

São pessoas muito humildes e estavam todos receosos em aprender inglês. Os mais velhos eram categóricos: “Isso é coisa pra jovem que tem a cabeça boa ainda”, “não vou conseguir. Se nem português eu falo, que dirá ingreis ( É. é assim que a disciplina “Inglês” é conhecida...). As falas eram preocupantes, porém demonstravam insegurança e não falta de vontade - muitas vezes esta confusão é feita. 

Então meu primeiro trabalho foi mostrar a eles que a língua inglesa está presente em seu cotidiano. Shopping center, DVD, CD, Diet, Light...

“Professor, é verdade, tem muita coisa mesmo escrita em inglês e a gente compra ...”

...e após esta etapa, alguns greetings: “Good evening!”, “Good night”, música dos Beatles ( you say goodbye and I say hello), os alunos ávidos em aprender, mostrando muita curiosidade e vontade em estar na escola. Todas as aulas tinha alguma “novidade”. “Where are you from, teacher?” Sim, eles estavam aprendendo...devagar, com muita dificuldade, mas aprendendo.

Ora, foi numa dessas aulas, que dona M, 58 anos, levantou a voz na sala e disse:

- Professor, eu sempre tive vontade de aprender inglês porque eu gosto muito dessas músicas em inglês sabe? E eu digo que hoje, com muita dificuldade, estou realizando esse sonho. E eu agradeço primeiro a Deus e agora ao senhor por esta oportunidade.

Portanto, eis aí um único motivo que me faz dizer que ainda vale a pena ser professor...embora uma manifestação como esta seja cada vez mais rara. Mas é por ser rara, difícil de se ouvir é que torna especial. E certamente, meu caro, levarei essas palavras pelo resto da vida. Não enche barriga, não paga minhas contas e não compra minhas HQ’s do Tex Willer, mas faz um bem danado ao coração!

- Então, meu caro Groo, vamos nós brindar com mais suco de uva...que faz bem ao coração! Dizer “um feliz dia do professor” é forçar a barra?

De maneira nenhuma, meu velho...de maneira nenhuma. Saúde!

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails